Presentes e começos

(Um conto de  Ano Novo passado em um dos cenários do “Atlas Ageográfico”)lori.jpg

O sol estava quase se pondo e as comemorações do Último Dia do Ciclo iriam começar em breve. Lori corria o mais rápido que as patas curtas permitiam, ansioso. Tinha juntado conchas por semanas, buscando as mais bonitas e especiais no fundo do rio, e finalmente iria conseguir comprar o presente ideal para Karia.

Se chegasse a tempo no artesão.

O problema todo era esse. O rio onde ele trabalhava ficava do outro lado da cidade. Tinha pedido ao seu supervisor para que o liberasse mais cedo, só que o manati mal o olhou antes de responder negativamente. O lado bom é que na última hora de trabalho tinha encontrado a concha mais bonita, de um tom rosado maravilhoso, que certamente iria agradar o artesão a quem encomendara o colar.

E por isso, o pequeno lontra corria desesperado pelas vielas estreitas do bairro dos roedores de Shangri-lá. Ia conseguir. Dava tempo. Waiko, o artesão do povo-macaco, iria esperar até o sol sumir completamente.

Virou uma esquina sem prestar muita atenção e quase morreu de sustos. Uma guarda e um soldado do povo-morcego estavam no meio da rua, encarando-se. Bem por onde ele deveria passar para chegar ao mercado. Não havia ninguém por perto, pois os pequenos da Cidade das Feras sabiam muito bem que não deviam se meter na briga das criaturas maiores. Lori se encolheu e olhou ao seu redor, procurando onde se esconder, uma porta, uma janela, um buraco que ele pudesse alcançar sem chamar a atenção dos dois.

O sol ficava cada vez mais avermelhado e ele podia sentir os olhos queimando de tristeza. Respirou fundo. Iria conseguir. Aquele era o dia ideal para entregar um presente para a sua parceira, que iria lhe dar um herdeiro em breve. Ele ia chegar a tempo. Os morcegos iam sair dali, ele só precisava ter paciência. E esperar.

Tão concentrado estava que se sobressaltou quando ouviu a voz do morcego mais alto.

– Então, você está de serviço de guarda esta noite, Maya.

– Sim – a jovem respondeu ao pai com raiva. Lori sabia quem eles eram, pois eram poucos os do povo-morcego em Shangri-la e só uma chamava-se Maya: a filha de Íbis, o capitão da Guarda Externa. Lori começou a achar que talvez não conseguisse chegar no mercado.

– Ouvi dizer que você não está mais morando na Casa da Guarda… – Lori sempre ouviu os outros habitantes falarem de Íbis em sussurros, com medo e admiração. Ele nunca tinha entendido o porquê. Naquele momento, entendeu o motivo de o temerem, pois quis se encolher e chorar ao ouvir o tom de voz do homem-morcego.

– Não, não estou…

Ela foi interrompida pelo pai.

– Você está morando com o tal minotauro, Maya? É isso mesmo? – Lori viu que até Maya estremeceu com o tom de voz, mesmo mantendo a cabeça erguida e firme.

– Não, pai. Estou morando com Jaciara… que mora perto dele.

Íbis jogou as asas para trás, o deslocamento de ar quase derrubando Lori.

– Jaciara? A onça capitã da Patrulha? Ela era amiga de sua mãe! Como ela pode…

– Por isso mesmo, pai! – Íbis tinha mantido o tom de voz, mas Maya perdera a paciência e passara a gritar. – Ela era amiga da minha mãe! Agora é minha amiga! Ela se importa comigo e não com que os outros vão pensar, com os costumes ou as tradições! Agora, me deixe! O sol está se pondo e eu preciso ir.

Sem olhar de novo para o soldado, a guarda bateu as longas asas negras e saiu voando. Lori tremia, encolhido em um canto.

– Eu… só queria desejar um bom Novo Ciclo e perguntar se podíamos ver os fogos juntos nas muralhas – o homem-morcego falou, os olhos fixos na figura que se afastava. Suspirou. – Você pode sair daí, lontra.

Demorou alguns segundos para que Lori entendesse que Íbis estava falando com ele. Saiu devagar do cantinho onde tinha ficado.

– Senhorcapitãosenhor, desculpemaseuestavaindoparaomercado, minhacompanheiraestáesperandonossoprimeirofilhote… oartesãoseparouumcolarparamimespecial, sabe, eeujunteiasconchasmaisbonitasparatrocar, masomercadovaifecharnopordosoleagoranãodámaistempo…

Quando ele parou para respirar, o homem-morcego o encarou por alguns segundos, piscando os olhos miúdos e escuros, antes de, com um movimento rápido da pata esquerda, o agarrar e sair voando.

Lori deu um grito agudo e fechou os olhos, apavorado ao ver o chão se afastando.

– Senhorcapitãosenhordesculpe, eunãoqueria, nãocontoparaninguém… senhorporfavor, minhaparceira…

– Por favor, criatura, pare de guinchar e abra os olhos. Estamos no mercado. Creio que esteja procurando por Waiko, não?

Para a imensa surpresa de Lori, estavam na frente da tenda do artesão, que os olhava intrigados, a cabeça inclinada.

– Capitão Íbis… e Lori. Bom fim de tarde, eu já estava fechando para as celebrações.

– Imaginei. Mas o que o pequeno tem a resolver será rápido. O presente dele está separado, creio?

Sem entender nada, Waiko assentiu e pegou um pequeno embrulho.

– Eu iria levá-lo a sua toca, Lori, se você não chegasse a tempo. Mas iria estragar a surpresa… – e sorriu quando o lontra, quase sem acreditar, pegou o embrulho com a boca. Ficando em pé nas patas traseiras, Lori buscou a pequena bolsa com as conchas.

– O que você está fazendo? – Íbis perguntou.

Tentou responder, sem conseguir por causa do embrulho. Ficou nervoso e a bolsa não abria. O homem-morcego fez um sinal para Waiko, que gentilmente colocou sua pata imensa em cima das patas miudinhas do lontra.

– O capitão vai pagar para você, Lori…

– Mas… Mas… – Com o susto, Lori deixou o embrulho cair. Estava com a bolsa nas mãos e ficou olhando do macaco para o morcego, que sorriu, mostrando os dentes afiados. Mais cedo, Lori teria ficado apavorado. Naquele momento, sorriu de volta.

– Eu tinha dado um adiantamento para Waiko para vir pegar um presente hoje… mas não vou precisar. Guarde as conchas para depois, quem sabe para trocar por um presente para sua herdeira. Agora – pegou o embrulho e o entregou ao pequeno atônito. – Vá.

Lori obedeceu, coraçãozinho aos pulos, mas não tinha se afastado cinco metros quando voltou, abriu a bolsa e tirou a última concha, a mais bonita, e a colocou na mão de Íbis.

– Senhorcapitãosenhor… obrigado. Fique com a concha mais bonita. Quem sabe… a sua herdeira goste.

Antes que Íbis ou Waiko respondessem, saiu correndo, ansioso para estar na segurança da sua toca. Naquele momento, o sol passou por trás dos penhascos que cercavam a cidade, dando início às celebrações.

 

*

 

Mais tarde naquela noite, Lori prendeu a delicada gargantilha de nácar e madrepérola no pescoço de Karia, que estava deitada confortavelmente em um monte de palha limpa e macia. Faltava pouco para o nascimento.

– É realmente lindo, Lori. Obrigada. Se for uma fêmea, irei guardá-lo para que ela o use…

– Ah, vai ser sim, com certeza – o lontra esfregou seu focinho no dela, feliz com seu manto quentinho, para ser usado no seu trajeto até o rio e de volta para casa. – O capitão Íbis me disse.

Karia riu.

– Um homem-morcego falou com você e adivinhou que nosso filhote será fêmea? Não sei o que é mais absurdo…

Lori afastou-se até o buraco de entrada. Logo o céu iria se iluminar com os clarões silenciosos oferecidos pelos feiticeiros do palácio real de Shangri-lá. Olhou para o canto da muralha que era visível de seu quarteirão e viu a silhueta de uma jovem do povo-morcego contra a luz do luar. Parecia com Maya, mas na escuridão e a distância podia não ser.

Porém, quando viu uma sombra maior chegar e aterrissar ao lado dela, estendendo a mão, teve certeza de que era ela mesmo. E para não se intrometer duas vezes no mesmo dia na vida deles, entrou para ficar com Karia e a respondeu.

– Vamos ver daqui a uns dias se vai ser mesmo absurdo…

E no fundo do seu pequeno e assustadiço coração de lontra, desejou que o Novo Ciclo que iria começar reaproximasse o Capitão e a sua filha.

 

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“O enterro da última quimera” – ebook com conto inédito passado no universo do Atlas.

Muita gente tem estado curiosa sobre o “Atlas”, meu romance-em-processo-de-escrita, que já passou da metade e fala sobre um deserto e os loucos seres que precisam cruzá-lo (contém um cavalo sem nome).

Na aba de Projetos aqui do blog, vocês podem encontrar uma lista dos contos que se passam nesse universo. O mais recente é “O enterro da última quimera”, que fala sobre o que acontece depois da batalha final.

Íbis - que não aparece nesse conto - na visão do Estevão Ribeiro.
Íbis – que não aparece nesse conto – na visão do Estevão Ribeiro.

Coloquei na Amazon esse conto bem curto para aproveitar o concurso #Brasilemprosa, apesar de não levar fé numa possível vitória. Porém, o resultado tem sido bem interessante, inclusive para ver como realmente funcionam os rankings de mais vendidos da Amazon.

Oras, o que mais tinha na minha timeline era autor (e editora micro) comemorando “Meu conto é o primeiro lugar de Terror”, “Meu livro é o 3o mais vendido na categoria de Ficção sobre Baratas” e coisas do tipo. Autores (e editoras) com pouquissimo alcance, com poucos comentários e reviews no site… Será que mesmo assim eles vendiam?

Não.

O ranking é construído em cima de um algoritmo um pouco mais complexo, que leva em conta o tempo de publicação e a quanto tempo o exemplar foi vendido. Ou seja, um livro vendido na última hora pode elevar o seu livro para uma posição a frente de outro, com meses de publicação e o triplo de vendas. E quanto menor e menos conhecida a categoria, menos disputada e mais fácil subir. Ou seja, tinha gente falando que era o mais vendido no ranking, mas na verdade era só o exemplar que ele mesmo comprou.

(Isso, claro, me deu a ideia de DIVULGAR não a posição no ranking, mas quantos livros vendi. Em menos de um mês, vendi 34 livros e me mantive sempre entre os 10 primeiros, geralmente entre os 3 primeiros da categoria de Fantasia Urbana. Uau. Dinheiro. Mulheres. Iates. Mulheres. Automóvel. Mulheres. Banquetes. Mulheres.)

Para recompensar o povo que curtiu e tem elogiado, prometi que quanto chegar aos 50 ebooks vendidos, vou lançar um com as histórias do Ladrão-de-Sonhos que vai ficar gratuito nos primeiros dias e sempre que for possível – a Amazon limita os dias de gratuidade das obras.

O conto preferido da minha mãe

Não vou mentir aqui para vocês e dizer que minha mãe é minha maior fã. Ela deve ser a minha pior crítica, a mais dura. E é a leitora mais difícil de agradar. Ela lê de tudo, principalmente agora, com filhas criadas – vai dos clássicos aos eróticos, do religioso à biografia. E não é chegada em contos.

Ou seja, vida difícil a minha.

Vez por outra, eu acerto em cheio e ganho um elogio. Por exemplo, no geral, ela gostou de ‘Anacrônicas – Contos mágicos e trágicos’, embora alguns contos tenham agradado mais. E um se tornou com certeza o preferido dela.

“Por que, mãe?”

“Porque fala do que é ser mãe, da preocupação com os sentimentos de um filho. E tem coelhos.”

Então, para ela (que lê só em papel por enquanto) e para vocês, feliz dia das mães. Que vocês saibam traçar o mapa para onde seus filhos precisam chegar.

(E fica também como homenagem à Phoebe, a cachorrinha que aparece nesse conto, e a mãe dela, minha irmã. A Phoebe nos deixou faz poucas semanas, depois de uma vida longa e produtiva, em que ajudou um coelho a destruir jardins, preocupou-se com a alimentação para continuar magrela e passando pelos buracos mais minúsculos e comandou uma gangue de cadelas no nosso quintal.)

***

O mapa da Terra das Fadas

Para Nugu, o Selvagem

Março-novembro/2006.

Uma vida curta, mas plena

O menino chorava, desconsolado com a morte do coelhinho. O corpo, coberto com o pelo branco macio, estava ali, no lugar em que encerrara a sua curta vida de roedor despreocupado. Morrera de nada, de mansinho. Até mesmo a vira-lata, inimiga ferrenha e perseguidora implacável, parecia entristecida. Deitada, o nariz entre as patas, de vez em quando soltava um bufar, como se suspirasse.

A mãe fez eco com a cachorrinha. Estava cansada da cena. Compreendia a tristeza do menino, mas o que podia fazer?

– Anda, Miguel. É assim que a vida é… Os bichinhos morrem. Mamãe vai arranjar outro pra você.

Os olhos baixos, Miguel respondeu.

– Você não entende, mãe… O Nugu era o mais especial dos coelhos. Ele era…

A mãe ajoelhou-se pra ficar perto do rosto do menino.

– Ele era o que, amor?

Ergueu a cabeça, os olhos brilhando, das lágrimas e pelas lembranças.

– Era mágico! Esqueceu? Era amigo das fadas, você mesma contou…

A mãe deu um sorriso breve e afagou os cabelos castanhos.

– Então, ele deve estar bem… Provavelmente, está indo pro Mundo das Fadas…

As lágrimas voltaram a brilhar.

– E se ele não souber o caminho? Ele pode se perder… Mãe…

Ela respondeu distraída, já pensando no que fazer com fazer com o corpo do animal.

– O quê?

– Você não é bruxa? Poderia ajudar o Nugu… Fazer um mapa.

A proposta a pegou de surpresa. Sim, ela era “bruxa”, no sentido que adorava antigos deuses, fazia rituais para celebrar a mudança nas estações do ano e buscava conhecimentos mágicos. Mas tinha pouca, senão nenhuma, familiaridade com fadas.

– Mas como eu vou fazer isso, Guel?

Um sorriso brilhou, com a confiança que as crianças mais pequenas tem na infalibilidade dos pais.

– Fazendo, ué. Você é a mãe bruxa mais poderosa de todo o Universo…

Tentando acalmar o filho – e diminuir a própria tristeza, afinal ela própria iria sentir falta do coelho – sentou-se no chão.

– Vem aqui, querido – ela observou Nugu, que estava deitado. Parecia estar fingindo, como tantas vezes fizera para enganar Phoebe, a cachorra malhada. Ela aproximava-se, confiante de que finalmente o pegaria, para ganhar uma patada no focinho quando ele se erguia correndo para se esconder. Parecendo lembrar disso, a vira-lata levantou os olhos. Quem sabe não era mais um truque?

Ana sorriu, pois descobrira uma maneira de ajudar o filho a passar pela dor do luto.

– Vamos lá… Do que é feita a Terra das Fadas?

Ele nem piscou para responder.

– De coisas doces!

– E que coisas doces temos aqui?

Dessa vez, ele precisou de um tempo para responder.

– As goiabas, mãe?

Sorriso aberto, ela assentiu, concordando. Miguel disparou pelo quintal, na direção da árvore mirrada. Eles tinham sorte por conseguirem morar em um lugar onde pudessem ter uma árvore, bem no meio da cidade. O menino esticou os braços sob o olhar atento da mãe.

– Isso mesmo, filhote. Pegue aquela que está no galho mais baixo… Assim… Agora, traga aqui.

Ele voltou sorridente, a blusa coberta de poeira e folhas que caíram quando puxou a goiaba. A fruta foi colocada bem defronte ao focinho do coelho.

– Muito bem, e sabe o que mais tem na Terra das Fadas?

– Cores!!! Muitas cores! – ele não hesitou, cada vez mais confiante. A mãe não precisou dizer mais nada, pois o pequeno correu para colher algumas flores, acompanhado por Phoebe. Nugu, o Selvagem – como a mãe o chamava – devastara o pequeno quintal com seu apetite insaciável. Sobraram a goiabeira, a videira, um pé de acerola, muitas marias-sem-vergonha e flores rasteiras. Miguel voltou com as mãozinhas cheias de cores: vermelhas, amarelas, brancas, roxas, azuis. Uma boa coleção para indicar o caminho. Sem esperar ordem posterior, arrumou-as ao redor do bichinho com cuidado.

– Falta alguma coisa?

A mãe sorriu.

– Falta um pouco de esperança. Sem isso, como o Nugu vai achar o caminho?

Miguel baixou os olhos e encolheu os ombros, desolado.

– Mas mãe… Como a gente vai arrumar esperança?

Ela pareceu ficar pensativa.

– Bom, a cor que representa a esperança é verde…

Ela nem precisou terminar, pois ele deu um salto imediatamente.

– E as folhas são verdes! Eu vou usar as do pé-de-uva, porque eram as que o Nugu mais gostava e não conseguia alcançar.

A mãe conteve um arrepio ao vê-lo subir no banquinho de concreto para pegar folhas de parreira. Ele voltou com um punhado nas mãos, que entregou muito sério.

– Eu vou arrumá-las na direção da Terra das Fadas. Você sabe onde fica?

O menino apontou para o sol poente. Ela colocou-as em fila, saindo das patinhas da frente até quase a escada que descia para a casa onde moravam.

– Agora, vamos fechar os olhos e pensar em coisas boas…

– Eu já sei no que eu vou pensar, mãe. Vou imaginar o Nugu correndo na Terra das Fadas!

Os dois deram-se as mãos. Ana começou a pensar também, desejando que o bichinho estivesse bem, onde quer que fosse.

Um vento frio bateu, vindo do nascente para o poente. Ela abriu os olhos. Viu que Miguel batia palmas e sorria, enquanto Phoebe latia alucinada.

Um pequeno rodamoinho erguera as flores e folhas, que agora agitavam-se no ar.

– Olha, mãe, as fadas, elas vieram buscar o Nugu!

A cachorra parecia concordar, latindo e correndo, como se acenasse um adeus. Ana olhou para a mistura de cores a sua frente. Não tinha a pureza de seu filho ou da vira-lata, mas via borboletas no meio das pétalas.

E tufos de algodão, brancos e macios como pelo de coelho, também giravam alegremente. O rodamoinho avançou, envolvendo-a. Ela ouviu o som de gargalhadas alegres e pareceu sentir, pela última vez, o calor do coelho, que tantas vezes aninhara no colo.

Uma lufada mais forte e o pequeno tufão continuou sua jornada para o sol que terminava de se pôr. Phoebe deitou-se, quase tão esbaforida e exausta quanto Miguel, sentado ao seu lado.

Ana deu uma última olhada no corpo e de repente ele não parecia mais tão vivo quanto antes.

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(Conto) Domingos de sol

Domingos de sol

No meio da rua, onde devia ter asfalto, tem terra. Quando chove, vira lama. Mas nos domingos de sol, vira o Maracanã. Nos barracos, onde deviam haver sonhos, tem realidade. Quando chove, tem goteira. Mas nos domingos de sol, vira concentração.

Morenos, mulatos, negros, infâncias em vários tons, corações que batem no ritmo de uma bola que quica nas calçadas, que passa em poças de água suja, que atravessa as traves feitas com chinelos enterrados no barro. Tem domingos em que chove, chove muito, pedras rolam pela rua, lama invade as casas e a gente some. Olhos espiando por janelas estreitas buscando um sinal, um raio de sol, uma esperança.

Os anos passam, a vida leva uns e deixa outros. Crianças crescem, seus filhos assumem suas posições. Brincam de polícia e bandido de dia, enquanto de noite a brincadeira fica séria. Os tiros se confundem com os rojões que explodem nos dias de jogo. Flamengo e Vasco, Botafogo contra Fluminense. Quando o jogo na tevê acaba, começa o campeonato na rua. Gritos e urros, vitórias e derrotas se misturam a joelhos ralados e sonhos construídos.

Das muitas crianças que vivem seu futebol naquela rua no topo do morro, uma consegue treinar em time grande. Cresce e vive o sonho, canta o hino com a seleção. Toda vez que faz gol, ele chora por dentro. Porque lá no alto do morro, em todo o domingo de sol, a rua continua virando um Maracanã.

 

O matador de serpentes – um conto do Último Fomori

Um esboço de texto do último fomori, que me veio em um surto de inspiração por causa do dia de St. Patrick. Espero que curtam.

– Finalmente te encontrei, maldito.

O último fomori a andar sobre a superfície da terra abriu um dos olhos. Não precisava dormir, mas gostava de parar e relaxar, escutar os sons daquele e de outros mundos, sentir a brisa trazendo cheiros distantes. Tinha percebido a aproximação do mortal muito antes e estava só esperando para saber o que o velho queria.

– Desculpe o mau jeito, velhote. Soubesse que estava sendo procurado, teria ficado em um lugar mais visível.

– Não deboche de mim, criatura diabólica! Sou um servo do verdadeiro Deus e minha missão é livrar o mundo de coisas como você!

Ao ouvir a ameaça, o fomori abriu os dois olhos e deu um suspiro. O homem estava vestido com uma túnica comprida de linho cru e uma capa de pele sobre os ombros. As sandálias, muito gastas e sujas, testemunhavam o quanto tinha andado pelas estradas nos últimos dias. Seu rosto, vincado de rugas, estava emoldurado por barba e cabelos brancos desgrenhados, com olhos verdes que emanavam ódio e veneno na direção do imortal.

– Você é o tal Cothraige, não é? Que expulsou as serpentes da Irlanda e coisa do tipo.

O velho apontou seu bastão para o fomori que notou, bastante desgostoso, ser um pedaço de carvalho. O pensamento de uma árvore tão ligada ao seu povo ter sido usada para apoiar um louco como aquele começou a irritá-lo.

– Sou Patrício, bispo da Irlanda. Recebi de Deus o dever de consagrar as terras pagãs e eliminar todos os que vão contra a ordem divina do universo.

O fomori levantou-se, sem muita pressa. Só esperava que o Conselho Sidhe não viesse depois acusá-lo de interferir com humanos. Estava em um bosque sagrado e deveria estar livre dessas intromissões. Se o bispo tinha chegado até ele, era por ser bem teimoso.

– E isso me inclui, certo? – sacudiu o pó da roupa, ajeitando-se. Usava uma túnica de couro até o meio das coxas e uma calça de lã. Sem capa ou outra roupa, pois também não sentia frio. Os pés estavam descalços, uma forma de manter contato com a terra e lembrar-se de dias melhores. – Bom, você já se apresentou, é a minha vez. Meu nome foi perdido, minha história apagada dos livros e das canções, minha família está exilada nas Colinas Ocas. Eu sou o último dos fomori.

O fomori não conseguiu evitar um meio sorriso ao perceber como os olhos de seu inimigo se arregalaram ao ouvir com quem estava lidando. Os padres do deus morto não eram burros, tinham estudado bem os seus adversários, compilado as lendas antigas das bocas dos bardos e as dissecado, verso por verso. Sabiam da Grande Guerra, sabiam de como os fomoris foram derrotados e exilados. Mas não tinham como saber que um deles ficara, exilado em seu próprio lar.

Patrício recobrou a presença de espírito em um lapso de segundo.

– Não importa quem você é, mas o que você é! É um dos encantados, cria do demônio para afastar os homens de Deus – ele se aproximou de onde o fomori estava, o bastão em riste e os olhos ainda mais venenosos.

– O que você pretende fazer então, homenzinho?

– Destrui-lo com o poder de Deus.

A gargalhada ressoou nos galhos dos carvalhos e abetos que os cercavam. O último fomori sacudiu a cabeça e deixou escapar o glamour que o cercava. A aparência que vestia quando circulava pelos territórios humanos era a de um homem de trinta anos, moreno e rude, estatura média e corpo forte, uma grande cicatriz dominando o lado esquerdo de seu rosto. Mas não era ele. Os fomoris eram chamados pelos habitantes das ilhas de ‘gigantes’. Alguns adicionavam ‘monstros’ nessa descrição.

E o que escolhera ficar não era diferente de sua família, aliás era tido como um dos mais fortes e mais terríveis entre os seus. Rasgou a aparência do viajante humano como se fosse uma roupa velha. Patrício teve que olhar para cima quando ele atingiu os quatro metros de altura. Sua pele tornou-se vermelha como se estivesse coberto de sangue e os olhos brilhavam como trovões. Dentes e unhas eram como facas. Nem nos mais terríveis pesadelos com demônios o cristão poderia ter imaginado uma criatura tão terrível assim.

– É muito fácil salgar as terras dos pixies e usar capangas para espancar druidas e suas famílias, velhote. Mas o que você pode fazer contra mim?

Ele tentou. Murmurou palavras de seu livro sagrado, jogou sal na pele do fomori e fez um círculo com raspas de ferro ao seu redor. O sinal da cruz foi traçado no chão – e imediatamente apagado pelo vento, pois aquele ainda era um bosque que obedecia aos antigos. Todos os truques e artimanhas que o bispo usara com os seres mágicos pequenos mostraram-se inúteis. O fomori simplesmente ficou impassível, observando os movimentos do religioso com um sorriso nos lábios.

Exausto, o mortal caiu de joelhos.

– Desisto, demônio. Você venceu a mim. Pode me matar, mas outros virão me vingar…

– Levanta do chão, velhote. Você não tem idade para ficar na terra fria – com um movimento fluido, pegou Patrício pelos ombros e o ergueu. – Agora vai e me deixe em paz. Você pode continuar se vangloriando de ter expulso as serpentes, mas nunca vai poder dizer o mesmo de um dragão.

Sem esperar resposta, o fomori virou-se e continuou o caminho que interrompera naquela manhã. Sua missão anual, visitar todos os seres encantados que viviam desde a Irlanda até a muralha dos ingleses, já fora cumprida e estava mais do que na hora de voltar para casa.

Um conto para ajudar – Isabel e a roseira

Inspirado na iniciativa do site Crossed Genres, o FC e Afins começou uma roda de contos para auxiliar as vítimas do terremoto no Haiti.

Informações sobre onde e como doar aqui, além dos outros contos participantes.

***

A roseira de Isabel

Todos ignoravam Isabel. Não quero dizer com isso que fosse proposital ou por maldade. Só que às vezes, o mundo anda depressa demais e pequenos detalhes acabam sendo deixados de lado ou esquecidos.

E na vida das pessoas ao seu redor, Isabel era um pequeno detalhe. Os pais tinham se separado quando a menina ainda mal sabia falar, o resultado fora que a mãe trabalhava demais para manter a casa e o pai mal e mal a via nos fins de semana em que estivesse na cidade, já que trabalhava como piloto de avião. A empregada cuidava da casa, e Isabel entrava nesse ‘da casa’ como se fosse uma das mobílias. Os avós moravam longe,na cidade onde seus pais nasceram e na qual seus tios e tias ainda viviam. No Natal mandavam um presente para a menina, mas, na amargura dos seus oito anos, desconfiava que não se lembrassem do seu nome.

Mesmo na escola, chamava pouca atenção. Não era extremamente inteligente, porém também não tinha problemas de aprendizado. Pouco falava com os demais alunos, não procurava os professores que, atarefados com crianças hiperativas e pais neuróticos, nem se lembravam da existência da menina.

Isabel se importava com isso, claro, no entanto de algum jeito sabia que só lhe restava viver da melhor forma possível. Ficava no quintal, sem fazer barulho, com seus brinquedos e a gatinha siamesa – talvez a única criatura que realmente se desse conta da existência física e real da menina. Também não era criativa em excesso, então reproduzia com suas bonecas o cotidiano que a cercava.

Se isso fosse tudo o que tivéssemos a dizer sobre Isabel e sua vida, poderíamos parar por aqui. Afinal, nos quintais de muitas casas e nos pátios de muitos prédios, existem muitas crianças como Isabel, que passam em branco. Talvez, na adolescência, com a perturbação que é costumeira nessa fase, consigam chamar atenção para si – e geralmente de maneira errônea.

Porém, algo extraordinário aconteceu na vida da pequena Isabel.

* * *

No último pacote de Natal que chegara de seus avós, Isabel notara um embrulho estranho. Era um pote plástico com um anel para fazer bolhas de sabão. O presente simplesmente provava para Isabel que a família distante não lembrava sua idade, sequer se era uma menina ou um menino.

O pote ficara jogado de lado durante meses. Isabel preferira brincar com suas bonecas no quintal, até que em um dia de primavera, uma brisa fresca soprava, levando as roupinhas para longe. Resolvida a brincar com algo novo, Isabel lembrou do presente guardado a tanto tempo e foi buscá-lo.

Passou um tempo soprando e olhando as bolhas subirem. Nenhuma ia muito alto, estourando antes de atingirem sequer o beiral da casa. Para a menina, não havia problema. Gostava da sensação de criar algo novo, mesmo que tão breve. A brisa trouxera pequenas nuvens ao céu, o sol parecia brincar de esconder-se, revelando-se em um momento e sumindo em outro. Os raios faziam efeitos curiosos nas bolhas, como arco-íris condensados.

Em um momento, pensou ter visto algo diferente dentro de uma das bolhas. Um rosto vago, muito espantado, olhando-a. Mas piscou os olhos e a impressão passou. Continuou a soprar as bolhas, ressabiada, tentando perceber algo mais.

Nada mais de anormal aconteceu e Isabel voltou a se distrair com as bolhas. Elas subiam sem pressa, agora que a brisa amainara. Foi quando Isabel notou que as bolhas seguiam um padrão e estavam todas indo para o mesmo lugar, como se seguissem um caminho. Podiam rodopiar, girar, se desviar um pouco mas estouravam na ponta de uma roseira bem grande.

Claro que a menina ficou curiosa e se dirigiu até aquele canteiro, com cuidado. A primeira vista, nada de anormal. As folhas balançavam de leve no vento fraco que corria e as duas flores que já despontavam em botão acompanhavam o ritmo. Estava pensando se não teria sido apenas impressão quando dois olhinhos piscaram, a observando detrás de uma rosa.

Isabel pulou, bastante espantada.

‘Olá, menina Isabel. Não queria assustá-la.’

‘Quem é você?’

O homenzinho saiu devagar de onde estava e se inclinou para cumprimentá-la.

‘Meu nome é Joaquim e sou a fada responsável por esta roseira.’

‘Como você pode ser uma fada? Você é…’

Ela não terminou a frase, pois Joaquim a interrompeu.

‘Além de homem, sou negro, né? Se eu dissesse que sou um saci, você entenderia melhor?’

Isabel assentiu com a cabeça. Afinal, fadas eram moças ruivas, pequeninas e com asas que moravam em lugares frios, não homenzinhos negros, de boina vermelha e um charuto no canto da boca.

‘E você tem as duas pernas…’

‘É porque eu não sou um saci, menina, foi só um exemplo. Digamos assim: eu sou uma fada porque sou parente das que aparecem nos livros e nos desenhos animados. Somos todos fadas, só que a nossa aparência depende do lugar onde moramos. Não é assim como as pessoas também?’

Lembrando do que via nos filmes e na tevê, Isabel concordou. Ela mesmo não era ruiva, tinha cabelos pretos escorridos que a mãe dizia vir de uma avó índia muito distante no tempo.

‘Mas o que você está fazendo aqui, no meu quintal?’

‘Já não falei, menina Isabel? Cuidando da roseira. Ela estava muito triste e solitária, eu estava passando e ouviu seu choro. Como não tinha mesmo um lugar certo para ir, resolvi ficar aqui por uns tempos até que ela pudesse se recuperar…’

Isabel não sabia que flores podiam ficar tristes ou mesmo sentir solidão. Ficou muito admirada com isso.

‘E você vai ficar muito tempo por aqui?’

Joaquim balançou a cabeça, parecendo triste.

‘Na verdade, menina Isabel, vou ter que ir embora logo, logo, pois me chamaram em outro lugar… Foi por isso que pedi ao vento para trazer as suas bolhas de sabão até aqui. Precisava pedir um grande favor a alguém de bom coração.’

Ela não entendeu que ele se referia a si mesma e esperou que o homem-fada continuasse. O vento continuava a soprar e a roseira prosseguia na sua dança.

‘A roseira ainda está triste… precisa de companhia para se fortalecer e continuar viva. Você não quer fazer isto no meu lugar, menina Isabel?’

O vento parou de repente e ela reparou que o dia estava muito quente. A roseira, coitada, ao contrário de Isabel, não estava incluída na noção de ‘da casa’ que a empregada tinha e estava descuidada, entregue ao abandono. Formigas cortavam suas folhas, a terra estava seca, alguns galhos estavam quebrados…

Isabel aceitou a missão e Joaquim desapareceu no mesmo instante. Por anos a fio, a menina cuidou da roseira. Fez mais , até: plantou todo um jardim naquele canto do quintal e nunca mais a planta ficou sozinha. Quando Isabel cresceu, continuou a morar ali, naquela mesma casa, cuidando da roseira e do jardim quando não estava trabalhando nos jardins da cidade.

E num dia de primavera, a filhinha de Isabel, Beatriz, soprou bolhas de sabão. Sorrindo, a jardineira percebeu que o vento ainda as levava para o mesmo lugar perto da velha roseira.

O Templo do Amor


With the fire from the fireworks up above
With a gun for a lover and a shot for the pain
You run for cover in the temple of love
Shine like thunder cry like rain
And the temple grows old and strong
But the wind blows stronger cold and long
And the temple of love will fall before
This black wind calls my name to you no more

The Sisters of Mercy – Temple of love

Parei em frente ao velho edifício, sem ligar para os fogos de artifício explodindo por cima da minha cabeça. Eu estava armado e também dopado. Meus sentidos ao mesmo tempo adormecidos e excitados. Nada poderia me impedir. Na noite fria, eu era novamente o caçador que sempre fui. Um predador. De todos os matadores conhecidos nos Mil Mundos, sempre fui tido como o mais certeiro. Aquele que não erra, incapaz de perder um tiro ou de calcular mal uma armadilha. Muitos caíram pelo preço certo. Líderes planetários, contrabandistas ricos, maridos traidores, mulheres corruptas, herdeiras ingênuas. Até mesmo outros assassinos de profissão. Não mantive conta de quantos já se foram. Sei que foram muitos.

O nome da minha próxima vítima é Ophra. Cantora e sacerdotisa do Templo do Amor, a mais bela mulher da galáxia, minha amante. E fui contratado para matá-la. Ordens claras, uma boa grana e a promessa de mais trabalhos fizeram esmaecer a lembrança de seu corpo esguio, seus cabelos anelados e seus olhos, ao mesmo tempo doces e distantes, e de todos os sentimentos que estes provocavam em mim. Só o ciúme permaneceu. Nada mais improvável, até mesmo incorreto, do que um Arauto da Morte ter a Sacerdotisa do Amor. Sim, eu já tinha ouvido isso. Várias vezes. Principalmente a parte de “Arauto”. O advento das máquinas e de uma civilização universal trouxe de volta certo nível de obscurantismo. Deixamos a prisão de vivermos em um único sistema solar, mas voltamos a nos abrigar na sombra de religiões múltiplas.

Sim, diversos deuses. Não um ressurgimento do paganismo terrestre. Algo mais universal. E mais sombrio. No planeta natal, eram homens com faces e almas. Divinos, mas seres com humanidade. Agora, os filhos da Terra, alastrados como pragas universais, cultuavam forças. Destruição, Ódio, Amor, Morte, Vida… As sensações guiavam a humanidade como faróis corruptos. Balancei a cabeça, tentando clarear os pensamentos. O narcótico corria pelo meu sangue, fazendo com que me afundasse nesse mar de dúvidas e questões. Eu não questionava. Não duvidava. Por não acreditar. Só aquele que crê pode duvidar. Não foi isso que Ophra me disse? Na primeira vez… Quanto tempo? Nunca fui bom de contas. Não importava. Ela precisou de mim, dos meus serviços. E ao vê-la percebi…

Não sabia mais. O convite para ir ao templo em uma noite de festival interno havia me surpreendido pouco. O amor mata, e os que o servem também. Só que geralmente de forma indireta e lenta. Às vezes, precisa de ajuda. Para isso, existem pessoas como eu. Nunca pensei que seria uma das Sacerdotisas. Pelo pátio, espalhados, misturados, trigo e joio, os servidores templários e seus convidados. A perfeição daqueles dedicados ao Amor misturada às mesquinharias dos seres que só procuram o prazer. Olhava a cena de longe, me interessava mais as criaturas do que a criação feita para eternizar a luxúria. Pouco entendia de arquitetura, menos de arte. Os prédios só me interessam enquanto ambientes de caça ou refúgio, e aceitava manifestações artísticas como pagamento, se fossem bem cotadas. A construção grandiosa e elaborada, preparada para acolher e despertar os sentidos, com pinturas e esculturas a cada passo, não funcionava com minhas sensações mortas. Meu interesse era nos ocupantes do salão principal. Esperava o momento quando um deles iria se aproximar de mim e sussurrar um nome em meu ouvido.

“Do que você tem medo?” Voz de metal. Frio. Sem olhar em sua direção, respondi com a verdade. Nunca temi. “Você mataria o amor?” Percebi naquele momento que estava falando com meu futuro empregador. Outra vez, não menti. Pois pelo preço certo, até o Líder Universal cairia duro. Foi nesse momento que uma mão leve tocou o meu cotovelo esquerdo. Ainda sem ver quem estava me acompanhando, segui para o interior do templo.

Salas, salas, salas. Uma sucessão de aposentos que dava a impressão de inconstância, como se os quartos e salões mudassem de lugar no instante mesmo em que olhávamos para eles. Todos com portas iguais. Manchas coloridas, tintas espalhadas nas paredes, formando pinturas murais retratando instantes de luxúria, prazer e dor congelados em paredes antigas como a nossa história nesse mundo. Antes mesmo de construirmos qualquer prédio administrativo, fábrica ou residência, furamos o solo desse planeta para construir dois templos gêmeos. Amor e Morte. Em pólos opostos na esfera planetária, de cores distintas e a mesma arquitetura surreaista.

O cômodo em que entrei era pequeno. Iluminação fugidia, que não me deixava ter a real dimensão de suas medidas, ou mesmo ver quem estava ali. A voz que me saudou era quente. Sufocante. Um deserto de sons invadiu a sala. Eu não sentia frio antes, porém a sensação era de que só a partir daquele momento eu estava aquecido. Percebi imediatamente quem era a outra ocupante da sala. Uma sacerdotisa cantora, das que sabem enfeitiçar com a voz.

Bloqueei a mente. Concentrei-me em apenas entender, sem perceber as nuances. Ela perguntou se eu aceitaria o serviço. Matar a Sacerdotisa Principal, para que ela pudesse assumir. Quando perguntei se isso não seria algo impróprio, a resposta foi que o Amor às vezes envelhece e torna-se inútil, sem perceber. Sempre odiei essa forma metafórica de falar. Mas não deixei de aceitar o serviço por causa desse pequeno detalhe.

Poucos dias depois, cumpri minha parte no contrato. Sem alarde, como se fosse realmente um Arauto da Morte cumprindo o seu papel no equilíbrio cósmico. Um tiro silencioso em uma noite qualquer e nenhuma tristeza. Voltei ao Templo para receber o combinado. Dessa vez, levaram-me ao Grande Salão, onde fui recebido pela recém-empossada Sacerdotisa. Pela primeira vez, eu a vi. Olhos cor de canela e cabelos negros anelados. O rosto de alguém ensinado a fingir ser o que realmente é.

Foi quando o Arauto da Morte rendeu-se à Voz do Amor. A minha consciência não guarda mais os pequenos detalhes de como começou. Apenas lembro que não demorou para que estivéssemos nos braços um do outro. O deserto de sua voz tornou-se o oásis em que eu me abrigava do mundo.

Continuamos a ser o que éramos antes. Eu, assassino. Ela, sacerdotisa. Eu matava por profissão. Ela amava por serviço divino. Assim passaram-se anos, décadas… Talvez séculos. Vê-la com outros acendia em mim uma sensação nova, inesperada, que a custo sufoquei inutilmente. Ela cresceu. Tornou-se maior do que o sentimento por Ophra. Por isso, quando fui procurado pela mesma voz fria em uma festa, aceitei o serviço. Agora, era minha amante, a ser assassinada para que outra chegasse a ser a maior dentre os que dizem que “o Amor é a Lei”.

Dessa vez, não estava apenas fazendo o meu serviço. Acabara tornando-se pessoal. Não ia mais tolerar o sentimento de ter que dividi-la com outros.

Escolhi o dia do Festival. O único dia em que ela deixava o Templo sem proteção, quando todos podiam ter acesso às sacerdotisas. A morte da predecessora de Ophra deixara as sacerdotisas desconfiadas e alertas. Seguranças armados as protegiam sempre. Exceto em uma única ocasião durante todo o ano.

O Festival. Alguns dizem que é a reminiscência de tempos arcaicos, quando morávamos todos sob o mesmo Sol. A ocasião em que esquecíamos o lado humano e deixávamos aflorar a besta. Mas naquele momento, as origens pouco me importavam. Apenas sabia que não haveria ninguém sóbrio o suficiente para a me impedir. O amor e os alucinógenos manteriam seus sonhos de luxúria e a consumação destes no topo de suas preocupações. Nada poderia protegê-la de mim. O Amor iria curvar-se à única certeza do Universo: a Morte.

Parado em frente ao velho edifício, não ligava para os fogos de artifício explodindo por cima da minha cabeça. A arma parecia pulsar em minhas mãos. Sentia a droga correr por todo meu corpo, entorpecendo meus sentidos. Um bloqueador de sensações, segundo o contrabandista interplanetário que fora o vendedor. Isso manteria os acordes arenosos de Ophra longe da minha mente.

O cortejo saiu do Templo, para ocupar o grande pátio externo. Ela parecia um anjo no meio da grande procissão, um anjo-demônio de vestido negro, levada em um dossel, olhando as pessoas reunidas na praça externa. O véu levantado deixava toda a sua beleza ofuscar as luzes da noite e a sua voz… Eu sempre caía em transe quando ela entoava as canções. Não havia palavras que eu pudesse compreender na letra, escrita em tempos imemoriais. Lembranças de um mundo quente, com uma estrela brilhando no céu, aquecendo dias e noites. Já assistira inúmeros desses festivais. A canção aprisionava quem a escutasse em um crescendo de ânsia e desejo. O ritmo normalmente me prendia e me alucinava. Mas não hoje. Hoje havia chegado à festa já alto, sentindo a droga correndo pelo meu corpo. Precisava me manter longe do feitiço daquela mulher, por tempo suficiente para que eu a matasse.

A procissão chegou ao centro do pátio. Luzes irreais, em cores absurdas, dançavam nos rostos da multidão, ávida de prazeres. Um dos sacerdotes gritou, em um chamado primal, animalesco. Avisava que a Grande Festa do Amor tinha começado. Novamente a voz de Ophra percorreu os caminhos da noite, em tom diferente. Não queria mais deixar as pessoas ansiando pela consumação de suas vontades. Agora, ela desejava que estas fossem consumadas. O encantamento de sons tecido em um crescendo, como se fosse uma tempestade de areia que ganhasse forças, o ritmo da dança das demais sacerdotisas auxiliando o efeito das drogas distribuídas entre a multidão.

Ao fim da canção, só havia duas pessoas desacompanhadas em todo o Festival. Eu e Ophra. Em pouco tempo já não havia individualidade no imenso pátio que se abria à frente do templo. Os corpos uniam-se em um êxtase coletivo, sem nenhuma distinção amarrando suas escolhas. Machos e fêmeas perdendo a consciência de si mesmos, entrelaçados em um frenesi de adoração, luxúria, vontade… Precisei respirar fundo. Mesmo com as drogas, o feitiço daquela noite começava a fazer efeito. Não. Não iria desistir. Nunca deixei um serviço incompleto.

As belas criaturas que serviam ao Amor também se juntaram a essa celebração. Misturadas aos demais, mal se distinguiam. Eram todos carne e desejo, tremendo em busca de transcendência. A única a manter-se fora desse ritual de desejo era a minha amante. Pedira, como um favor especial, que ficasse esta noite comigo. E assim seria. Nada poderia interpor-se no meu caminho. Ninguém impediria que eu terminasse com toda a minha frustração.

Somente ela.

Desci para encontrá-la à beira do pátio externo. Com as pessoas entretidas em seus prazeres, nenhum deles perceberia a rápida injeção anestésica e o tiro certeiro. Venenos deixam vestígios. Armas de energia, pelo menos as que profissionais usam, interrompem o ciclo vital sem rastros a serem percebidos. Não é difícil ver porque alguns me consideram um enviado da Morte. Uma força da natureza, incontrolável, irremovível. Impossível de ser parada.

E no momento em que seus olhos cor de canela encontraram os meus esmaecidos globos cinzentos, eu soube. Minhas intenções não lhe eram desconhecidas. Ophra percebera tudo. Desde quando? Em que momento descobrira? Sorriu, do jeito torto que usava para me magoar.

– Já sabia quando te contratei. Quem mata o Amor uma vez, irá matá-lo sempre.

Não iria ser fácil. O Amor machuca. Aqueles que o servem, ainda mais. Ainda tentava assimilar o fato de que meu plano fora revelado quando recebi uma forte descarga elétrica. A maldita me atingira com um bastão atordoante. Meus braços formigavam. Logo eu, que trouxera uma injeção de anestésico para matá-la sem dor. Meu coração ficou pequeno para toda a minha raiva.

Recuperei o domínio total do meu próprio corpo. Não era difícil adivinhar para onde ela iria. Sacerdotisas não podem deixar a área murada ao redor do Templo, nem para defender sua própria vida. O único caminho possível para Ophra era o mesmo que havia feito pouco antes. O último refúgio que teria em vida seriam as paredes do santuário onde nos conhecemos. Joguei fora o anestésico, cego de raiva pela reação agressiva da minha ex-amante. Como uma sombra perdida, encaminhei-me para o santuário.

Será que ela pensava que podia se esconder? De mim, que percorrera toda a extensão daquele complexo, acompanhando-a? Que passara mais tempo ali, desde que a conhecera, do que em qualquer outro lugar? O preço de sua ingenuidade seria uma morte lenta.

Parei uma última vez em frente ao velho edifício. Notei vagamente que os fogos de artifício continuavam a explodir por cima da minha cabeça. Eu estava armado, dopado e com raiva. Nada poderia me impedir. Nem se o próprio Amor tomasse forma humana para defender sua sacerdotisa.

Para muitos, aquela era uma construção estonteante, gigantesca, grandiosa. Uma prova do gênio artístico dos primeiros colonos. Nunca significara nada para mim. Acostumara-me aos subterfúgios daqueles que ali entravam tentando deixar seus medos e suas dores do lado de fora. Pinturas e esculturas que nada significavam para mim. Naquele instante, importava-me encontrar Ophra. Custasse a minha vida, o que precisasse. Se fosse preciso, derrubaria aquelas paredes uma a uma. Com minhas mãos. Batendo a minha cabeça nos pilares.

O Salão principal estava vazio. Só ouvia meu próprio corpo. Teria fugido para algum dos infindos aposentos? Se o tivesse feito, iria demorar a encontrá-la.

– Apareça, Sacerdotisa! Tenha pelo menos a dignidade de não fugir! A sua antecessora não correu!

– Pensei que você me amasse… – a voz dela vinha de todos os lados e de lado nenhum. Como se fosse parte do Templo. Um dos pilares daquela construção sinuosa.

– Tola. Não sabe que a vida é curta e o amor sempre acaba de manhã, Ophra? Chegou a hora de terminarmos com tudo… A noite terminou. Já amanheceu para nós, benzinho.

Caminhei em direção ao painel principal. A pintura representava algum mito antigo. Dois amantes jaziam em uma mesma tumba, um tubo na mão da mulher, uma espada atravessando o coração de ambos. Novamente, ela falou.

– Não vai conseguir me matar dentro dessas paredes. Eu sou o Templo do Amor.

– Eu as derrubo com as mãos e depois cuido de você… Ophra, você tem fé demais em tijolos. Não adianta chorar, não precisa pedir. O som das suas lágrimas não vai salvar sua fé inútil e seus sonhos de depravação. Acabou o tempo dos prazeres para você.

Continuava sem conseguir localizar a sacerdotisa. Parecia estar por trás de todas as colunas. Sua voz ecoava no templo, como uma tempestade que começava a ganhar forças.

– Tente derrubar as paredes do Templo do Amor, então. Mesmo o ar é um abrigo para mim, e isso você vai aprender da pior maneira.

Atirei por cima do painel, buscando atingi-la. Errei. Mais uma vez, e nada.

– Não vai aparecer, cadela? Veja o que faço com o seu santuário. Olhe como de nada vale ter fé!

Escolhi o pilar principal. Era uma escultura grotesca, criaturas de sonhos e pesadelos unidas em um eterno ato de prazer. Feições retorcidas, animalescas, corpos dobrados até o ponto de não reconhecimento. Mirei no centro e soltei um feixe de energia, o mais concentrado possível. Tudo tremeu em um ronco surdo.

– Não! Você não pode destruir o templo! Nada é mais forte do que o Amor!

– Ensinaram errado, benzinho. Tudo morre, até mesmo o Amor… e aqueles que o servem.

A voz dela estava mais densa. Se continuasse falando, eu seria capaz de encontrá-la. Meu alvo agora era um dos vitrais, com uma cena de dois seres abraçados. O vidro estilhaçou-se, e nesse instante um vento frio e distante começou a soprar, vindo de fora do templo. Era sombrio e amargo, sinal de chuva prolongada. Entretido que estava com meus planos de assassinato, não percebi o tempo fechado. Não tinha importância, antes mesmo de começar a chover tudo estaria terminado. Chegaria em casa sem precisar me preocupar com a tempestade.

– Então, Ophra? Destruí mais um pedaço do seu templo! Não vai dizer nada?

Um vulto moveu-se a minha esquerda. Ocupado em tentar localizá-la, não percebi quando Ophra veio por trás, saída das sombras do salão mal iluminado, e usou o bastão atordoante em mim. Seus olhos brilhavam, a cor da tempestade de areia em um deserto que nunca conheci.

– Passou o tempo de dizer qualquer coisa a você, Andrew. Vou matá-lo. Não vou permitir você matar o Amor.

Sacudi o corpo, tentando fazer com que meus membros adormecidos voltassem a responder.

– Não seja presunçosa, Ophra. Você não é o Amor. Vai morrer e outra assumirá seu lugar. Acabou. Foi assim que você tornou-se quem é, ou já esqueceu a sua própria traição? Se não for eu a terminar o serviço, vai ser outro. Vale a pena passar o resto da vida com medo, sem saber de onde virá o próximo assassino?

Só então a realidade caiu, com todo seu peso, na cabeça da sacerdotisa. Sabia que eu tinha razão. Se haviam me contratado era porque decidiram que seu tempo acabara. Por apenas um instante, seu olhar voltou a ter a cor quente de canela que eu vira na primeira vez. Foi a primeira e única vez, desde que aceitara acabar com a vida de minha amante, que estive perto de me arrepender. Meus olhos cruzaram com os dela e, pelo espaço daquele momento perdido, fomos amantes de novo.

Passou o instante. Mesmo reconhecendo que não havia escapatória, ela não ia entregar-se tão fácil. Preparou-se para dar outra descarga com o bastão, porém eu já estava quase recuperado. Dei-lhe um encontrão, fazendo-a derrubar a arma.

– Você jamais irá me alcançar!

Empurrou meu corpo para longe, antes de sair correndo. A ira venceu meu planejamento e sangue-frio. Enquanto ela disparava pelo Salão, tentando alcançar os corredores que a levariam ao labirinto seguro dos aposentos internos, atirei nos vitrais. Uma chuva de estilhaços acompanhava a corrida de Ophra, enquanto eu seguia atrás.

O vento zunia no recinto. As luzes eram insuficientes, como se o ar trouxesse a escuridão do lado de fora. Correr tornou-se difícil, a massa de ar era cada vez mais forte. Nenhum de nós desistia. Ela estava na minha frente, vestida como um anjo negro, semi-arrastada pelo vento. Os cabelos enrolavam-se como cobras em suas curvas.

O ar frio trouxe-me de volta à razão. As drogas pareciam ter perdido  o efeito. Ela não poderia percebê-lo, do contrário me encantaria. Por uma última vez, admirei sua beleza. A arma estava quase descarregada, não poderia errar mais um tiro.

Concentrada em tentar fugir, não percebeu quando ergui o pulso. Mirei nas suas costas, na direção do coração, que tantas vezes batera por mim, e atirei. O deslocamento de ar atrapalhou minha mira. Não atingi a mulher, mas o pilar principal, aquele que eu detestava tanto, já enfraquecido pelo tiro que dera antes e pela ventania.

As paredes gemeram como se todos os amantes nelas representados chegassem ao êxtase ao mesmo tempo. A coluna começou a ruir, e rachaduras surgiam por todos os lados. Ophra estava parada, a mão no peito. Um dos estilhaços a atingira, antes mesmo que eu atirassemais uma vez, procurando seu coração. O sangue brotou, tingindo as mãos da sacerdotisa.

O vento não diminuiu. A luz ia se extinguindo dos olhos de Ophra, que caiu no chão. O choque do que eu fizera me atingiu. Ignorando o mundo que desabava ao meu redor, o ar que começava a se movimentar ainda mais rápido, procurei chegar até ela. A cada passo para frente, sentia-me dando três para trás. A ventania não me deixava avançar. A sacerdotisa, envolta em trajes negros, fixou seu olhar em mim por uma última fez e os olhos cor de canela perderam toda a vida que guardavam. As paredes começaram a ruir por cima de minha cabeça, e o destino impediu que o vento negro levasse meu grito até Ophra pela última vez, antes que minha própria existência fosse tragada na destruição do templo do Amor.

Queda e Paz

(Esse conto ficou de fora de AnaCrônicas por destoar dos outros…)

 

“E o abismo olhou de volta. Sorriu e te chamou. O que fazer, senão abrir os braços e lançar-se na escuridão que sussurra teu nome? A sensação de frio percorreu os teus membros, quase congelando o corpo inerte, entregue às forças da gravidade. A tudo esquecias, enquanto a vertigem escura te envolvia em braços de sombra gélida.

De quase tudo. Pois ainda havia lembranças.

As serpentes dos braços dela, que procuraste em tua paixão insana, nunca te pareceram tão acolhedoras. O castanho da cor de folhas caídas no chão outonal, que surgia em pequenas poças de claridade nas paredes abissais, só trazia os olhos dela à tua lembrança.

Não é possível para um anjo apaixonar-se. Disseram.

Erraram.

Mesmo que te apaixones, a escolhida jamais poderá te ver. Explicaram.

Mentiram para ti.

E se te vir, serás tão estranho que nunca conseguirá deixar os preconceitos de lado e amar-te de volta. Justificaram.

Tentaram demover-te.

Fascinado pela mulher-serpente, aceitaste o banimento eterno.

E pela noite única em que finalmente adquiristes carne e espírito, unidos em um só, o preço a pagar era este: tornar-se mais uma das estrelas cadentes a adentrar os domínios do Primogênito.

O Abismo cantou sua maldição, tu olhaste de volta. Foi o prenúncio da tua queda.

O pacto feito, a dor que selava a consumação da carne. Tua. Matéria. A alma que era somente luz e essência transfigurou-se. E seguindo o exemplo do Segundo Filho, que encarnou por amor aos pequenos seres de matéria, tu deixaste de ser fogo, água, ar e terra. Abandonou a casa dos elementos, o lar das hostes angélicas.

Tudo por ter vislumbrado um sorriso, um pequeno momento congelado de alegria. A energia concentrada que eras contraiu-se, em um espasmo mistura de dor e prazer. Era como se o calor daqueles olhos derretesse a parte de ti que era feita de gelo.

E de fogo, viraste carne e sangue, pronto a consumar teu desejo absurdo. Sentiste o impacto do teu corpo no ar, a sensação de teu peso, de estar preso, de pisar o solo e ao mesmo tempo perder o chão.

De todas as direções possíveis, conseguiste escolher a única certa para seguir. E assim tu, um dos filhos diletos, parte dos exércitos divinos, rumou feliz em direção à própria ruína.

De todas as mulheres que poderias escolher, porque aquela? Porque a rainha das Serpentes da Cidade Proibida? Porque não uma das muitas princesas que seguiam o teu Deus? Qualquer uma delas ficaria mais do que satisfeita em ser tua companhia, mesmo que por um curto instante.

Mas foi ela, a sacerdotisa do Deus Serpente, que chamou a tua atenção. Preso ao encanto daqueles olhos castanhos, não havia escapatória possível para ti…

Não mais.

Não houve anunciações ou apresentações. Ela sabia quem eras e porque tinhas vindo. Por breves segundos suspensos, só ouviste tua própria respiração sibilante, preso ao desejo. Enquanto ela te fitava em silêncio, tentando compreender a ti e aos teus motivos.

Expressão de enigma vivo, nem um pequeno movimento em sua face denunciava qualquer emoção. Linda, majestosa, terrível, ficaste na dúvida se era por ela que tinhas caído.

Até que o sorriso aflorou, o mesmo que tu presenciaras. Não há como entender os mistérios que recobrem os caminhos que Deus designa aos homens e aos anjos… nem mesmo estes últimos, que se julgam tão próximos do divino.

E ela estendeu-te os braços, de serpentes tatuadas de cima a baixo. Aliviado pelo fim de tua busca, tu te arremessaste. Só para cair desamparado no chão, enquanto a figura da sacerdotisa esfumaçava-se no desfazer de uma ilusão.

A gargalhada de triunfo ressoou por todo o templo do Deus Serpente. Os olhos castanhos da sacerdotisa brilhavam malignamente. E eis que ela pronunciou as palavras que selariam teu destino.

‘Pois então, pequeno anjo, porque achas que uma serpente seria verdadeira e te acolheria com doçura? Não sabes que é da nossa natureza atacar e matar?’

E nesse exato momento, o Abismo abriu-se aos teus pés e olhou em teus olhos. E assim terminou a tua queda.”

 

A face ensangüentada e queimada do anjo ergueu-se.

– Por que repetir a história da minha ruína?

O Primeiro, aquele que foi antes de tudo e todos, olhou-o intensamente. Se isso fosse possível, dir-se-ia que quase contristado. Quando finalmente respondeu, sua voz tinha um estranho misto de ironia, curiosidade e tristeza.

– Queria saber por que, mesmo assim, tu não a tiras da cabeça? Por que ainda és assombrado pelo sorriso dela?

– Pelo instante em que ela me sorriu de volta, eu cairia quantas vezes fossem necessárias.

A Casa do Escudo Azul

‘A Casa do Escudo Azul’ estava inédito em versão eletrônica e é um dos ‘pequenos contos mágicos’ presentes no meu primeiro livro, AnaCrônicas. O livro está a venda aqui no blog ou nos sites das livrarias Cultura e Leonardo da Vinci. Espero que gostem.
 
A Casa do Escudo Azul
 
Caminho determinada, apesar das dores nas pernas. Também, andara por mais de três dias sem parar antes de pegar a barcaça que me levara até Paris. Na pequena viagem pelo Sena, não consegui relaxar, mesmo vendo a maravilha que se descortinou perante meus olhos. Ainda me parece incrível ver as plantações verdejantes onde fotografias antigas mostram crateras e nuvens radiativas.
 
Demorou muito, dois ou três séculos, mas a humanidade recuperou-se da Guerra Final. No começo, todos estavam desorientados e infelizes, acreditando que jamais se reergueriam. Porém, a esperança esteve ali o tempo todo, na forma do Escudo Azul.
 
Sinto orgulho de pertencer a essa organização. Ando pelas ruas de Paris, vejo alguns prédios em ruínas, com placas contando a sua história e maquetes holográficas mostrando como eram antes da Guerra. Ainda não se decidiu no Conselho sobre o destino das ruínas: se serão deixadas como lembrete da nossa capacidade de destruição, se iremos reconstruir os antigos prédios ou se novas construções tomarão seu lugar.
 
Ao lado do mais imponente conjunto dessas ruínas, ergue-se o meu destino, a Casa do Escudo Azul. Suas portas estão sempre abertas, pois não há mais necessidade de temer depredações. Passo por um grupo que discute cultura clássica e reconheço meu irmão entre eles. Aceno de leve pois tenho pressa em terminar a minha missão.
 
Mesmo apressada, não consigo deixar de diminuir o passo e olhar ao meu redor. Sorrio ao cumprimentar antigas estátuas, velhos monumentos e obras de arte seculares. Todo o patrimônio cultural que o Escudo Azul conseguiu salvar da Guerra… Mais do que obras de artes, havia registros históricos, documentos que traziam em si o melhor e o pior da humanidade. E não só o legado material. Na outra ala do edifício, há aulas de canto, dança e outras manifestações, ressuscitadas pelos registros feitos e protegidos por nossos membros.
 
A humanidade reergueu-se com a ajuda da cultura que o Escudo Azul salvara. No meio do século XX, preocupados com o rumo cada vez mais belicoso que a humanidade tomara para si, pesquisadores e amantes da cultura criaram uma estratégia para proteger o maior patrimônio da humanidade caso o pior acontecesse.
 
Demorou, mas aconteceu. A Guerra Final arrasou tudo, com o uso indiscriminado de armas nucleares e ataques químico-biológicos. Uns poucos bolsões de pessoas morando a quilômetros de distância uns dos outros foi tudo o que restou… Isso e todo o acervo cultural salvo pelo Escudo Azul. Claro, nem tudo fora salvo. Eu cresci ouvindo minha mãe suspirar pelos murais de Diego Rivera e pelas formas arquitetônicas arrojadas de Brasília, a obra-prima de Niemeyer.
 
Mas fora o suficiente. Aos poucos, o Escudo Azul fora redistribuindo o patrimônio cultural à população, ajudando a construir novos museus e arquivos, instruindo-os nas formas culturais que foram perdidas. A base para a reconstrução fora esse legado. Por isso, vivemos em algo muito próximo de um paraíso.
 
Chego na sala principal. A diretora do Escudo Azul me recebe com um sorriso caloroso. Respondo, cumprimentando minha mãe com um abraço. Estou ansiosa para mostrar o resultado da minha expedição.
 
Depois da cultura disseminada no admirável mundo novo, o Escudo Azul dedicara-se a procurar relíquias perdidas pelo mundo, nas ruínas deixadas pela Guerra. Eu me tornei a melhor dessas exploradoras.
 
Minha última missão fora no norte da Europa, uma região conhecida como Países Baixos. Com os bombardeios, os diques ali construídos arrebentaram, inundando toda a região, que fora um dos mais importantes pólos culturais da humanidade. Eram freqüentes as jornadas até lá, sempre muito recompensadoras.
 
A minha não fora exceção. Abri o pacote que trazia junto ao peito e o estendi para minha mãe. De todos os tesouros que recuperara para o Escudo Azul, nenhum era tão significativo.
 
Ela sorriu ao ler o título: De Optimo Reipublicae Statu deque Nova Insula Utopia. “A utopia” de Tomas Morus, primeira edição de 1516.

Liberdade – (Cannee, a profetisa, pt. 2)

O cheiro de sangue e os urros enchem a minha cabeça, deliciosos e torturantes ao mesmo tempo. Grito de prazer e de angústia. Acordo com Kalenna ao meu lado, preocupada.

“Irmã, tudo bem? Você gritou…”

Contenho o impulso de abraçá-la. Tinha sido apenas um sonho… A irrealidade desse pensamento dura apenas um instante. Sou uma profetisa, o Oráculo do Povo-Macaco. Não sonho apenas.

“A Sabedoria visitou-me esta noite.”

Ela para de preparar a minha ablução matinal e me olha, temerosa. A profecia que vem entre o pôr-do-sol e o amanhecer é muito mais forte e precisa do que a que atinge os despertos.

“Recebi um aviso e chegou a hora de finalmente despertarmos a Fúria. O tempo dos homens-águia está terminando.”

Como esperava, minha irmã apenas concorda e sai da cabana. Vai avisar os demais sobre minha profecia. Em breve, terei que explicar o que aconteceu. Com um suspiro, termino de me lavar sozinha e sirvo minha refeição de frutas secas.

Quando estou quase terminando, Maleek, o Ancião de Todos, entra na cabana, seu passo arrastado e lento. Logo atrás, os demais anciões da tribo. Faço as saudações e os convido para partilhar a refeição. Cumpro todas as formalidades para Maleek fazer a pergunta que o trouxe aqui.

“Sacerdotisa, sua irmã avisou sobre a visita. Então é verdade?”

“É, venerável. A Sabedoria mostrou que é tempo de nos libertarmos. Os filhos de Margoth, o povo-águia, virão buscar a resposta para a sua sucessão e o Oráculo-do-Sono respondeu que não haverá sucessão. O Povo-Macaco deve retomar o que é seu.”

“Isso irá custar a vida de muitos…”

Kalenna está parada na porta, em silêncio. Sinto um nó na garganta, pois sua morte foi a primeira que vi. Porém, não há outro caminho.

“Sim. É o preço.”

Maleek pensa por instantes.

“Faremos a vontade da Sabedoria. Lutaremos.”

A aldeia se prepara em silêncio. Os homens afiam machados e as mulheres apontam suas lanças. Todos estarão prontos, mesmo Kalenna, quase uma menina ainda. As crianças ajudam, levando artefatos de um lado para o outro. Nem os pequeninos serão poupados.

Mesmo na refeição, não há sons. Quando terminamos, avisto a primeira sombra no céu. São os homens-águia chegando, um bando completo, doze deles. Eu estou pronta, o colar azul da Visão em meu pescoço, os olhos pintados de dourado.

Estamos ao redor da fogueira, o ar frio arrepiando meus pelos. Eles pousam e vem em minha direção. O líder deles sorri e olha nos meus olhos.

“Como é feito há milênios, viemos buscar a resposta à nossa pergunta, Profetisa. É quarta noite do plenilúnio, então diga: qual dos filhos de Margoth irá sucede-la?”

Não respondo nada e Kallenna enfia sua lança no peito dele. Os malditos nos consideram inferiores, indefesos, incapazes de lutar. A carnificina que acontece mostra como estavam errados ao pensar isso. São doze guerreiros, mas foram pegos de surpresa. Lutam como podem, com bicos, garras e a força de suas asas.

O triunfo é nosso, como prometido. Tenho o corpo sem vida de Kallenna no colo, o preço que paguei. Sentindo ainda o seu calor, olho ao redor.

A terra manchada de sangue. Penas cinzentas tingidas de vermelho no ar frio. Carne e ossos espalhados.

E eu sorrio ante a beleza desse quadro que chamarei de ‘Liberdade’.