“Ai, adoro seu trabalho…”

“… queria poder ajudar!”

Queria? Ou quer?

Quer? OBA!

Então, senta aí que a tia vai te explicar como você pode ajudar seu autor preferido e pobre a ganhar algum dinheiro e continuar escrevendo!venda.jpg

– Compre o material dela!

Pode parecer meio óbvio, mas é sempre bom reforçar. Inclusive porque é comum pensar que depois que compra um exemplar, fez tudo o que podia.

Bem, você sempre pode… dar de presente! Sim, ao invés de roupa, perfume, hidratante, dê livro! E ainda reforce dizendo ‘adoro esse livro/ essa autora, espero que você goste’ e coloque uma dedicatória bacana.

Ah, e vá atrás de ebooks e coletâneas em que ela participe. Procure sempre comprar direto com ela, pois o lucro é maior e mais direto, mas se não for possível (quem assina com editora grande nem sempre tem exemplares para venda, por exemplo), compre assim mesmo!

– Apoie as iniciativas dele

Siga nas redes sociais. Acompanhe nos eventos. Compre os livros na pré-venda. Participe do financiamento coletivo. Apadrinhe se ele tiver um financiamento coletivo recorrente…

Pera. Bugou?

Existem financiamentos coletivos para ajudar empreendedores/produtores a colocar um projeto/produto em andamento, certo?

Existe uma outra modalidade, em que você é um apoiador mensal, apoiando aquele produtor para que ele continue fazendo arte, recebendo alguns mimos em troca – mas não necessariamente uma troca direta por um produto ou serviço.

(Por acaso, esta que vos fala está pensando em fazer o financiamento coletivo do seu próximo livro, mas já fez seu Padrim, um financiamento coletivo recorrente.)

“Ana, tô sem grana… como ajudo?”

– Divulgue!

Você tem um blog? Fale sobre o trabalho dele. Escreve prum site? Idem.

Está em redes sociais? Tire foto com o livro, faça montagens com trechos e frases. Dê estrelas no skoob, comente no Goodreads, faça auê por ele.

– Ajude a divulgar!

Compartilhe e curta o que o autor posta. As redes sociais estão diminuindo cada vez mais o alcance orgânico das postagens, pra obrigar os produtores de conteúdo a pagarem pela divulgação. Então quanto mais pessoas interagirem com o conteúdo, mais relevância ele ganha e mais ele aparece.

– Fale sobre o trabalho dele

Viu alguém pedindo indicação de livro? Sugira o dela.

Tem gente armando um festival literário na sua cidade? Que tal convidá-la?

Jornalista amigo precisando de pauta? Autores nacionais geralmente tem histórias bem interessantes para contar.

– E o mais importante: comente o trabalho dele.

Sério, gente, falo aqui de coração. Não há nada pior do que publicar alguma coisa e não receber nenhum feedback, principalmente quando você disponibiliza de graça na internet.

Leu, curtiu, gostou? Comenta. Tá sem tempo? Aquele ‘curti muito’, quando é de coração, vale ouro. E se dá para se alongar, fala o que você mais curtiu.

 

Gostou e quer ajudar a ter mais conteúdo no blog? Torne-se um padrim e tenha acesso a conteúdo exclusivo.

 

 

 

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[O que estou lendo] Duas lendas se encontram na Terra das oportunidades – resenha de Golem e o gênio, Helene Wecker

Criaturas encantadas são tema importante na literatura fantástica desde sempre. Muitas vezes como antagonistas ou como catalistas de situações, mais raramente como protagonistas. E poucas, muito poucas obras dentro das muitas que li conseguiram captar a estranheza de ser inumano tão bem quanto The Golem and the Jinni de Helene Wecker. Publicado em 2013, foi indicado um dos indicados ao Nebula desse ano. Apesar de alguns o colocarem como ‘Young Adult’, é uma obra para todas as idades, para todas as pessoas.

A história se passa no começo do século XX, em uma Nova Iorque cheia de vozes e povos diferentes, começando a tentar se entender. Nessa cacofonia, surgem duas criaturas, Chava, uma golem construída para ser a noiva perfeita, e Ahmad, um gênio – sim, daqueles que moram em lâmpadas e que teoricamente realizariam desejos. Apesar de aparentemente os dois terem papeis bem claros no mundo, as circunstâncias de suas vidas acabam sendo muito diferentes do previsto e os fazem ter trajetórias paralelas em uma cidade que fala muitas línguas e reza para muitos deuses.

São duas criaturas completamente deslocadas, que não entendem o que acontece ao seu redor, que sentem que não pertencem a esse mundo – ou a qualquer outro. A construção deles, da identidade e da história deles, nos traz surpresas a cada passo, até o momento em que os dois inevitavelmente se esbarram e uma nova trama acaba surgindo. É um livro sobre memória, identidade, pertencimento e poder, sobre o que faz de nós aquilo que somos e o que precisamos deixar de lado para nos construir.

Todos os personagens são construídos com cuidado – até demais, em um excesso de minúcias que torna a primeira parte do livro um pouco arrastada. Aliás, se The Golem and the Jinni tem alguma falha mais grave é na irregularidade do seu ritmo. Se a história de Chava e Ahmad é narrada detalhadamente no começo, entre idas e vindas, flashbacks e memórias não lembradas, muito mais a descrição de um cotidiano do que o desenrolar de uma trama, o terço final é apressado, como se a história subitamente precisasse ser terminada.

Porém, a forma como ela consegue entrelaçar as tramas e os personagens, transformando a Nova Iorque real em algo ainda mais extraordinário, ajuda a compensar essa diferença no ritmo. Outro ponto alto também é a sutileza com que Wecker contrasta duas culturas, afinal golens são crias de rabinos e portanto tem origens judaicas, enquanto gênios vivem nas lendas e mitos das areias da Arábia mesmo antes do Islão. Os personagens, principais e secundários, estão imersos nessas sociedades enquanto confrontam-se com a nova realidade de imigrantes nos EUA, de forma sensível, sincera e verossímil. Em um momento como o atual, torna-se uma leitura ainda mais essencial.

As motivações dos antagonistas às vezes quebra um pouco a sensação de realidade que os personagens tem, mas isso não estraga a leitura recomendadíssima dessa história que se sustenta sozinha no meio do mar de sagas gigantescas – mesmo que a autora tenha confirmado recentemente que haverá mais uma história nesse mesmo universo.

The golem and the Jinni

Helene Wecker

Harper

2013

512 páginas

(Edição brasileira: Golem e o gênio, Darkside, 2015)

Os cinco lançamentos brasileiros de 2014 que o fã de literatura fantástica precisa conhecer!

Ok. Vamos sair do óbvio?

Quem acompanha literatura fantástica no Brasil sabe que Raphael Draccon, Carolina Munhoz e Leonel Caldela tem livros novos lançados agora… E que lançamentos de Eduardo Spohr e André Vianco só ano que vem.

Isso significa que não teve outros lançamentos nacionais em 2014?

Muito pelo contrário, é aí que você se engana. Teve tanta coisa bacana aparecendo por aí que ficou até difícil acompanhar. Mas tem cinco que você não pode deixar de ler!

A torre acima do véu, de Roberta Spindler

Uma distopia juvenil, passada na América Latina, com personagens fortes e uma trama cativante. Miguel (meu filho de doze anos) pegou para ler pela capa agora no começo das férias e não largou. A Roberta é um dos nomes mais promissores da nossa literatura fantástica, vale a pena acompanhar.

Exorcismo, amores e uma dose de blues, de Eric Novello

Juro que Fantasia urbana é uma coisa complicada de escrever. Você pode pensar que não, afinal geralmente é alguém caçando monstros em um ambiente sombrio – e falando assim, é fácil, né? Mas como sair do lugar comum, como ser original, como trazer algo novo? Fazendo o que o Eric fez: com um universo bem construído e pensado, personagens cativantes, e uma trama que leva você pela mão a lugares estranhos e fascinantes enquanto escuta blues. É um dos dois melhores livros do ano, mas disso eu já sabia, pois o Eric é um dos meus escritores brasileiros preferidos.

A Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison, de Enéias Tavares

O outro melhor livro do ano é a estreia do escritor e professor gaúcho que ganhou o concurso da Fantasy. É o livro mais corajoso da literatura fantástica nos últimos anos, fazendo algo que muitos tentam (usar os clássicos da nossa literatura), mas que poucos conseguem fazer com a classe e a categoria do Enéias. Ele foge do óbvio tanto nos personagens quanto na forma narrativa. Outro autor para acompanhar com muita atenção!

As aventuras do vampiro de Palmares, de Gerson Lodi-Ribeiro

O Gerson é um dos mais importantes autores da ficção fantástica nacional e um dos mais produtivos. O vampiro de Palmares é um personagem com uma longa história, vem sendo publicado aqui e ali há anos e faltava uma coleção. O autor usa a mitologia e a história da América Latina como base para as desventuras de um ser imortal. Quem ainda não conhece a obra do Gerson, tem uma excelente oportunidade.

Flores Mortais, de Giulia Moon

A Giu (como seus fãs carinhosamente a chamam) é a grande dama dos livros vampirescos no Brasil, merecidamente. A escrita dela é delicada mesmo quando narra acontecimentos cheios de sangue e violência, e há um humor bastante peculiar nos seus escritos. Esse seu livro de contos traz várias histórias sombrias, inclusive no universo da Kaori, sua personagem mais conhecida. Assim como o livro do Gerson, uma boa porta de entrada para a obra da Giulia!

O que ando lendo – ‘Micrômegas’ de Voltaire

Acho que estou em fase francófila saudosista (me julguem), pois nesse começo de ano, peguei na estante outro autor francês clássico (isso depois de ter devorado ‘Le Chevalier Deliberée‘), que eu já conhecia, mas com uma obra mais falada do que lida: ‘Micrômegas’, publicado em 1752 e considerado por muitos um texto precursor da Ficção Científica.

 

microcapa

Acho que aqui cabe fazer uma pequena digressão. Não é um texto de Ficção Científica, mesmo levando em consideração o contexto científico da época. Voltaire não era nenhum ignorante das ‘Ciências Naturais’, sendo um conhecedor da obra de Isaac Newton, por exemplo. E isso aparece no texto, quando ele fala da disposição dos planetas e das galáxias, faz cálculos e comparações.

Porém, sua preocupação ali nada tinha a ver com a ciência, os astros, viagens interestelares. O filósofo usa a figura do alienigena que visita a Terra como alegoria, exemplificando os nossos problemas vistos pela ótica do outsider. O recurso é muito usado na literatura do século XVIII. Um exemplo? ‘As viagens de Gulliver’ de Jonathan Swift.

Se no texto do irlandês, um ser humano acaba indo parar em terras estranhas (com hábitos que servem de espelho exagerado para os da sociedade européia de então), Voltaire apresenta a viagem de dois alienígenas gigantescos e longa vida – um, o colossal Micrômegas, vem de fora do Sistema Solar, enquanto seu companheiro é de Saturno. Procurando por vida inteligente, acabam parando na Terra, que consideram um planetinha insignificante. E quase desistem da sua busca, quando encontra m um barco cheio de filósofos com quem travam um estranho debate. A mensagem do texto é da pequenez e mesquinharia da humanidade, que se prende nas suas guerras e diferenças.

A tradução está mediana, com algumas soluções complicadas, mas nada que comprometa o resultado final. O grande problema da  bela edição ilustrada da Autêntica, lançada ano passado, é a sua indecisão. Não consegue se decidir se é uma edição paradidática ou para leitores do cotidiano. Há notas de tradução bastante dispensáveis em edições comerciais, algumas com teor interpretativo. A introdução é rasa, acho que caberia chamar um especialista no tema para dar um pouco mais de profundidade.

Fica pela curiosidade de ter um texto de ‘FC’ de um dos maiores filósofos franceses do Iluminismo em uma edição com ilustrações bem pensadas.

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O que ando lendo – ‘Le chevalier deliberé (the Resolute Knight)’ de Olivier de La Marche

Ano Novo, vida nova… e tempo de reencontrar velhos amigos.

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Aproveitei o começo das férias para ler uma aquisição recente, que pulou muitas posições na pilha de livros a ler (PLL) por vários motivos. Primeiro, porque Olivier de La Marche, autor do original, é personagem recorrente nos contos passados no Universo Ficcional  (UF) do Grande Continente (quem me acompanha há mais tempo conhece o UF pelo título de um de seus livros, Finisterra). E,principalmente, por ser um livro que li no mestrado por alto, sem realmente poder apreciá-lo, mais como uma leitura complementar às gigantescas Memórias do La Marche. (E li em francês quinhentista, cheio de ‘s’ e ‘e’ que não existem mais, o que quase me reprovou na Aliança Francesa).

Ah, sim. Enquanto na Amazon, o bichinho sairia a quase U$ 40,00, no Book Depository veio por menos de U$ 8,00 – e sem frete.

Quando comecei a ler o estudo crítico que antecede o poema, nessa edição maravilhosa do Centro de Estudos Medievais e Renascentistas do Arizona, me deu aquela inveja branca dos recursos que os pesquisadores tiveram. Para essa tradução, eles conseguiram comparar mais de 25 edições do poema – manuscritos e incunábulos  além de edições facsimiladas dos séculos XIX e XX – in situ e mais três em cópias digitais. Fizeram valer a pena o investimento, já que compararam todas para chegar à uma versão do texto que seria a mais próxima do original. Sim, pois uma das dificuldades dos estudos medievais é justamente encontrar a versão mais ‘correta’ ou ‘primitiva’, que vai se alterando em suas sucessivas cópias e/ou reimpressões.  Esse estudo comparativo permite inclusive reconstruir a história dos volumes, traçando relações entre eles por meio das semelhanças e diferenças nas grafias e na disposição do conteúdo, pois há manuscritos que invertem a ordem das estrofes, outros incompletos e alguns ilegíveis.

O estudo crítico, aliás, preocupa-se muito mais com essas questões de forma e da materialidade do texto (inclusive detalhando as grafias e arcaísmos do manuscrito-base da tradução), deixando um pouco de lado o conteúdo e o contexto do poema. Pouco se fala sobre La Marche ou as circunstâncias em que viveu e escreveu. Uma das explicações para isso seria o pouco espaço dado ao ensaio, a outra seria justamente que o público-alvo dessa obra já deteria esse conhecimento. Só que, na minha opinião, poderiam ter cortado algumas páginas na listagem e comparação de manuscritos para aprofundar esses aspectos, o que ampliaria o alcance desse estudo.

(Nesse post, também não vou ter tempo nem espaço para isso, mas vocês sempre podem dar uma lida na minha dissertação de mestrado para saber um pouco mais sobre o assunto. Surgindo o interesse, faço um pequeno texto sobre o La Marche)

Em resumo, Oliver de La Marche foi servidor da casa da Borgonha desde a década de 1430 até 1502, ano de sua morte. Um cortesão completo, foi embaixador, cronista, mordomo, preceptor e guerreiro, leal aos seus senhores mesmo quando Carlos, o Temerário, morreu em 1477, extinguindo a linhagem pelo lado masculino. La Marche permaneceu a serviço da herdeira, Maria, e de seu marido e filhos após a morte dela em 1482. Assim, tornou-se preceptor de Felipe, o Belo, futuro rei-consorte da Espanha já unida e pai de Carlos V, Imperador.

O poema foi escrito em 1483, seis anos depois da morte de Carlos e um depois do falecimento de Maria. O impacto desses acidentes – Carlos morreu em batalha, Maria por causa de uma queda de cavalo – tornou-se a longa reflexão sobre a morte e a igualdade de todos os homens perante ela que é  ‘O cavaleiro determinado’.

Na edição crítica, os tradutores/editores lembraram desses acontecimentos, mas os deixaram de lado como fatores determinantes, ao dizer que essas mortes pouco influenciaram a escrita do poema, que se deveria muito mais a um espírito de época do que a uma necessidade pessoal do escritor. Porém, ao acompanhar a carreira de La Marche, pode-se perceber que é nesse ano de 1483 que ele se voltou à reflexão sobre o passado e sobre as obras e glórias de seus senhores, já que na mesma época ele retomou a escrita de suas Memórias – um verdadeiro testemunho da pujança da Borgonha no período entre 1430-1477. Não seria demais afirmar que essa reflexão sobre a morte se enquadraria sim no contexto da morbidez medieval, sem deixar de lado as profundas preocupações políticas e corteses de La Marche.

Cabe dizer que os editores não reproduziram uma informação errônea e que se encontra bastante difundida, a de que o poema seria totalmente voltado a Carlos e sua morte em batalha. Esse senso comum vem da edição de 1493 que se encontra digitalizada pela Biblioteca Nacional da França e que foi disponibilizada pelo Projeto Gutemberg, que começa assim:

del

“Cy commence le chevalier deliberé compregnant la mort du duc de borgoigne qui trespassa devant nansy en lorraine.”

(“Aqui começa O cavaleiro determinado, contendo a morte do duque da Borgonha que aconteceu em Nancy, na Lorena”)

Essa citação é apócrifa e foi reproduzida nas edições subsequentes. Uma explicação – e aqui entra a escritora, imaginando coisas – seria o fascínio que a figura do Temerário ainda causava no final do século XV e começo do XVI, sendo essa frase um chamariz para o público.

O poema em si aparece numa transcrição do francês quinhentista em uma folha, com a tradução para o inglês ao lado, tornado a comparação mais fácil. Ressalto que os tradutores optaram por trazer o sentido, mais do que a rima ou a métrica, pois consideraram que esse seria um ganho maior para os leitores acadêmicos de hoje. E não discordo deles, acho que faz mais sentido concentrar esforços nessa direção do que quebrando a cabeça para conseguir encaixar rimas e sílabas.

A história acompanha o Cavaleiro Determinado, que parte em uma jornada impulsionado pelo Pensamento – aqui, uma personagem feminina – aos jardins de Atropos (a Morte), para descobrir quem detém poder sobre ele, Lorde Acidente, o Terrível ou Debilidade, o Horrível. No caminho, percorre uma série de obstáculos que correspondem aos excessos e maus comportamentos, encontra abrigo com o Eremita Compreensão que lhe dá a lança chamada Autoridade com a qual batalha contra a Idade Avançada. Depois, encontra a Memória, com quem caminha pelo cemitério das pessoas abatidas pelas duas figuras.

Aqui, La Marche aproveita e junto do seu apanhado de figuras bíblicas e remotas, coloca personagens de tempos mais recentes e ligados a corte borgonhesa, como o duque de Coimbra, cunhado do Temerário, e o cavaleiro Jacques de Lalaing, ambos mortos por Lorde Acidente. (Aliás, Lalaing é a personificação da queda da cavalaria no século XV em razão do surgimento das armas de longo alcance, principalmente as armas de fogo, já que foi morto por um tiro de canhão.) Mas no fim do passeio, surge a reflexão que ali, todos são igualmente frágeis: duques, reis, imperadores, princesas, condessas, papas, burgueses, camponesas. Depois, a Memória o leva até a frente dos jardins da Morte, onde um torneio está para acontecer.

A quarta parte do livro começa com uma batalha entre Sir Debilidade e Felipe, o Bom (o primeiro duque da Borgonha a quem La Marche serviu, pai do Temerário).  A justa é contada na maneira típica das crônicas de época, com a descrição exaustiva dos estandartes e dos golpes, nesse caso entremeada com algumas reflexões sobre as armas, vestimentas e símbolos utilizados, que sempre remetem às qualidades ou aos defeitos dos combatentes, situação que se repetirá em outras cenas de batalha.

Mas a batalha tem destino certo, já que Felipe morreu de velhice e o texto avança para mostrar o embate entre Carlos, o Temerário, e Lorde Acidente. E é nessa parte que é possível ver que o narrador-personagem é o próprio La Marche, já que ao ver Carlos caído ao chão no fim do combate, ele o chama de ‘mon maistre’/’meu senhor’ e começa uma reflexão sobre como o Destino pode destruir até mesmo aquele que tem tudo. Há no meio dessa narrativa, uma ponta de recriminação aos atos impensados do duque, mas muito mais sutil do que se poderia esperar, em comparação com o resto da alegoria.

A última batalha é de Lorde Acidente com Maria, que chega precedida de um grande honrado cortejo – e sua presença, bela e valorosa, intimida Lorde Acidente, pois a princesa vem em busca de vingança contra a angustia que o torneio causou. Porém, o servo da Morte é instigado por Loucura e  a golpeia, ferindo-a e causando uma infecção mortal.

O narrador se angustia, pois com essa morte a Borgonha e sua glória chegam ao fim. Desesperado, como tem não tem mais nada a perder depois da morte de seus três senhores, o cavaleiro se dispõe a lutar com os servidores da Morte. Mas sua hora ainda não chegou e um emissário o dispensa, para alegria da Memória, que o leva de volta à sua casa pela estrada da Consolação. No caminho, relata outras mortes valorosas e prematuras, até que novamente encontram o eremita Compreensão que explica ao cavaleiro como se portar de forma adequada em um campo de batalha, mesmo sabendo estar seguido de perto pelos dois servidores da Morte.

No final, o eremita some, deixando o narrador sozinho e perdido, até que ele decide escrever suas aventuras para que sirvam de exemplo e reflexão. E encerra dizendo que esse pequeno livro foi escrito “por ele que tanto sofreu, La Marche”.

Ok, o escrito acima foi um apenas resumo da trama frágil que serve de fundo para a alegoria, mas eu acho que está bem claro que La Marche não está só se reportando a um zeitgeist ao escrever esse tratado poético sobre a Morte. Há preocupações bem mais materiais e políticas, além de uma preocupação profunda com o futuro e o legado de seus senhores. Extrapolando os limites acadêmicos e indo pra fronteira do achismo, poderia dizer até que é uma forma de La Marche tentar se livrar da tristeza com a morte dos duques, mas principalmente com o falecimento precoce e infeliz de Maria, de quem ele foi um conselheiro muito próximo mesmo antes da morte do pai.

A edição ainda conta com algumas reproduções de iluminuras, uma vasta bibliografia, uma transcrição das instruções deixadas para os iluminadores e um pequeno glossário sobre os nomes citados no poema, alguns bem obscuros para nós, pessoas do século XXI.

Sete motivos para você parar o que está fazendo e comprar ‘A companhia negra’ na pré-venda

Então, moç@as, como estão?

Por aqui, muito, muito trabalho, contos a serem escritos, prazos me mordendo as canelas…

E continuo ansiosa para ter em mãos a edição nacional de ‘Black Company‘ – para vocês verem que ser fã vale a pena, em breve receberei um ARC da editora. O exemplar que já reservei vai para a Biblioteca da Casa da Leitura!

Para que vocês façam como eu e encomendem o seu exemplar, resolvi fazer uma listinha de bons motivos.

1- A bela capa da edição nacional. 

Ok. Eu SEI que não se julga um livro pela capa e tal, mas como não amar?

Apesar de não ser muito fã do Bernard Cornwell, sempre adorei as capas das edições nacionais e acho que essa está no mesmo estilo, mas ainda dentro do espírito da Companhia.

2- Muita gente boa gosta do Glen Cook.

Na lista, você pode incluir George R. R. Martin, Daniel Abraham, Steven Erikson (autor da mega-saga The Malazan book of the Fallen), Leonel Caldela e Eduardo Spohr. Na fanpage do livro, o comentário do Spohr é o seguinte:

“Neste extraordinário romance, Glen Cook nos transporta a um universo sombrio, a um mundo de traições e crueldade, povoado por criaturas fantásticas, onde tanto o aço quanto a magia são usados abertamente, para o bem e para o mal.”

Na verdade, ele quis dizer que o livro chuta bundas, mas é educado demais para isso.

3- É uma história completa

Apesar de ser o começo de uma grande saga  – com dez livros lançados, dois por vir e contos espalhados pelo mundo das antologias e revistas, ‘The Black Company’ tem começo, meio e fim. Claro que o fim deixa o gancho para continuar nos próximos livros, mas não é como NO PRIMEIRO LIVRO DAQUELE VELHO BARBUDO MALVADO QUE TODO MUNDO ESTÁ LENDO POR CAUSA DA SÉRIE DA HBO.

4- Precinho camarada

R$ 24,00 na Saraiva. Não procurei em outras, mas POXA! Tem entradas de cinema mais caras que isso!

5- O autor nunca viveu de escrever, só que nunca desistiu dos seus livros

Pode não parecer um bom motivo para muita gente, só que me tocou muito essa parte. O Glen Cook era funcionário da GM até recentemente, quando se aposentou. E continuou escrevendo, lutando e batalhando, publicando por boas editoras, sem desanimar, enquanto trabalhava durante o dia e criava 3 filhos. Me deu até vergonha de mim mesma, sabe? Então, se você acha que todo escritor de Fantasia lançado no Brasil é um multimilionário esnobe, essa é sua chance de conhecer alguém que faz por amor. Mesmo.

6- Tem dez livros já prontos!

Sim, nada de esperar a temporada de futebol americano terminar (NÉ MARTIN?). A saga está dividida até agora em três partes ( Books of the North, Books of the South e Books of The Glittering Stone), então sem choro nem ranger de dentes pensando em quando você poderá continuar suas aventuras!

7- Não é mais um genérico impulsionado pelo sucesso de ‘A song of Ice and Fire

Claro que as comparações são inevitáveis, não é? Mas o livro é da década de 1980 – a primeira edição é de 1984, quando o George R. R. Martin estava ainda longe de começar a escrever sobre Westeros. Faz parte de um movimento que se contrapôs a adoração do Tolkien e sua fantasia mais maniqueísta e iluminada – movimento que tem entre seus representantes Michael Moorcock e a saga de Elric de Melnibone (que ainda está inédita no Brasil, exceto pelo último livro que saiu pela Francisco Alves no milênio passado) e Gene Wolfe com seu Book of The New Sun (saiu em Portugal e é uma das coisas mais sombrias, loucas e desesperançadas que eu já li. ADOREI).

Eu ia adicionar um 8o motivo, mas 7 é um número místico… E porque o 8o seria ‘É MUITO BOM, COMPREM AGORA’!

Passando tempo em boa companhia (ou O que andei lendo )

O título deste post é um oferecimento de Blackmore’s Night, a banda que o Richie Blackmore criou pra pegar a Candice Night

Depois dessa breve palavra de nossos patrocinadores, vamos ao que interesse: falar de literatura, fantástica ainda por cima.

Eu não gosto de comprar livros no escuro, sem ter nenhuma indicação ou recomendação. Gosto de ler resenhas, comentários e opiniões antes de gastar meu precioso e pouco dinheirinho. Tem gente em que eu confio cegamente, quando diz ‘compra’, eu vou lá e compro.

Mr. Jacques Barcia me passou um link, uns três anos atrás, com a seguinte frase “Acabei de comprar na Cultura aqui de Recife. Acho que tu vai gostar, ainda tinha um por lá”. Abri o link para a loja online da Cultura e vi que era um livro da Tor chamado ‘Chronicles of the Black Company’ por salgados R$ 40,00. Sim, eu achei salgado porque pensei que era um pocket. Quando eu vi bem, era um mass paperback (uma encadernação mais parecida com a nossa ‘normal’, mas sem orelhas e papel mais fino) que juntava três romances em um livro só.

Ora, três livros por R$ 40,00 é uma boa pedida. A descrição dizia pouco:

“Darkness wars with darkness as the hard-bitten men of the Black Company take their pay and do what they must. They bury their doubts with their dead. Then comes the prophecy – The White Rose has been reborn, somewhere, to embody good once more.”

Ok, eu tô bem de profecias, obrigada… mas dizer que a escuridão guerreia com a escuridão e que os caras da Companhia Negra enterram suas dúvidas junto com seus mortos…. me fisgou. Sem me preocupar em pesquisar muito mais, comprei e esperei chegar.

Era final de março, o livro chegou na metade de abril. Até eu terminar o que eu estava lendo, chegou maio e… eu li os três livros em menos de  dez dias (fui conferir o histórico do Gtalk e tem umas 6 mensagens minhas pro Barcia dizendo “CARA, MUITO F*DA!” e outros no estilo). Eu simplesmente devorei o volume de 700 páginas, li no ônibus, na barca, na rua, em casa – aparecia um tempinho? Lá estava Ana lendo!

(Mas, Ana…. se você gostou tanto, deveria ter falado antes! Por que falar agora? Ahá! Sei de fonte secreta porém segura que BLACK COMPANY SAI NO BRASIL EM 2012! )

Sim, o livro do Glen Cook finalmente vai aportar no Brasil. Eu quero com esse post apresentar a saga para vocês e começar a convencê-los a comprar o livros.

Digam 'olá' pro Glen Cook, vou encher muito o saco de vocês esse ano com ele...

E porque você deve ficar muito feliz com a chegada desses livros ao Brasil?

Bem, é inegável que a grande moda do momento no nosso meio é George R. R. Martin e sua saga “A song of ice and fire”. Vejo centenas de pessoas na internet aplaudindo o realismo do autor, como ele retrata bem a sujeira do jogo político e por aí vai. Vejam bem, a saga de Glen Cook faz isso tudo, vai mais fundo ainda – e começou a ser publicada em 1984, ou seja mais de uma década antes de começar o jogo de tronos.

E o que é a tal Black Company?

(Aviso: não tive acesso aos termos traduzidos, então é uma tradução livre…)

A Companhia Negra é a última das Companhias Livres de Mercenários de Khlatovar, com séculos de história nas costas – história contada nos Anais, responsabilidade do analista/historiador que sempre acompanha a tropa.

No começo de ‘The Black Company’, somos apresentados ao então analista, o médico Croaker – dá pra ver que o índice de sobrevivência é baixo, né?

Povo, este é o Croaker, narrador e protagonista.

A Companhia foi contratada por um feiticeiro , chamado SoulCatcher, para combater pelo Império e defendê-lo de seus inimigos: um grupo de rebeldes chamado de Círculo dos Dezoito. O Império é controlado pela Feiticeira mais poderosa de todos, a Dama (‘Lady’), que foi ressuscitada por um mago pouco habilidoso e aos poucos vem dominando todo o Norte.  Seus exércitos são liderados pelos Dez que Foram Tomados (‘The Ten Who Were Taken’ ou ‘Taken’), que só perdem em poder para ela.

Os rebeldes acreditam na profecia e que a Rosa Branca irá ressurgir para novamente derrotar a Dama e os seus servos. A feiticeira, porém, tem uma preocupação ainda maior: seu marido, o Dominador (‘Dominator’), a grande força do Mal. Ele ainda está preso – e sente que ela alcançou a liberdade sem o ajudar. Ele é único cujo poder supera o dela e por isso a Dama teme por sua vida.

É a partir daí que a história se desenrola. Mas nunca pelo ponto de vista da Dama, dos Tomados, da Rosa Branca… E sempre pelo da Companhia, dos mercenários, pela figura do Croaker. Ao contrário do jogo de tronos do George Martin, a série do Cook mostra o lado de quem vai morrer por nada. E isso é muito bom.

Mercenários são aqueles que não tem mais nada a perder e tudo a ganhar. São órfãos, viúvos, enjeitados, bastardos… Sua família é aqueles que servem junto pelo único objetivo da sobrevivência. Ao ler os romances de Glen Cook, é impossível não empatizar com cada um daqueles homens, mesmo sabendo – desde o começo – que eles não estão do lado dos mocinhos.

Goblin e Um-Olho ('One Eye'), dois dos feiticeiros da Companhia.

Os conflitos morais surgem de vez em quando, a dor da perda de amigos e pessoas próximas, a traição vem de lugares inesperados. As cenas de luta e de batalhas são cruelmente realistas, escritas por alguém que realmente esteve na guerra e é muito elogiado por seu conhecimento,  não só de estratégia militar, mas do companheirismo que nasce entre quem está numa guerra.

Croaker é um personagem fascinante. É um memorialista em crise, um médico desesperançado – e um romântico incorrigível no lugar mais improvável. É impossível não sentir aquela vergonha alheia por ele de vez em quando, mas é igualmente difícil não torcer por ele em vários momentos. A Dama talvez seja uma das personagens femininas mais marcantes que eu já conheci criada por um homem. Sua história é densa e triste, por incrível que pareça. Os demais também cativam, principalmente os quatro magos que estão na Companhia, implicando o tempo todo uns com os outros mas unidos quando chega a hora de agir.

O leitor acaba se envolvendo de tal forma com a Companhia que passa a torcer por ela, sem se importar muito de que lado está.

A escrita de Cook é quase seca às vezes, de tão direta. O mundo fantástico que ele criou para a sua série só começa a se desenhar realmente bem no segundo livro, mas como o ritmo se mantém sempre constante, você acaba nem percebendo, interessado que está na trama e no seu desenvolvimento.

Agora, é um livro que tem tudo para agradar quem gosta da obra do Martin, mas não só. Primeiro, que o Cook não esconde a magia, ela está ali presente desde sempre. Depois, vem o detalhe dos personagens não serem nobres com ‘problemas de primeiro mundo’ (exceção honrosa ao Davos e a Brienne), mas a ralé do mundo, gente que luta (literalmente) a cada dia só para sobreviver. Talvez a predominância de personagens masculinos possa incomodar um ou outro, mas a Dama compensa muito nesse quesito.

Enfim, preciso dizer que estou em modo fangirl pelo lançamento desse livro no Brasil E MAL POSSO ESPERAAAAAAAAAAAAAAAAAAR!:D

(Ilustrações vinda deste deviant-art)

UPDATE!

Como vocês foram MUITO legais e o blog teve 100 visitas desde a postagem sobre o livro, decidi que  vou compartilhar a minha coleção com meus leitores e repassar um dos meus livros do Glen Cook. Pela enquete via twitter, o escolhido foi The tower of fear – não faz parte da série da Black Company, mas é uma boa introdução ao estilo do autor.

Para participar do sorteio, tem que me seguir no Twitter e retuitar a seguinte frase:

Quero conhecer o autor Glen Cook com ‘Tower of fear’ que a @anadefinisterra está sorteando http://kingo.to/13cD

Deixe um comentário aqui preu saber quem tá realmente interessado em participar: fale porque você se interessou em ler o livro. Não esqueça de dizer quem é você lá no twitter. Viu? Super simples!

O sorteio será no dia 8 de abril

(Quem levou foi o @pablorebello, que comentou via twitter que não conseguiu comentar no post, mas respondeu direitinho)

Isto não é uma resenha.

Eu não acredito em coincidências, mas que elas existem, existem. Mais ou menos o que meu pai pensava de bruxas, até eu sair do armário de vassouras. Só que isso não vem bem ao caso agora.

Voltando a coincidências e blablabla, hoje estava eu na casa dos meus pais, depois de visitar a minha nova casa – mudo semana que vem – quando o carteiro tocou a campainha. Opa, correio? Com encomenda? No feriado? E pasme, era para mim.

Em um pacote cuidadosamente embalado (haja fita adesiva), dois exemplares do mais recente lançamento da Tarja aguardavam. Richard Diegues e Fábio Fernandes tiveram a gentileza extrema de me enviar um exemplar de ‘Dias da Peste’, o primeiro romance de um dos nossos melhores escritores de FC – e uma das minhas mais notórias referências no Fandom.

O outro exemplar? Tá disponível pra sorteio na comuna FC no Orkut. CORRE LÁ!

Voltando a vaca fria…

Oras, feriadão, marido trabalhando, calor demais pra voltar pra casa pra escrever… me encalacrei com o livro na frente do ventilador e fui ler. E li. Li o livro TODO.

Ok, o livro não é muito grande – mas teve livros da mesma editora e tamanho que eu fiquei semanas para ler. O troço é um pageturner de primeira e me prendeu até terminar mesmo.

Até me senti de volta à adolescência, quando minha mãe brigava pra que eu largasse o livro e fosse ‘lá fora’ (por lá fora, entendam qualquer lugar sem livros).

Como eu disse no título, esta não é uma resenha. É só pra dizer que o livro é foda, vão comprar right now.

Em mim, ele teve um efeito colateral. Me pus a pensar quantas das pessoas fundamentais na minha vida – aquelas que mudam seus paradigmas por um motivo ou outro – eu conheci pela rede. E fiquei assustada. Meu marido eu conheci virtualmente. Minha primeira grande desilusão amorosa também. Não o primeiro que partiu meu coração. Isso é normal e tal… Digo aquele cara que foi o primeiro a fazer você pensar ‘Putamerda, aquelas cartas que mandam pra Marie Claire são de verdade. Os homens SÃO uns canalhas e fazem qualquer coisa por sexo, mesmo o virtual” (aliás, ao contrário da imensa maioria dos meus amigos virtuais, esse – com quem voltei a falar a pouco – ainda não conheci pessoalmente); até mesmo a pessoa que me fez voltar a confiar em mim mesma também veio a mim por meios virtuais…

Não, o livro não fala sobre isso – ao contrário do que o seu senso comum possa dizer sobre livros cyberpunk, nem todos envolvem descrições preciosistas de imersões em realidade virtual. Foi só algo que bateu quando li o livro e seu relato de como a web mudou o mundo.

Em breve, uma resenha como o livro merece.

 

Retrospectiva – Livros de 2008 – C’est Fini

É, por agora chega.

Dos livros que li e não resenhei, digo que a ‘A torre negra’ eu comento no final da série, idem pro George Martin (isso é, se ele fizer o FAVOR de terminá-la) e os do China eu vou incluir num post sobre New Weird assim que ler a antologia do Vandermeer. O livro do Beraldo vai ter resenha no site do CLFC – ou no da Fábrica, já que o moço é um dos meus operários… Paradise Kiss já apareceu aqui antes e os dois shojos mangás (Nana e Gallism) irão receber resenhas só se as editoras prometerem continuar publicando. Já adianto que AMEI ambos, mas Nana é até agora a melhor coisa que já li em mangá.

Dos nacionais:

‘Confissões do inexplicável’,  André Carneiro. O problema de uma coletânea desse tamanho é o risco que se corre de ressaltar os defeitos de um autor, ao invés das qualidades. Aqui, a preferência do autor pelo tema ‘homem encontra mulher misteriosa, se apaixona, desvenda o mistério e vivem felizes para sempre’ salta aos olhos, tornando a leitura cansativa. De nada adianta um livro desse tamanho ser mais barato do que as edições da Aleph, como defendeu o ””editor”” responsável, se a qualidade não vale sequer a metade do preço. Sem contar os erros bizarros de revisão – que deixou passar um ‘IneSplicável’ numa das folhas de rosto e a capa mais poluída que o Tietê… O André está vivo e na ativa, uma coletânea melhor escolhida e menor seria mais digna do talento dele.

‘Caminho do Poço das Lágrimas’, André Vianco – hum. O livro é bonito, ilustrações que chamam a atenção e um tema até ousado para o público infanto-juvenil. Mas o estilo do Vianco ainda não me pegou. Pena, por todo o histórico, ele é um autor que eu adoria adorar.

Dos gringos, vou deixar de lado os mais badaladinhos e etc. Assim, eu destaco ‘Black Company’, do Glen Cook. Já é um livro meio antigo, da década de 1980. Fantasia suja, protagonizada por mercenários que não estão do lado bonito da força. Bem escrito e se eu não tivesse escondido o omnibus numa das arrumações, já estaria terminando a trilogia…¬¬

‘A Dança do Camaleão de Pedra’ foi escrito por um português, Ricardo Pinto, que mora em Edimburgo e escreve em inglês. É algo como se a Ursula Le Guinn tivesse tido um caso secreto com o Tolkien e este livro fosse o fruto proibido dessa relação. Se fosse menor, seria perfeito, PRINCIPALMENTE pela ousadia no relacionamento dos protagonistas.

‘The deed of Paksenarion’ da Elizabeth Moon foi meu tiro no escuro – e na água – do ano passado. Sério, eu juro que tive uma paladina numa mesa de AD&D com o mesmo background/histórico da protagonista da série. Mas a Moon escreve bem, vou procurar mais coisas dela.

Vocês sabiam que a Tor tem um selo para chick-lit fantástica (no sentido de ter elementos fantásticos, não de ser boa – longe disso)? Na leva de ebooks, acabei lendo dois, ‘Touch of Evil’, de CT Adams e Cathy Clamp, e ‘In the midnight hour’ de Patty o’Shea. Sabe ‘Charmed’? Sabe ‘Melancia’? Sabe ‘Bridget Jones’? Por aí. Mas ainda são mais divertidos que ‘Crepusculo’… Rola sexo, à vontade e sem culpa, e os protagonistas masculinos não tem carinha de menininha…:P

A Shadow in Summer’ do Daniel Abraham para mim sofre do grande mal do mercado americano, que é a obrigação de preencher um certo número de páginas. Com cem páginas a menos, o romance seria perfeito – mas registro que adorei o sistema de magia como poesia.Então, é isso.

 

Apesar do ano só começar depois do carnaval, adiantei e fechei a conta de 2008 hoje. 😉

 

Vocês já viram a capa do MEU livro?:D

Retrospectiva – Livros de 2008 – VI

Então, crianças, vocês estão sabendo que se Poe estivesse vivo faria 200 anos hoje? Infelizmente, o homem do Corvo, um dos melhores tradutores das angústias humanas só viveu por 40 deles.

Mas sua influência estendeu nas décadas a frente e até hoje pode ser sentida. Poe é um dos influenciadores do New Weird, de Sherlock Holmes e de praticamente todo o terror psicológico.

É muito estranho eu dizer que ele aparece como o conselheiro espiritual de uma jovenzinha perdida em um livro infanto-juvenil?

Se não é para vocês, para mim foi. Um bocado, aliás.

O livro em questão é Farei o meu destino (título muito ruim) do escritor carioca Miguel Carqueija. E é uma obra muito aquém da capacidade do seu autor, figurinha carimbada da Segunda Geração do fandom brasileiro.

[Sabe, tem spoilers ali embaixo. Nada de muito chocante, porque lá pela página 25 dá pra sacar a do livro, mas anyway…]

 

 

 

 

[Foram avisados…]

Cabelo-de-cenoura, também conhecida como Diana, é uma órfã de boníssimo coração, guiada por conselheiros espirituais que ela chama de Mestres Oníricos. Criada em um orfanato católico cheio de freiras malvadas – que o autor explica que não seguem a verdadeira religiã cristã, consegue fugir com a ajuda dos tais mestres – e siiiiiiiim, Poe é um deles. E ela descobre que tem uma missão especial.

Diana não está sozinha, tem a ajuda de suas cinco amiguinhas órfas que fugiram com ela e de seu novo amor-para-toda-a-vida, Sandy. Vilões malvados e tristes perseguem as crianças.

Nada muito fora do contexto infanto-juvenil, certo?

Ok, logo no começo do livro há uma cena de quase estupro que termina com a morte do estuprador. As meninas recebem cantadas grosseiras de caminhoneiros.

Ah, mas os tempos mudaram… o autor quis atingir o público mais juvenil e menos infanto.

Aí, eu digo que as menininhas chegam na casa do tal Sandy e dizem precisar de amor e carinho…

Entenderam?

Esse é um dos problemas do livro: ele não tem um tom, não é uma narrativa coerente. Atira para todos os lados e acaba não atingindo nenhum – talvez por desconhecimento do autor sobre o seu público leitor.

Por exemplo, a completamente desvairada referência a Sailor Moon. Eu sou ‘moonie’ de carteirinha, adoro essa série shojo e não vejo a hora de sair o mangá por aqui (vai sonhando, Ana Cristina). O final do livro tangencia perigosamente o plágio do primeiro ano do anime, chega a ser um bocado constrangedor ver que as meninas ganham saiotes coloridos…

Até mesmo a narrativa de Carqueija, geralmente segura e adjetiva – bem lovecraftiana – se perde. E a falta de um editor firme se faz perceber quando o autor abre dialogos como se costuma fazer em um roteiro, ou seja:

PERSONAGEM – Fala

Alternadamente com a narrativa mais usual – e mais correta em se tratando da prosa – de se NARRAR quem está falando.

O livro é curto, corrido e atropelado demais, delineando mal o cenário – além de um proselitismo católico que pode incomodar pessoas com menos paciência para isso.

Um ponto que foi levantado por pessoas que não leram a obra é a possibilidade do livro ser ‘New Weird’.

NÃO, NÃO É!

As pessoas antes de sairam perguntando ‘Isso é açucar? Isso é feijão? Isso é polvo com brócolis? Isso é café com leite?’ deveriam pesquisar um pouquinho – e ler com cuidado.

New Weird é um movimento, logo para a obra ser NW das duas, uma: ou o AUTOR se identifica como ou os autores do MOVIMENTO a adotam. Nada disso aconteceu com o livro do Carqueija, que até onde eu sei jamais leu um livro desse subgênero.

Nas palavras do Pai do NW, Jeff Vandermeer, citado pelo querido Jacques Barcia:

“O New Weird é um tipo de ficção urbana e de segundo-mundo que subverte as ideias romantizadas sobre locais encontrados em fantasia tradicional, principalmente por escolher modelos realistas e complexos como o ponto de partida para a criação de cenários que combinem elementos tanto de FC quanto fantasia. New Weird tem uma qualidade visceral que geralmente usa elementos do surreal ou horror transgressivo para seu tom, estilo e efeitos (…). Ficções New Weird são conscientes do mundo moderno, mesmo que disfarçadamente, mas não são sempre diretamente políticas. (…)”

O livro em questão é tudo, menos visceral. O elemento urbano não tem importância. O mobiliário da FC e arquitetura da Fantasia não se mesclam como nos bons livros de New Weird (me cobrem a resenha de Perdido Street Station e The Scar). O sentimento do surreal vem mais da incoerência da obra do que por uma construção estilistica. Anyway, a melhor forma de conhecer ainda é ler as obras, principalmente a coletânea New Weird. Não sabe outra língua? Melhor rever isso, colega.

Voltando ao livro, acho que Poe merecia melhor homenagem e que Miguel Carqueija, um militante da FC brasileira, poderia tê-la feito muito melhor. Todo o seu histórico leva a pensar isso. Pena que derrapou feio nessa tentativa.