[Vida de Escritora] 9 Verdades e 1 Mentira sobre o que eu escrevo

Lá no facebook está rolando  uma corrente de verdades/mentiras. Achei bacana e resolvi fazer uma versão sobre o meu processo de escrita.

Será que vocês adivinham?

1- Apesar de hoje me considerar uma autora de Fantasia que por vez escorrega pra outros gêneros, comecei achando que ia escrever muita FC. De vez em quando, me vejo escrevendo FC e fico mega surpresa.

2- Não consigo escrever História Alternativa. Não dá. Adoro o gênero, acompanho tudo que o Gerson Lodi-Ribeiro escreve sobre, mas eu tenho uma trava bizarra. Já Fantasia Histórica flui super bem.

3- Odeio escrever ouvindo música. Atrapalha demais e acaba interferindo no ritmo do texto. Prefiro ligar a tv e deixar como ruído branco.

4- Um dos melhores conselhos que ouvi foi (claro) do Max Mallmann, que disse que todo bom escritor de prosa devia ler muita boa poesia pra treinar o ouvido e aprender coisas como ritmo e fluência. Procuro seguir sempre.

5- Consigo escrever 6.000 palavras num dia. Mas é raro eu ter a) tempo, b) disposição e c) ânimo para isso. OU seja, se eu me dedicasse a escrever e tivesse uma cabecinha funcional de verdade, eu provavelmente seria um Brandon Sanderson da vida – em termos de produtividade literária.

6- Me apego absurdamente a personagens e fico reciclando os bichinhos disfarçadamente em histórias diferentes. Davis, um personagem de pbem/fanfic, já apareceu em várias histórias minhas com nomes e aparências diferentes.

7- Antropomorfismo? Guilty. Adoro humanizar bichos, bestas e criaturas nas minhas histórias. Boa parte do ‘Atlas ageográfico’ tem ligação com isso, principalmente as partes sobre o Íbis.

8- Minha melhor escola como escritora foi participar de oficinas coletivas online e ler com olhos críticos o trabalho dos outros. Fazer preparação, leitura crítica, revisão, análise e tradução profissionalmente tbm me fizeram pensar muito no que e como escrevo, além de todo o meu processo.

9- Tenho uma pasta no PC cheia de docs de 1 a 3 páginas só com ideias e fragmentos que um dia podem ou não virar histórias. Vão de frases soltas a cenas isoladas, além de descrições de cenários.

10- Eu tenho um Tolkien interno que controlo com muito custo. Se deixar, saio descrevendo ambiente, background histórico, passado dos personagens e esqueço da história que quero contar (consegui reverter isso no Atlas, até por ser uma história que brinca com a questão do passado e do cenário)

Essencialmente…

… este é um blog.

Mas ele andou perdendo a sua essência. Um reflexo, talvez, do processo de alheiamento de si mesma pelo qual passou a sua proprietária e autora.

Foi um movimento que aconteceu em processo, continuo e lento, e que se agravou com o desastre (com alguns pontos positivos) que foi 2016 para mim.

Por agora, estou tentando reverter esse processo e voltar a me conhecer. Saber quem eu sou e porque sou, para daí tentar rever caminhos e decisões.

Perguntaram para mim qual era a minha essência, onde ela estava, onde a deixei.

… … … …

Fiquei um dia pensando nisso. Sem pensar em mais nada em profundidade, entre matar zumbis no videogame, comprar o material de escola do mais velho, e acompanhar o cotidiano de duas meninas de 6 meses, procurei encontrar essa resposta.

Não que ela fosse urgente. Ou indispensável. Mas eu sou o tipo de pessoa que detesta não saber a resposta para uma pergunta que me foi feita.

E ainda não sei muito bem a resposta, mas acho-suspeito-desconfio de algo. É questão de pensar mais um pouco.

 

Presentes e começos

(Um conto de  Ano Novo passado em um dos cenários do “Atlas Ageográfico”)lori.jpg

O sol estava quase se pondo e as comemorações do Último Dia do Ciclo iriam começar em breve. Lori corria o mais rápido que as patas curtas permitiam, ansioso. Tinha juntado conchas por semanas, buscando as mais bonitas e especiais no fundo do rio, e finalmente iria conseguir comprar o presente ideal para Karia.

Se chegasse a tempo no artesão.

O problema todo era esse. O rio onde ele trabalhava ficava do outro lado da cidade. Tinha pedido ao seu supervisor para que o liberasse mais cedo, só que o manati mal o olhou antes de responder negativamente. O lado bom é que na última hora de trabalho tinha encontrado a concha mais bonita, de um tom rosado maravilhoso, que certamente iria agradar o artesão a quem encomendara o colar.

E por isso, o pequeno lontra corria desesperado pelas vielas estreitas do bairro dos roedores de Shangri-lá. Ia conseguir. Dava tempo. Waiko, o artesão do povo-macaco, iria esperar até o sol sumir completamente.

Virou uma esquina sem prestar muita atenção e quase morreu de sustos. Uma guarda e um soldado do povo-morcego estavam no meio da rua, encarando-se. Bem por onde ele deveria passar para chegar ao mercado. Não havia ninguém por perto, pois os pequenos da Cidade das Feras sabiam muito bem que não deviam se meter na briga das criaturas maiores. Lori se encolheu e olhou ao seu redor, procurando onde se esconder, uma porta, uma janela, um buraco que ele pudesse alcançar sem chamar a atenção dos dois.

O sol ficava cada vez mais avermelhado e ele podia sentir os olhos queimando de tristeza. Respirou fundo. Iria conseguir. Aquele era o dia ideal para entregar um presente para a sua parceira, que iria lhe dar um herdeiro em breve. Ele ia chegar a tempo. Os morcegos iam sair dali, ele só precisava ter paciência. E esperar.

Tão concentrado estava que se sobressaltou quando ouviu a voz do morcego mais alto.

– Então, você está de serviço de guarda esta noite, Maya.

– Sim – a jovem respondeu ao pai com raiva. Lori sabia quem eles eram, pois eram poucos os do povo-morcego em Shangri-la e só uma chamava-se Maya: a filha de Íbis, o capitão da Guarda Externa. Lori começou a achar que talvez não conseguisse chegar no mercado.

– Ouvi dizer que você não está mais morando na Casa da Guarda… – Lori sempre ouviu os outros habitantes falarem de Íbis em sussurros, com medo e admiração. Ele nunca tinha entendido o porquê. Naquele momento, entendeu o motivo de o temerem, pois quis se encolher e chorar ao ouvir o tom de voz do homem-morcego.

– Não, não estou…

Ela foi interrompida pelo pai.

– Você está morando com o tal minotauro, Maya? É isso mesmo? – Lori viu que até Maya estremeceu com o tom de voz, mesmo mantendo a cabeça erguida e firme.

– Não, pai. Estou morando com Jaciara… que mora perto dele.

Íbis jogou as asas para trás, o deslocamento de ar quase derrubando Lori.

– Jaciara? A onça capitã da Patrulha? Ela era amiga de sua mãe! Como ela pode…

– Por isso mesmo, pai! – Íbis tinha mantido o tom de voz, mas Maya perdera a paciência e passara a gritar. – Ela era amiga da minha mãe! Agora é minha amiga! Ela se importa comigo e não com que os outros vão pensar, com os costumes ou as tradições! Agora, me deixe! O sol está se pondo e eu preciso ir.

Sem olhar de novo para o soldado, a guarda bateu as longas asas negras e saiu voando. Lori tremia, encolhido em um canto.

– Eu… só queria desejar um bom Novo Ciclo e perguntar se podíamos ver os fogos juntos nas muralhas – o homem-morcego falou, os olhos fixos na figura que se afastava. Suspirou. – Você pode sair daí, lontra.

Demorou alguns segundos para que Lori entendesse que Íbis estava falando com ele. Saiu devagar do cantinho onde tinha ficado.

– Senhorcapitãosenhor, desculpemaseuestavaindoparaomercado, minhacompanheiraestáesperandonossoprimeirofilhote… oartesãoseparouumcolarparamimespecial, sabe, eeujunteiasconchasmaisbonitasparatrocar, masomercadovaifecharnopordosoleagoranãodámaistempo…

Quando ele parou para respirar, o homem-morcego o encarou por alguns segundos, piscando os olhos miúdos e escuros, antes de, com um movimento rápido da pata esquerda, o agarrar e sair voando.

Lori deu um grito agudo e fechou os olhos, apavorado ao ver o chão se afastando.

– Senhorcapitãosenhordesculpe, eunãoqueria, nãocontoparaninguém… senhorporfavor, minhaparceira…

– Por favor, criatura, pare de guinchar e abra os olhos. Estamos no mercado. Creio que esteja procurando por Waiko, não?

Para a imensa surpresa de Lori, estavam na frente da tenda do artesão, que os olhava intrigados, a cabeça inclinada.

– Capitão Íbis… e Lori. Bom fim de tarde, eu já estava fechando para as celebrações.

– Imaginei. Mas o que o pequeno tem a resolver será rápido. O presente dele está separado, creio?

Sem entender nada, Waiko assentiu e pegou um pequeno embrulho.

– Eu iria levá-lo a sua toca, Lori, se você não chegasse a tempo. Mas iria estragar a surpresa… – e sorriu quando o lontra, quase sem acreditar, pegou o embrulho com a boca. Ficando em pé nas patas traseiras, Lori buscou a pequena bolsa com as conchas.

– O que você está fazendo? – Íbis perguntou.

Tentou responder, sem conseguir por causa do embrulho. Ficou nervoso e a bolsa não abria. O homem-morcego fez um sinal para Waiko, que gentilmente colocou sua pata imensa em cima das patas miudinhas do lontra.

– O capitão vai pagar para você, Lori…

– Mas… Mas… – Com o susto, Lori deixou o embrulho cair. Estava com a bolsa nas mãos e ficou olhando do macaco para o morcego, que sorriu, mostrando os dentes afiados. Mais cedo, Lori teria ficado apavorado. Naquele momento, sorriu de volta.

– Eu tinha dado um adiantamento para Waiko para vir pegar um presente hoje… mas não vou precisar. Guarde as conchas para depois, quem sabe para trocar por um presente para sua herdeira. Agora – pegou o embrulho e o entregou ao pequeno atônito. – Vá.

Lori obedeceu, coraçãozinho aos pulos, mas não tinha se afastado cinco metros quando voltou, abriu a bolsa e tirou a última concha, a mais bonita, e a colocou na mão de Íbis.

– Senhorcapitãosenhor… obrigado. Fique com a concha mais bonita. Quem sabe… a sua herdeira goste.

Antes que Íbis ou Waiko respondessem, saiu correndo, ansioso para estar na segurança da sua toca. Naquele momento, o sol passou por trás dos penhascos que cercavam a cidade, dando início às celebrações.

 

*

 

Mais tarde naquela noite, Lori prendeu a delicada gargantilha de nácar e madrepérola no pescoço de Karia, que estava deitada confortavelmente em um monte de palha limpa e macia. Faltava pouco para o nascimento.

– É realmente lindo, Lori. Obrigada. Se for uma fêmea, irei guardá-lo para que ela o use…

– Ah, vai ser sim, com certeza – o lontra esfregou seu focinho no dela, feliz com seu manto quentinho, para ser usado no seu trajeto até o rio e de volta para casa. – O capitão Íbis me disse.

Karia riu.

– Um homem-morcego falou com você e adivinhou que nosso filhote será fêmea? Não sei o que é mais absurdo…

Lori afastou-se até o buraco de entrada. Logo o céu iria se iluminar com os clarões silenciosos oferecidos pelos feiticeiros do palácio real de Shangri-lá. Olhou para o canto da muralha que era visível de seu quarteirão e viu a silhueta de uma jovem do povo-morcego contra a luz do luar. Parecia com Maya, mas na escuridão e a distância podia não ser.

Porém, quando viu uma sombra maior chegar e aterrissar ao lado dela, estendendo a mão, teve certeza de que era ela mesmo. E para não se intrometer duas vezes no mesmo dia na vida deles, entrou para ficar com Karia e a respondeu.

– Vamos ver daqui a uns dias se vai ser mesmo absurdo…

E no fundo do seu pequeno e assustadiço coração de lontra, desejou que o Novo Ciclo que iria começar reaproximasse o Capitão e a sua filha.

 

Vídeo – A reação

O dobro de amor

Oi, pessoal!

Demoramos a começar por aqui, mas o motivo é legítimo.

Nossas meninas se adiantaram muito e já nasceram – com 33 semanas de gestação. A vida ficou confusa, mas não desistimos de compartilhar nossas aventuras com vocês.

Fiquem então com nosso primeiro vídeo, gravado quando elas ainda estavam na minha barriga.

(Se quiserem dar um presente para as nossas meninas, a lista ainda está no ar!)

[Ana]

Ver o post original

“O ensurdecedor silêncio dos deuses” no Prêmio HQMix

Começou a época da votação no HQMix, que este ano vai ser em duas fases.

Na primeira fase, os votantes deverão escolher três nomes por categoria – dentro os listados entre os lançamentos do ano passado – para então formar a shortlist.

Sendo assim, estou nesse grande listão por causa do meu humilde ‘O ensurdecedor silêncio dos deuses’ – que concorre na categoria de Publicação de Aventura, Terror e Fantasia – como roteirista. E a Júlia Nunes, a desenhista super competente que fez um milagre em pouco tempo para terminar a HQ a tempo da CCXP de 2015, está concorrendo como Novo Talento – Desenhista.

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O tempo de votação é curto, a circulação do material foi pouca – só a vendemos em eventos – então para que os amigos votantes possam pelo menos conhecer essa história que se passa no mesmo universo ficcional do ‘Atlas Ageográfico de Lugares Imaginados’, colocamos a edição completa online e gratuita aqui. Confiram e aproveitem!

 

(E claro, lembrando que quem quiser pode comprar a edição física por R$10,00 diretamente comigo!)

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O desprezo pelo leitor

 

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Ontem, circulou nas redes sociais um link sobre uma mesa da FLIP onde um escritor e professor da UFRJ dizia não se importar com o leitor. Nas suas palavras, “o leitor que se foda” – o que interessa na sua literatura para ele é a sua satisfação como artista.

A posição dele, claro, é muito cômoda para dizer isso. Professor universitário, premiado, presença constante em eventos e festas importantes (e que pagam cachês). Eu poderia também contrargumentar os conceitos dele de alta literatura – sim, ele usa esse conceito – e de como sempre pensamos em um leitor.

Mas tudo bem. Nossos caminhos literários e editoriais são completamente separados, embora eu tenha lido alguns dos seus trabalhos (ou seja, em relação ao autor sou no máximo leitora e tenho mais é que me fuder mesmo). Ele irá continuar se importando com o prazer estético da criação artística. Eu vou continuar escrevendo pensando em como provocar meu leitor com a história que estou contando. O caso é que, enquanto eu respeito a posição dele, me parece que ele não respeita a minha.

Enfim.

O que me preocupa e provocou esse texto é a quantidade de escritores de literatura de entretenimento (seja Fantasia, Ficção Científica, Romance, Erótico, Mistério, Suspense, Terror, ‘Chick Lit’, etc) que tentam medir, controlar e criticar o comportamento do leitor.

Eu acho que falta às vezes consciência do papel de cada um de nós nessa indústria vital. O leitor lê – consome o produto que escritores e editores colocam em livrarias. (Sim, incluindo o livro de quem quer que o leitor se foda. É produto, tem código de barras e vende a prazo no cartão de crédito. Deal with it)

Ele não é obrigado a ler o seu livro.

Ele não é obrigado a resenhar no Skoob/Goodreads e dar estrelinhas.

Também não é obrigado a gostar de literatura nacional. Ou de livro erótico. Ou  de Fantasia.

Leitor só é obrigado a ler quando está na escola/faculdade e a leitura vale nota.

“Mas o leitor tem que respeitar o trabalho do escritor.”

O que é respeito ao seu trabalho?

Comprar seu livro quando quer ler e ele não está disponível de graça legalmente. Acho que não há muito mais que isso. Ele pode queimar seu livro, rasgá-lo, usá-lo como papel higiênico… É dele. Pode xingar seu livro na internet – sim, pode dizer que ele é uma merda. É direito dele.

(Claro, há o limite do bom senso e da educação, mas esse é um outro ponto).

Amigos, em resumo: não encha o saco do leitor.

Não cobre que ele leia mais. Incentive-o a ler mais.

Não exija que ele dê estrelinhas no Skoob ou no GoodReads ou no mural da escola. Escreva bem o bastante para que ele sinta vontade de fazer isso por si mesmo.

Não reclame se ele não lê o gênero A, B ou C – mesmo que seja isso que você escreva. Uma das maravilhas da sociedade editorial moderna é que você sempre vai conseguir encontrar seu nicho, por menor que seja. Deixa o leitor X ler o que ele quer. O leitor Y vai ler o seu trabalho. E se ele for muito bom, ele pode até convencer o leitor X a ler também, quem sabe?

Não peça resenhas. Não implique com as resenhas negativas.

O leitor não é burro. Não é inculto, preguiçoso, irresponsável ou desrespeitoso.

Ele é um leitor.

Pode não ser o seu leitor.

Mas ele merece respeito e ler em paz.

Sobre livros de mulherzinha…

Estou enfrentando um novo desafio na minha carreira. Depois de escrever o Atlas…, minhas agentes acharam que eu poderia escrever algo mais leve e, inspiradas pelo tom de crônica das minhas postagens nas redes sociais, sugeriram uma chick-lit que tivesse a minha cara, com ironia, humor ácido e situações constrangedoras.

Eu aceitei, claro, assim como aceitei, anos atrás, o desafio lançado pelo Nelson de Oliveira de escrever um conto de Fantasia Urbana, o que acabou levando ao Atlas….  E assim como foi com meu livro de Fantasia envolvendo realidades paralelas e um deserto, estou me divertindo e me exasperando na escrita em igual medida. São preocupações por vezes diferentes – cronologia é um elemento muito importante no Atlas, nesse novo projeto acertar o tom dos diálogos para dar personalidades distintas aos personagens vai ser mais difícil – e a diversão vem de pontos diferentes, mas estou adorando a experiência – e pela resposta que tive das minhas agentes sobre as primeiras 30 páginas, elas também.

Aí, comentei no Facebook sobre essa experiência e não demorou vinte minutos para que eu fosse questionada. Segundo a pessoa – um desses perfis que saem adicionando todo mundo e que eu acabo aceitando pra não me estressar – eu, como pessoa “culta, politizada e inteligente”, não deveria incentivar esse tipo de “subliteratura”, “sem valor artístico, um mero produto comercial”. Respondi que ele era um idiota preconceituoso e que eu escrevo o que quero.

Quer dizer… fantasia-espada-e-feitiçaria, cheia de testosterona, homens musculosos que salvam donzelas virgens (que é um dos tipos de literatura que vi o tal questionador elogiar – e ei, curto também!) tudo bem. Mas que os deuses da literatura nos livrem de ler sobre mulheres e seus problemas e atividades cotidianos? Ou sobre suas fantasias e desejos? Ninguém me questionou quando eu, historiadora fascinada por fantasia épica e histórica, passei a flertar com a fantasia urbana… Por que esse tipo de pergunta só por eu estar experimentando um gênero marcadamente feminino?

Vamos confessar… Eu também já tive esse preconceito e tenho vergonha disso. Faz um tempo, a autora Courtney Milan falou, no seu perfil no twitter, sobre como foi a sua aceitação de que sim, ela gostava de livros de mulherzinha e não via problemas nisso. De como ela, que só lia Fantasia e FC a sério (como eu), começou a se interessar pelo romance dos personagens desses livros sérios (como eu), e depois já começou a procurar livros não tão “sérios” só por causa do romance (como eu), para finalmente admitir que muitas vezes estava lendo mais pelo romance do que pela trama (como eu!) e por fim passar a acompanhar os romances históricos e contemporâneos, além dos chick-lit. Como eu. (Ainda não curto muito os “hot”, romances sensuais ou eróticos que dão menos atenção a plot ou trama, mas isso é gosto meu, não diminui a qualidade desse gênero em nada)

Por que a gente reluta tanto em admitir que gosta? Primeiro, por sermos ensinadas desde bem cedo que ser mulher é errado, é menor, é pior (e isso hoje continua, de uma forma um pouco mais cruel, pois já vi ‘feministas’ dizer que meninas não devem brincar de casinha, pois isso as torna vítimas do machismo opressor. Eu acho que meninas e meninos brincam do que quiserem, thank you very much). Depois, também vem a noção de que mulheres são inimigas uma das outras, então para que ler sobre elas?

(E se você por acaso se interessa por Fantasia e/ou Ficção Científica, isso é ainda pior. O meio é absurdamente machista e cansei de ver leitores inteligentíssimos desprezarem livros por serem escritos por uma mulher ou por terem “romance demais”. Eu comecei literariamente nesse meio, o que explica um pouco a minha relutância em admitir que sim, gosto disso.)

Ou seja, romances e chick-lit foram categorizados como lixo, livros para gente burra e fútil, literatura de mulherzinha. E lógico, quem escreve e consome esse tipo de coisa seria igualmente burra e fútil.

Qualquer preconceito que eu ainda pudesse ter contra o gênero sumiu quando, por causa do meu trabalho na SdE e meu curso de pós, tive contato com a Elimar Souza, Verônica Lisboa e Natália Alexandre. Elas trabalham com esse tipo de literatura, divulgam, fazem eventos, comentam, resenham e me indicaram autoras novas e surpreendentes, como Lisa Kleypas, Tessa Dare (essa, sugestão da Taíssa Reis) e Mary Balogh – que são autoras de romance de época. E também com leitoras, nos eventos que acontecem periodicamente no Rio de Janeiro. Não, não são “burras”, não são “fúteis”, são mulheres inteligentes, ativas, cheias de compromissos e trabalho, que gostam de ler e de falar sobre o que leem, compram e agitam o mercado.

(E mereciam um pouco mais de respeito do mercado, aliás, já que muitas edições nacionais que li vieram cheias de erros de tradução e revisão, tsc tsc…)

Aos poucos tem se consolidado também uma produção nacional, seja para as mais jovens, seja para as mais adultas. Tenho visto surgir livros nacionais para o público feminino de todos os tipos, do romance histórico ao chick-lit, da fantasia ao erótico – e que também estão conquistando público e fãs. Autoras engajadas, preocupadas com o que estão passando para as suas leitoras, querendo emponderá-las e mostrar que elas são importantes.

Talvez seja isso que incomode tanto: ver que descobrimos a nossa voz, que podemos escolher como manifestá-la (e que iremos exercer esse direito de escolha) e que não iremos nos calar.

Pronto, desabafei, agora posso voltar para as desventuras de Bia e seu emprego burocrático. Atravessar um deserto com um homem-morcego seria melhor do que a papelada…

 

 

 

[O que eu recomendo] Nine Princes in Amber, de Roger Zelazny

Existem livros que alteram a sua concepção de vida, mudando a forma de ver o mundo. E aqueles que fazem você visualizar literatura como arte de uma forma irrefutável. O problema é que, por causa de certo preconceito, o senso comum geralmente procura essas obras nos grandes clássicos ou nas obras premiadas da literatura contemporânea.

Não que isso não aconteça – A cor purpura, de Alice Walker, e Raízes, de Alex Haley, foram livros que me deixaram em choque por semanas. Porém, com meu amor pelo fantástico, muitos dos livros que tiveram esse impacto em mim são de literatura fantástica. Dos vinte livros mais importantes da minha vida, com certeza mais da metade são de Fantasia ou de Ficção Científica.

E um deles, com certeza, é o primeiro volume da série ‘Chronicles of Amber’ de Roger Zelazny, Nine Princes in Amber.

Pouco conhecido por aqui, Zelazny é um dos grandes nomes da fantasia mundial, ganhador de vários prêmios e autor de algumas das maiores obras do gênero, como Lord of Light e a série de ‘Amber’, que tem dois ciclos de cinco livros cada.

E foi o primeiro livro de toda a série que está naquela lista de vinte livros mais importantes da minha vida. Um dos fatores foi o estilo. Nine Princes in Amber não deve nada, na força da sua escrita e da sua narrativa, aos grandes clássicos da literatura do século XX. O autor nos conduz por uma trama intricada construindo imagens e cenas fortes e dramáticas, daquelas que se prendem na sua memória por anos.

(Possíveis spoilers a frente, apesar de estar em todas sinopses do livro)

A história é de Corwin, um dos nove príncipes do título, possível herdeiro de seu pai, Oberon, no trono de Amber -o único reino verdadeiro, do qual todos os demais são sombras. Porém, sua história está incompleta, pois ele começa o livro acordando em um hospital de Nova Iorque sem memórias – e irá recuperá-las de forma fragmentada e não linear. O narrador acompanha essa sua confusão mental, só nos revelando o que Corwin vai descobrindo.

Zelazny usava influências de mitologias diversas em várias de suas obras, e em ‘Amber’ é possível ver traços celtas, arturianos e, com muita força, das obras de Shakespeare, principalmente de Hamlet – a vontade de poder de Corwin tem ecos fortíssimos do príncipe da Dinamarca – e de Sonhos de uma noite de verão.

A trama política entre os nove príncipes, a sensação de que tem algo em suspenso que ainda não se revelou, a forma de viagem entre essas realidades irreais e a de Amber (que é ‘caminhar entre as sombras’, sendo que as ‘sombras’ seriam justamente esses mundos que não são tão verdadeiros), e as dimensões absurdas desse multiverso infinito até hoje são grandes influências para mim e para o que eu escrevo. Não é a toa que no Atlas Ageográfico de Lugares Imaginados a trama gira em torno de memórias perdidas que são recuperadas ao se caminhar. E sim, há toda essa questão de muitas realidades e universos, que vivem sob uma ameaça ainda não vista totalmente.

E nessa influência, estou muito bem acompanhada. Neil Gaiman tem uma admiração fortíssima pela obra de Zelazny, principalmente dessa série, assim como G. R. R. Martin.

“Ana, você acha que essa obra sai no Brasil?”

Ah, como eu queria, né? Que saísse e fosse um sucesso estrondoso para que eu colocasse na capa do Atlas: “Uma trama emocionante, comparável à Nove Príncipes em Amber de Roger Zelazny.” (modesta a beça, eu sei.)

Mas acho difícil. É uma série antiga e as editoras estão apostando pouco em grandes clássicos da fantasia – principalmente depois do fechamento da Saída de Emergência Brasil. Porém, finalmente os livros de Zelazny estão saindo em formato eletrônico na Amazon e os 3 primeiros da série já estão disponíveis. Vou comprar os três, para poder reler os dois primeiros e finalmente conseguir ler o terceiro – para ficar ansiosa esperando os demais.

 

 

[O que ando escrevendo] O Atlas Ageográfico de Lugares Imaginados, em sua versão semifinal.

Finalmente.

Sim, finalmente posso dizer que o Atlas adquiriu sua forma final, pelo menos para mim, no que se refere à disposição de capítulos, cenas e presença de personagens. Foi uma jornada interessante, fascinante, em que muita coisa mudou, em que coisas foram incorporadas e cortadas, personagens surgiram e cresceram.

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Durante esses meses, várias vezes as pessoas tem demonstrado curiosidade sobre o livro. Sem dar spoilers, tem algumas perguntas que eu posso responder.

1.É um livro de Fantasia? De Ficção Científica?

É um livro que se enquadra dentro do gênero fantástico, com certeza. Mas ele tem elementos de Fantasia Épica, de Fantasia Urbana, de Retrofuturismo, de FC…

Então, é difícil eu, autora, dar uma resposta final a vocês. Porém, acredito que o mais próximo seja dizer que é de Fantasia.

2. Sobre o que é o Atlas?

É um livro sobre memórias, lembranças e perdas. Sobre cidades que desaparecem, sobre vingança e lugares que não deviam existir.

Também conta a história de três seres completamente diferentes que atravessam o deserto com um cavalo sem nome, sem saber direito o que vão encontrar no final.

Em resumo, é um livro sobre uma jornada que muda a vida dos envolvidos. E talvez de todo o universo conhecido.

3. Vai ter sequência?

Mais ou menos. A história do Atlas se encerra nela. Porém, certas coisas que vemos, certos personagens que conhecemos, vão aparecer, pois é um livro que tem a ver com um ciclo de criação e entropia.

4. Quem são os personagens principais?

Clio, a moça que acorda sem memória. Íbis, o homem-morcego que não pode revelar as suas lembranças. E o Rei-máquina, que talvez se lembre de mais do que deixa transparecer.

5. Quais foram as maiores influências desse livro?

As duas principais foram ‘O mágico de Oz’ do L. Baum e a série ‘As crônicas de Amber’, principalmente os dois primeiros livros (‘Os noves príncipes em Amber’ e ‘Armas de Avalon’). O primeiro por causa da jornada e das estranhas conexões, inclusive sendo subvertido e negado por várias vezes.

Já os livros do Zelazny foram uma surpresa que só fui perceber depois, com o livro já bem formado – também falam sobre memórias partidas e perdidas, lugares que somem e a grande tentativa do auto conhecimento. E fazem isso em uma fronteira tênue entre Fantasia e FC, embora ao primeiro impacto pareçam ser Fantasia.

Além disso, há forte influência de Guy Gavriel Kay, principalmente de ‘Tigana’, que também é um livro sobre memórias e lembranças. A fantasia urbana e estranha, que foge do romance sobrenatural, de Jeff Vandermeer, Jay Lake, China Mieville e Ekaterina Sedia moldaram alguns dos capítulos do Atlas, principalmente os que envolvem Biblos e Xanadu. Borges, por mais que eu não seja grande leitora, também influenciou muito em várias coisas, em relação à imaginação e em elementos de worldbuilding.

A mitologia – grega, chinesa, celta, romana, cristã – e o fabulário europeu, medieval e moderno, deram base para alguns plot points e para a formação de personagens. Clio tem nome de musa e segue um pouco o mito de Prometeus. O Rei-máquina segue uma antiga lenda chinesa, mas seu título veio de um estudo antropológico sobre Luís XIV, que usava o epiteto para si – aliás, isso influencia um pouco a personalidade dele, que não diz ‘O Estado sou eu’, porém tá quase lá.

E Íbis… ele é um pouco de todo o herói trágico, mistura Dedalus e Batman. E talvez seja o personagem mais ‘eu’ do livro.

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Íbis na visão do Estevão Ribeiro.

6. Por que escrever o Atlas?

Um dia, eu virei pro meu então estagiário e disse, inspirada pela música do America: “Vou escrever um livro sobre viajar no deserto em um cavalo sem nome.”

Disso, saiu o livro. Acho que o ponto do cavalo não ter nome e da música dizer que no deserto você perde suas lembranças porque não há ninguém para lhe causar dor provocaram a base do Atlas ser memórias e lembranças

7. Atlas… Vai ter mapas?

Nenhum. Não tem mapas, não tem coordenadas, não uso em momento algum as palavras ‘direita’ e ‘esquerda’. Ele ser ageográfico o define. Ele é um atlas de palavras, de memórias perdidas para serem encontradas e de lugares imaginados e de destino ignorado.

8. E agora?

Agora, vamos procurar editora. Não, não quero lançar pela Aquário, que é voltada para outro tipo de projeto. Torço para o livro sair ainda esse ano, mas vai saber.

9. Vai ter biscoito, como teve pro Anacrônicas?

Prometo: assim que a editora fechar capa, encomendo os biscoitos pro lançamento.

10. Quem te ajudou?

O trabalho de escritor é solitário, mas tende a angariar o apoio de muita gente.

Mas principalmente, no caso do Atlas:

Meu marido, Estevão, ajudou a delinear o primeiro storyline/argumento do livro, o que me deu um esqueleto pra rechear.

Eric Novello e Nelson de Oliveira me chamaram para escrever os contos que deram origem ao livro.

Jaques Barcia e Lucas Rocha aguentaram algumas explosões de ideias. Max Mallmann nunca me deixou desistir do livro, mesmo quando eu achei que ele era estranho demais.

As meninas da Increasy compraram essa ideia e me ajudaram a colocá-la na forma que está hoje, um livro que não está perfeito, mas que eu consigo ler e dizer ‘ei, valeu a pena todo esse esforço’.

E todo mundo que nesse ano e meio postou fotos e gifs de morcego e se interessou. Sei que tenho uma base de leitores pequena, mas que está se mostrando querida e fiel. Espero que a jornada de Clio, Íbis e do Rei-máquina (com o cavalo sem nome) valha a espera e a confiança de vocês.

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[O que está acontecendo] Encontro Irradiativo com workshop

Oi, migos!

Estamos aqui, trabalhando na revisão do Atlas e em quatrocentas outras coisas. Uma delas é o Encontro Irradiativo, que vai acontecer no próximo final de semana em São Paulo!

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Uma lindeza, né? E isso é apenas parte da programação. Teremos várias outras atrações, incluindo uma edição pocket do meu workshop, com a participação especial da Maria Claudia Muller, falando da experiência com o wattpad.

Vamos falar sobre registro, revisão/copi, formas de publicação, contratos e tirar dúvidas sobre publicação online. Vagas limitadas, então não perca tempo!

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