O conto preferido da minha mãe

Não vou mentir aqui para vocês e dizer que minha mãe é minha maior fã. Ela deve ser a minha pior crítica, a mais dura. E é a leitora mais difícil de agradar. Ela lê de tudo, principalmente agora, com filhas criadas – vai dos clássicos aos eróticos, do religioso à biografia. E não é chegada em contos.

Ou seja, vida difícil a minha.

Vez por outra, eu acerto em cheio e ganho um elogio. Por exemplo, no geral, ela gostou de ‘Anacrônicas – Contos mágicos e trágicos’, embora alguns contos tenham agradado mais. E um se tornou com certeza o preferido dela.

“Por que, mãe?”

“Porque fala do que é ser mãe, da preocupação com os sentimentos de um filho. E tem coelhos.”

Então, para ela (que lê só em papel por enquanto) e para vocês, feliz dia das mães. Que vocês saibam traçar o mapa para onde seus filhos precisam chegar.

(E fica também como homenagem à Phoebe, a cachorrinha que aparece nesse conto, e a mãe dela, minha irmã. A Phoebe nos deixou faz poucas semanas, depois de uma vida longa e produtiva, em que ajudou um coelho a destruir jardins, preocupou-se com a alimentação para continuar magrela e passando pelos buracos mais minúsculos e comandou uma gangue de cadelas no nosso quintal.)

***

O mapa da Terra das Fadas

Para Nugu, o Selvagem

Março-novembro/2006.

Uma vida curta, mas plena

O menino chorava, desconsolado com a morte do coelhinho. O corpo, coberto com o pelo branco macio, estava ali, no lugar em que encerrara a sua curta vida de roedor despreocupado. Morrera de nada, de mansinho. Até mesmo a vira-lata, inimiga ferrenha e perseguidora implacável, parecia entristecida. Deitada, o nariz entre as patas, de vez em quando soltava um bufar, como se suspirasse.

A mãe fez eco com a cachorrinha. Estava cansada da cena. Compreendia a tristeza do menino, mas o que podia fazer?

– Anda, Miguel. É assim que a vida é… Os bichinhos morrem. Mamãe vai arranjar outro pra você.

Os olhos baixos, Miguel respondeu.

– Você não entende, mãe… O Nugu era o mais especial dos coelhos. Ele era…

A mãe ajoelhou-se pra ficar perto do rosto do menino.

– Ele era o que, amor?

Ergueu a cabeça, os olhos brilhando, das lágrimas e pelas lembranças.

– Era mágico! Esqueceu? Era amigo das fadas, você mesma contou…

A mãe deu um sorriso breve e afagou os cabelos castanhos.

– Então, ele deve estar bem… Provavelmente, está indo pro Mundo das Fadas…

As lágrimas voltaram a brilhar.

– E se ele não souber o caminho? Ele pode se perder… Mãe…

Ela respondeu distraída, já pensando no que fazer com fazer com o corpo do animal.

– O quê?

– Você não é bruxa? Poderia ajudar o Nugu… Fazer um mapa.

A proposta a pegou de surpresa. Sim, ela era “bruxa”, no sentido que adorava antigos deuses, fazia rituais para celebrar a mudança nas estações do ano e buscava conhecimentos mágicos. Mas tinha pouca, senão nenhuma, familiaridade com fadas.

– Mas como eu vou fazer isso, Guel?

Um sorriso brilhou, com a confiança que as crianças mais pequenas tem na infalibilidade dos pais.

– Fazendo, ué. Você é a mãe bruxa mais poderosa de todo o Universo…

Tentando acalmar o filho – e diminuir a própria tristeza, afinal ela própria iria sentir falta do coelho – sentou-se no chão.

– Vem aqui, querido – ela observou Nugu, que estava deitado. Parecia estar fingindo, como tantas vezes fizera para enganar Phoebe, a cachorra malhada. Ela aproximava-se, confiante de que finalmente o pegaria, para ganhar uma patada no focinho quando ele se erguia correndo para se esconder. Parecendo lembrar disso, a vira-lata levantou os olhos. Quem sabe não era mais um truque?

Ana sorriu, pois descobrira uma maneira de ajudar o filho a passar pela dor do luto.

– Vamos lá… Do que é feita a Terra das Fadas?

Ele nem piscou para responder.

– De coisas doces!

– E que coisas doces temos aqui?

Dessa vez, ele precisou de um tempo para responder.

– As goiabas, mãe?

Sorriso aberto, ela assentiu, concordando. Miguel disparou pelo quintal, na direção da árvore mirrada. Eles tinham sorte por conseguirem morar em um lugar onde pudessem ter uma árvore, bem no meio da cidade. O menino esticou os braços sob o olhar atento da mãe.

– Isso mesmo, filhote. Pegue aquela que está no galho mais baixo… Assim… Agora, traga aqui.

Ele voltou sorridente, a blusa coberta de poeira e folhas que caíram quando puxou a goiaba. A fruta foi colocada bem defronte ao focinho do coelho.

– Muito bem, e sabe o que mais tem na Terra das Fadas?

– Cores!!! Muitas cores! – ele não hesitou, cada vez mais confiante. A mãe não precisou dizer mais nada, pois o pequeno correu para colher algumas flores, acompanhado por Phoebe. Nugu, o Selvagem – como a mãe o chamava – devastara o pequeno quintal com seu apetite insaciável. Sobraram a goiabeira, a videira, um pé de acerola, muitas marias-sem-vergonha e flores rasteiras. Miguel voltou com as mãozinhas cheias de cores: vermelhas, amarelas, brancas, roxas, azuis. Uma boa coleção para indicar o caminho. Sem esperar ordem posterior, arrumou-as ao redor do bichinho com cuidado.

– Falta alguma coisa?

A mãe sorriu.

– Falta um pouco de esperança. Sem isso, como o Nugu vai achar o caminho?

Miguel baixou os olhos e encolheu os ombros, desolado.

– Mas mãe… Como a gente vai arrumar esperança?

Ela pareceu ficar pensativa.

– Bom, a cor que representa a esperança é verde…

Ela nem precisou terminar, pois ele deu um salto imediatamente.

– E as folhas são verdes! Eu vou usar as do pé-de-uva, porque eram as que o Nugu mais gostava e não conseguia alcançar.

A mãe conteve um arrepio ao vê-lo subir no banquinho de concreto para pegar folhas de parreira. Ele voltou com um punhado nas mãos, que entregou muito sério.

– Eu vou arrumá-las na direção da Terra das Fadas. Você sabe onde fica?

O menino apontou para o sol poente. Ela colocou-as em fila, saindo das patinhas da frente até quase a escada que descia para a casa onde moravam.

– Agora, vamos fechar os olhos e pensar em coisas boas…

– Eu já sei no que eu vou pensar, mãe. Vou imaginar o Nugu correndo na Terra das Fadas!

Os dois deram-se as mãos. Ana começou a pensar também, desejando que o bichinho estivesse bem, onde quer que fosse.

Um vento frio bateu, vindo do nascente para o poente. Ela abriu os olhos. Viu que Miguel batia palmas e sorria, enquanto Phoebe latia alucinada.

Um pequeno rodamoinho erguera as flores e folhas, que agora agitavam-se no ar.

– Olha, mãe, as fadas, elas vieram buscar o Nugu!

A cachorra parecia concordar, latindo e correndo, como se acenasse um adeus. Ana olhou para a mistura de cores a sua frente. Não tinha a pureza de seu filho ou da vira-lata, mas via borboletas no meio das pétalas.

E tufos de algodão, brancos e macios como pelo de coelho, também giravam alegremente. O rodamoinho avançou, envolvendo-a. Ela ouviu o som de gargalhadas alegres e pareceu sentir, pela última vez, o calor do coelho, que tantas vezes aninhara no colo.

Uma lufada mais forte e o pequeno tufão continuou sua jornada para o sol que terminava de se pôr. Phoebe deitou-se, quase tão esbaforida e exausta quanto Miguel, sentado ao seu lado.

Ana deu uma última olhada no corpo e de repente ele não parecia mais tão vivo quanto antes.

11211693_809803515782478_766126817_o

Livros, livros, livros! Conheçam Anacrônicas – contos mágicos e trágicos

Dia mundial dos livros!

(Segundo diversos posts nas redes sociais! Se não for, tudo bem, aqui em casa todo dia é dia de livro!)

Cinco anos se passaram, muitos contos foram publicados e finalmente resolvei juntar meus continhos novos (além de antigos favoritos) em um novo volume de Anacrônicas. Ao contrário do primeiro, esse vem apenas com contos de fantasia. Mas também tem uma ilustração por conto, feitas – assim como a capa – pelo meu marido e editor (sim, a Aquário é nossa!) Estevão Ribeiro.

Você pode comprar direto comigo – e levar autografado – ou esperar um pouco, pois o livro chega nas livrarias em maio.

anacronicas2

A lista de contos escolhidos:

O mapa para a Terra das Fadas

Anacrônicas, 2009

Campeonato de beijar sapos

Crônicas da Fantasia, 2012

Deus embaralha, o Destino corta

Anacrônicas, 2009

Queda e paz

A Casa do Escudo Azul

Anacrônicas, 2009

A morte do Temerário

Espelhos Irreais, 2009

Lenda do Deserto

Anacrônicas, 2009

Mudanças

A princesa de toda a dor

Anacrônicas, 2009

A vila na areia

Como nos tornamos fogo

Anacrônicas, 2009

Viagem à terra das ilusões perdidas

Anacrônicas, 2009

Maria e a fada

Imaginários 3, 2010

O Ladrão-de-Sonhos

Fábrica dos Sonhos, 2014

Sono de beleza

Quotidianos, 2014

O eremita

Anacrônicas, 2009

Carta a monsenhor

Paradigmas 2, 2009

O longo caminho de volta

Cidades Indizíveis, 2011

Vida na estante

Anacrônicas, 2009

A menina do Val de Grifos

Bestiário, 2012

Os olhos de Joana

Anacrônicas, 2009

O ensurdecedor silêncio dos deuses

Arte e Letra, 2014

“É tarde!”

Anacrônicas, 2009

A dama de Shalott

Anacrônicas, 2009

Coloquei no Pinterest algumas fotos e ilustrações do livro. :)

quedaepaz

Pelo direito de colorir, descolorir, destruir e etc…

Mercado editorial adora uma moda. É pior que Milão e Paris juntos.

Vampiros, autoajuda, livro de padre, new adult, fantasia com sexo…

E ao contrário do que pensa a elite culta que só lê livros recomendados pelo Bloom, eu acho isso ótimo. Sou defensora radical da bibliodiversidade e ela só pode existir em um mercado saudável, que movimente dinheiro, que gere negócios, que mantenha empresas e empregos. As modas fazem isso. Uma editora encontra o nicho, as outras a seguem, o mercado se movimenta, meia dúzia de títulos parecidos vendem muito…

E a editora se fortalece financeiramente para poder investir em coisas que talvez não sejam venda tão certa – ou tão grande. Resumindo: Está feliz porque pode ler Locke Lamora em português? Agradece aos milhares e milhares de exemplares que a Sextante vendeu de ‘A cabana’. Adorou o livro do Eric Novello, com seu clima noir, sendo encontrado em todas as livrarias? Abrace uma fã da Paula Pimenta e da Bruna Vieira.

A moda da vez são os livros interativos. Depois da onda de destrua esse diário, amasse esse livro, cheire estas páginas (Esse último eu já vi gente fazendo em livraria. Eu não. Só abraço o ‘Tigana – A voz da vingança’), chegou a vez dos livros de colorir para adultos. Vendidos como livros anti-estresse, são uma espécie de ovo de colombo. Livros em preto e branco, com ilustrações detalhadas para serem pintados. Já existem de todos os tipos: o pioneiro da onda ‘Jardim Secreto’ é de plantas, bichinhos e elementos bucólicos, mas já vi com arte celta, paisagens e até um só de mandalas que vem em um formato que emula um caderno de esboços. E tem o de surubas, que eu ainda não vi.

A Sextante colocou esse ovo em pé, várias outras editoras seguiram e isso tem movimentado o mercado. Ontem, em pleno feriado e precisando comprar uma editora, vi a megastore da Saraiva do Plaza abrir e receber um grupo ávido, que saiu comprando um exemplar de cada modelo exposto. A livraria estava sem lápis de cor, e eles partiram para as Americanas. Deixaram um dinheiro bom ali, que vai agitar as vendas de várias editoras que estão apostando nesse nicho: Alaude, Gutemberg, Ediouro, Best Seller, V&R.

Esses livros tomaram de assalto a lista dos mais vendidos. Como não é uma classificação óbvia, colocaram na de Não-Ficção. Foram para o topo. Mas se tivessem ido para a de Autoajuda, teriam dominado igualmente. Em qualquer categoria, seriam os campeões. Inclusive se houvesse a categoria de Livros Mais Vendidos entre os Mais Vendidos.

E tem gente falando que não é livro, que é triste verem as pessoas comprando esse tipo de coisa. Coisa não. É livro. A agência do ISBN dá o código. A CBL faz a ficha catalográfica. É em formato de códice. Alguns tem até orelhas. O que faz dele não ser um livro? O fato de só ter ilustrações? E os livros infantis que só tem imagens? Também não são? É o fato de serem objetos interativos? Porque um livro desses, como os ‘Destrua esse diário’, só se completam, só ganham significado e significância plena com a ação do leitor-artista. São livros que surgem na interação, na intervenção.

Nisso, eles são iguais a qualquer outro livro – o que muda é o grau da interação. Nenhum livro é completo e pleno sem o leitor, que vira suas páginas, virtuais ou de papel. Nenhum personagem ganha existência sem a mente que o criou e sem a mente que o capta nas letras.

Vários fatores fazem surgir esses narizes torcidos, essas caras feias e julgamentos. Um é a sacralização do objeto livro. Na faculdade de História, eu perdi essa ideia besta do livro intocado, do livro puro, virgem e casto. O historiador não resiste e marca o livro, se relaciona com ele diretamente, assinala, põe páginas sangrando de vermelho e marca-texto, escreve nas margens. Livro bom, livro vivo é aquele em que praticamente se vê o leitor tanto quanto o autor.

Ninguém é obrigado a isso, claro. Eu sei que tem gente que desmaia só de ver o cantinho da página dobrado – fico imaginando essas pessoas vendo meus livros do Bourdieu e do Elias. Mas sabe o que somos obrigados? A respeitar o gosto alheio.

As pessoas estão curtindo esses livros. Estão se divertindo, se desestressando. Tiram fotos, trocam ideias de cores, procuram lápis diferentes. E há um outro fator que pode explicar o porquê desses livros causarem tanta má vontade. A grande maioria desses leitores são mulheres, jovens e senhoras. Sabemos que “livros de mulherzinha” são um “atentado ao bom gosto”, não é?

Mas elas estão pagando por eles, movimentando o mercado.

Então, quando comprar o seu “República dos Ladrões”, o terceiro livro da série do Scott Lynch, mande um abraço para dona Johanna Basford e suas leitoras-artistas-criadoras. Elas merecem.

Eu? Bom, eu sou a pessoa mais estressada que eu conheço. E até tô curtindo a ideia.

Só não me cobrem realismo.

Não, não sei de que cor é um pavão. Fiz História, não Biologia!

Não, não sei de que cor é um pavão. Fiz História, não Biologia!

Vamos falar sobre inclusão e representatividade na literatura fantástica brasileira? – Encontrão na Odisseia

Sim, vamos.

A pergunta foi só retórica. Vocês não tem opção.

Quem me conhece sabe que eu sou chata ao ponto de ser insuportável quando se trata de representatividade. Fico profundamente irritada quando percebo que os grupos sociais em que me movimento são pouco inclusivos ou criam ambientes hostis para que se discuta a representatividade de ‘minorias’ (termo que uso livremente aqui, significando grupos sociais que não tem os mesmos direitos e/ou a mesma possibilidade de atuação devido a limites impostos legal ou socialmente).

E a literatura fantástica brasileira é um desses. Se for observar, é um pequeno paraíso para homens de classe média brancos, cisheteros e do Sul/Sudeste. Seja entre os que conseguem entrar nas grandes editoras, seja entre os que publicam nas pequenas, sejam os que vão aos eventos.

Quer um exemplo?

A representatividade feminina na 4a Odisseia de Literatura Fantástica, que vai acontecer agora em abril, na cidade de Porto Alegre.

No primeiro dia, 10/04, dia de bate-papo com as escolas e da palestra, de 11 participantes, 6 mulheres – o que é um bom número, né?

Mas nos dias efetivos da Odisseia, o quadro muda e bastante.

No dia 11/04, dos 21 participantes, apenas 5 são mulheres, sendo que em uma das mesas não tem nenhuma. No dia 12/4, entre os 18 somos apenas 4 mulheres, sendo que em 3 mesas não tem nenhuma.

No total, 51 participantes. 15 mulheres.

Além disso, temos 3 mesas sobre autores específicos ( Baum, Moore e King). Três autorEs.

Nem me pergunte quantos são negros. E por todos os deuses, nem pense em perguntar quantas são mulheres e negras, para que eu não me contorça.

Pensando nisso e dentro do espírito do genial Manifesto Irradiativo, do qual sou uma das primeiras signatárias, decidi, junto com mr. Jim Anotsu, conclamar todas as pessoas que estarão na Odisseia a participar do 1o Encontrão Irradiativo para debater e pensar a questão da representatividade e da inclusão na literatura fantástica.

Para que possamos falar sobre racismo sem que alguém solte a nova Lei de Godwyn da internet literária brasileira (‘querem proibir Lobato porque dizem que ele era racista’). Para que possamos expor nossos problemas sem que ninguém venha dizer que isso é mimimi de feminazi.

Nosso encontro será no dia 11 de abril, a partir das 13:45 – como ainda não conheço o espaço, fica pré-marcado de nos encontrarmos na mesa da Aquário Editorial e depois irmos procurar um lugar para nos reunirmos.

A Odisseia acontece em Porto Alegre, no Centro Cultural CEEE Erico Veríssimo.

manifesto-irradiativo-poster-2-s

Memórias de como cresci com Seu Leo – I

Hoje, depois de levar Miguel pra tirar o gesso (e colocar de novo, porque afinal o que é fácil nesta família), paramos para almoçar num boteco – o adolescente ogro queria um prato feito.

A tv do boteco estava ligada no Globo Esporte e tinha um quizz-jogo com pessoas do Fluminense e do Vasco. Entre os representantes do Vasco, estava o homem, o mito, a lenda: Sorato, e foi impossível não lembrar do meu pai.

Ok, vocês provavelmente não fazem ideia de quem seja esse tal de Sorato. Mas lá pros idos do fim dos anos 80 e começo dos 90, Seu Leo, meu pai, levava as filhas ao estádio de São Januário para assistir os jogos. E Sorato era jogador do Vasco – numa época pós-Dinamite/Romário, quando Valdir Bigode era o ídolo. Não eram tempos fáceis para ser vascaíno. Como hoje.

Estávamos lá num domingo, jogo do Vasco pelo Estadual contra algum gigante do futebol carioca: acho que era o Bangu. E lá estava Sorato, caindo mais do que a Viradouro, sem fazer nada de útil no jogo. Lá pela 6a vez que ele caiu sozinho, bem na nossa frente, papai gritou:

“Não levanta não, fica aí que é pra ver se te substituem!”

Seu Leo não é de gritar, mas quando grita, se escuta de longe. E quem conhece São Januário, sabe que a distância entre público e campo não é grande, e estávamos bem na beirada. O jogador levantou, olhou bem na nossa direção, apontou para papai e voltou pro jogo.

Cinco minutos depois, 1 a 0 pro Vasco. Gol de quem? Sorato, que foi comemorar onde? Na frente de papai. O que Seu Leo respondeu?

“Não fez mais do que a sua obrigação.”

Aos berros.

(O pobre do Sorato não sabia, como minhas irmãs e eu sabemos, que papai NUNCA dá o braço a torcer)

capri

Olá, Ariel

Foi uma semana pesada e hoje a noite, depois de colocar Miguel e seu braço quebrado na cama, resolvi escrever um pouco. Abri um documento e voltei a uma tentativa de FC space opera mais focada na interação entre personagens em um cenário de guerra (sim, estou jogando RPGs da Bioware).

E essa é uma espécie de fanfic não (muito) declarada. Tô botando tudo o que eu gosto do meu jeito, desenvolvendo propostas e personagens alternativos, e reaproveitando alguns. Um deles foi Ariel, que foi criado para um play by email de “Jornada nas Estrelas”. Naquela cenário, ela era darkovana e nascida emmasca, ou seja, neutra. De acordo com o universo ficcional da Marion Zimmer Bradley, um emmasca não tem órgãos sexuais internos nem externos, sua aparência é andrógina e  geralmente não se identificam como ‘homens’ ou ‘mulheres’, mas como algo distinto. (Há outro tipo de emmasca, que são pessoas neutralizadas por meio de uma operação, mas aí é caso completamente diferente).

Muita coisa mudou no cenário que eu criei, mas a essência do que Ariel é, não. Nessa versão, Ariel nasceu sem características sexuais externas e sem órgãos sexuais internos – não tem útero, não tem testículos, não tem canal vaginal, não tem pênis, não tem clitóris. Vem de um planeta que foi colonizado por humanos, mas que era habitado por uma raça de seres com sexo biológico flutuante (eles tem a capacidade de serem macho ou fêmea, de acordo com a sua vontade). Houve casos raros de miscigenação que geraram descendência fértil e nos mil anos que se passaram, surgiram pessoas como Ariel.

(Yup, bastante parecido com Darkover, I know. Not the point.)

Agora parei na parte emocional de Ariel, que sofre preconceito da sociedade em que está, mas é uma pessoa feliz e bem resolvida. Ela sabe o que ela É e se aceita assim, principalmente porque seus pais a amam e a respeitam, e a apoiaram contra o mundo. Se veste como sente vontade no dia – de vez em quando se submete às convenções do seu mundo e se comporta como ‘filha’ de uma grande casa, que foi o rótulo que os nobres do planeta deram. Fico me perguntando sobre a parte do envolvimento romântico. Como funcionaria para Ariel?

Até o momento em que começa a nossa história, isso nunca foi uma questão para ele. Acabou de completar seu treinamento, ou seja, passou pelo último rito de passagem para a vida adulta. Sempre esteve cercado de gente próxima e querida, e por isso é uma pessoa doce, ativa e afetuosa. Porém, nunca teve um ‘interesse especial’ por ninguém, aquela vontade de compartilhar a vida (e as contas, e os gatos… hum, essa sou eu, pera). Mas Ariel está saindo da zona de conforto e me levando junto.

Sim, sempre pensei em meus personagens como seres sexuais – mesmo os homens-morcego e as onças que falam. Já tenho algumas diretrizes para Ariel. Não acho que ser assexual elimine a possibilidade de uma relação romântica com alguém. Não a pensei como um ser superior, ela não é mais lógica ou menos emotiva. Muito pelo contrário, ele é emotivo, afetuoso, impulsivo, daquelas pessoas que não tem dificuldade em se relacionar com alguém.

E está numa sociedade em que existe o conceito de amor romântico, como a nossa também tem.

Tentando definir como seria para ela, acho que talvez seja mais raro sentir esse ‘amor romântico’, já que boa parte da necessidade de afeto e carinho pode ser suprida seus amigos e familiares. Mas vai que uma hora surja alguém especial, que vai fazer mais falta, que quando entrar numa sala vai lhe fazer faltar o ar, cuja ausência vai causar até dor. (Não acho que nada disso seja relacionado ao sexo). Talvez não tenha uma restrição em relação à pessoa – quando esse sentimento chegar, pode ser por um homem cis, uma mulher trans ou um outro neutro como ela.

E isso deixa uma outra questão: como essa pessoa irá reagir? Vai depender, claro, de quem seja. Mas se pensarmos bem, não é assim com todo mundo?

E 2015, o que vai trazer?

É Ano Novo.

Outra volta ao redor do sol.

Eu espero que traga muitas novidades. O ano já vai começar com duas: o Anacrônicas 2, agora com o título ‘Anacrônicas – contos trágicos e mágicos’, e meu conto em ‘O outro lado da cidade’ (que é ligado ao universo do Atlas, que eu espero que seja concluído em 2015). Os dois saem pela Aquário, que é a empreitada do meu marido no mundo editorial – sim, eu ajudo, né.

Tem outras coisas vindo, outras sendo gestadas, e algumas só pensadas.

Eu espero que seja um ano maravilhoso. Pra mim, para vocês. Para o mundo.

(Pronto, agora vou voltar a jogar videogame)

anacronicas

outrocidade

Os cinco lançamentos brasileiros de 2014 que o fã de literatura fantástica precisa conhecer!

Ok. Vamos sair do óbvio?

Quem acompanha literatura fantástica no Brasil sabe que Raphael Draccon, Carolina Munhoz e Leonel Caldela tem livros novos lançados agora… E que lançamentos de Eduardo Spohr e André Vianco só ano que vem.

Isso significa que não teve outros lançamentos nacionais em 2014?

Muito pelo contrário, é aí que você se engana. Teve tanta coisa bacana aparecendo por aí que ficou até difícil acompanhar. Mas tem cinco que você não pode deixar de ler!

A torre acima do véu, de Roberta Spindler

Uma distopia juvenil, passada na América Latina, com personagens fortes e uma trama cativante. Miguel (meu filho de doze anos) pegou para ler pela capa agora no começo das férias e não largou. A Roberta é um dos nomes mais promissores da nossa literatura fantástica, vale a pena acompanhar.

Exorcismo, amores e uma dose de blues, de Eric Novello

Juro que Fantasia urbana é uma coisa complicada de escrever. Você pode pensar que não, afinal geralmente é alguém caçando monstros em um ambiente sombrio – e falando assim, é fácil, né? Mas como sair do lugar comum, como ser original, como trazer algo novo? Fazendo o que o Eric fez: com um universo bem construído e pensado, personagens cativantes, e uma trama que leva você pela mão a lugares estranhos e fascinantes enquanto escuta blues. É um dos dois melhores livros do ano, mas disso eu já sabia, pois o Eric é um dos meus escritores brasileiros preferidos.

A Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison, de Enéias Tavares

O outro melhor livro do ano é a estreia do escritor e professor gaúcho que ganhou o concurso da Fantasy. É o livro mais corajoso da literatura fantástica nos últimos anos, fazendo algo que muitos tentam (usar os clássicos da nossa literatura), mas que poucos conseguem fazer com a classe e a categoria do Enéias. Ele foge do óbvio tanto nos personagens quanto na forma narrativa. Outro autor para acompanhar com muita atenção!

As aventuras do vampiro de Palmares, de Gerson Lodi-Ribeiro

O Gerson é um dos mais importantes autores da ficção fantástica nacional e um dos mais produtivos. O vampiro de Palmares é um personagem com uma longa história, vem sendo publicado aqui e ali há anos e faltava uma coleção. O autor usa a mitologia e a história da América Latina como base para as desventuras de um ser imortal. Quem ainda não conhece a obra do Gerson, tem uma excelente oportunidade.

Flores Mortais, de Giulia Moon

A Giu (como seus fãs carinhosamente a chamam) é a grande dama dos livros vampirescos no Brasil, merecidamente. A escrita dela é delicada mesmo quando narra acontecimentos cheios de sangue e violência, e há um humor bastante peculiar nos seus escritos. Esse seu livro de contos traz várias histórias sombrias, inclusive no universo da Kaori, sua personagem mais conhecida. Assim como o livro do Gerson, uma boa porta de entrada para a obra da Giulia!

A literatura fantástica brasileira hoje em dia… quanta diferença.

Só um pensamento que me veio hoje à cabeça, por causa do Dia da Consciência Negra.

Estou no meio do que internamente se chama ‘fandom’, mas que na verdade é o campo que engloba os produtores de literatura fantástica nacional desde 2004. Ou seja, dez anos nessa vida. E as coisas vem mudando.

Vejo a nossa produção de literatura fantástica brasileira hoje e sinto orgulho de ser parte do processo que a transformou do clubinho dos homens heteros brancos do sul sudeste (que eventualmente deixavam uma das meninas brincar com eles) no polo de diversidade que é hoje.

As pessoas agora se preocupam com diversidade e representatividade. Em fazer com que vozes diversas sejam ouvidas. Em questionar quando comportamentos não inclusivos se apresentam. Temos escritores negros, temos escritoras, pessoas de todo o país, pessoas de todos os gêneros, preferências sexuais, identidades sexuais, cores e sabores. Todo mundo produzindo e lutando. E de vez em quando, geramos discussões e debates sobre isso. Como os posts do Jim Anotsu e do Lucas Rocha no Nem Um Pouco Épico.

Tem um longo caminho pela frente. Sim, temos problemas ainda, e a ‘heteronormatividade branca machista’ ainda se apresenta. Mas tá muito melhor, e acho que tive uma pontinha de culpa nisso, junto com muita gente boa. Estamos no bom caminho, meu povo. Não podemos desistir.

Ursula K. Le Guin: Precisaremos de escritores que possam se lembrar da liberdade

A Ursula K. Le Guin foi homenageada pela sua contribuição à literatura americana no National Book Award de 2014 e o seu discurso ao aceitar o prêmio tem quer ser lido por qualquer um que queria ser escritor – ou que já seja um.

Traduzi a transcrição do discurso que está aqui – e contei com a ajuda do Petê Rissati para dar uns ajustes. Leiam e reflitam.

(Neil é o Gaiman, que a apresentou para a platéia)

ursulabna

“Agradeço a você, Neil, e aos responsáveis por este lindo prêmio. De coração, obrigada. Minha família, meu agente e editores sabem que estar aqui é tanto mérito deles tanto quanto meu, e que este belo prêmio é tanto deles tanto quanto meu. E me alegro em recebê-lo e compartilhá-lo com todos os escritores que foram excluídos da literatura por tanto tempo, meus colegas autores de fantasia e ficção científica – escritores da imaginação, que nos últimos cinquenta anos este belo prêmio ir parar na mão dos chamados ‘realistas’.

Acredito que tempos difíceis estão por vir, quando desejaremos ouvir a voz de escritores que consigam ver alternativas ao que vivemos hoje e possam enxergar além desta nossa sociedade, tomada pelo medo e por sua tecnologia obsessiva, outras maneiras de existir, e que possam até imaginar possibilidades reais de esperança. Precisaremos de escritores que possam se lembrar da liberdade. Poetas, visionários – os realistas de uma realidade mais ampla.

Neste momento, acredito que precisamos de escritores que saibam a diferença entre a produção de um bem de consumo e a prática artística. Desenvolver material escrito para se adequar a estratégias de venda e maximizar o lucro corporativo e a renda publicitária não é bem a mesma coisa que ser um editor ou autor de livros responsável.

Porém, vejo os departamentos de venda ganharem controle sobre o editorial; vejo minhas editoras em um pânico tolo de ignorância e ganância, cobrando de bibliotecas públicas seis ou sete vezes mais do que cobram dos consumidores. Acabamos de ver um aproveitador ameaçar uma editora por desobediência e escritores ameaçados por uma fatwa corporativa, e vejo muitos de nós, produtores que escrevem os livros e fazem os livros, aceitando isso. Deixando esses exploradores nos vender como desodorantes e nos dizer o que publicar e o que escrever.

Livros, vocês sabem, não são apenas mercadorias. A motivação pelo lucro está frequentemente em conflito com os objetivos da arte. Vivemos no capitalismo. O seu poder parece ser inevitável. Assim era o poder divino dos reis. Os seres humanos podem resistir a qualquer poder humano e mudá-lo. A resistência e a mudança muitas vezes começam na arte, e muitas vezes mais na nossa arte – a arte das palavras.

Tive uma carreira longa, uma boa carreira. Em boa companhia. Agora, aqui, no final dela, realmente não quero assistir a literatura americana ser apunhalada pelas costas. Nós que vivemos da escrita e da vida editorial queremos – e devemos exigir – a nossa parte dos resultados. Mas o nome da nossa bela recompensa não é lucro. O seu nome é liberdade.

Obrigada.”

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 4.383 outros seguidores