Essencialmente…

… este é um blog.

Mas ele andou perdendo a sua essência. Um reflexo, talvez, do processo de alheiamento de si mesma pelo qual passou a sua proprietária e autora.

Foi um movimento que aconteceu em processo, continuo e lento, e que se agravou com o desastre (com alguns pontos positivos) que foi 2016 para mim.

Por agora, estou tentando reverter esse processo e voltar a me conhecer. Saber quem eu sou e porque sou, para daí tentar rever caminhos e decisões.

Perguntaram para mim qual era a minha essência, onde ela estava, onde a deixei.

… … … …

Fiquei um dia pensando nisso. Sem pensar em mais nada em profundidade, entre matar zumbis no videogame, comprar o material de escola do mais velho, e acompanhar o cotidiano de duas meninas de 6 meses, procurei encontrar essa resposta.

Não que ela fosse urgente. Ou indispensável. Mas eu sou o tipo de pessoa que detesta não saber a resposta para uma pergunta que me foi feita.

E ainda não sei muito bem a resposta, mas acho-suspeito-desconfio de algo. É questão de pensar mais um pouco.

 

Olá, Ariel

Foi uma semana pesada e hoje a noite, depois de colocar Miguel e seu braço quebrado na cama, resolvi escrever um pouco. Abri um documento e voltei a uma tentativa de FC space opera mais focada na interação entre personagens em um cenário de guerra (sim, estou jogando RPGs da Bioware).

E essa é uma espécie de fanfic não (muito) declarada. Tô botando tudo o que eu gosto do meu jeito, desenvolvendo propostas e personagens alternativos, e reaproveitando alguns. Um deles foi Ariel, que foi criado para um play by email de “Jornada nas Estrelas”. Naquela cenário, ela era darkovana e nascida emmasca, ou seja, neutra. De acordo com o universo ficcional da Marion Zimmer Bradley, um emmasca não tem órgãos sexuais internos nem externos, sua aparência é andrógina e  geralmente não se identificam como ‘homens’ ou ‘mulheres’, mas como algo distinto. (Há outro tipo de emmasca, que são pessoas neutralizadas por meio de uma operação, mas aí é caso completamente diferente).

Muita coisa mudou no cenário que eu criei, mas a essência do que Ariel é, não. Nessa versão, Ariel nasceu sem características sexuais externas e sem órgãos sexuais internos – não tem útero, não tem testículos, não tem canal vaginal, não tem pênis, não tem clitóris. Vem de um planeta que foi colonizado por humanos, mas que era habitado por uma raça de seres com sexo biológico flutuante (eles tem a capacidade de serem macho ou fêmea, de acordo com a sua vontade). Houve casos raros de miscigenação que geraram descendência fértil e nos mil anos que se passaram, surgiram pessoas como Ariel.

(Yup, bastante parecido com Darkover, I know. Not the point.)

Agora parei na parte emocional de Ariel, que sofre preconceito da sociedade em que está, mas é uma pessoa feliz e bem resolvida. Ela sabe o que ela É e se aceita assim, principalmente porque seus pais a amam e a respeitam, e a apoiaram contra o mundo. Se veste como sente vontade no dia – de vez em quando se submete às convenções do seu mundo e se comporta como ‘filha’ de uma grande casa, que foi o rótulo que os nobres do planeta deram. Fico me perguntando sobre a parte do envolvimento romântico. Como funcionaria para Ariel?

Até o momento em que começa a nossa história, isso nunca foi uma questão para ele. Acabou de completar seu treinamento, ou seja, passou pelo último rito de passagem para a vida adulta. Sempre esteve cercado de gente próxima e querida, e por isso é uma pessoa doce, ativa e afetuosa. Porém, nunca teve um ‘interesse especial’ por ninguém, aquela vontade de compartilhar a vida (e as contas, e os gatos… hum, essa sou eu, pera). Mas Ariel está saindo da zona de conforto e me levando junto.

Sim, sempre pensei em meus personagens como seres sexuais – mesmo os homens-morcego e as onças que falam. Já tenho algumas diretrizes para Ariel. Não acho que ser assexual elimine a possibilidade de uma relação romântica com alguém. Não a pensei como um ser superior, ela não é mais lógica ou menos emotiva. Muito pelo contrário, ele é emotivo, afetuoso, impulsivo, daquelas pessoas que não tem dificuldade em se relacionar com alguém.

E está numa sociedade em que existe o conceito de amor romântico, como a nossa também tem.

Tentando definir como seria para ela, acho que talvez seja mais raro sentir esse ‘amor romântico’, já que boa parte da necessidade de afeto e carinho pode ser suprida seus amigos e familiares. Mas vai que uma hora surja alguém especial, que vai fazer mais falta, que quando entrar numa sala vai lhe fazer faltar o ar, cuja ausência vai causar até dor. (Não acho que nada disso seja relacionado ao sexo). Talvez não tenha uma restrição em relação à pessoa – quando esse sentimento chegar, pode ser por um homem cis, uma mulher trans ou um outro neutro como ela.

E isso deixa uma outra questão: como essa pessoa irá reagir? Vai depender, claro, de quem seja. Mas se pensarmos bem, não é assim com todo mundo?

Projeto novo a caminho

Assim, sei que estou sumida e blá-blá-blá. Mas tô por aí, postando mais no Facebook e Twitter – que acabam gerando respostas mais instantâneas, e quem não é imediatista no mundo de hoje? – e trabalhando.

Muito.

Esta semana ainda quero colocar um post sobre uma das minhas traduções dos últimos meses – o maravilhoso romance histórico Tigana – e com o tempo ir atualizando.

Só queria registrar aqui hoje algo bem especial.

 

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Hoje, Estevão e eu assinamos um contrato com a Claro Enigma, selo da Companhia das Letras, para criarmos uma hq de fundo histórico e biográfico.

Sem dar mais detalhes, podemos dizer que é um tema que nos mobiliza e comove há tempos e que vai ser ótimo poder colocar isso em um projeto – pesquisa minha, roteiro nosso e (felizmente) arte dele.

Mais um degrau!

Obrigada pelo apoio e pela torcida de sempre!

 

(Sim, o Atlas está a caminho ainda)

 

 

Começando os trabalhos

Arrumei as minhas pastas aqui para começar o ano de trabalho… E aí faço um rápido censo e descubro que tenho exatamente:

25 romances começados
15 só com sinopses

5 contos começados e não terminados
43 ideias soltas que um dia podem ou não virar contos.

ideias
Do que eu preciso?

( ) Foco
( ) Tempo
( ) Vergonha na cara
( ) Sair da internet e escrever

Os meus cinco motivos para escrever

Muita, muita coisa acontecendo por aqui. Mas no meio da correria, tomei um choque de realidade e parei para me fazer uma pergunta/reflexão que coloco aqui por duas razões.

Primeiro, para dividir com vocês – e talvez até provocá-los a fazer igual.

E principalmente para ter isso em algum lugar. Se algum dia, eu esquecer dessa lista, peço a vocês, meus amigos, para me lembrarem disso. Podem me bater também, pois provavelmente estarei merecendo.

Então, dona Ana, a senhora escreve por quê?

– Gosto de criar histórias. De pensar em pessoas que não existem, lugares que não podem ser e guerras jamais combatidas. Tramar contra reinos de mentira e conceber deuses de verdade.

– E simplesmente adoro compartilhar essas histórias. Quer me deixar feliz? Elogie um conto ou um personagem meu. Saio dando pulinhos de alegria porque não só contei uma história, como ainda fiz isso de maneira a atingir alguém e provocar alguma reação.

– Tenho uma grande necessidade de me expressar artisticamente. Só que sou uma negação em artes plásticas, música… A única arte em que consegui me expressar razoavelmente foi mesmo a literatura.

– Livros não mudam o mundo. Pessoas mudam o mundo e livros mudam pessoas. O que eu escrevo muda alguém, mesmo que seja só a mim mesma.

– E o principal motivo, aquele que realmente importa. Eu escrevo porque gosto.

E o que a Bienal tem – ou melhor, teve!

Ah, essa bienal teve de tudo.

E quando eu digo de tudo, é T-U-D-O mesmo. Mais do que você espera de uma feira de livros/ festival cultural/ galpão de negócios/ encontro de profissionais/ espaço de exposições. Sim, porque a Bienal é essa mistura – e mais algumas coisas.

Teve editora expulsando autor do estande – afinal, estava vendendo demais. E editor ameaçando autora de outra editora. O que mais vi foi gente fazendo a egípcia ou a maldita. E filas. No estande da BN, teve autor enfrentando crianças doutoras na aparência do boitatá.

 

Mais filas. A decoração chamou a atenção, do sapato gigante ao estande feito de papelão – rima proposital aqui, juro. E se alguns quase ficaram surdos com gritinhos histéricos, eu vi autor tomando susto via telefone. Rolou pegação, cosplay, cachaça – e gelatina de cachaça. (Viva a mineirice da Autêntica e seus quinze anos, comemorar a idade da debutante com cachaça é coisa fina.) A praça de alimentação era variada,  tinha comida ruim, comida boa e a pior pizza ever.

 

E fiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiilas. No banheiro, para comer, para entrar em estandes, para andar. Tinha até fila para ficar parado. Ui. E o clima estava bem variado. Apagão, frio, calor, cheiro de peixe frito, de banheiro mal limpo e de gente perfumada. De livros novos, livros velhos, livros usados, livros com plástico, livros de pano – e de papel.

Nas filas – que eram muitas, a fauna era variada. Encontrei blogueiro jornalista e jornalista blogueiro, vi geral caindo do salto e ao mesmo tempo vi quem que ficou no salto dez dias seguidos. Tinha escritor simpático ao lado daquele nojo de pessoa.

Já falei que teve filas? E mesmo assim, na Bienal teve gente achando o Wally e uns que perderam a noção. Montaram o trono de ferro na frente da multinacional e umas cadeiras frias e solitárias na frente das editoras por demanda, onde pobres autores esquecidos esperavam leitores imaginados. Sem querer ser fofoqueira, bem teve autora jogando água em si mesma e microfone que não funcionava. Vi Dom Quixote, só que também vi ””autor”” vendendo fanfic (sendo aplaudido por isso, que horror, que horror).

Duvido que o Jason e o Freddy Krugger que prestigiavam o evento tenham pego fila… Ah, o melhor foi o estande que juntou todo mundo bacana sem cobrar – chato foi ver estande que pediu a alma, os dois rins e 1.500 reais pro autor que quisesse estar ali.

Teve de tudo.

Até livros!

Tinha saldões com livros incríveis e editoras cobrando mais caro que sua própria loja virtual. Teve Caveira de Cristal, livros que rodam, livros em pilha, livros de graça, livros caros, livros baratos, livros pendurados, livros no chão, os menores livros do mundo e livros que não se consegue abrir.

Pessoal bacana por lá?

Preciso listar as incríveis maquiagens de dona Carol Chiovatto, o bom humor reluzente e contagiante de Sergio Pereira Couto, crianças que gostavam de clássicos conversando com o Bruno Anselmi Matangrano, os passarinhos do Estevão Ribeiro e o dragão da Ana Flávia Abreu, a capa dourada da Carolina Munhoz e os vampiros do André ViancoFelipe Castilho que teve que reler seu próprio livro (sentado no tal trono de ferro) depois de ser duramente interpelado pela criançada, Eric Novello fazendo presença VIP, Giulia Moonbatalhando como uma samurai com braços, Martha Argel falando de pássaros, o ofuscante JM Trevisan e o RPG, os pulos do Dennis Vinicius e a fala mansa do Marcelo Amaral. Teve planos de dominação mundial sendo forjados pelo Tomaz AdourErick Sama e Gianpaolo Celli. Teve Rober Pinheiro, lindissimo, desfilando por lá. E Milena Cherubim fingindo que trabalhava. Foi uma bienal tão estranha que o Walter Tierno se dignou a falar comigo! Pasmem vocês.

O que mais teve na Bienal? A Iris Figueiredo esgotando livros no estande, a Barbara Morais sendo fofa, a Alba Marchesini Milenasó de passagem, o Raphael Draccon com a cara mais cansada que eu já vi, palestra da Adriana Lunardi (e o Max Mallmann na platéia), Debora Gimenes Debby Lenon e Margareth Brusarosco atentas à programação da BN, Leandro Reis vendendo livro em cinco estandes diferentes… E minha chefe Carmen Pimentel me procurando por toooooooooooooooda a bienal.

E Felipe Colbert, Juliano Sasseron, Clinton Davisson, Graciela Mayrink, José Roberto Vieira, Roberto Causo, Finísia Fidelli, Cristina Lasaitis.

E teve bem mais gente, só que daqui a pouco o meu voo vai embora e eu tenho que ir pro Rio, voltar pro meu filhote, meu marido, meus gatos, meu cachorro… e a minha estante que agora tem MAIS LIVROS AINDA!

(Ainda bem que Bienal, alternando entre Rio e SP, tem todo ano. Já tô com saudades…)

A Llyr em 2012!

É, eu sei. 2011 passou e eu nem mencionei a Llyr. Mas foi um ano muito estranho, entre a própria novidade de editar, algumas mudanças, a temporada anual de Seu Leopoldo no hospital e meu próprio pré-operatório (já operei, fiz a gastroplastia, estou me recuperando muito bem, obrigada).

Ano passado foi a descoberta de como é bom, cansativo e estressante a vida de editar livros. Aos poucos, estou tomando jeito e me acertando. Acho que esse ano vai ser melhor/mais fácil.

Em 2011, tive o prazer de publicar pessoas que eu já admirava de longa data, como Martha Argel, participar de uma coletânea organizada pelo grande Nelson de Oliveira e na companhia do mito Fausto Fawcett, conhecer o trabalho da Ana Flávia Abreu – que tem na sua saga uma das promessas do ‘YA’ fantástico nacional – e do Júlio Rocha, um dos autores mais ecléticos do Brasil… e  de descobrir dois novos escritores que tem tudo para construirem longas e saudáveis carreiras: Dennis Vinicius e Adriano Villa.

(Além de publicar um livro fofo de gatos do meu marido…^^)

E o que vou publicar esse ano?

‘Investigação Paranormal – O círculo dos inquisidores’ do Sergio Pereira Couto. O Sergio é um grande amigo, uma pessoa super-querida, um escritor muito talentoso e que tem uma habilidade imensa para a pesquisa. No ‘Investigação Paranormal’, ele juntou a Inquisição, igrejas e mosteiros espalhados pela Europa e as mais modernas técnicas de… caçar fantasmas. O resultado é uma história surpreendente, com personagens carismáticos. Enquanto o livro não sai, siga o Sergio, leia seu blog e saiba mais sobre o assunto!

‘Palladinum’ de Marcelo Amaral. É um livro bem voltado para o público jovem, uma fantasia de portal dinâmica e bem construída, relatando as aventuras da turma do jornal Página Pirata no Pesadelo Perpetuo. É o primeiro livro do Marcelo, que é designer e ilustrador (a capa é dele). Tem várias ilustrações – que você pode conferir exemplos aqui – e o livro ficou LINDO!

‘O Vento Norte’ de Claudio Villa. Já me perguntaram se é a continuação de ‘Pelo Sangue e Pela Fé’, primeiro livro do Claudio, auto-publicado pelo autor há alguns anos e já resenhado por aqui. Não é, apesar de se passar no mesmo universo ficcional, o mundo de Mirr. Para quem gosta de intrigas políticas e piratas!

‘O último mágico’ de Dennis Vinicius me surpreendeu ainda mais que ‘A Grande Criação de Nicolas’. É um romance mais adulto, voltado para o povo com mais de 14 anos. Fala de amor, responsabilidade, destino e confiança. O Dennis já divulgou uma prévia da capa.

Vou colocar no mercado também as continuações de ‘O portal’ de Eliane Raye e ‘A casa de ossos’ de Adriano Villa. O livro da Eliane é um mistério fantástico passado no Rio de Janeiro tendo a Pedra da Gávea como centro. Já ‘A casa de ossos’ é terror daqueles tradicionais, de dar pesadelos e te fazer pensar duas vezes antes de ir na cozinha de noite.

E quais as Novidades, com ‘N’ maiúsculo?

Eu precisava de um bom romance sobrenatural, já que as minhas autoras (Martha e Ana Flávia) decidiram que esse ano não teriamos livros novos. Me caiu nas mãos, enviado pela Diana Lima (que também é agente do Dennis) ‘O jardim dos anjos’ de Margareth Brusarosco. O encanto veio na hora, não consegui parar de ler. A história  tem humor e leveza, ao mesmo tempo em que tem um toque sombrio por trás.

Uma das recompensas de ter sido sempre muito ativo no cenário virtual foi ter conhecido muitos novos autores e acompanhado sua formação. Quando ‘O conservatório’ de Adriana Rodrigues chegou na minha caixa de entrada, eu sabia que ali estava uma obra que valia a pena ser lida. E acertei! Vampiros, confusões e aventuras, com um leve toque de humor.

E eu tinha dois vazios no catalogo da Llyr, pois me faltavam dois subgêneros essenciais… mas que foram preenchidos! (ainda tem um faltando, que é o steampunk! Estou esperado!)

‘A ordem do dragão’ de Alícia Azevedo é a nossa fantasia épica! Passada no universo de Alluim, tem personagens cativantes, relíquias poderosas… e dragões! Sim, eu gosto de dragões – e esse é o ano do dragão, né? Como o Herodes, nosso dragão residente (e namorado da Kôra, protagonista da série da Ana Flávia) está de férias, substitui-lo por deuses-dragões!

E finalmente, aceitei um original de Ficção Científica! ‘Quando Deus morreu’ do mestre Gerson Lodi-Ribeiro! É um orgulho imenso publicar uma obra de um autor tão significativo dentro da ficção especulativa nacional!

(… e ainda teremos algumas surpresas!)

Depois que divulguei essa lista no Facebook, alguns amigos perguntaram ‘o que te faz escolher um original ao invés de outro?’ Taí uma pergunta que pode parecer fácil, mas é complicada de responder.

Pra começo de conversa, decidi que só publico livros que eu gostaria de ter na minha estante. Isso me limita? Muito pouco, pois sou eclética, principalmente em se tratando de literatura fantástica. Leio de quase tudo, de terror ao romance sobrenatural, de FC hard a fantasia épica… Então, não vou me limitar por subgêneros, mas pelo livro em si. Não é porque eu gosto de romance sobrenatural que qualquer semi-paródia levada a sério de Crepúsculo vai passar pelo meu crivo.

O livro precisa prender minha atenção, preciso me importar com a trama e com os personagens, ficar curiosa com até onde tudo aquilo vai.  Por isso, eu peço as primeiras 30 páginas do original, antes de receber o manuscrito completo. Se eu passo desse estágio, as chances de querer ler o livro todo são grandes… E já encontrei originais bem escritos, com temas interessantes mas que não me mantiveram presa na frente do computador/papel tensa, querendo descobrir mais. Já larguei originais na primeira página, no primeiro parágrafo…

O autor precisa ter um bom domínio de sua própria língua, CLARO. Até porque, se você não entende a história, como vai se importar com ela? Cuidado na escolha das palavras (sério, para me impressionar não precisa fingir que engoliu um dicionário), evitar erros ortográficos em excesso, olhar bem onde coloca essas vírgulas…

Eu sei que ninguém é perfeito, pessoas cometem erros e originais são diamantes brutos, que precisam ser lapidados. Tem editor que acha que o livro tem que chegar prontinho na sua mão, é só revisar e diagramar antes de imprimir. Eu não. ADORO trabalhar o texto, é a parte que eu mais gosto. Só que quanto menos eu precisar interferir no texto, mais do que o autor escreveu é preservado. E até para agilizar o processo, eu busco escolher os livros que vão me dar menos trabalho.

E por fim, eu analiso a postura do autor. Não sou babá pra ficar pajeando ‘crianças’ que não sabem o que querem da vida. Sou profissional e quero trabalhar com profissionais.Quero um time de pessoas determinadas e competentes.

Não é fácil se tornar meu autor… parabéns pra quem conseguiu agradar a chata ranzinza aqui o suficiente!

Um conto com outro nome ainda seria o mesmo conto?

Sempre que me ponho a pensar na parte que eu menos gosto em ser escritora, chego a conclusão que cada vez me sinto mais agoniada em dar títulos aos meus contos.

(Os meus wannabe romances até se saem bem nesse quesito, nem que seja com o meu uso descarado do latim)

O que é o título? Um resumo? Um slogan? Uma amostra do que irá ser encontrado naquelas poucas mil palavras? Um chamariz para trazer o leitor àquela história, dentre todas as outras do livro/revista/web?

Sim, porque tem isso ainda. O título é o primeiro contato que o leitor vai ter com o seu texto. Num livro ou revista, isso pode significar apenas que o seu conto vai ficar para depois. Mas… e quando você depende dele para agarrar o leitor pela gola? No caso de um conto publicado online, por exemplo, ou do livro exposto na livraria. Imaginem: a capa mais bacana do mundo com um título simplesmente repulsivo…

O problema é que eu geralmente me concentro na história que tenho que contar, nos seus personagens, na trama, no estilo. Se o título não surge junto com o conto, ao final tenho que pensar em algo – e é muito complicado.

Por muito e muito tempo, fui adepta de três formulas: “substantivo + adjetivo” (ou ‘como dar título a um filme iraniano’, válido na forma inversa), “O ‘x’ do ‘y'” e ” ‘Alguém’ e ‘outro alguém/coisa’ “. Tomei como desafio pessoal mudar um pouco essa linha. Desde o final de 2010, busquei dar títulos mais diversificados e até que tenho conseguido, como ‘Canção para duas vozes’, ‘Aquele que vendia vidas’ e ‘O longo caminho de volta’. Ok, às vezes dá preguiça e eu uso o nome do protagonista do conto, como foi o caso de ‘Cartouche’, mas aos poucos tenho melhorado.

Ainda não cheguei no nível de um Harlan Ellison – ‘Repent, Harlequin!’ Said the Ticktockman, de um P. K. Dick – Flow My Tears, The Policeman Said, só para dar um exemplo – ou mesmo do meu chapa Jacques Barcia, com seu Uma vida possível atrás das barricadas ou o meu preferido, The Greenman Watches The Black Bar Go Up, Up, Up. Mas quando sair um Anacrônicas 3, quem sabe os títulos não chamem mais atenção?

 

Adeus, Senhora dos Dragões

Hear, hear. It’s the sound of dragons’ tears.

Behold, behold, as dragons’ wings unfold.

Pray, pray. The Dragon Lady has flown away.

 

Acho que todo mundo tem seus velhos favoritos. Aqueles livros que leu na adolescência e vez por outra relê. Para boa parte do mundo nerd, é ‘Senhor dos Anéis’ (do mundo nerd da minha geração, pelo menos).  Nada contra quem gosta de revisitar a Terra Média.

Eu tenho outros lugares a visitar.

Sempre funcionei de forma estranha. Os livros novos, nunca lidos antes, eram absorvidos durante o período de aulas. De março a novembro, desde os 13 anos, pegava os livros novos, empilhava do lado da minha cama – para desespero de mamãe – e ia devorando-os,  um a um.

Chegava dezembro, a pilha era dividida entre os lidos, que iam para o armário-estante, e os não-lidos, que continuavam do lado da cama. Porém, não seriam mais devorados, não até março chegar.

Nos meses quentes de verão, entre cinema, pátio, shopping, praia, Campo de São Bento, eu me enfiava debaixo do ventilador, pegava uma caixa especial (um  engradado de plástico que surgiu no meu quarto um dia), tirava a toalha que a cobria e encarava meu tesouro.  Uma edição megassurrada de ‘Duna’, uma adaptação da Abril Cultural para ‘Os três mosqueteiros’, a edição da Imago para ‘A dama do falcão’, minha cópia de ‘Ivanhoé’, em capa dura – provavelmente do Círculo do Livro e já sem a contracapa. Meus lugares de verão eram Arrakis, a França de Dumas Pére, Darkover e a Inglaterra de Sir Walter Scott.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fico devendo a capa da minha edição de ‘Ivanhoé’, não achei na web, só de outras edições.

Esses livros foram devidamente recolhidos de meus pais (Os Três Mosqueteiros),  presentes de parentes mais abastados, que assinavam o Círculo do Livro e me passavam os livros que não gostavam (Ivanhoé), compras em sebos de uma guria que ganhava meia metade de um salário para trabalhar 4 tardes por semana numa padaria (na verdade, ‘Duna’ e ‘A dama do falcão’ eu li primeiro em cópias surradas de uma locadora de livros, depois os encontrei em sebos).

Uma tarde de verão, meus quatro favoritos terminados, amigos ocupados… Resolvi visitar o único sebo em que eu conseguia vez por outra encontrar algo diferente das edições paradidáticas de Machado e Alencar. Nessa visita, voltei com dois tesouros. Um era o exemplar mais batido e maltratado de ‘O hobbit’ que jamais vi, com uma mancha rosa de hidrocor e faltando um pedaço da capa. Era da Europa-América, pois ainda faltava um ano para a Martins Fontes trazer Tolkien para o Brasil. O outro…

Meu inglês nem perto, nem de muito longe, era o que é hoje. Mal e mal conseguia jogar meus RPGs no SNES e olhe lá – o RPG de mesa ainda não me encontrara, mas isso viria em breve. Naquela época, havia poucas informações sobre literatura fantástica. Por algum tempo tivemos a Isaac Asimov Magazine nas bancas, mas em Niterói era utopia. Diziam sussurros em becos que até havia um clube de leitores desse tipo de coisa, mas pra mim, era mito.

Encontrar um livro desses só por puro acaso. E eram 3 (todos com as capas iguais, que os gajos da Argonauta não estavam ali para perder tempo com essas frescuras), com um dragão na capa. Escritos por uma mulher, como a Marion! E não era Fantasia, os dragões estavam em outro planeta. Como Darkover!

Eu sabia que aquilo ia me deixar dura até o fim das férias, mas poxa. Um dragão. Um planeta CHEIO de dragões.

Desde aquele verão, Pern juntou-se aos meus demais destinos de férias. Um mundo sob constante ameaça cósmica e dragões como sua última linha de defesa. Personagens complexos e cativantes, uma escrita atraente – mesmo com a tradução da Argonauta atrapalhando. Aprendi inglês e fui atrás de outros livros – comprei muitos, outros acabei pegando emprestado. Mas li muita coisa de Anne McCaffrey.

 

No twitter hoje recebi a notícia da sua morte, aos 85 anos. Acho que só me senti tão órfã literariamente quando soube da morte da Marion Zimmer Bradley.

Enquanto dragões continuarem a fascinar o nosso mundo, seus livros, sua escrita, sua alma continuaram a viver entre nós.

Aquela esquina – o que se perde e o que se ganha.

Papai tinha uma padaria em Icaraí. Na verdade, ele teve duas no bairro, no espaço de duas décadas. Antes disso, ele trabalhou em outra por dez anos. Faça as contas: eu tenho 33 quando escrevo essa tentativa de crônica, então isso significa que a maior parte da minha vida foi dentro de um lugar que vende pão. Fato que obviamente explica a minha silhueta que sempre tendeu pro rechonchudo, mas que também me ajudou a ter uma relação muito forte com o bairro.

Não sei como era no resto do país, porém em Niterói padarias eram até o final da década de 1990 negócios majoritariamente familiares, firmemente ligados à colônia portuguesa e que serviam como ponto de encontro de vizinhos e amigos. Não foram poucas as vezes que minha mãe serviu de conselheira e psicóloga, enxugando lágrimas de esposas traídas, porteiros demitidos. Assim como não foram poucas as pessoas que ela acompanhou da infância à idade adulta, seus sobrinhos que iam comprar balas – e sempre levavam uma quantia muito maior do que a teoricamente compravam – e que anos depois iam levar seus filhos para fazer a mesma coisa. Papai se tornou uma figura conhecida, quase uma lenda urbana. Seus chistes e manias eram conhecidos pela cidade e ter trabalhado com seu Leopoldo era referência suficiente para ser contratado.

Padarias, para mim, sempre foram refúgios. Primeiro, o cheiro. O cheiro interno de uma padaria tinha um quê de azedo, por causa do fermento e da farinha, matérias-primas de 95% do que é feito lá. Já o cheiro do salão de vendas era bem distinto. Uma mistura de pão quente, mortadela sendo cortada, bolo de aipim com coco e salgados recém-fritos que aos finais de semana tinha a adição do frango assado. Existe algo mais cheiroso que frango assado de padaria? O tempero dos frangos foi, até o amargo fim, receita de mamãe, levando orégano, vinho branco, azeite, louro e outras especiarias, preparado por um português tramontano que em sua terra guardava cabras.

Amargo fim?

Três anos atrás, a esquina que a padaria de papai – uma casa com oitenta anos de atividade, comprada de um conterrâneo dele – ocupava foi vendida a uma empreiteira. Negociações e acertos feitos, em pouco menos de seis meses o prédio foi ao chão e a esquina de ponto de encontro virou um canteiro de obras. Na verdade, um fim anunciado. Mercados em todos os seus tamanhos e tipos – super, hiper, extra, mega, ultra – vem aos poucos acabando com o tipo de negócio que o meu pai sabia fazer. Nos poucos espaços que essas grandes multinacionais vem deixando, quase não há espaço para estabelecimentos em que o dono toma cafezinho com o freguês – papai sempre ressaltou que padarias não tem clientes – enquanto discutem o técnico do Vasco. Aos poucos, padarias de esquina, em que vizinhos marcavam hora pra ir e bater papo, vão fechando e sendo substituídas por ‘butiques de pão’ em que gerentes treinados sorriem vazios para clientes cujos nomes não são importantes, franquias cujo pão vem congelado e a mortadela já embalada, cujos salões de venda cheiram a aromatizantes industrializados e os frangos… ah, essas já quase não cheiram.

Senti falta disso ao andar pelo ‘Jardim Icaraí’, um pedaço da divisa entre Icaraí e Santa Rosa que os corretores apelidaram assim para atrair os incautos do outro lado. Não havia um lugar em que pudesse encostar no balcão e pedir uma coca-cola. As padarias viraram butiques de pão, os botecos se transformaram em bares com mesas, cadeiras e latas de refrigerante a R$ 4,00.

Prédios e mais prédios onde só haviam casas, dez construções em um espaço de seis quadras, quase nenhum comércio e nenhum ponto de encontro. Niterói está crescendo, ganhando novos moradores, supermercados que fazem promoções de parar o trânsito – literalmente.

Mas perdeu os Leopoldos e as Marinas que ficavam atrás do balcão esperando os fregueses com pão quente, mortadela recém-cortada, um sorriso no rosto e um espaço no coração.