Memórias de como cresci com Seu Leo – I

Hoje, depois de levar Miguel pra tirar o gesso (e colocar de novo, porque afinal o que é fácil nesta família), paramos para almoçar num boteco – o adolescente ogro queria um prato feito.

A tv do boteco estava ligada no Globo Esporte e tinha um quizz-jogo com pessoas do Fluminense e do Vasco. Entre os representantes do Vasco, estava o homem, o mito, a lenda: Sorato, e foi impossível não lembrar do meu pai.

Ok, vocês provavelmente não fazem ideia de quem seja esse tal de Sorato. Mas lá pros idos do fim dos anos 80 e começo dos 90, Seu Leo, meu pai, levava as filhas ao estádio de São Januário para assistir os jogos. E Sorato era jogador do Vasco – numa época pós-Dinamite/Romário, quando Valdir Bigode era o ídolo. Não eram tempos fáceis para ser vascaíno. Como hoje.

Estávamos lá num domingo, jogo do Vasco pelo Estadual contra algum gigante do futebol carioca: acho que era o Bangu. E lá estava Sorato, caindo mais do que a Viradouro, sem fazer nada de útil no jogo. Lá pela 6a vez que ele caiu sozinho, bem na nossa frente, papai gritou:

“Não levanta não, fica aí que é pra ver se te substituem!”

Seu Leo não é de gritar, mas quando grita, se escuta de longe. E quem conhece São Januário, sabe que a distância entre público e campo não é grande, e estávamos bem na beirada. O jogador levantou, olhou bem na nossa direção, apontou para papai e voltou pro jogo.

Cinco minutos depois, 1 a 0 pro Vasco. Gol de quem? Sorato, que foi comemorar onde? Na frente de papai. O que Seu Leo respondeu?

“Não fez mais do que a sua obrigação.”

Aos berros.

(O pobre do Sorato não sabia, como minhas irmãs e eu sabemos, que papai NUNCA dá o braço a torcer)

capri

Projeto novo a caminho

Assim, sei que estou sumida e blá-blá-blá. Mas tô por aí, postando mais no Facebook e Twitter – que acabam gerando respostas mais instantâneas, e quem não é imediatista no mundo de hoje? – e trabalhando.

Muito.

Esta semana ainda quero colocar um post sobre uma das minhas traduções dos últimos meses – o maravilhoso romance histórico Tigana – e com o tempo ir atualizando.

Só queria registrar aqui hoje algo bem especial.

 

Image

 

Hoje, Estevão e eu assinamos um contrato com a Claro Enigma, selo da Companhia das Letras, para criarmos uma hq de fundo histórico e biográfico.

Sem dar mais detalhes, podemos dizer que é um tema que nos mobiliza e comove há tempos e que vai ser ótimo poder colocar isso em um projeto – pesquisa minha, roteiro nosso e (felizmente) arte dele.

Mais um degrau!

Obrigada pelo apoio e pela torcida de sempre!

 

(Sim, o Atlas está a caminho ainda)

 

 

Minha mãe

Minha mãe cuidava de bois, de galinhas e de coelhos. Subia em árvores, fazia vindima e pisava uvas. Andava quilômetros para chegar na escola. Atravessou um oceano para chegar aqui.

E mesmo assim, casou com um alfacinha.

Gerou duas filhas, achou pouco e criou mais uma. Montou casa, formou uma família. Trabalhou dia e noite, noite e dia. Coisas de rotina de padaria.

Aliás, ainda trabalha. Quando fica em casa, ninguém tem sossego.

Minha mãe me fez estudar, porque não queria que ficasse atrás de balcão. Pagou inglês e escola cara. Mas nunca me deu mesada. Para me dar dinheiro, me colocou atrás do mesmo balcão que ela.

Para dar valor ao trabalho.

Tem orgulho das três filhas. Chorou quando eu me formei. E quando tirei o mestrado. E quando entrei no serviço público. E diz com orgulho que sou escritora, mas reclama que só escrevo contos.

Livro para ela tem que ficar em pé.

Agora, é avó. Tem dois netos, e um a caminho. A gente corta um dobrado para educar, ela vai e faz do jeito dela. Ser avó é mais divertido, diz. Mas quando fazem errado é com as mães que ela reclama.

Afinal, a responsabilidade é nossa.

Sim, é. E temos um modelo muito difícil de copiar. Ou de sequer chegar ao pés.

Parabéns, dona Marina. Queria ter metade da sua coragem e metade da sua força.

Fico contente em ser pelo menos ser sua filha.

Começando os trabalhos

Arrumei as minhas pastas aqui para começar o ano de trabalho… E aí faço um rápido censo e descubro que tenho exatamente:

25 romances começados
15 só com sinopses

5 contos começados e não terminados
43 ideias soltas que um dia podem ou não virar contos.

ideias
Do que eu preciso?

( ) Foco
( ) Tempo
( ) Vergonha na cara
( ) Sair da internet e escrever

Comitê de boas-vindas

Olá, amigos.

Como está sendo o 2014 de vocês?

O nosso está sendo ótimo – acabamos de voltar de férias. E vocês sabem como é a pessoa que tem bichos e volta de viagem. Fui direto apertar as criaturas peludas que, obviamente, fingiram que nem estavam sentindo minha falta. Aliás, estavam fingindo bem demais, todos muito ariscos. O cheiro estava bem forte, mas uma semana fora, mesmo com a boa vontade da empregada, a caixa de areia não estava a coisa mais limpa do mundo.

(Falando nisso, acabou a areia, amanhã tem que comprar.)

Põe roupa para lavar, guarda as malas, mata saudade de pai e mãe no jantar. Quando voltamos, Estevão comenta que viu umas manchas de sangue debaixo de uma mesa onde os gatos costumam ficar. E lá fui eu, porque é isso que eu faço.

Chego lá, gatos todos inteiros, ainda muito ariscos… e um chiado estranho. Olho na prateleira da estande de limpeza e…

Algo se esconde dentro de uma jardineira vazia

Algo se esconde dentro de uma jardineira vazia

Mas que troço esquisito seria esse?

Chego mais perto e…

"Estevão, tem um gambá aqui, o que eu faço?" "Pega a camera"

“Estevão, tem um gambá aqui, o que eu faço?”
“Pega a câmera”

Claro que eu NÃO fui pegar a câmera – Estevão é que apareceu com ela – e me armei com a vassoura mais próxima. Não para machucar o bichinho, mas para colocar uma distância saudável entre nós.

Obviamente, ele não curtiu muito a estratégia…

O gambá, a vassoura, um saco plástico que ficou fedendo a gambá - e a bagunça generalizada.

O gambá, a vassoura, um saco plástico que ficou fedendo a gambá – e a bagunça generalizada.

E correu pelo quintal (os gatos só assistindo)

Depois de correr pelo quintal, muito p da vida ao ser capturado por Estevão, após se agarrar pelo rabo em uma gaiola vazia.

Depois de correr pelo quintal, muito p da vida ao ser capturado por Estevão, após se agarrar pelo rabo em uma gaiola vazia.

 

No fim, quando Estevão finalmente pegou o bichinho, vimos que estava bem machucado, uma orelha quase cortada pelos gatos, mas nada muito sério.

Antes de ser colocado no seu devido lugar

Antes de ser colocado no seu devido lugar

Para evitar maiores estresses, Estevão o levou para a mata que fica no fim da nossa rua. Aqui, com gatos e cachorros, o destino dele era certo.

Enfim, nada como um comitê de boas vindas para me lembrar que a minha vida nunca é pacata e tranquila! 😀

 

 

Adeus Ano Novo, feliz Ano Velho… não, pera!

Fim do ano no calendário oficial do mundo ocidental. E o que você fez?

Aposto que um monte de coisas. Algumas, super-úteis para a humanidade. A maioria nem tanto.

Também poderia apostar a minha alma imortal que teve um outro monte de coisas que você não fez. Algumas, você realmente deveria ter feito. A maioria, nem tanto.

E com certeza quase absoluta, aposto que muitas coisas estão sendo planejadas para 2014. Algumas, bem possíveis de ser realizadas. A maioria, nem sonhando.

Isso não pode te impedir de tentar. Nunca.

Então, que em 2014 você tente. Tente muitas coisas. Algumas, você vai conseguir realizar. A maioria, eu acho dificil.

Mas o saldo vai ser sempre positivo. 😉

Feliz … bem… ahn… Ah, boas festas para todos!

Olha:

Coisa mais chata essa de ateus, pagãos e anti-cristãos em geral de responderem a um ‘Feliz Natal’ com ‘Ah, eu não comemoro Natal porque (um monte de motivos relevantes, mas que não justificam a grosseria)’ ou a um ‘Feliz Ano Novo’ com ‘Ah não sigo o calendário cristão por (mais motivos relevantes que continuam não justificando a falta de educação)’.

O nome não importa. Ao falar ‘Feliz Natal’, a pessoa está desejando coisas boas. Deixemos religião de lado e nos foquemos nos sentimentos, pois estes são os que valem. Ao invés de responder com grosseria, fale um ‘Boas festas para você também’ – e isso vale principalmente para os pagãos, afinal nós ADORAMOS uma festa, não é?

Então, a todos:

Boas Festas e que o ano seja bom. Mesmo que ele não comece agora para alguns de nós!

natal2014

 

E porque eu ainda sonho com um Natal branco:

Onde você escolhe seus livros? E onde você os compra?

O site da revista canadense Maclean comenta sobre um fenômeno intrigante nestes tempos de Amazon.com e GoodReads.

A matéria fala, claro, de exemplos do mundo anglófono e europeu, mas serve para refletirmos sobre o mundo ao nosso redor.

Apesar de toda a tecnologia, as pessoas continuam indo às livrarias. Não mais para comprarem seus livros, mas para escolherem as próximas aquisições, que serão feitas via internet, onde os descontos são melhores, inclusive com frete grátis e/ou entrega expressa. Ou seja, elas consultam o acervo da loja, pedem orientações ao livreiro, mas sem consumir. Usam serviços essenciais, que não tem equivalente no mundo digital – pois resenhas até são úteis se você sabe o que você quer, porém o vendedor serve de guia quando tudo o que você tem é uma vaga ideia.

Isso gera uma situação inusitada no mercado. É interessante ter o livro exposto nas livrarias, que se tornam grandes vitrines. Eu mesma tenho esse hábito de vasculhar prateleiras em busca de novidades – e pelo que tenho visto nas grandes e pequenas livrarias pelas quais tenho passado, não estou sozinha. Porém, esses lugares estão se tornando cada vez mais raros – e isso se torna ainda mais grave se falarmos das pequenas livrarias independentes, sem serem de grandes cadeias, e que geralmente tem um atendimento melhor e mais dedicado.

Isso justamente porque elas tem tido vendas e lucros cada vez menores. As grandes redes trabalham com a quantidade – mesmo dando grandes descontos no preço de capa, seus volumes de venda acabam lhe dando rentabilidade.

As pequenas não tem esse poder e acabam perdendo.

O que fazer para mudar isso?

Bom, uma das saídas das pequenas livrarias é diversificar. Vendendo outros itens além de livros – como memorabilias literárias ou de cinema, enfeites relacionados, itens de papelaria – e tornando-se pontos de encontro, seja através de cafés/bares, seja se tornando um espaço para eventos, como lançamentos, clubes do livro, palestras, cursos e etc.

E claro, nós, admiradores de livrarias acolhedores, daquele ambiente cheio de páginas, temos o dever de pensar se não vale a pena às vezes pagar um pouco mais caro e levar o livro para casa na hora.

Seu Leo

Seu Leopoldo não acessa internet, mas usa o GoogleMaps para rever a aldeia em que nasceu.

E ele parou de dirigir para não dormir mais quando o sinal fechava.

Ele sabe o nome de todos os reis de todas as dinastias portuguesas – menos dos Habsburgos, aqueles usurpadores desleais. Nem por isso, ele considera o Prior do Crato na lista.

E conhece melhor que o próprio o trajeto de Vasco da Gama até as Índias. E do C.R. Vasco da Gama, da fundação à afundação e de volta.

Não joga nada, mas foi presidente do Capri F.C. e ganhou um campeonato de pelada.

Sempre tem resposta para tudo. Anti-PT de carteirinha, entrou em histeria ao deixar a filha mais velha na faculdade de História. O prédio exibia, orgulhoso, uma faixa do C.A. dizendo ‘Todo o apoio às FARCs’.

Nunca teve muita paciência, mas escovava o cabelo das filhas 100 vezes antes de as colocar para dormir. E sempre as escutava, mas quando o Vasco estava jogando, elas pediam R$ 10,00 e ganhavam R$ 50,00.

Ele sempre foi muita coisa, mas mais que tudo, ele foi meu pai.

Né, seu Leo?

 

capri

Ele é o de jaqueta. Muito chique.

Aos meninos do Rio

Meninos que estiveram nas ruas do centro do Rio, fazendo aquela festa linda na Cinelândia e chegaram em casa para verem atônitos as cenas de depredação na ALERJ.

Bem-vindos ao maravilhoso mundo do ativismo político. É, é assim mesmo, é foda e é revoltante. Você vai, com a cabeça erguida e a consciência tranquila, impede aquele mané do seu lado de virar uma lixeira, grita ‘Sem violência’, não hostiliza o policial, canta, tira foto e se emociona. Aí vem aquela meia dúzia de militantes que precisam aparecer para as direções dos seus partidos/movimentos, em conjunto com uma policia totalmente despreparada para manifestações, para fazer ‘baderna’, depredar patrimônio histórico, queimar carros de trabalhadores… e roubar os holofotes que de direito deveriam ser da festa linda que vocês, Manifestantes, fizeram.

Então peço que vocês não desanimem. Esse pessoal é minoria e faz isso há muito tempo. Fazia quando eu era estudante, fazia antes de mim e vai continuar fazendo quando for a vez do meu filho ir as ruas.

Mas vocês são maiores que tudo isso. Vocês fizeram o Brasil ficar gigante e maravilharam essa historiadora aqui, que está vendo a história ser moldada pelas mãos de vocês. Não parem, não desistam, continuem.

Na próxima, eu vou estar lá com vocês. Obrigada pela esperança que vocês me devolveram.

Vamos pra rua.