O desprezo pelo leitor

 

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Ontem, circulou nas redes sociais um link sobre uma mesa da FLIP onde um escritor e professor da UFRJ dizia não se importar com o leitor. Nas suas palavras, “o leitor que se foda” – o que interessa na sua literatura para ele é a sua satisfação como artista.

A posição dele, claro, é muito cômoda para dizer isso. Professor universitário, premiado, presença constante em eventos e festas importantes (e que pagam cachês). Eu poderia também contrargumentar os conceitos dele de alta literatura – sim, ele usa esse conceito – e de como sempre pensamos em um leitor.

Mas tudo bem. Nossos caminhos literários e editoriais são completamente separados, embora eu tenha lido alguns dos seus trabalhos (ou seja, em relação ao autor sou no máximo leitora e tenho mais é que me fuder mesmo). Ele irá continuar se importando com o prazer estético da criação artística. Eu vou continuar escrevendo pensando em como provocar meu leitor com a história que estou contando. O caso é que, enquanto eu respeito a posição dele, me parece que ele não respeita a minha.

Enfim.

O que me preocupa e provocou esse texto é a quantidade de escritores de literatura de entretenimento (seja Fantasia, Ficção Científica, Romance, Erótico, Mistério, Suspense, Terror, ‘Chick Lit’, etc) que tentam medir, controlar e criticar o comportamento do leitor.

Eu acho que falta às vezes consciência do papel de cada um de nós nessa indústria vital. O leitor lê – consome o produto que escritores e editores colocam em livrarias. (Sim, incluindo o livro de quem quer que o leitor se foda. É produto, tem código de barras e vende a prazo no cartão de crédito. Deal with it)

Ele não é obrigado a ler o seu livro.

Ele não é obrigado a resenhar no Skoob/Goodreads e dar estrelinhas.

Também não é obrigado a gostar de literatura nacional. Ou de livro erótico. Ou  de Fantasia.

Leitor só é obrigado a ler quando está na escola/faculdade e a leitura vale nota.

“Mas o leitor tem que respeitar o trabalho do escritor.”

O que é respeito ao seu trabalho?

Comprar seu livro quando quer ler e ele não está disponível de graça legalmente. Acho que não há muito mais que isso. Ele pode queimar seu livro, rasgá-lo, usá-lo como papel higiênico… É dele. Pode xingar seu livro na internet – sim, pode dizer que ele é uma merda. É direito dele.

(Claro, há o limite do bom senso e da educação, mas esse é um outro ponto).

Amigos, em resumo: não encha o saco do leitor.

Não cobre que ele leia mais. Incentive-o a ler mais.

Não exija que ele dê estrelinhas no Skoob ou no GoodReads ou no mural da escola. Escreva bem o bastante para que ele sinta vontade de fazer isso por si mesmo.

Não reclame se ele não lê o gênero A, B ou C – mesmo que seja isso que você escreva. Uma das maravilhas da sociedade editorial moderna é que você sempre vai conseguir encontrar seu nicho, por menor que seja. Deixa o leitor X ler o que ele quer. O leitor Y vai ler o seu trabalho. E se ele for muito bom, ele pode até convencer o leitor X a ler também, quem sabe?

Não peça resenhas. Não implique com as resenhas negativas.

O leitor não é burro. Não é inculto, preguiçoso, irresponsável ou desrespeitoso.

Ele é um leitor.

Pode não ser o seu leitor.

Mas ele merece respeito e ler em paz.

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Das lutas de cada uma.

Hoje é aniversário da Ursula Le Guin. Uma das escritoras mais influentes da ficção fantástica mundial. Um exemplo para todas nós, pois escreve desde quando era estranho uma mulher escrever FC. Eu deveria falar sobre ela.

Mas hoje a comissão de ética da Câmara dos Deputados do Brasil aprovou uma lei que vai a votação para depois passar a reger as vidas das mulheres. Por essa lei, a mulher vítima de violência sexual não vai poder ser informada sobre seus direitos em relação a prevenção de uma gravidez indesejada. Uma câmara dos deputados que tem uma representação feminina mínima.

Mas ontem um programa mostrou crianças cozinhando e as redes sociais brasileiras foram inundadas com… seres vagamente similares a humanos que anunciavam aos quatro ventos seu desejo de natureza totalmente sexual por uma MENINA.DE.DOZE.ANOS.

Eu estou de estômago embrulhado. Realmente não consigo acreditar que vivo em um país… não, em um mundo que permita coisas assim. Mas vivo. É pior do que muitas distopias que li, é pior do que os futuros apocalípticos que escritores mais imaginativos que eu criaram.

É pior porque é absurdamente real. Não vai acabar quando fecharmos um livro ou desligarmos o ereader. Vamos acordar amanhã sabendo que se uma mulher pobre, que não teve acesso às informações que eu (classe-média-intelectual-do-sudeste) tive, for estuprada, ela correrá um grande risco de engravidar de seu agressor. E terá que carregar o fruto dessa violência por meses, pois ninguém a informará sobre seus direitos, sobre suas escolhas.

Tem mulheres, tem pessoas maravilhosas que lutam mesmo, vão às ruas, aos hospitais, à Câmara e tentam impedir esses absurdos. Que gritam. Todo meu amor, todo o meu carinho, todo o meu apoio a elas.

A minha luta é mais sutil. Mais lenta e talvez menos significante, mas é onde eu acho que consigo ajudar melhor. Não sou boa de retórica e se tem algo que meu envolvimento no movimento estudantil me ensinou é que minha militância nas ruas é péssima – sou lenta demais e alvo fácil.

Luto para que mulheres (e outras pessoas invisibilizadas seja por sua cor, por seu gênero, por sua sexualidade e por vários outros motivos) sejam ouvidas e vistas na literatura. Principalmente no que chamamos de literatura fantástica.

Como disse, é uma luta menor, eu sei. E se tiver algum resultado, vai ser a muito longo prazo. Mas foi assim que escolhi lutar, porque acho que é nos livros que temos um dos caminhos para mudarmos a sociedade em que vivemos, principalmente se falarmos de literatura fantástica, que atrai jovens e crianças. Reclamo e vou reclamar  sempre de livros sexistas e com poucos personagens femininos de relevância, pois acredito que a literatura tem o poder de influenciar positivamente quem lê. Vou continuar apontando sempre que eu notar o apagamento da diversidade quando se falar de literatura fantástica, seja em que meio for, em que mídia estiver, pois todos precisam e devem ser vistos.

Por causa disso, vai ter quem me chame de ‘chata’? De ‘arrogante’? De ‘egocêntrica’? De ‘militonta’? De ‘babaca’? De ‘feminista raivosa’? De ‘social justice warrior’? Sim, vai.
Não ligo.
Porque penso na possibilidade de ser por causa dessa minha luta que, um dia, uma menina pegue um livro para ler e veja na capa o nome de uma autora. Depois, ela vai abrir o livro e descobrirá que lá dentro tem uma personagem feminina que importa, que age, que é relevante. E ela vai se sentir menos sozinha. Vai ver que ela importa.

Ou talvez um menino pegue esse mesmo livro e ao conhecer essa personagem, reconheça as dificuldades da menina ao seu lado e a respeite mais, não tente apagá-la ou ignorá-la.

Porque pode ser que um post, um tweet, um comentário meu incentive uma autora a não desistir, um autor a criar uma personagem feminina relevante. Ou que faça um leitor abrir um livro que mude a sua visão do mundo.
Se isso acontecer ao menos uma vez, pode o mundo inteiro me chamar do que quiser. I don’t care.

Vai ter tudo valido a pena.

Ursula K. Le Guin: Precisaremos de escritores que possam se lembrar da liberdade

A Ursula K. Le Guin foi homenageada pela sua contribuição à literatura americana no National Book Award de 2014 e o seu discurso ao aceitar o prêmio tem quer ser lido por qualquer um que queria ser escritor – ou que já seja um.

Traduzi a transcrição do discurso que está aqui – e contei com a ajuda do Petê Rissati para dar uns ajustes. Leiam e reflitam.

(Neil é o Gaiman, que a apresentou para a platéia)

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“Agradeço a você, Neil, e aos responsáveis por este lindo prêmio. De coração, obrigada. Minha família, meu agente e editores sabem que estar aqui é tanto mérito deles tanto quanto meu, e que este belo prêmio é tanto deles tanto quanto meu. E me alegro em recebê-lo e compartilhá-lo com todos os escritores que foram excluídos da literatura por tanto tempo, meus colegas autores de fantasia e ficção científica – escritores da imaginação, que nos últimos cinquenta anos este belo prêmio ir parar na mão dos chamados ‘realistas’.

Acredito que tempos difíceis estão por vir, quando desejaremos ouvir a voz de escritores que consigam ver alternativas ao que vivemos hoje e possam enxergar além desta nossa sociedade, tomada pelo medo e por sua tecnologia obsessiva, outras maneiras de existir, e que possam até imaginar possibilidades reais de esperança. Precisaremos de escritores que possam se lembrar da liberdade. Poetas, visionários – os realistas de uma realidade mais ampla.

Neste momento, acredito que precisamos de escritores que saibam a diferença entre a produção de um bem de consumo e a prática artística. Desenvolver material escrito para se adequar a estratégias de venda e maximizar o lucro corporativo e a renda publicitária não é bem a mesma coisa que ser um editor ou autor de livros responsável.

Porém, vejo os departamentos de venda ganharem controle sobre o editorial; vejo minhas editoras em um pânico tolo de ignorância e ganância, cobrando de bibliotecas públicas seis ou sete vezes mais do que cobram dos consumidores. Acabamos de ver um aproveitador ameaçar uma editora por desobediência e escritores ameaçados por uma fatwa corporativa, e vejo muitos de nós, produtores que escrevem os livros e fazem os livros, aceitando isso. Deixando esses exploradores nos vender como desodorantes e nos dizer o que publicar e o que escrever.

Livros, vocês sabem, não são apenas mercadorias. A motivação pelo lucro está frequentemente em conflito com os objetivos da arte. Vivemos no capitalismo. O seu poder parece ser inevitável. Assim era o poder divino dos reis. Os seres humanos podem resistir a qualquer poder humano e mudá-lo. A resistência e a mudança muitas vezes começam na arte, e muitas vezes mais na nossa arte – a arte das palavras.

Tive uma carreira longa, uma boa carreira. Em boa companhia. Agora, aqui, no final dela, realmente não quero assistir a literatura americana ser apunhalada pelas costas. Nós que vivemos da escrita e da vida editorial queremos – e devemos exigir – a nossa parte dos resultados. Mas o nome da nossa bela recompensa não é lucro. O seu nome é liberdade.

Obrigada.”

A cara a tapa. E o traseiro na janela.

Povo bonito, uma dica sincera sobre algo que eu venho sentido faz tempos. Sei que muita gente que me acompanha é escritor, ou quer ser.

Hoje, resolvi dar minha contribuição pro dia internacional da mulher – que é amanhã – colocando no ar uma lista de trabalhos disponíveis online e gratuitamente de nossas escritoras fantásticas. Passei umas duas horas pescando na internet e o resultado está aqui.  Queria ter colocado contos de todas as autoras que citei na lista principal do meu post anterior. Mas foi bem complicado encontrar material de algumas, principalmente porque estava com tempo curto e não podia ficar procurando muito.

Senti falta da profusão de sites para contos  – ou mesmo de uma melhor organização dos blogs e sites pessoais que facilitasse o trabalho de quem tem interessem em encontrar esses trabalhos. Moleza foi encontrar vários contos e trabalhos curtos na Amazon, sempre muito baratos… mas pagos.

Gente, eu sei que a Amazon é um lugar bacana pra tentar ganhar um troco com nossos trabalhos mais curtos. Porém, vocês não podem esquecer de que web é principalmente a nossa vitrine, ainda mais para quem está começando, é indie ou trabalha com pequenas tiragens. Se você não coloca o seu trabalho a disposição das pessoas, como elas vão conhecer tudo o que você é capaz? Mesmo que seu conto lá esteja o mais barato que a Amazon deixa, se a pessoa não sabe quem você é e não tem ideia se gosta ou não do que você escreve, por que ela iria gastar seus tostões com você?

Vocês já pararam para se perguntar como eu, que tenho apenas um livro solo de contos, consegui meu lugar ao sol (que é pequeno, mas é limpinho)? Não foi com as coletâneas, pois acho que das muitas em que participei, só duas ou três devem ter batido os 1000 exemplares vendidos. Foi a minha atuação online, e não só com a ironia e acidez que me é peculiar! Tem um monte de trabalhos meus online por aí (aqui, eu listei uma parte dos que estão fora do blog. Os que estão publicados aqui, tem sua própria categoria – e fica a sugestão dessa organização para quem tem material online!)

Quando eu comecei, todo o escritor novato colocava contos online – em seus blogs, no blog dos outros, onde desse. Hoje, está mas difícil ver esse material para poder conhecer um pouco mais do trabalho de quem começou agora. O pessoal tem preferido colocar em antologias ou jogar na Amazon, mas isso atrapalha a descoberta.

Escritores fantásticos do Brasil, coloquem a cara a tapa e a bunda na janela virtual! Usem as ferramentas que temos – existem várias espalhadas por aí.

Aos meninos do Rio

Meninos que estiveram nas ruas do centro do Rio, fazendo aquela festa linda na Cinelândia e chegaram em casa para verem atônitos as cenas de depredação na ALERJ.

Bem-vindos ao maravilhoso mundo do ativismo político. É, é assim mesmo, é foda e é revoltante. Você vai, com a cabeça erguida e a consciência tranquila, impede aquele mané do seu lado de virar uma lixeira, grita ‘Sem violência’, não hostiliza o policial, canta, tira foto e se emociona. Aí vem aquela meia dúzia de militantes que precisam aparecer para as direções dos seus partidos/movimentos, em conjunto com uma policia totalmente despreparada para manifestações, para fazer ‘baderna’, depredar patrimônio histórico, queimar carros de trabalhadores… e roubar os holofotes que de direito deveriam ser da festa linda que vocês, Manifestantes, fizeram.

Então peço que vocês não desanimem. Esse pessoal é minoria e faz isso há muito tempo. Fazia quando eu era estudante, fazia antes de mim e vai continuar fazendo quando for a vez do meu filho ir as ruas.

Mas vocês são maiores que tudo isso. Vocês fizeram o Brasil ficar gigante e maravilharam essa historiadora aqui, que está vendo a história ser moldada pelas mãos de vocês. Não parem, não desistam, continuem.

Na próxima, eu vou estar lá com vocês. Obrigada pela esperança que vocês me devolveram.

Vamos pra rua.

Adeus às armas

Gripe, depois de uma chuva. Passei o dia em casa, enrolada na coberta. Quando enjoei de jogar Dragon Age II (e fica aquela dúvida, quem é mais fofo/gato, Alistair, Fenrir ou Anders), vim para o pc e tentei trabalhar. Porém, como estava espirrando muito, o copi não saia de jeito nenhum.

Resolvi fazer algo adiado faz pelo menos um ano e arrumei minhas pastas. Ainda não estão do jeito que eu queria, mas já estou me achando melhor… Nisso, vi o seguinte:

– Minha pasta de contos publicados conta com 26 subpastas. Uma tem os 21 contos de AnaCrônicas. Mas em cada uma das outra tem um conto já publicado em fanzines, ebooks ou coletâneas profissionais no Brasil (e suas múltiplas versões até chegar a versão final… Procês terem ideia, a subpasta ‘Anta das Virgens’ tem 13 documentos)Image

No prelo, tenho mais 5 contos a serem publicados nos próximos 12 meses. E inéditos/prontos, mais 7 que só precisariam de uma polida para ficarem no ponto. Isso, sem falar das flashfictions (em torno de 70) e dos contos que entraram no 2o volume do ‘AnaCrônicas’.

Minha carreira começou mesmo em 2006, com uma publicação na Scarium (teve antes 2 publicações online na SciPulp, mas considero-as laboratório para tudo que veio depois). Em 8 anos, 1 antologia de 21 contos e 30 contos espalhados em várias editoras… é, acho que já cheguei em algum lugar.

Mas quando a gente chega em algum lugar, é hora de respirar, ajeitar a mochila nos ombros e ir para um lugar novo. E é por isso que esses 5 que estão para sair serão os últimos por um tempo.

Agora, é chegada a hora de escalar aquela cordilheira escarpada e perigosa chamada ‘romance’…

Os meus cinco motivos para escrever

Muita, muita coisa acontecendo por aqui. Mas no meio da correria, tomei um choque de realidade e parei para me fazer uma pergunta/reflexão que coloco aqui por duas razões.

Primeiro, para dividir com vocês – e talvez até provocá-los a fazer igual.

E principalmente para ter isso em algum lugar. Se algum dia, eu esquecer dessa lista, peço a vocês, meus amigos, para me lembrarem disso. Podem me bater também, pois provavelmente estarei merecendo.

Então, dona Ana, a senhora escreve por quê?

– Gosto de criar histórias. De pensar em pessoas que não existem, lugares que não podem ser e guerras jamais combatidas. Tramar contra reinos de mentira e conceber deuses de verdade.

– E simplesmente adoro compartilhar essas histórias. Quer me deixar feliz? Elogie um conto ou um personagem meu. Saio dando pulinhos de alegria porque não só contei uma história, como ainda fiz isso de maneira a atingir alguém e provocar alguma reação.

– Tenho uma grande necessidade de me expressar artisticamente. Só que sou uma negação em artes plásticas, música… A única arte em que consegui me expressar razoavelmente foi mesmo a literatura.

– Livros não mudam o mundo. Pessoas mudam o mundo e livros mudam pessoas. O que eu escrevo muda alguém, mesmo que seja só a mim mesma.

– E o principal motivo, aquele que realmente importa. Eu escrevo porque gosto.

Cartas aos jovens – Inve$$$tir na carreira de escritor

Olá, queridinhos da tia Ana.

A pergunta de hoje veio do formspring, um serviço interessante:

“po, sua escrota! vc fik flando mal das editora que publica estorias boas cmo Andross! eh recalque cm ctz! seus ctos saum ruim, aposto q foram recusadus! oq vc tem contraqm invezti na carreira?”

Vamos por um momento ignorar o homicidio doloso cometido contra a última flor do Lácio e nos concentrar na questão do investimento na carreira (de escritor).

A primeira coisa a ser dita é que pagar para publicar um conto em uma coletânea de qualidade duvidosa não é investimento. É egotrip.

E desculpem, mas é humanamente impossível fazer uma coleção de 50 contos de escritores amadores dispostos a qualquer coisa pra publicar ser boa. No máximo, regular – e até agora, não vi nenhuma.

Publicar o seu próprio livro? É um investimento? É, mas de alto risco. Para cada Eduardo Spohr e André Vianco, há dúzias que mal e mal consegue vender seus livros aos parentes, amigos e conhecidos. E centenas que ficam com encalhes eternos na garagem de casa.

O melhor investimento que um escritor pode fazer é em busca de seu aprimoramento profissional.

Isso se traduz em:

– Comprar livros de ficção para acompanhar o mercado editorial.
– Comprar livros sobre a profissão, em todos os seus aspectos. O Brasil ainda é fraco em livros nesse quesito, porém sempre dá para achar um.
– Custear a participação em eventos nos quais você possa entrar em contato com editores, escritores e leitores.
– Fazer cursos, oficinas, seminários. Você pode pensar que isso não existe, pelo menos não voltado à escrita. Bem, você está errado. Cursos e oficinas ligadas à escrita e literatura pululam por aí. O que você precisa é de discernimento para investir no lugar correto. Se você escreve Fantasia, não adianta pagar para participar de uma oficina com um escritor muito premiado mas que tenha preconceito com a literatura de gênero. Você vai sair de lá frustrado (acredite em mim!)

O melhor é ir a lugares que entendam e respeitem a sua escolha de gêneros. Se você mora em São Paulo, o negócio está excelente!

A editora Terracota mantem o Espaço Terracota, que está com inscrições abertas para três cursos.

Um é a pós lato sensu em Criação Literária. Por mais que você possa torcer o nariz para isso, lá fora a escrita criativa é tratada dentro da Academia. Aqui, o curso da Terracota começa a se firmar como uma das melhores alternativas para quem quer realmente seguir este caminho (e se você ainda não se graduou, o curso também é oferecido como curso de extensão). O quadro de professores inclui Nelson de Oliveira e Marcelino Freire e o programa do curso abrange desde a criação literária em blogs até a escrita de romances. Veja mais aqui.

O curso do meu querido Sergio Pereira Couto é sobre um assunto que faz falta a muitos autores brasileiros. Sergio vai falar sobre a pesquisa literária, fundamental para quem quer escrever sobre QUALQUER assunto. As pessoas tem o hábito de pensar que se vai escrever sobre o cotidiano, a pesquisa é desnecessária. Aí, sai um monte de abobrinhas. O Sergio tem cacife para falar do assunto, tendo escrito 35 livros, entre eles romances com um profundo teor histórico. Informações aqui.

E mestre Fábio Fernandes me faz almadiçoar a falta de teletransporte. No seu curso sobre a história da literatura de Ficção Científica, a relação de autores e temas é de dar água na boca:

“cyberpunk – steampunk – space opera – new space opera – new weird – new wave – E.E.”Doc” Smith – Edmond Hamilton – Leigh Brackett – Philip Nowlan – Alex Raymond – Hugo Gernsback – John Campbell – Isaac Asimov – Robert A. Heinlein – Arthur C. Clarke – Frederik Pohl – Hal Clement – Cordwainer Smith – Chad Oliver – Frederic Brown – Poul Anderson – Dan Simmons – Frank Herbert – Iain M. Banks – Samuel Delany – Larry Niven – Octavia Butler – Gene Wolfe – Joanna Russ – John Brunner – Ursula K. LeGuin – Jay Lake – Pat Cadigan – Jeff VanderMeer – William Gibson – China Miéville – Bruce Sterling – Kage Baker – Rudy Rucker – Nancy Kress – John Shirley – M. John Harrison – Greg Bear – Charles Stross – John Varley – Cory Doctorow – Gregory Benford – Neal Stephenson – Carl Sagan – John Meaney – Jack McDevitt – David Marusek – Roger Zelazny – Adam Troy-Castro – Philip K. Dick – Paolo Bacigalupi – Theodore Sturgeon – Robert J.Sawyer – Alfred Bester – Cherie Priest – Joe Haldeman – David Louis Edelman”

(Sim, boa parte desses autores não saiu no Brasil. Se isso é um problema, talvez seu primeiro investimento deva ser um curso de inglês)

Se o Lula me pagasse um salário digno, até dava para tentar ir a São Paulo uma vez por semana durante seis semanas. Como não é o caso, fico aqui, morrendo de inveja dos paulistas. Se você é de Sampa ou é um afortunado que pode bancar o vai-vem, as inscrições são aqui.

No Rio, tem o curso de Eduardo Spohr, autor de ‘A batalha do apocalipse’, fenômeno de vendas, sobre a Jornada do Herói no Cinema e na Literatura. Vale a pena, mesmo que vocÊ não queira usar a jornada em seus escritos. Fica mais fácil sabendo o que evitar. Inscreva-se aqui.

Porém, se você não mora nem no Rio nem em São Paulo, não desanime. Centros e espaços culturais, além de faculdades, costumam dar cursos livros e de extensão sobre o assunto. Fique de olho nos suplementos literários e nos blogs culturais da sua região.

Stay tunned!

Cartas aos Jovens – O ofício do escritor

(Ou Conserto da Juventude…)

Olá, meninos e meninas que enchem o saco da tia Ana por email, msn, Gtalk, Twitter ou sinal de fumaça (felizmente ninguém veio me tocaiar na frente de casa ainda).

Tenho recebido muitas dúvidas angustiadas de jovens – na idade ou nas convicções, como diria Mestre Fabio Fernandes – querendo saber como dar os primeiros passos no espinhoso porém gratificante ofício das letras.

Para parar de ficar respondendo a mesma coisa ‘n’ vezes, vou fazer uma série de posts. Hoje, só vou dar uma introdução e fazer um breve merchan.

– O que é preciso para começar a ser um escritor?

Basicamente?

É preciso saber escrever. Só isso. Não precisa de computador, máquina de escrever, acesso a internet, um milhão de amigos, cônjuge rico ou qualquer outra coisa.

Mas quando eu digo que é o básico, é o básico mesmo. É o mínimo que você precisa.

Só que isso vem de um interpretação ao pé da letra do que é ser escritor.

Claro que você quer mais. Você quer ser o Escritor. Você quer revolucionar o mundo. Ou pelo menos vender pra cara…mba. Ou um pouquinho.

Bem, se você for realista, o que você realmente quer é publicar suas histórias, fazer com que as pessoas leiam… e torcer pra que gostem.

Esperar mais do que isso é a abertura para se decepcionar – e muito. E eu não quero isso, não gosto de ver as pessoas infelizes (com algumas exceções, já que eu não sou a Madre Teresa).

Então, para começar nesse árduo ofício, minha primeira recomendação é essa: mantenha os pés no chão. J.K. Rowling conseguiu construir um império a partir de uma edição ridícula de 500 exemplares e André Vianco chegou na Rocco tendo pago a sua primeira publicação? Eles chamam a atenção por serem exceções. Não são a regra, infelizmente. Para cada escritor estabilizado na profissão, há centenas que mal e mal vendem 1000 exemplares por ano. Isso sem contar aqueles que sequer chegam a publicar ou que demoram 2 anos para vender 300 exemplares.

‘Mas, Ana, é sério? É esse o primeiro passo para você?’

Juro. Eu acho essencial você ter essa consciência de que não vai conseguir viver dos seus escritos tão cedo e que muito pelo contrário terá que investir na profissão, com cursos, livros, oficinas, viagens, cartões de visita. A saída é convencer seus pais a te bancar (tem gente que consegue, oras) ou ter um emprego que te mantenha vivo e pague as contas.

Sim, vai ser frustrante no começo, você vai ter que escrever nas horas que conseguir roubar da sua vida. Vai dormir pouco, vai deixar de sair ou de ver televisão. Eu só posso dar um conselho aqui: tente escolher uma carreira que você goste. Se seu trabalho for recompensador, será mais fácil parar e escrever. Alguns gênios escrevem sob efeito de depressão, mas de estresse ou estafa são poucos.

É, não disse que ia ser fácil e nem que eu tinha uma fórmula mágica. No próximo post da série, prometo ser um pouco mais prática.

Agora, o momento merchan.

Vocês talvez lembrem da oficina que dei ano passado em São Paulo, intitulada ‘Escrevi meu livro, e agora?’.

As apostilas que forneci pra quem fez a oficina estão circulando por aí, não sei como. Não passei para ninguém em formato digital e as pessoas que participaram não se dariam ao trabalho de escanear pra passar pros outros. Então, como eu não vou ficar me estressando com isso, a partir de amanhã vocês irão encontrar o pequeno manual de auto-ajuda disponível de graça para download em formato pdf e – para quem não gosta de ler no computador – a venda no sistema de demanda pelo Clube dos Autores.

Por hoje, é só!