Sobre livros de mulherzinha…

Estou enfrentando um novo desafio na minha carreira. Depois de escrever o Atlas…, minhas agentes acharam que eu poderia escrever algo mais leve e, inspiradas pelo tom de crônica das minhas postagens nas redes sociais, sugeriram uma chick-lit que tivesse a minha cara, com ironia, humor ácido e situações constrangedoras.

Eu aceitei, claro, assim como aceitei, anos atrás, o desafio lançado pelo Nelson de Oliveira de escrever um conto de Fantasia Urbana, o que acabou levando ao Atlas….  E assim como foi com meu livro de Fantasia envolvendo realidades paralelas e um deserto, estou me divertindo e me exasperando na escrita em igual medida. São preocupações por vezes diferentes – cronologia é um elemento muito importante no Atlas, nesse novo projeto acertar o tom dos diálogos para dar personalidades distintas aos personagens vai ser mais difícil – e a diversão vem de pontos diferentes, mas estou adorando a experiência – e pela resposta que tive das minhas agentes sobre as primeiras 30 páginas, elas também.

Aí, comentei no Facebook sobre essa experiência e não demorou vinte minutos para que eu fosse questionada. Segundo a pessoa – um desses perfis que saem adicionando todo mundo e que eu acabo aceitando pra não me estressar – eu, como pessoa “culta, politizada e inteligente”, não deveria incentivar esse tipo de “subliteratura”, “sem valor artístico, um mero produto comercial”. Respondi que ele era um idiota preconceituoso e que eu escrevo o que quero.

Quer dizer… fantasia-espada-e-feitiçaria, cheia de testosterona, homens musculosos que salvam donzelas virgens (que é um dos tipos de literatura que vi o tal questionador elogiar – e ei, curto também!) tudo bem. Mas que os deuses da literatura nos livrem de ler sobre mulheres e seus problemas e atividades cotidianos? Ou sobre suas fantasias e desejos? Ninguém me questionou quando eu, historiadora fascinada por fantasia épica e histórica, passei a flertar com a fantasia urbana… Por que esse tipo de pergunta só por eu estar experimentando um gênero marcadamente feminino?

Vamos confessar… Eu também já tive esse preconceito e tenho vergonha disso. Faz um tempo, a autora Courtney Milan falou, no seu perfil no twitter, sobre como foi a sua aceitação de que sim, ela gostava de livros de mulherzinha e não via problemas nisso. De como ela, que só lia Fantasia e FC a sério (como eu), começou a se interessar pelo romance dos personagens desses livros sérios (como eu), e depois já começou a procurar livros não tão “sérios” só por causa do romance (como eu), para finalmente admitir que muitas vezes estava lendo mais pelo romance do que pela trama (como eu!) e por fim passar a acompanhar os romances históricos e contemporâneos, além dos chick-lit. Como eu. (Ainda não curto muito os “hot”, romances sensuais ou eróticos que dão menos atenção a plot ou trama, mas isso é gosto meu, não diminui a qualidade desse gênero em nada)

Por que a gente reluta tanto em admitir que gosta? Primeiro, por sermos ensinadas desde bem cedo que ser mulher é errado, é menor, é pior (e isso hoje continua, de uma forma um pouco mais cruel, pois já vi ‘feministas’ dizer que meninas não devem brincar de casinha, pois isso as torna vítimas do machismo opressor. Eu acho que meninas e meninos brincam do que quiserem, thank you very much). Depois, também vem a noção de que mulheres são inimigas uma das outras, então para que ler sobre elas?

(E se você por acaso se interessa por Fantasia e/ou Ficção Científica, isso é ainda pior. O meio é absurdamente machista e cansei de ver leitores inteligentíssimos desprezarem livros por serem escritos por uma mulher ou por terem “romance demais”. Eu comecei literariamente nesse meio, o que explica um pouco a minha relutância em admitir que sim, gosto disso.)

Ou seja, romances e chick-lit foram categorizados como lixo, livros para gente burra e fútil, literatura de mulherzinha. E lógico, quem escreve e consome esse tipo de coisa seria igualmente burra e fútil.

Qualquer preconceito que eu ainda pudesse ter contra o gênero sumiu quando, por causa do meu trabalho na SdE e meu curso de pós, tive contato com a Elimar Souza, Verônica Lisboa e Natália Alexandre. Elas trabalham com esse tipo de literatura, divulgam, fazem eventos, comentam, resenham e me indicaram autoras novas e surpreendentes, como Lisa Kleypas, Tessa Dare (essa, sugestão da Taíssa Reis) e Mary Balogh – que são autoras de romance de época. E também com leitoras, nos eventos que acontecem periodicamente no Rio de Janeiro. Não, não são “burras”, não são “fúteis”, são mulheres inteligentes, ativas, cheias de compromissos e trabalho, que gostam de ler e de falar sobre o que leem, compram e agitam o mercado.

(E mereciam um pouco mais de respeito do mercado, aliás, já que muitas edições nacionais que li vieram cheias de erros de tradução e revisão, tsc tsc…)

Aos poucos tem se consolidado também uma produção nacional, seja para as mais jovens, seja para as mais adultas. Tenho visto surgir livros nacionais para o público feminino de todos os tipos, do romance histórico ao chick-lit, da fantasia ao erótico – e que também estão conquistando público e fãs. Autoras engajadas, preocupadas com o que estão passando para as suas leitoras, querendo emponderá-las e mostrar que elas são importantes.

Talvez seja isso que incomode tanto: ver que descobrimos a nossa voz, que podemos escolher como manifestá-la (e que iremos exercer esse direito de escolha) e que não iremos nos calar.

Pronto, desabafei, agora posso voltar para as desventuras de Bia e seu emprego burocrático. Atravessar um deserto com um homem-morcego seria melhor do que a papelada…

 

 

 

Sobre talkativebookworm
Eu trabalho numa biblioteca. Estudo História. Escrevo. Leio. Traduzo. Uma traça que fala, basicamente.

7 Responses to Sobre livros de mulherzinha…

  1. Aquele link para a Amazon que você postou há tempos no Twitter de romances entre mulheres e dinossauros ainda me assombra de vez em quando.

  2. Kami Girão disse:

    Ana, você não sabe como me senti representada por seu texto. Como autora de fantasia E de drama/romance, já vi rolar muito preconceito comigo por eu ter abraçado outro gênero além da fantasia urbana. Já vi leitor homem me perguntando quando eu largaria romance para voltar para a fantasia; já vi amigo meu dizendo que sou extremamente talentosa, mas “que perco meu talento com livros Malhação”. Já vi escritor de high fantasy desmerecer meus romances porque eles são, bem… “femininos e românticos”. Como se amar fosse algo que tirasse a força de alguém – e, por isso, fosse destinado ao “sexo frágil”. Como se escrever para mulheres também fosse um erro – por que eu não abraço o público masculino também, fazendo um protagonista que os traga para minha produção? Escrever para jovens então? Pfff!
    Mas esse preconceito não rola com o autor que escreve “uma grande história de amor que atravessa os tempos”. Não rola com o autor de high fantasy que abraça o público jovem. Rola com a escritora, que é desmerecida independentemente do gênero que escreva.
    É algo que me deixa entalada. Dou meu sangue e suor para escrever algo consistente, bem feito, bem estruturado, e só porque sou mulher e gosto de falar sobre romances isso desvaloriza o meu trabalho? Só porque minhas personagens são mulheres isso já me desqualifica?
    A minha esperança é que esse panorama está mudando. Aos poucos, mas já dá para ver as mudanças. Vejo escritoras e leitoras se unindo a favor daquilo que produzem e consomem, conquistando cada vez mais esse espaço que ainda teima em nos menosprezar. E não vai ter quem nos pare.
    Não vai mesmo.

    No mais, querida, obrigada pelo seu texto. Obrigada, de verdade.

  3. Isa Prospero disse:

    Amei o texto, Ana! É inclusive bem hilário ver o pessoal da fantasia/FC desprezar gêneros como esse quando os gêneros preferidos deles, por sua vez, são desprezados por muitos outros leitores “cultos”… rs.
    E o que me irrita é que quase todo mundo lê romance, no fim das contas – porque muitos autores homens de literatura de gênero inserem tramas românticas nos livros (com maior ou menor grau de sucesso…), mas vc nunca ouve alguém falar: “Ah, eu não leio Patrick Rothfuss pq ele escreve romance!” Só mais um exemplo de como homens ganham o benefício da dúvida, enquanto as autoras têm que lidar com preconcepções imbecis.
    Enfim, muito bom o texto!🙂

  4. Alinde disse:

    Não sou muito de romance porque a minha sede de romance é pequena, me sacio com pouco.
    Mas detesto preconceito literário. Não preciso dizer isso, mas escreve o que quiser e pronto, pombas! E o seu livro eu vou ler, romance com ironia e humor ácido eu me animo mais🙂

  5. Hm.. interessante. Hoje em dia existe vários pseudo-cult que se acham “cult” por que leem livros que são clássicos e tals… Chick-lit é legal até. Conheci o gênero ano passado e curti bastante, mas de uns tempos para cá, percebi que no momento romance não é comigo (porque estou eu mesma vivenciando um romance gostoso). Marian Keyes é uma autora bastante conhecida no gênero, e apesar de ser chick-lit, ele consegue abordar assuntos densos…
    Os mimimis estão por toda a parte e o melhor que podemos fazer é ignorar alguns…

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