O desprezo pelo leitor

 

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Ontem, circulou nas redes sociais um link sobre uma mesa da FLIP onde um escritor e professor da UFRJ dizia não se importar com o leitor. Nas suas palavras, “o leitor que se foda” – o que interessa na sua literatura para ele é a sua satisfação como artista.

A posição dele, claro, é muito cômoda para dizer isso. Professor universitário, premiado, presença constante em eventos e festas importantes (e que pagam cachês). Eu poderia também contrargumentar os conceitos dele de alta literatura – sim, ele usa esse conceito – e de como sempre pensamos em um leitor.

Mas tudo bem. Nossos caminhos literários e editoriais são completamente separados, embora eu tenha lido alguns dos seus trabalhos (ou seja, em relação ao autor sou no máximo leitora e tenho mais é que me fuder mesmo). Ele irá continuar se importando com o prazer estético da criação artística. Eu vou continuar escrevendo pensando em como provocar meu leitor com a história que estou contando. O caso é que, enquanto eu respeito a posição dele, me parece que ele não respeita a minha.

Enfim.

O que me preocupa e provocou esse texto é a quantidade de escritores de literatura de entretenimento (seja Fantasia, Ficção Científica, Romance, Erótico, Mistério, Suspense, Terror, ‘Chick Lit’, etc) que tentam medir, controlar e criticar o comportamento do leitor.

Eu acho que falta às vezes consciência do papel de cada um de nós nessa indústria vital. O leitor lê – consome o produto que escritores e editores colocam em livrarias. (Sim, incluindo o livro de quem quer que o leitor se foda. É produto, tem código de barras e vende a prazo no cartão de crédito. Deal with it)

Ele não é obrigado a ler o seu livro.

Ele não é obrigado a resenhar no Skoob/Goodreads e dar estrelinhas.

Também não é obrigado a gostar de literatura nacional. Ou de livro erótico. Ou  de Fantasia.

Leitor só é obrigado a ler quando está na escola/faculdade e a leitura vale nota.

“Mas o leitor tem que respeitar o trabalho do escritor.”

O que é respeito ao seu trabalho?

Comprar seu livro quando quer ler e ele não está disponível de graça legalmente. Acho que não há muito mais que isso. Ele pode queimar seu livro, rasgá-lo, usá-lo como papel higiênico… É dele. Pode xingar seu livro na internet – sim, pode dizer que ele é uma merda. É direito dele.

(Claro, há o limite do bom senso e da educação, mas esse é um outro ponto).

Amigos, em resumo: não encha o saco do leitor.

Não cobre que ele leia mais. Incentive-o a ler mais.

Não exija que ele dê estrelinhas no Skoob ou no GoodReads ou no mural da escola. Escreva bem o bastante para que ele sinta vontade de fazer isso por si mesmo.

Não reclame se ele não lê o gênero A, B ou C – mesmo que seja isso que você escreva. Uma das maravilhas da sociedade editorial moderna é que você sempre vai conseguir encontrar seu nicho, por menor que seja. Deixa o leitor X ler o que ele quer. O leitor Y vai ler o seu trabalho. E se ele for muito bom, ele pode até convencer o leitor X a ler também, quem sabe?

Não peça resenhas. Não implique com as resenhas negativas.

O leitor não é burro. Não é inculto, preguiçoso, irresponsável ou desrespeitoso.

Ele é um leitor.

Pode não ser o seu leitor.

Mas ele merece respeito e ler em paz.

Sobre talkativebookworm
Eu trabalho numa biblioteca. Estudo História. Escrevo. Leio. Traduzo. Uma traça que fala, basicamente.

2 Responses to O desprezo pelo leitor

  1. Oi, Ana
    Então eu me peguei pensando nas coisas que o Bernardo de Carvalho afirmou nesta mesa da Flip. Fiquei P… pois há um pouco mais de um ano fiz uma pós em Literatura não sei se comentei com você e um dos livros da leitura obrigatória de uma das disciplinas que cursei era “O filho da mãe” do dito autor. Nunca tinha lido nada dele e o trabalho principal era justamente discutir o papel do leitor diante da leitura que ele faz dos livros e Bernardo de Carvalho foi um dos indicados como um possível escritor para incentivar a este leitor a um pensamento mais subjetivo, a talvez uma leitura mais “refinada”.O que me estressou profundamente da fala deste senhor como leitora e principalmente como estudiosa de literatura foi sua total falta de respeito para com aquele que vai colocar o livro dele nas listas dos mais vendidos.

    É o leitor quem paga para ele ganhar um jabuti, é o leitor aquele que financia suas viagens mirabolantes para simplesmente escrever um livro que não dá em nada, e finalmente dentre tantas outras coisas é o leitor que vai permitir que em um futuro próximo quando ele estiver aposentado que ele tenha uma vida digna e mais tranquila que a maioria de seus leitores. Não vou cair no vazio, mas é profudamente triste, para você que luta com um incentivo maior para a leitura, ouvir isso de um escritor que tem o displante de dizer que está inserido na “Alta literatura”.

    • É triste mesmo. E acho que é ainda pior se pensarmos que o autor no caso é um professor universitário, que forma pensadores e professores que irão reproduzir esse pensamento preconceituoso e elitista.

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