Sobre livros de mulherzinha…

Estou enfrentando um novo desafio na minha carreira. Depois de escrever o Atlas…, minhas agentes acharam que eu poderia escrever algo mais leve e, inspiradas pelo tom de crônica das minhas postagens nas redes sociais, sugeriram uma chick-lit que tivesse a minha cara, com ironia, humor ácido e situações constrangedoras.

Eu aceitei, claro, assim como aceitei, anos atrás, o desafio lançado pelo Nelson de Oliveira de escrever um conto de Fantasia Urbana, o que acabou levando ao Atlas….  E assim como foi com meu livro de Fantasia envolvendo realidades paralelas e um deserto, estou me divertindo e me exasperando na escrita em igual medida. São preocupações por vezes diferentes – cronologia é um elemento muito importante no Atlas, nesse novo projeto acertar o tom dos diálogos para dar personalidades distintas aos personagens vai ser mais difícil – e a diversão vem de pontos diferentes, mas estou adorando a experiência – e pela resposta que tive das minhas agentes sobre as primeiras 30 páginas, elas também.

Aí, comentei no Facebook sobre essa experiência e não demorou vinte minutos para que eu fosse questionada. Segundo a pessoa – um desses perfis que saem adicionando todo mundo e que eu acabo aceitando pra não me estressar – eu, como pessoa “culta, politizada e inteligente”, não deveria incentivar esse tipo de “subliteratura”, “sem valor artístico, um mero produto comercial”. Respondi que ele era um idiota preconceituoso e que eu escrevo o que quero.

Quer dizer… fantasia-espada-e-feitiçaria, cheia de testosterona, homens musculosos que salvam donzelas virgens (que é um dos tipos de literatura que vi o tal questionador elogiar – e ei, curto também!) tudo bem. Mas que os deuses da literatura nos livrem de ler sobre mulheres e seus problemas e atividades cotidianos? Ou sobre suas fantasias e desejos? Ninguém me questionou quando eu, historiadora fascinada por fantasia épica e histórica, passei a flertar com a fantasia urbana… Por que esse tipo de pergunta só por eu estar experimentando um gênero marcadamente feminino?

Vamos confessar… Eu também já tive esse preconceito e tenho vergonha disso. Faz um tempo, a autora Courtney Milan falou, no seu perfil no twitter, sobre como foi a sua aceitação de que sim, ela gostava de livros de mulherzinha e não via problemas nisso. De como ela, que só lia Fantasia e FC a sério (como eu), começou a se interessar pelo romance dos personagens desses livros sérios (como eu), e depois já começou a procurar livros não tão “sérios” só por causa do romance (como eu), para finalmente admitir que muitas vezes estava lendo mais pelo romance do que pela trama (como eu!) e por fim passar a acompanhar os romances históricos e contemporâneos, além dos chick-lit. Como eu. (Ainda não curto muito os “hot”, romances sensuais ou eróticos que dão menos atenção a plot ou trama, mas isso é gosto meu, não diminui a qualidade desse gênero em nada)

Por que a gente reluta tanto em admitir que gosta? Primeiro, por sermos ensinadas desde bem cedo que ser mulher é errado, é menor, é pior (e isso hoje continua, de uma forma um pouco mais cruel, pois já vi ‘feministas’ dizer que meninas não devem brincar de casinha, pois isso as torna vítimas do machismo opressor. Eu acho que meninas e meninos brincam do que quiserem, thank you very much). Depois, também vem a noção de que mulheres são inimigas uma das outras, então para que ler sobre elas?

(E se você por acaso se interessa por Fantasia e/ou Ficção Científica, isso é ainda pior. O meio é absurdamente machista e cansei de ver leitores inteligentíssimos desprezarem livros por serem escritos por uma mulher ou por terem “romance demais”. Eu comecei literariamente nesse meio, o que explica um pouco a minha relutância em admitir que sim, gosto disso.)

Ou seja, romances e chick-lit foram categorizados como lixo, livros para gente burra e fútil, literatura de mulherzinha. E lógico, quem escreve e consome esse tipo de coisa seria igualmente burra e fútil.

Qualquer preconceito que eu ainda pudesse ter contra o gênero sumiu quando, por causa do meu trabalho na SdE e meu curso de pós, tive contato com a Elimar Souza, Verônica Lisboa e Natália Alexandre. Elas trabalham com esse tipo de literatura, divulgam, fazem eventos, comentam, resenham e me indicaram autoras novas e surpreendentes, como Lisa Kleypas, Tessa Dare (essa, sugestão da Taíssa Reis) e Mary Balogh – que são autoras de romance de época. E também com leitoras, nos eventos que acontecem periodicamente no Rio de Janeiro. Não, não são “burras”, não são “fúteis”, são mulheres inteligentes, ativas, cheias de compromissos e trabalho, que gostam de ler e de falar sobre o que leem, compram e agitam o mercado.

(E mereciam um pouco mais de respeito do mercado, aliás, já que muitas edições nacionais que li vieram cheias de erros de tradução e revisão, tsc tsc…)

Aos poucos tem se consolidado também uma produção nacional, seja para as mais jovens, seja para as mais adultas. Tenho visto surgir livros nacionais para o público feminino de todos os tipos, do romance histórico ao chick-lit, da fantasia ao erótico – e que também estão conquistando público e fãs. Autoras engajadas, preocupadas com o que estão passando para as suas leitoras, querendo emponderá-las e mostrar que elas são importantes.

Talvez seja isso que incomode tanto: ver que descobrimos a nossa voz, que podemos escolher como manifestá-la (e que iremos exercer esse direito de escolha) e que não iremos nos calar.

Pronto, desabafei, agora posso voltar para as desventuras de Bia e seu emprego burocrático. Atravessar um deserto com um homem-morcego seria melhor do que a papelada…

 

 

 

[O que eu recomendo] Nine Princes in Amber, de Roger Zelazny

Existem livros que alteram a sua concepção de vida, mudando a forma de ver o mundo. E aqueles que fazem você visualizar literatura como arte de uma forma irrefutável. O problema é que, por causa de certo preconceito, o senso comum geralmente procura essas obras nos grandes clássicos ou nas obras premiadas da literatura contemporânea.

Não que isso não aconteça – A cor purpura, de Alice Walker, e Raízes, de Alex Haley, foram livros que me deixaram em choque por semanas. Porém, com meu amor pelo fantástico, muitos dos livros que tiveram esse impacto em mim são de literatura fantástica. Dos vinte livros mais importantes da minha vida, com certeza mais da metade são de Fantasia ou de Ficção Científica.

E um deles, com certeza, é o primeiro volume da série ‘Chronicles of Amber’ de Roger Zelazny, Nine Princes in Amber.

Pouco conhecido por aqui, Zelazny é um dos grandes nomes da fantasia mundial, ganhador de vários prêmios e autor de algumas das maiores obras do gênero, como Lord of Light e a série de ‘Amber’, que tem dois ciclos de cinco livros cada.

E foi o primeiro livro de toda a série que está naquela lista de vinte livros mais importantes da minha vida. Um dos fatores foi o estilo. Nine Princes in Amber não deve nada, na força da sua escrita e da sua narrativa, aos grandes clássicos da literatura do século XX. O autor nos conduz por uma trama intricada construindo imagens e cenas fortes e dramáticas, daquelas que se prendem na sua memória por anos.

(Possíveis spoilers a frente, apesar de estar em todas sinopses do livro)

A história é de Corwin, um dos nove príncipes do título, possível herdeiro de seu pai, Oberon, no trono de Amber -o único reino verdadeiro, do qual todos os demais são sombras. Porém, sua história está incompleta, pois ele começa o livro acordando em um hospital de Nova Iorque sem memórias – e irá recuperá-las de forma fragmentada e não linear. O narrador acompanha essa sua confusão mental, só nos revelando o que Corwin vai descobrindo.

Zelazny usava influências de mitologias diversas em várias de suas obras, e em ‘Amber’ é possível ver traços celtas, arturianos e, com muita força, das obras de Shakespeare, principalmente de Hamlet – a vontade de poder de Corwin tem ecos fortíssimos do príncipe da Dinamarca – e de Sonhos de uma noite de verão.

A trama política entre os nove príncipes, a sensação de que tem algo em suspenso que ainda não se revelou, a forma de viagem entre essas realidades irreais e a de Amber (que é ‘caminhar entre as sombras’, sendo que as ‘sombras’ seriam justamente esses mundos que não são tão verdadeiros), e as dimensões absurdas desse multiverso infinito até hoje são grandes influências para mim e para o que eu escrevo. Não é a toa que no Atlas Ageográfico de Lugares Imaginados a trama gira em torno de memórias perdidas que são recuperadas ao se caminhar. E sim, há toda essa questão de muitas realidades e universos, que vivem sob uma ameaça ainda não vista totalmente.

E nessa influência, estou muito bem acompanhada. Neil Gaiman tem uma admiração fortíssima pela obra de Zelazny, principalmente dessa série, assim como G. R. R. Martin.

“Ana, você acha que essa obra sai no Brasil?”

Ah, como eu queria, né? Que saísse e fosse um sucesso estrondoso para que eu colocasse na capa do Atlas: “Uma trama emocionante, comparável à Nove Príncipes em Amber de Roger Zelazny.” (modesta a beça, eu sei.)

Mas acho difícil. É uma série antiga e as editoras estão apostando pouco em grandes clássicos da fantasia – principalmente depois do fechamento da Saída de Emergência Brasil. Porém, finalmente os livros de Zelazny estão saindo em formato eletrônico na Amazon e os 3 primeiros da série já estão disponíveis. Vou comprar os três, para poder reler os dois primeiros e finalmente conseguir ler o terceiro – para ficar ansiosa esperando os demais.

 

 

[O que ando escrevendo] O Atlas Ageográfico de Lugares Imaginados, em sua versão semifinal.

Finalmente.

Sim, finalmente posso dizer que o Atlas adquiriu sua forma final, pelo menos para mim, no que se refere à disposição de capítulos, cenas e presença de personagens. Foi uma jornada interessante, fascinante, em que muita coisa mudou, em que coisas foram incorporadas e cortadas, personagens surgiram e cresceram.

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Durante esses meses, várias vezes as pessoas tem demonstrado curiosidade sobre o livro. Sem dar spoilers, tem algumas perguntas que eu posso responder.

1.É um livro de Fantasia? De Ficção Científica?

É um livro que se enquadra dentro do gênero fantástico, com certeza. Mas ele tem elementos de Fantasia Épica, de Fantasia Urbana, de Retrofuturismo, de FC…

Então, é difícil eu, autora, dar uma resposta final a vocês. Porém, acredito que o mais próximo seja dizer que é de Fantasia.

2. Sobre o que é o Atlas?

É um livro sobre memórias, lembranças e perdas. Sobre cidades que desaparecem, sobre vingança e lugares que não deviam existir.

Também conta a história de três seres completamente diferentes que atravessam o deserto com um cavalo sem nome, sem saber direito o que vão encontrar no final.

Em resumo, é um livro sobre uma jornada que muda a vida dos envolvidos. E talvez de todo o universo conhecido.

3. Vai ter sequência?

Mais ou menos. A história do Atlas se encerra nela. Porém, certas coisas que vemos, certos personagens que conhecemos, vão aparecer, pois é um livro que tem a ver com um ciclo de criação e entropia.

4. Quem são os personagens principais?

Clio, a moça que acorda sem memória. Íbis, o homem-morcego que não pode revelar as suas lembranças. E o Rei-máquina, que talvez se lembre de mais do que deixa transparecer.

5. Quais foram as maiores influências desse livro?

As duas principais foram ‘O mágico de Oz’ do L. Baum e a série ‘As crônicas de Amber’, principalmente os dois primeiros livros (‘Os noves príncipes em Amber’ e ‘Armas de Avalon’). O primeiro por causa da jornada e das estranhas conexões, inclusive sendo subvertido e negado por várias vezes.

Já os livros do Zelazny foram uma surpresa que só fui perceber depois, com o livro já bem formado – também falam sobre memórias partidas e perdidas, lugares que somem e a grande tentativa do auto conhecimento. E fazem isso em uma fronteira tênue entre Fantasia e FC, embora ao primeiro impacto pareçam ser Fantasia.

Além disso, há forte influência de Guy Gavriel Kay, principalmente de ‘Tigana’, que também é um livro sobre memórias e lembranças. A fantasia urbana e estranha, que foge do romance sobrenatural, de Jeff Vandermeer, Jay Lake, China Mieville e Ekaterina Sedia moldaram alguns dos capítulos do Atlas, principalmente os que envolvem Biblos e Xanadu. Borges, por mais que eu não seja grande leitora, também influenciou muito em várias coisas, em relação à imaginação e em elementos de worldbuilding.

A mitologia – grega, chinesa, celta, romana, cristã – e o fabulário europeu, medieval e moderno, deram base para alguns plot points e para a formação de personagens. Clio tem nome de musa e segue um pouco o mito de Prometeus. O Rei-máquina segue uma antiga lenda chinesa, mas seu título veio de um estudo antropológico sobre Luís XIV, que usava o epiteto para si – aliás, isso influencia um pouco a personalidade dele, que não diz ‘O Estado sou eu’, porém tá quase lá.

E Íbis… ele é um pouco de todo o herói trágico, mistura Dedalus e Batman. E talvez seja o personagem mais ‘eu’ do livro.

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Íbis na visão do Estevão Ribeiro.

6. Por que escrever o Atlas?

Um dia, eu virei pro meu então estagiário e disse, inspirada pela música do America: “Vou escrever um livro sobre viajar no deserto em um cavalo sem nome.”

Disso, saiu o livro. Acho que o ponto do cavalo não ter nome e da música dizer que no deserto você perde suas lembranças porque não há ninguém para lhe causar dor provocaram a base do Atlas ser memórias e lembranças

7. Atlas… Vai ter mapas?

Nenhum. Não tem mapas, não tem coordenadas, não uso em momento algum as palavras ‘direita’ e ‘esquerda’. Ele ser ageográfico o define. Ele é um atlas de palavras, de memórias perdidas para serem encontradas e de lugares imaginados e de destino ignorado.

8. E agora?

Agora, vamos procurar editora. Não, não quero lançar pela Aquário, que é voltada para outro tipo de projeto. Torço para o livro sair ainda esse ano, mas vai saber.

9. Vai ter biscoito, como teve pro Anacrônicas?

Prometo: assim que a editora fechar capa, encomendo os biscoitos pro lançamento.

10. Quem te ajudou?

O trabalho de escritor é solitário, mas tende a angariar o apoio de muita gente.

Mas principalmente, no caso do Atlas:

Meu marido, Estevão, ajudou a delinear o primeiro storyline/argumento do livro, o que me deu um esqueleto pra rechear.

Eric Novello e Nelson de Oliveira me chamaram para escrever os contos que deram origem ao livro.

Jaques Barcia e Lucas Rocha aguentaram algumas explosões de ideias. Max Mallmann nunca me deixou desistir do livro, mesmo quando eu achei que ele era estranho demais.

As meninas da Increasy compraram essa ideia e me ajudaram a colocá-la na forma que está hoje, um livro que não está perfeito, mas que eu consigo ler e dizer ‘ei, valeu a pena todo esse esforço’.

E todo mundo que nesse ano e meio postou fotos e gifs de morcego e se interessou. Sei que tenho uma base de leitores pequena, mas que está se mostrando querida e fiel. Espero que a jornada de Clio, Íbis e do Rei-máquina (com o cavalo sem nome) valha a espera e a confiança de vocês.

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[O que está acontecendo] Encontro Irradiativo com workshop

Oi, migos!

Estamos aqui, trabalhando na revisão do Atlas e em quatrocentas outras coisas. Uma delas é o Encontro Irradiativo, que vai acontecer no próximo final de semana em São Paulo!

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Uma lindeza, né? E isso é apenas parte da programação. Teremos várias outras atrações, incluindo uma edição pocket do meu workshop, com a participação especial da Maria Claudia Muller, falando da experiência com o wattpad.

Vamos falar sobre registro, revisão/copi, formas de publicação, contratos e tirar dúvidas sobre publicação online. Vagas limitadas, então não perca tempo!

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Na noite das fogueiras…

É preciso deixar claro.

Não sou a neta das bruxas que eles não conseguiram queimar.

Eu sou as que queimaram. Todas as que morreram por um sistema de crenças machista e patriarcal, por um sistema de governo que reprime manifestações culturais e religiosas populares e que ameaçam seu status quo.

Sou todas elas e jamais iremos nos calar.

Magic Circle - J. W. Waterhouse

Magic Circle – J. W. Waterhouse

[O que estou fazendo] ‘O Atlas ageográfico de lugares imaginados’ finalmente tem uma primeira versão

Sim, isso mesmo.

Finalmente consegui terminar um romance – no momento, estamos no começo da primeira revisão e com 85 mil palavras. É uma sensação estranha. Eu achei que terminar um romance iria me tornar uma pessoa diferente, mas só me deixou com fome e com sono, ou seja, do jeito que sempre estou.

Muitas pessoas tem me feito algumas perguntas sobre o Atlas e reparei que, apesar de falar muito sobre ele nas redes sociais, raramente eu o defino ou o explico.

Então, vamos ao FAQ:

1 – O que é o ‘O Atlas ageográfico de lugares imaginados’?

É um romance de literatura especulativa. E também um livro ficcional que aparece nesse romance.

2 –  É fantasia?

Mais ou menos. O Atlas trata de assuntos  como memória, lembrança e autoconhecimento, em um cenário especulativo que tem muito de fantasia (deuses, magia, seres estranhos) como de FC (viagens interdimensionais, multiversos, realidades paralelas).

3 – De onde veio a ideia?

De várias coisas.

De dois contos que escrevi de Fantasia Urbana. Da vontade de fazer algo que se ligasse de forma indireta ao Ladrão-de-Sonhos. De explorar uma estrutura de romance diferente.

E de um desafio que eu me autolancei ao dizer ao estagiário que um dia escreveria um romance sobre aquela música do America, ‘Horse with no name’.

4 – Vai sair quando e por qual editora?

Não sei x2.

O livro ainda não está pronto. Ele foi escrito, mas falta muito prele chegar ao ponto de ser publicado. Só quando chegar nesse ponto é que vamos procurar uma casa. Ele não deve sair pela Aquário, pois na editora não estamos querendo publicar romances, mas de resto tudo pode acontecer.

5 – Afinal, sobre o que é?

A sinopse atual é essa:

Um deserto que existe, apesar de ser impossível, entre tempos e dimensões.

Um homem-morcego que carrega sozinho a dor de ter perdido seu mundo, e que não pode compartilhar essas lembranças.

Uma jovem cuja única pista para seu passado é um livro em branco.

Um rei exilado pelos demônios que comprou para se tornar mais poderoso.

Um cavalo sem nome.

Uma criatura que aparece e reaparece, sempre com um desafio.

Um universo multiplanar ameaçado.

Três dias de jornada em busca de respostas e lembranças, enfrentando obstáculos invocados por três entidades misteriosas.

Mas também posso dizer que é sobre uma moça sem memória, um homem-morcego, uma estátua dourada que se mexe, um cavalo e um deserto no qual eles foram parar sem saber bem porquê. E sobre cidades obliteradas, memórias trancadas, lembranças perdidas, amores desencontrados, viagens transdimensionais… e um Viajante que sabe mais do que os outros.

Ou seja: anos de trabalho, 85 mil palavras e eu não sei bem como responder sobre o que é esse livro.

Mas pelo menos ele existe:

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Inclusive em uma única e exclusiva cópia física – a única que jamais haverá dessa versão – já entregue às mãos do meu-melhor-amigo-e-grande-apoiador:

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(Sim, foi com um morceguinho desses incluso)

Das lutas de cada uma.

Hoje é aniversário da Ursula Le Guin. Uma das escritoras mais influentes da ficção fantástica mundial. Um exemplo para todas nós, pois escreve desde quando era estranho uma mulher escrever FC. Eu deveria falar sobre ela.

Mas hoje a comissão de ética da Câmara dos Deputados do Brasil aprovou uma lei que vai a votação para depois passar a reger as vidas das mulheres. Por essa lei, a mulher vítima de violência sexual não vai poder ser informada sobre seus direitos em relação a prevenção de uma gravidez indesejada. Uma câmara dos deputados que tem uma representação feminina mínima.

Mas ontem um programa mostrou crianças cozinhando e as redes sociais brasileiras foram inundadas com… seres vagamente similares a humanos que anunciavam aos quatro ventos seu desejo de natureza totalmente sexual por uma MENINA.DE.DOZE.ANOS.

Eu estou de estômago embrulhado. Realmente não consigo acreditar que vivo em um país… não, em um mundo que permita coisas assim. Mas vivo. É pior do que muitas distopias que li, é pior do que os futuros apocalípticos que escritores mais imaginativos que eu criaram.

É pior porque é absurdamente real. Não vai acabar quando fecharmos um livro ou desligarmos o ereader. Vamos acordar amanhã sabendo que se uma mulher pobre, que não teve acesso às informações que eu (classe-média-intelectual-do-sudeste) tive, for estuprada, ela correrá um grande risco de engravidar de seu agressor. E terá que carregar o fruto dessa violência por meses, pois ninguém a informará sobre seus direitos, sobre suas escolhas.

Tem mulheres, tem pessoas maravilhosas que lutam mesmo, vão às ruas, aos hospitais, à Câmara e tentam impedir esses absurdos. Que gritam. Todo meu amor, todo o meu carinho, todo o meu apoio a elas.

A minha luta é mais sutil. Mais lenta e talvez menos significante, mas é onde eu acho que consigo ajudar melhor. Não sou boa de retórica e se tem algo que meu envolvimento no movimento estudantil me ensinou é que minha militância nas ruas é péssima – sou lenta demais e alvo fácil.

Luto para que mulheres (e outras pessoas invisibilizadas seja por sua cor, por seu gênero, por sua sexualidade e por vários outros motivos) sejam ouvidas e vistas na literatura. Principalmente no que chamamos de literatura fantástica.

Como disse, é uma luta menor, eu sei. E se tiver algum resultado, vai ser a muito longo prazo. Mas foi assim que escolhi lutar, porque acho que é nos livros que temos um dos caminhos para mudarmos a sociedade em que vivemos, principalmente se falarmos de literatura fantástica, que atrai jovens e crianças. Reclamo e vou reclamar  sempre de livros sexistas e com poucos personagens femininos de relevância, pois acredito que a literatura tem o poder de influenciar positivamente quem lê. Vou continuar apontando sempre que eu notar o apagamento da diversidade quando se falar de literatura fantástica, seja em que meio for, em que mídia estiver, pois todos precisam e devem ser vistos.

Por causa disso, vai ter quem me chame de ‘chata’? De ‘arrogante’? De ‘egocêntrica’? De ‘militonta’? De ‘babaca’? De ‘feminista raivosa’? De ‘social justice warrior’? Sim, vai.
Não ligo.
Porque penso na possibilidade de ser por causa dessa minha luta que, um dia, uma menina pegue um livro para ler e veja na capa o nome de uma autora. Depois, ela vai abrir o livro e descobrirá que lá dentro tem uma personagem feminina que importa, que age, que é relevante. E ela vai se sentir menos sozinha. Vai ver que ela importa.

Ou talvez um menino pegue esse mesmo livro e ao conhecer essa personagem, reconheça as dificuldades da menina ao seu lado e a respeite mais, não tente apagá-la ou ignorá-la.

Porque pode ser que um post, um tweet, um comentário meu incentive uma autora a não desistir, um autor a criar uma personagem feminina relevante. Ou que faça um leitor abrir um livro que mude a sua visão do mundo.
Se isso acontecer ao menos uma vez, pode o mundo inteiro me chamar do que quiser. I don’t care.

Vai ter tudo valido a pena.

[O que estou lendo] Duas lendas se encontram na Terra das oportunidades – resenha de Golem e o gênio, Helene Wecker

Criaturas encantadas são tema importante na literatura fantástica desde sempre. Muitas vezes como antagonistas ou como catalistas de situações, mais raramente como protagonistas. E poucas, muito poucas obras dentro das muitas que li conseguiram captar a estranheza de ser inumano tão bem quanto The Golem and the Jinni de Helene Wecker. Publicado em 2013, foi indicado um dos indicados ao Nebula desse ano. Apesar de alguns o colocarem como ‘Young Adult’, é uma obra para todas as idades, para todas as pessoas.

A história se passa no começo do século XX, em uma Nova Iorque cheia de vozes e povos diferentes, começando a tentar se entender. Nessa cacofonia, surgem duas criaturas, Chava, uma golem construída para ser a noiva perfeita, e Ahmad, um gênio – sim, daqueles que moram em lâmpadas e que teoricamente realizariam desejos. Apesar de aparentemente os dois terem papeis bem claros no mundo, as circunstâncias de suas vidas acabam sendo muito diferentes do previsto e os fazem ter trajetórias paralelas em uma cidade que fala muitas línguas e reza para muitos deuses.

São duas criaturas completamente deslocadas, que não entendem o que acontece ao seu redor, que sentem que não pertencem a esse mundo – ou a qualquer outro. A construção deles, da identidade e da história deles, nos traz surpresas a cada passo, até o momento em que os dois inevitavelmente se esbarram e uma nova trama acaba surgindo. É um livro sobre memória, identidade, pertencimento e poder, sobre o que faz de nós aquilo que somos e o que precisamos deixar de lado para nos construir.

Todos os personagens são construídos com cuidado – até demais, em um excesso de minúcias que torna a primeira parte do livro um pouco arrastada. Aliás, se The Golem and the Jinni tem alguma falha mais grave é na irregularidade do seu ritmo. Se a história de Chava e Ahmad é narrada detalhadamente no começo, entre idas e vindas, flashbacks e memórias não lembradas, muito mais a descrição de um cotidiano do que o desenrolar de uma trama, o terço final é apressado, como se a história subitamente precisasse ser terminada.

Porém, a forma como ela consegue entrelaçar as tramas e os personagens, transformando a Nova Iorque real em algo ainda mais extraordinário, ajuda a compensar essa diferença no ritmo. Outro ponto alto também é a sutileza com que Wecker contrasta duas culturas, afinal golens são crias de rabinos e portanto tem origens judaicas, enquanto gênios vivem nas lendas e mitos das areias da Arábia mesmo antes do Islão. Os personagens, principais e secundários, estão imersos nessas sociedades enquanto confrontam-se com a nova realidade de imigrantes nos EUA, de forma sensível, sincera e verossímil. Em um momento como o atual, torna-se uma leitura ainda mais essencial.

As motivações dos antagonistas às vezes quebra um pouco a sensação de realidade que os personagens tem, mas isso não estraga a leitura recomendadíssima dessa história que se sustenta sozinha no meio do mar de sagas gigantescas – mesmo que a autora tenha confirmado recentemente que haverá mais uma história nesse mesmo universo.

The golem and the Jinni

Helene Wecker

Harper

2013

512 páginas

(Edição brasileira: Golem e o gênio, Darkside, 2015)

Voltando e despachando livros!

Oi, gente.

Prometo que vou tentar, semana que vem, postar sobre a experiência dos lançamentos e dos shows do Fernando Ribeiro e dos Moonspell no Brasil. Tá difícil processar as emoções todas que vivi nessa semana. Melhores férias da minha vida. Mesmo tendo trabalhado pra caralho.

Mas chegando em casa, fomos fazer um pequeno levantamento de estoque e descobrimos que meus coelhos estão sumindo!

Sim, isso mesmo.

Recebemos um pedido grande de ‘Anacrônicas – contos mágicos e trágicos’ na volta da turnê de lançamento de Purgatorial e descobrimos algo que me fez ficar (ainda) mais feliz.  A tiragem inicial foi de 1.000 exemplares. Nesse levantamento que fizemos aqui vimos que, entre vendidos e distribuídos, já se foram mais de 650!

Então, tudo dando muito certo – estou otimista e quero comprar uma passagem pra Europa ano que vem, lembrem disso – até o fim do ano essa tiragem esgota.

Quem quiser autografado, na minha mão, por R$26,50 (frete incluso) e biscoito, só falar no inbox.

Não me responsabilizo pelo estado do biscoito ao chegar na sua residência… ou dos coelhos, por falar nisso.

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[O que estou fazendo] Purgatorial, de Fernando Ribeiro

Eu traduzi Isaac Asimov.

Eu traduzi parte de ‘Tigana’, um dos grandes clássicos contemporâneos da Fantasia. E traduzi a trilogia original de Shannara, que deu o pontapé inicial na onda de fantasia nos moldes tolkenianos em que vivemos até hoje.

Trabalhei editorialmente em ‘Outlander’, um dos maiores best sellers do seu gênero. Também mexi em uma coletânea dos grandes George R. R. Martin e Gardner Dozois.

E antes já tinha editado uma coletânea de Nelson de Oliveira.

Mas nunca na vida tinha editado um livro de poesia. Traduzido poesia. Trabalhado com poesia.

Minha relação com rimas e métricas sempre foi de leitora – tirando, claro, aquela fase que todo adolescente com a sensibilidade mais aflorada passa, de tentar expressar-se assim, colocando sentimentos confusos em estrofes e versos. Para o bem da humanidade em geral e da literatura em particular, foi fase, passou e não deixou maiores danos. Só alguns documentos no Word que eu tenho dó de apagar.

Só li.

Os clássicos brasileiros, portugueses (yep, li Pessoa e Camões. Mas li Espanca, Sá-Carneiro, Bocage e por aí vai), os ingleses, os franceses e até os alemães (Ich sprache um pouco de Deutsch, dá pra arranhar um Goethe da vida numa tradução bilíngue).

Aí, numa nessas guinadas que a vida dá, virei editora da Aquário, a iniciativa mais legal do atual cenário editorial brasileiro. E eis que surgiu a oportunidade de trabalhar em um livro de poesia. Portuguesa. Contemporânea.

Do vocalista de uma das minhas bandas preferidas.

É. Eu travei um pouco na hora de cair a ficha. Eu acompanho o trabalho da banda desde 2001, mais ou menos. E sou completamente apaixonada pelas letras do Fernando Ribeiro. É uma questão de identificação e de inspiração – as músicas do Moonspell inspiraram alguns dos contos que mais me são caros, como “Queda e Paz” e “Como nos tornamos fogo“.

Foi difícil conseguir segurar a emoção da fã na hora de ser profissional, mas acho que consegui. Até porque o material que eu recebi é simplesmente maravilhoso.

A edição portuguesa é o conjunto de três livros anteriores do Fernando (Como escavar um abismoAs feridas essenciaisDialogo de vultos) com poesias inéditas. Quando negociamos uma edição nacional, logo surgiu a ideia: e se colocássemos material diversificado junto?

Ele adorou a ideia. E assim, a edição brasileira da Aquário tem mais conteúdo que a original, incluindo pequenos poemas sobre as cidades pelas quais ele passou na última turnê, contos, um ensaio sobre Crowley e pessoa, um extrato de um romance ainda inédito – e o que vai fazer os fãs do Moonspell surtarem: um diário da passagem da turnê Road to Extinction, em que o Fernando destila toda a sua sinceridade, com a qual tomamos contatos em seus posts no blog.

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O livro recebeu um trabalho gráfico lindo do Estevão Ribeiro (Editor da Aquário e meu marido, pra quem não sabe), que usou como base a capa original portuguesa da Saída de Emergência. Ele realmente caprichou nessa edição, cheia de detalhes que combinam com a essência de um livro tão diverso.

E agora, falo como leitora. Eu sou fã, mas sou crítica. Vocês sabem disso.

Se o livro não tivesse me tocado imensamente, eu não estaria aqui falando dele. Faria meu trabalho e só. Mas as poesias do Fernando Ribeiro tiveram em mim o mesmo impacto que as letras das músicas do Moonspell. Eu li o arquivo com elas de uma vez só, sem pensar em editar, revisar. O primeiro contato foi o de leitora – eu queria ter tido um olhar mais distante, mas foi impossível. Fui simplesmente arrastada.

Não entendo poesia. Sei do que eu gosto. Gosto de Pessoa, Augusto dos Anjos, Tennyson, Keats, algum Baudelaire e nem todo o Bilac.

E do Fernando Ribeiro – que tem óbvias influências de Pessoas, mas que me fez lembrar muito de Augusto dos Anjos, da sua ânsia de minúcias biológicas e escatológicas. Não sei explicar se existe diferença entre ser um compositor e ser um poeta, já que não sou nenhum dos dois. Mas há compositores que nunca me tocaram enquanto poetas. Aqui, o caso foi completamente diferente. Mesmo quando voltei ao livro para editá-lo e revisá-lo (mantendo, na parte em verso,  a grafia portuguesa sem o Acordo, como as poesias foram originalmente apresentadas), por vezes parei e selecionei trechos:

Assiste ao corpo o direito de renunciar ao mundo.
Assiste aos olhos o direito de reclamar legítima
defesa contra as cores.

Mas o estúpido sorriso
E o estúpido caminho
Não me ajudam a
Deixar de estar sozinho.
Uso a táctica do pedestal
Pela última vez
E já ninguém cá chega
Mas também ninguém fica.
(A táctica do pedestal)

Apetece-me o labirinto,
A morte,
A descida.
(Poema d’ amoníaco)

Rastos e restos,
Rasos e fundos.
Armadilhados de sede
no peito desfeito.
Em defesa, acrobacia do nada.
Guerra aberta, dimensionada no tudo.
(Rastos e restos)

Nada espero.
Tudo quero.
Se me dessem o mundo
enfiava-o na mala.
(Mala)

Colher-te das árvores
beber-te das poças
da pele de quem passava
distraído
pela ausência
de quem fomos.
(Bomba de pregos)

Isso é uma amostra. Meu arquivo com quotes desse livro tem quase 25 páginas no Word, só da parte de poesia.

O extrato de romance, ‘O Bairro das Pessoas’, tem uma prosa frenética, desenfreada, enquanto os contos são mais lovecraftianos e lentos em sua composição, com um cuidado especial na construção da atmosfera. Há dois textos de não-ficção: um relato sobre a morte do vocalista do Batóry e um pequeno ensaio sobre Pessoa e Crowley. Os dois, além de informativos, são uma pequena janela para o mosaico de influências que formam a poesia e as composições do autor.

A edição finaliza com um verdadeiro presente aos  fãs do Moonspell: o diário de turnê tem uma sinceridade rasgada, contando as dores de uma turnê, as dificuldades de se manter fiel ao sonho mesmo quando o mainstream musical já não encara o rock pesado (ou melhor dizendo, o rock em geral) tão bem. Sim, o Moonspell é conhecido no meio, tem fãs, mas isso não significa que tudo sejam flores, que os lugares sejam ótimos, que a divulgação ajude – ou que a vida pare de acontecer. E Fernando não esconde nada: o contato nem sempre fácil com os fãs, as más notícias que quebram a rotina, a hipocrisia musical portuguesa… está tudo ali, de forma nua e crua, despudorada, raivosa, amarga, mas gentil e doce por vezes.

Este post é para falar desse livro, do qual tenho um orgulho gigantesco. Mas também para convidar vocês para o lançamento. Com autógrafos. Sim, o Fernando Ribeiro está no Brasil, vai tocar no Rock in Rio e vai fazer uma pequena turnê com a banda. Aproveitando, também irá fazer lançamentos do livro. Serão dois no Rio, um em Curitiba e outro em São Paulo – em São Leopoldo (RS), o lançamento vai ser no show.

Eu estarei em todos (menos no de São Leopoldo) e mal posso esperar para compartilhar esse trabalho com vocês!

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