[O que eu recomendo] Nine Princes in Amber, de Roger Zelazny

Existem livros que alteram a sua concepção de vida, mudando a forma de ver o mundo. E aqueles que fazem você visualizar literatura como arte de uma forma irrefutável. O problema é que, por causa de certo preconceito, o senso comum geralmente procura essas obras nos grandes clássicos ou nas obras premiadas da literatura contemporânea.

Não que isso não aconteça – A cor purpura, de Alice Walker, e Raízes, de Alex Haley, foram livros que me deixaram em choque por semanas. Porém, com meu amor pelo fantástico, muitos dos livros que tiveram esse impacto em mim são de literatura fantástica. Dos vinte livros mais importantes da minha vida, com certeza mais da metade são de Fantasia ou de Ficção Científica.

E um deles, com certeza, é o primeiro volume da série ‘Chronicles of Amber’ de Roger Zelazny, Nine Princes in Amber.

Pouco conhecido por aqui, Zelazny é um dos grandes nomes da fantasia mundial, ganhador de vários prêmios e autor de algumas das maiores obras do gênero, como Lord of Light e a série de ‘Amber’, que tem dois ciclos de cinco livros cada.

E foi o primeiro livro de toda a série que está naquela lista de vinte livros mais importantes da minha vida. Um dos fatores foi o estilo. Nine Princes in Amber não deve nada, na força da sua escrita e da sua narrativa, aos grandes clássicos da literatura do século XX. O autor nos conduz por uma trama intricada construindo imagens e cenas fortes e dramáticas, daquelas que se prendem na sua memória por anos.

(Possíveis spoilers a frente, apesar de estar em todas sinopses do livro)

A história é de Corwin, um dos nove príncipes do título, possível herdeiro de seu pai, Oberon, no trono de Amber -o único reino verdadeiro, do qual todos os demais são sombras. Porém, sua história está incompleta, pois ele começa o livro acordando em um hospital de Nova Iorque sem memórias – e irá recuperá-las de forma fragmentada e não linear. O narrador acompanha essa sua confusão mental, só nos revelando o que Corwin vai descobrindo.

Zelazny usava influências de mitologias diversas em várias de suas obras, e em ‘Amber’ é possível ver traços celtas, arturianos e, com muita força, das obras de Shakespeare, principalmente de Hamlet – a vontade de poder de Corwin tem ecos fortíssimos do príncipe da Dinamarca – e de Sonhos de uma noite de verão.

A trama política entre os nove príncipes, a sensação de que tem algo em suspenso que ainda não se revelou, a forma de viagem entre essas realidades irreais e a de Amber (que é ‘caminhar entre as sombras’, sendo que as ‘sombras’ seriam justamente esses mundos que não são tão verdadeiros), e as dimensões absurdas desse multiverso infinito até hoje são grandes influências para mim e para o que eu escrevo. Não é a toa que no Atlas Ageográfico de Lugares Imaginados a trama gira em torno de memórias perdidas que são recuperadas ao se caminhar. E sim, há toda essa questão de muitas realidades e universos, que vivem sob uma ameaça ainda não vista totalmente.

E nessa influência, estou muito bem acompanhada. Neil Gaiman tem uma admiração fortíssima pela obra de Zelazny, principalmente dessa série, assim como G. R. R. Martin.

“Ana, você acha que essa obra sai no Brasil?”

Ah, como eu queria, né? Que saísse e fosse um sucesso estrondoso para que eu colocasse na capa do Atlas: “Uma trama emocionante, comparável à Nove Príncipes em Amber de Roger Zelazny.” (modesta a beça, eu sei.)

Mas acho difícil. É uma série antiga e as editoras estão apostando pouco em grandes clássicos da fantasia – principalmente depois do fechamento da Saída de Emergência Brasil. Porém, finalmente os livros de Zelazny estão saindo em formato eletrônico na Amazon e os 3 primeiros da série já estão disponíveis. Vou comprar os três, para poder reler os dois primeiros e finalmente conseguir ler o terceiro – para ficar ansiosa esperando os demais.

 

 

[O que estou fazendo] ‘O Atlas ageográfico de lugares imaginados’ finalmente tem uma primeira versão

Sim, isso mesmo.

Finalmente consegui terminar um romance – no momento, estamos no começo da primeira revisão e com 85 mil palavras. É uma sensação estranha. Eu achei que terminar um romance iria me tornar uma pessoa diferente, mas só me deixou com fome e com sono, ou seja, do jeito que sempre estou.

Muitas pessoas tem me feito algumas perguntas sobre o Atlas e reparei que, apesar de falar muito sobre ele nas redes sociais, raramente eu o defino ou o explico.

Então, vamos ao FAQ:

1 – O que é o ‘O Atlas ageográfico de lugares imaginados’?

É um romance de literatura especulativa. E também um livro ficcional que aparece nesse romance.

2 –  É fantasia?

Mais ou menos. O Atlas trata de assuntos  como memória, lembrança e autoconhecimento, em um cenário especulativo que tem muito de fantasia (deuses, magia, seres estranhos) como de FC (viagens interdimensionais, multiversos, realidades paralelas).

3 – De onde veio a ideia?

De várias coisas.

De dois contos que escrevi de Fantasia Urbana. Da vontade de fazer algo que se ligasse de forma indireta ao Ladrão-de-Sonhos. De explorar uma estrutura de romance diferente.

E de um desafio que eu me autolancei ao dizer ao estagiário que um dia escreveria um romance sobre aquela música do America, ‘Horse with no name’.

4 – Vai sair quando e por qual editora?

Não sei x2.

O livro ainda não está pronto. Ele foi escrito, mas falta muito prele chegar ao ponto de ser publicado. Só quando chegar nesse ponto é que vamos procurar uma casa. Ele não deve sair pela Aquário, pois na editora não estamos querendo publicar romances, mas de resto tudo pode acontecer.

5 – Afinal, sobre o que é?

A sinopse atual é essa:

Um deserto que existe, apesar de ser impossível, entre tempos e dimensões.

Um homem-morcego que carrega sozinho a dor de ter perdido seu mundo, e que não pode compartilhar essas lembranças.

Uma jovem cuja única pista para seu passado é um livro em branco.

Um rei exilado pelos demônios que comprou para se tornar mais poderoso.

Um cavalo sem nome.

Uma criatura que aparece e reaparece, sempre com um desafio.

Um universo multiplanar ameaçado.

Três dias de jornada em busca de respostas e lembranças, enfrentando obstáculos invocados por três entidades misteriosas.

Mas também posso dizer que é sobre uma moça sem memória, um homem-morcego, uma estátua dourada que se mexe, um cavalo e um deserto no qual eles foram parar sem saber bem porquê. E sobre cidades obliteradas, memórias trancadas, lembranças perdidas, amores desencontrados, viagens transdimensionais… e um Viajante que sabe mais do que os outros.

Ou seja: anos de trabalho, 85 mil palavras e eu não sei bem como responder sobre o que é esse livro.

Mas pelo menos ele existe:

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Inclusive em uma única e exclusiva cópia física – a única que jamais haverá dessa versão – já entregue às mãos do meu-melhor-amigo-e-grande-apoiador:

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(Sim, foi com um morceguinho desses incluso)

Livros, livros, livros! Conheçam Anacrônicas – contos mágicos e trágicos

Dia mundial dos livros!

(Segundo diversos posts nas redes sociais! Se não for, tudo bem, aqui em casa todo dia é dia de livro!)

Cinco anos se passaram, muitos contos foram publicados e finalmente resolvei juntar meus continhos novos (além de antigos favoritos) em um novo volume de Anacrônicas. Ao contrário do primeiro, esse vem apenas com contos de fantasia. Mas também tem uma ilustração por conto, feitas – assim como a capa – pelo meu marido e editor (sim, a Aquário é nossa!) Estevão Ribeiro.

Você pode comprar direto comigo – e levar autografado – ou esperar um pouco, pois o livro chega nas livrarias em maio.

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A lista de contos escolhidos:

O mapa para a Terra das Fadas

Anacrônicas, 2009

Campeonato de beijar sapos

Crônicas da Fantasia, 2012

Deus embaralha, o Destino corta

Anacrônicas, 2009

Queda e paz

A Casa do Escudo Azul

Anacrônicas, 2009

A morte do Temerário

Espelhos Irreais, 2009

Lenda do Deserto

Anacrônicas, 2009

Mudanças

A princesa de toda a dor

Anacrônicas, 2009

A vila na areia

Como nos tornamos fogo

Anacrônicas, 2009

Viagem à terra das ilusões perdidas

Anacrônicas, 2009

Maria e a fada

Imaginários 3, 2010

O Ladrão-de-Sonhos

Fábrica dos Sonhos, 2014

Sono de beleza

Quotidianos, 2014

O eremita

Anacrônicas, 2009

Carta a monsenhor

Paradigmas 2, 2009

O longo caminho de volta

Cidades Indizíveis, 2011

Vida na estante

Anacrônicas, 2009

A menina do Val de Grifos

Bestiário, 2012

Os olhos de Joana

Anacrônicas, 2009

O ensurdecedor silêncio dos deuses

Arte e Letra, 2014

“É tarde!”

Anacrônicas, 2009

A dama de Shalott

Anacrônicas, 2009

Coloquei no Pinterest algumas fotos e ilustrações do livro. 🙂

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A cara a tapa. E o traseiro na janela.

Povo bonito, uma dica sincera sobre algo que eu venho sentido faz tempos. Sei que muita gente que me acompanha é escritor, ou quer ser.

Hoje, resolvi dar minha contribuição pro dia internacional da mulher – que é amanhã – colocando no ar uma lista de trabalhos disponíveis online e gratuitamente de nossas escritoras fantásticas. Passei umas duas horas pescando na internet e o resultado está aqui.  Queria ter colocado contos de todas as autoras que citei na lista principal do meu post anterior. Mas foi bem complicado encontrar material de algumas, principalmente porque estava com tempo curto e não podia ficar procurando muito.

Senti falta da profusão de sites para contos  – ou mesmo de uma melhor organização dos blogs e sites pessoais que facilitasse o trabalho de quem tem interessem em encontrar esses trabalhos. Moleza foi encontrar vários contos e trabalhos curtos na Amazon, sempre muito baratos… mas pagos.

Gente, eu sei que a Amazon é um lugar bacana pra tentar ganhar um troco com nossos trabalhos mais curtos. Porém, vocês não podem esquecer de que web é principalmente a nossa vitrine, ainda mais para quem está começando, é indie ou trabalha com pequenas tiragens. Se você não coloca o seu trabalho a disposição das pessoas, como elas vão conhecer tudo o que você é capaz? Mesmo que seu conto lá esteja o mais barato que a Amazon deixa, se a pessoa não sabe quem você é e não tem ideia se gosta ou não do que você escreve, por que ela iria gastar seus tostões com você?

Vocês já pararam para se perguntar como eu, que tenho apenas um livro solo de contos, consegui meu lugar ao sol (que é pequeno, mas é limpinho)? Não foi com as coletâneas, pois acho que das muitas em que participei, só duas ou três devem ter batido os 1000 exemplares vendidos. Foi a minha atuação online, e não só com a ironia e acidez que me é peculiar! Tem um monte de trabalhos meus online por aí (aqui, eu listei uma parte dos que estão fora do blog. Os que estão publicados aqui, tem sua própria categoria – e fica a sugestão dessa organização para quem tem material online!)

Quando eu comecei, todo o escritor novato colocava contos online – em seus blogs, no blog dos outros, onde desse. Hoje, está mas difícil ver esse material para poder conhecer um pouco mais do trabalho de quem começou agora. O pessoal tem preferido colocar em antologias ou jogar na Amazon, mas isso atrapalha a descoberta.

Escritores fantásticos do Brasil, coloquem a cara a tapa e a bunda na janela virtual! Usem as ferramentas que temos – existem várias espalhadas por aí.

11 Escritoras fantásticas brasileiras que você precisa conhecer

Por causa de alguns comentários desagradáveis, retirei a caixa de comentários deste post. A lista, como expliquei antes, é pessoal, completamente subjetiva e parcial. Não tem a pretensão de ser uma lista indiscutível de melhores escritores, ou uma relação completa. São as que EU acho que as pessoas devem conhecer.

Então, ano passado, eu levantei um ponto quando do nerdcast sobre literatura fantástica: existem mulheres escrevendo literatura fantástica no Brasil. Sendo bem sucedidas, publicando em editoras médias e grandes, sendo adotadas em escolas – mas que o público nerd/ do fandom tente a ignorar por causa de nomes mais ”vistosos”.

Fiz uma lista no twitter na época, mas hoje a Gizelli Souza me pediu a lista de novo. Para ficar aqui de futura referência – já que conseguir achar coisas no twitter é impossível, uma breve listagem de autoras cujo trabalho eu conheço, gosto e recomendo.

Ou seja, essa lista é baseada em gosto pessoal, não tem a pretensão de ser uma lista completa e extensa. Se você sentiu falta de alguma escritora, que tal fazer a sua própria lista? 😉

Então, eis a minha seleção! 🙂

Alliah – escritora de new weird, ilustradora, ciberativista e fangirl. Mais sobre ela e seus trabalhos.

Ana Flávia Abreu – autora da série ‘Kôra’, a qual eu tive o prazer de editar o 2o volume (e estou aguardando o 3o ansiosa!)

Bárbara Morais – o primeiro livro da Bárbara, ‘A ilha dos dissidentes’, saiu pela Gutenberg e é uma distopia voltada para o público jovem. Recebeu o selo ‘Miguel aprova’ aqui em casa.

Carolina Munhoz – a rainha das fadas. Em se pensando em venda direta (em livrarias e etc), é a mais bem sucedida dessa lista. Está para estrear na Rocco.

Finísia Fidelli – uma das melhores contistas da Ficção Científica nacional. Devia publicar mais.

Flávia Cortes – essa moça querida escreve para jovens e crianças com delicadeza narrativa e poesia. Adorei o seu ‘Senhora das Névoas’.

Giulia Moon – a senhora dos vampiros. A série ‘Kaori’, lançada pela Giz, consolidou o lugar da Giulia na literatura nacional, que ela já merecia por seus contos vampirescos.

Lídia Zuin – raridade, a Lídia escreve cyberpunk (pós? retro? afff, é cyberpunk e ponto)

Martha Argel – a dama dos vampiros. As histórias de Clara e Lucila são imperdíveis para quem curte os sanguessugas.

Nikellen Witter – “Territórios Invisíveis” é um dos melhores livros para jovens que já li.

Roberta Spindler – essa moça promete. Li alguns contos dela e gostei muito!

(Sim, tem outras, como Kamille Girão, Helena Gomes, Cristina Lasaitis, Camila Fernandes, Natália Azevedo, Rosana Rios, Ana Lúcia Merege, Celly Borges, Carol Chiovatto, Suzy Hekamiah, Maria Cláudia Muller, Adriana Rodrigues e várias outras. Mas onze já fazem um time!)

Oficina de Escrita Fantástica

Então, pessoas, a partir de setembro estarei com uma oficina para ajudar quem quer começar no mundo da literatura fantástica. Muita gente tem me perguntado sobre o conteúdo, então vou disponibilizar aqui. As inscrições podem – e devem ser – feitas diretamente com a Impacto Quadrinhos, telefone 2471 9547, ou diretamente na escola que fica na Rua General Polidoro, 10, Botafogo.

(Dia e horário: todas as 4as, das 18:30 às 20:30 – quem tiver interesse, mas não puder nesse horário, ligue para a Impacto. Se houver procura, podemos abrir outra turma)

Muita gente tem pedido/perguntado sobre algo parecido em outras cidades ou um curso virtual. Uma oficina dessas em outros lugares não é de todo inviável, mas o custo aumenta um pouco por causa da minha passagem. E em formato virtual, tenho que pensar em como seria a estrutura. Se alguém tiver interesse em alguma dessas duas formas, deixa o contato aqui, sim?

A oficina mostra o processo de criação de histórias dentro da literatura fantástica (Ficção Científica, Terror e Fantasia, principalmente), desde a ideia até o texto pronto, seja conto, noveleta, novela ou romance. Durante o primeiro módulo serão apresentadas diversas fórmulas e teorias da criação, como a Jornada do Herói, e suas aplicações práticas, além de exercícios destinados a fornecer ferramentas de aprimoramento. O curso é indicado para escritores iniciantes ou escritores já experiente, mas interessados em conhecer mais sobre a literatura fantástica e sua práticas.

Módulo I – 1 semestre – até 15 alunos
Literatura fantástica, teoria e prática. Definições, formatos, autores, movimentos, personagens, tramas e worldbuilding.

Composição:
Aulas expositivas, teóricas e práticas, tarefas de casa (leitura e produção de textos).

Conteúdo:
– Literatura fantástica: definições
– Breve história da literatura fantástica no mundo e no Brasil
– Contos, noveletas, novelas, romance: diferenças, utilidade e visão prática.
– Fontes: da mitologia à física quântica. Pesquisa e literatura fantástica
– Nos ombros de gigantes: o problema da originalidade
– Começando: story line, argumento, estruturas e sinopse
– A Jornada do Herói e suas variações
– Worldbuilding
– Tramas, conflitos e desenvolvimentos
– O diálogo
– Pontos de vista e narradores diferenciados
– Personagens
– Dicas e truques
– O ponto final: descobrindo onde e quando parar
– Escrevi, e agora? O caminho do texto até os leitores
– Como apresentar seu projeto – Vias de publicação

Módulo II – 1 semestre – até 15 alunos
Produção assistida de uma história de literatura fantástica até 50 mil palavras (alternativamente, pode ser combinado o acompanhamento de várias histórias, que no total não ultrapassem as 50 mil palavras). Acompanhamento desde a ideia até o texto final via chat, e-mail, videoconferência e 2 horas presenciais por mês. O atendimento ao aluno é individual.

Obs.: no ato da matrícula é assinado um termo de confidencialidade professor/aluno.

O que vem por aí – Fantasticon 2011

Como já é costumeiro nessa época do ano, vem aí a 5a Fantasticon!

/todoscomemora

E como também é costumeiro, estarei lá!

/acontabancáriachora

Sim, porque além de palestras, mesas redondas, oficinas e etcs, a Moonshadows monta a melhor loja de literatura fantástica do Brasil durante o evento, com lançamentos e raridades!

E dessa vez, eu irei ajudar a esvaziar a carteira de vocês. Estou participando de três coletâneas lançadas lá, além de dois livros editados por mim – sem contar os outros livros dos quais participei, que também estarão a venda!

Até sexta-feira, irei postar sobre esses lançamentos.

Hoje, vou chamar vocês para a mesa-redonda/bate-papo que vai acontecer no sábado, dia 13, sobre História e Literatura Fantástica. Estarei lá falando das minhas duas grandes paixões profissionais, ao lado de Max Mallmann, Christopher Kastensmidt e Roberto Causo. Por juntar pessoas com vivências e formações bem diferenciadas, que escrevem usando a História como ferramenta cada um ao seu jeito, vai ser muito bacana.

Como todo o evento, o bate-papo é gratuito. A distribuição de senhas começa uma hora antes. E vale a pena conferir toda a programação – que está aqui.

Quem quiser me encontrar por lá, estarei nos três dias. Espero vocês por lá!

Queda e Paz

(Esse conto ficou de fora de AnaCrônicas por destoar dos outros…)

 

“E o abismo olhou de volta. Sorriu e te chamou. O que fazer, senão abrir os braços e lançar-se na escuridão que sussurra teu nome? A sensação de frio percorreu os teus membros, quase congelando o corpo inerte, entregue às forças da gravidade. A tudo esquecias, enquanto a vertigem escura te envolvia em braços de sombra gélida.

De quase tudo. Pois ainda havia lembranças.

As serpentes dos braços dela, que procuraste em tua paixão insana, nunca te pareceram tão acolhedoras. O castanho da cor de folhas caídas no chão outonal, que surgia em pequenas poças de claridade nas paredes abissais, só trazia os olhos dela à tua lembrança.

Não é possível para um anjo apaixonar-se. Disseram.

Erraram.

Mesmo que te apaixones, a escolhida jamais poderá te ver. Explicaram.

Mentiram para ti.

E se te vir, serás tão estranho que nunca conseguirá deixar os preconceitos de lado e amar-te de volta. Justificaram.

Tentaram demover-te.

Fascinado pela mulher-serpente, aceitaste o banimento eterno.

E pela noite única em que finalmente adquiristes carne e espírito, unidos em um só, o preço a pagar era este: tornar-se mais uma das estrelas cadentes a adentrar os domínios do Primogênito.

O Abismo cantou sua maldição, tu olhaste de volta. Foi o prenúncio da tua queda.

O pacto feito, a dor que selava a consumação da carne. Tua. Matéria. A alma que era somente luz e essência transfigurou-se. E seguindo o exemplo do Segundo Filho, que encarnou por amor aos pequenos seres de matéria, tu deixaste de ser fogo, água, ar e terra. Abandonou a casa dos elementos, o lar das hostes angélicas.

Tudo por ter vislumbrado um sorriso, um pequeno momento congelado de alegria. A energia concentrada que eras contraiu-se, em um espasmo mistura de dor e prazer. Era como se o calor daqueles olhos derretesse a parte de ti que era feita de gelo.

E de fogo, viraste carne e sangue, pronto a consumar teu desejo absurdo. Sentiste o impacto do teu corpo no ar, a sensação de teu peso, de estar preso, de pisar o solo e ao mesmo tempo perder o chão.

De todas as direções possíveis, conseguiste escolher a única certa para seguir. E assim tu, um dos filhos diletos, parte dos exércitos divinos, rumou feliz em direção à própria ruína.

De todas as mulheres que poderias escolher, porque aquela? Porque a rainha das Serpentes da Cidade Proibida? Porque não uma das muitas princesas que seguiam o teu Deus? Qualquer uma delas ficaria mais do que satisfeita em ser tua companhia, mesmo que por um curto instante.

Mas foi ela, a sacerdotisa do Deus Serpente, que chamou a tua atenção. Preso ao encanto daqueles olhos castanhos, não havia escapatória possível para ti…

Não mais.

Não houve anunciações ou apresentações. Ela sabia quem eras e porque tinhas vindo. Por breves segundos suspensos, só ouviste tua própria respiração sibilante, preso ao desejo. Enquanto ela te fitava em silêncio, tentando compreender a ti e aos teus motivos.

Expressão de enigma vivo, nem um pequeno movimento em sua face denunciava qualquer emoção. Linda, majestosa, terrível, ficaste na dúvida se era por ela que tinhas caído.

Até que o sorriso aflorou, o mesmo que tu presenciaras. Não há como entender os mistérios que recobrem os caminhos que Deus designa aos homens e aos anjos… nem mesmo estes últimos, que se julgam tão próximos do divino.

E ela estendeu-te os braços, de serpentes tatuadas de cima a baixo. Aliviado pelo fim de tua busca, tu te arremessaste. Só para cair desamparado no chão, enquanto a figura da sacerdotisa esfumaçava-se no desfazer de uma ilusão.

A gargalhada de triunfo ressoou por todo o templo do Deus Serpente. Os olhos castanhos da sacerdotisa brilhavam malignamente. E eis que ela pronunciou as palavras que selariam teu destino.

‘Pois então, pequeno anjo, porque achas que uma serpente seria verdadeira e te acolheria com doçura? Não sabes que é da nossa natureza atacar e matar?’

E nesse exato momento, o Abismo abriu-se aos teus pés e olhou em teus olhos. E assim terminou a tua queda.”

 

A face ensangüentada e queimada do anjo ergueu-se.

– Por que repetir a história da minha ruína?

O Primeiro, aquele que foi antes de tudo e todos, olhou-o intensamente. Se isso fosse possível, dir-se-ia que quase contristado. Quando finalmente respondeu, sua voz tinha um estranho misto de ironia, curiosidade e tristeza.

– Queria saber por que, mesmo assim, tu não a tiras da cabeça? Por que ainda és assombrado pelo sorriso dela?

– Pelo instante em que ela me sorriu de volta, eu cairia quantas vezes fossem necessárias.

Conto estranho de Ano Novo

Todas as coisas ruins deveriam acabar no último minuto do ano, para que o Ano Novo trouxesse novidades boas e felicidade. Era nisso que Ana Clara acreditava. E fora pensando nisso que, correndo o risco de tomar uma surra imensa, pegara uma das armas do padrasto, policial militar.
Respirou fundo, pensando bem nos passos do seu plano para começar bem o ano. Iria finalmente libertar-se dos socos, das cintadas… e das mãos sujas do padrasto. Neusa, a mãe, ignorava tudo isso, trabalhava demais e tinha mais dois filhos para cuidar. A tristeza silenciosa da mais velha significava pouco, quase nada, para ela, que passava os dias fora, cozinhando em um hotel da Zona Sul.
Esse ano, não iam assistir a queima dos fogos na Penha, pois o menorzinho estava com pneumonia. A mãe estava no quarto dos dois meninos, numa cama improvisada no chão, atenta a qualquer febre ou tosse. A ceia de Reveillon estava na mesa: frutas, frango assado, um tender, arroz. Ana Clara deveria esquentar a comida e servir o padrasto. E era o que a menina de quatorze anos pretendia fazer. Quando o velho estivesse na frente da tv, acompanhando a contagem em Copacabana, ela iria até o quarto, pegar o velho 38… Sabia que podia contar com os vizinhos, que estouravam os fogos sem respeitar o começo do ano. Mesmo agora, enquanto ainda passava o Jornal Nacional, o barulho estava quase insuportável.
Depois do velho morto, estendido no chão, Ana Clara ia pegar sua mochila e sumir. Daria um jeito de ir para a casa dos avós em Miracema e desaparecer no interior do estado, trabalhar onde desse, mudar de nome, de vida. Ano Novo, Vida Nova. A mãe e os irmãos ficariam melhor, sem o homem horrível assombrando suas vidas e com a pensão que a viúva ia receber.
Bateram na porta e ela teve um sobressalto. Só faltava ser uma das vizinhas, querendo fazer companhia à dona Neusa ou coisa do tipo. Não era. Uma completa desconhecida estava ali. Cabelo castanho claro, gorda, com mais de vinte com certeza. Usava óculos, um pouco tortos, e estava vestida de preto, apesar de todo o calor que fazia. Entreabriu a porta, certa de que era um engano, sentindo-se segura com a correntinha.
– Pois não?
– Oi, Ana Clara, tudo bem? Será que eu posso falar um instante com você?
– Desculpe, dona, não posso deixar você entrar. Não posso falar com desconhecidos…
– Ah, mas eu te conheço, Ana; e até sei o que você está escondendo debaixo da mochila no quarto.
O choque fez Ana Clara agir de forma automática, abriu a porta e guiou a moça até a sala. A estranha pediu um copo d’água e quando bebeu um gole, começou a falar.
– Nossa, que alívio. Calor absurdo… Bem, prazer em conhecer, Ana, meu nome é Ana Cristina e eu vim parar aqui para impedir você de estragar a sua vida.
Nada que Ana Clara falasse ia ser muito útil, então ela resolveu ficar quieta e escutar.
– Assim, eu estava escrevendo a sua história. Sim, hoje, 31 de dezembro… Parece meio ‘loser’, mas veja bem: estou tomando antibiótico, então nada de bebida. Meus pais, coitados, trabalharam o dia todo e dormem até dar 11:40, mais ou menos. O meu filho está brincando ‘brincadeiras de menino’, o que me exclui… – Ela cerrou os olhos, sinal de descontentamento – Ah, a única pessoa online com quem eu gosto de conversar está trabalhando e vi o tanto de tempo que demorou para aquele homem voltar a desenhar então… Resolvi escrever a sua história, uma história triste, pungente… Podia me dar mais água, por favor?
Aturdida, Ana Clara serviu mais um copo.
– Hum, bem gelada. As delícias do subúrbio… Sabe, eu sempre gostei mais da Zona Norte do Rio, o pessoal da Zona Sul é tão metido. Mas não troco Niterói pelo Rio. Voltando: a sua história era para ter uma fada ou um espírito bom desses qualquer, que ia bater em sua porta e lhe dizer como é bom viver, etc etc etc, você iria se comover, conversar com sua mãe e acreditar que a vida é mágica por causa disso. Mas, caramba! – e bateu com o copo na mesa, deixando Ana Clara preocupada. – Por que as coisas boas em uma história tem que acontecer por intermédio de um ser sobrenatural? Ah não! Aí, resolvi: eu vinha pessoalmente resolver o caso. Aliás, com licença.
Com passos decididos, ela foi até o quarto de Ana Clara, pegou a arma, sem sequer hesitar. Abriu o tambor e tirou as balas.
– Pronto, esse caso está resolvido. Quanto à senhorita, mocinha… Você parou para pensar na sua mãe? Em como ela ia ficar?
– Sim, eu…
– Não, não pensou, oras! È sua mãe e ia morrer de saudades e preocupação!
– Mas ela nem liga pra mim!
– Sem emice, menina! Claro que liga, mas você tem dois irmãos menores que não sabem se expressar direito. Ela espera que você, caso tenha algum problema, fale para que ela te ajude. E você, falou?
– Não…
– Mãe não é adivinha, guria. É duro perceber isso. Vai lá e conversa… ela está acordada por causa do Tonho.
– E meu padrasto?
O sorriso no rosto da mulher estranha gelou o coração de Ana Clara.
– Seu padrasto vai descobrir o porquê da minha fama de malvada. E duvido que moleste mais alguém por muito tempo.
E Ana Clara foi.
No dia seguinte, a mãe pediu divórcio, o que aumentou o escárnio geral, afinal o PM durão amanhecera amarrado em um poste, todo machucado, cheio de equimoses e com uma placa: ‘Na verdade, eu queria era ser transformista mas virei P.M.’

Para todos os leitores do Doces Pensantes, um 2008 sensacional!!!

Deus embaralha, o Destino corta

Eu duvido que Deus jogue dados com o Universo.

Mas falando sério, ao olhar a minha vida, eu tenho a impressão de que rola pelo menos um poquerzinho nos sábados à noite.

Mas nem é isso o que mais me irrita.

O pior de tudo é quando estou finalmente feliz e vem o Destino com aquela proposta.

– O dobro ou nada.
E é aí que eu vejo que Deus, além de não saber quando parar, tem um azar danado com cartas.