Livros, livros, livros! Conheçam Anacrônicas – contos mágicos e trágicos

Dia mundial dos livros!

(Segundo diversos posts nas redes sociais! Se não for, tudo bem, aqui em casa todo dia é dia de livro!)

Cinco anos se passaram, muitos contos foram publicados e finalmente resolvei juntar meus continhos novos (além de antigos favoritos) em um novo volume de Anacrônicas. Ao contrário do primeiro, esse vem apenas com contos de fantasia. Mas também tem uma ilustração por conto, feitas – assim como a capa – pelo meu marido e editor (sim, a Aquário é nossa!) Estevão Ribeiro.

Você pode comprar direto comigo – e levar autografado – ou esperar um pouco, pois o livro chega nas livrarias em maio.

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A lista de contos escolhidos:

O mapa para a Terra das Fadas

Anacrônicas, 2009

Campeonato de beijar sapos

Crônicas da Fantasia, 2012

Deus embaralha, o Destino corta

Anacrônicas, 2009

Queda e paz

A Casa do Escudo Azul

Anacrônicas, 2009

A morte do Temerário

Espelhos Irreais, 2009

Lenda do Deserto

Anacrônicas, 2009

Mudanças

A princesa de toda a dor

Anacrônicas, 2009

A vila na areia

Como nos tornamos fogo

Anacrônicas, 2009

Viagem à terra das ilusões perdidas

Anacrônicas, 2009

Maria e a fada

Imaginários 3, 2010

O Ladrão-de-Sonhos

Fábrica dos Sonhos, 2014

Sono de beleza

Quotidianos, 2014

O eremita

Anacrônicas, 2009

Carta a monsenhor

Paradigmas 2, 2009

O longo caminho de volta

Cidades Indizíveis, 2011

Vida na estante

Anacrônicas, 2009

A menina do Val de Grifos

Bestiário, 2012

Os olhos de Joana

Anacrônicas, 2009

O ensurdecedor silêncio dos deuses

Arte e Letra, 2014

“É tarde!”

Anacrônicas, 2009

A dama de Shalott

Anacrônicas, 2009

Coloquei no Pinterest algumas fotos e ilustrações do livro. 🙂

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O que vem por aí…

‘E então, Ana, quais são as novidades?’

Blogs

Fc e afins

Como quem é visitante do Comunidade FC já sabe, eu deixei a editoria do blog de notícias. Porém, sigo firme com o seu irmão, o blog criado na rede aoLimiar para abrigar resenhas, artigos, ensaios e textos opinativos sobre… Ficção Científica e coisas afins.

A partir dessa semana, ele será atualizado toda a terça-feira, sem falta, podendo ter outras atualizações semanais.

Nove Gatos

É, eu sei que pode parecer que abandonei o projeto, mas muito pelo contrário. Escrevi os quatro próximos capítulos e o blog volta a atividade nesta segunda, com um post sobre ‘O livro dos gatos’, história criada e ilustrada pelo Estevão, com texto meu. Então, vai ficar assim: 2as, novidades sobre ‘O livro dos gatos’. Às sextas feiras, um novo capítulo de ‘A casa dos nove gatos’.

Science Fiction made in Brasil

Meu blog em inglês sobre FC e Fantasia vai voltar a ativa. Essa semana, na 4a feira, tem post novo sobre onde ler a FC brasileira em outras línguas.

Boêmia literária, a revolução

Todas as 5as, uma troca de ideias sobre literatura, novas/velhas mídias e aquele velho papo de arte x mercado.

Livros

“Escrevi meu livro,e agora?’

O livro será publicado em uma parceria da Fábrica dos Sonhos e do Estronho pela Editora Literata, com prefácio do grande M. D. Amado e ilustrações de Estevão Ribeiro.

A data ainda não está definida, mas faremos o possível para que esteja pronto para o Fantasticon!

“Anacrônicas 2: ‘A ilha dos amores’ e outros contos mágicos”

Com a primeira edição de Anacrônicas perto de se esgotar (existe sim a possibilidade de uma segunda edição, mas isso ainda depende de alguns elementos), já comecei a selecionar contos para um segundo volume.  Nesse livro, irei incluir as flashfictions que publiquei em tweetzines como Nanoism e Thaumatrope.

Gastronomia Phantastica: receitas de outros mundos

O livro está quase finalizado, a capa está no finalzinho, os autores em breve receberão seus contratos… e o blog já está preparado para servir de portal para este banquete literário. 😉

Extraneus

A coletânea que abre a coleção, ‘Medieval Sci Fi’, tem um conto meu – Cartouche, a história de um tecnogitano que rouba um diamante do Duque de Gorgónia, com a ajuda de Noema, sua amiga medusa. A previsão de lançamento é setembro.

À sombra do corvo

Lembram dela? Pois é, ela foi convidada para participar dessa coletânea de poesias sombrias. Ainda não terminei a poesia, mas estou gostando bastante do resultado.

Imaginários 3

A coletânea de contos da editora Draco será lançada durante o Fantasticon 2010. E eu estarei lá!

Liberdade – (Cannee, a profetisa, pt. 2)

O cheiro de sangue e os urros enchem a minha cabeça, deliciosos e torturantes ao mesmo tempo. Grito de prazer e de angústia. Acordo com Kalenna ao meu lado, preocupada.

“Irmã, tudo bem? Você gritou…”

Contenho o impulso de abraçá-la. Tinha sido apenas um sonho… A irrealidade desse pensamento dura apenas um instante. Sou uma profetisa, o Oráculo do Povo-Macaco. Não sonho apenas.

“A Sabedoria visitou-me esta noite.”

Ela para de preparar a minha ablução matinal e me olha, temerosa. A profecia que vem entre o pôr-do-sol e o amanhecer é muito mais forte e precisa do que a que atinge os despertos.

“Recebi um aviso e chegou a hora de finalmente despertarmos a Fúria. O tempo dos homens-águia está terminando.”

Como esperava, minha irmã apenas concorda e sai da cabana. Vai avisar os demais sobre minha profecia. Em breve, terei que explicar o que aconteceu. Com um suspiro, termino de me lavar sozinha e sirvo minha refeição de frutas secas.

Quando estou quase terminando, Maleek, o Ancião de Todos, entra na cabana, seu passo arrastado e lento. Logo atrás, os demais anciões da tribo. Faço as saudações e os convido para partilhar a refeição. Cumpro todas as formalidades para Maleek fazer a pergunta que o trouxe aqui.

“Sacerdotisa, sua irmã avisou sobre a visita. Então é verdade?”

“É, venerável. A Sabedoria mostrou que é tempo de nos libertarmos. Os filhos de Margoth, o povo-águia, virão buscar a resposta para a sua sucessão e o Oráculo-do-Sono respondeu que não haverá sucessão. O Povo-Macaco deve retomar o que é seu.”

“Isso irá custar a vida de muitos…”

Kalenna está parada na porta, em silêncio. Sinto um nó na garganta, pois sua morte foi a primeira que vi. Porém, não há outro caminho.

“Sim. É o preço.”

Maleek pensa por instantes.

“Faremos a vontade da Sabedoria. Lutaremos.”

A aldeia se prepara em silêncio. Os homens afiam machados e as mulheres apontam suas lanças. Todos estarão prontos, mesmo Kalenna, quase uma menina ainda. As crianças ajudam, levando artefatos de um lado para o outro. Nem os pequeninos serão poupados.

Mesmo na refeição, não há sons. Quando terminamos, avisto a primeira sombra no céu. São os homens-águia chegando, um bando completo, doze deles. Eu estou pronta, o colar azul da Visão em meu pescoço, os olhos pintados de dourado.

Estamos ao redor da fogueira, o ar frio arrepiando meus pelos. Eles pousam e vem em minha direção. O líder deles sorri e olha nos meus olhos.

“Como é feito há milênios, viemos buscar a resposta à nossa pergunta, Profetisa. É quarta noite do plenilúnio, então diga: qual dos filhos de Margoth irá sucede-la?”

Não respondo nada e Kallenna enfia sua lança no peito dele. Os malditos nos consideram inferiores, indefesos, incapazes de lutar. A carnificina que acontece mostra como estavam errados ao pensar isso. São doze guerreiros, mas foram pegos de surpresa. Lutam como podem, com bicos, garras e a força de suas asas.

O triunfo é nosso, como prometido. Tenho o corpo sem vida de Kallenna no colo, o preço que paguei. Sentindo ainda o seu calor, olho ao redor.

A terra manchada de sangue. Penas cinzentas tingidas de vermelho no ar frio. Carne e ossos espalhados.

E eu sorrio ante a beleza desse quadro que chamarei de ‘Liberdade’.

 

 

Oráculo – (Cannee, a profetisa, pt. I)

 

Lanço as pedrinhas no chão da minha cabana. Caprichosas, continuam a não dizer o que eu quero saber. Parecem debochar de mim.

Lá fora, a chuva continua a cair.

Kalenna entra, esbaforida.

“É hora, irmã, você tem a resposta?”

Não preciso responder, pois meu desespero é transparente. A caçula da família abaixa os olhos e eu sei que tenta conter as lágrimas.Para evitar que ela se humilhe ainda mais, viro as costas e começo a entoar um cântico. Escuto Kalenna sair da cabana e me visto, devagar, sempre cantando. É a hora.

Prendo o colar azul, herança de nossa mãe. Pinto a pelagem ao redor dos olhos em um tom dourado, a cor da morte. Finalmente respiro fundo e saio. O ar frio é um golpe na minha pele, mas me mantenho firme. Parados ao redor da fogueira tribal estão os Senhores do Céu, aqueles que nasceram com asas. O líder deles me encara, um sorriso no seu rosto de águia.

“Como é feito há séculos e milênios, viemos buscar a resposta à nossa pergunta, Profetisa. É quarta noite do plenilúnio, então diga: qual dos filhos de Margoth irá sucede-la?”

Eu não posso mentir. A mesma força que me orienta nas profecias impede que diga qualquer coisa além da mais pura verdade. Tento não tremer tanto e digo.

“A resposta não foi concedida.”

Os homens-águia se enfurecem. Escuto seus guinchos encherem o ar enquanto o líder deles, em silêncio, apenas me encara sorrindo.

“Vocês, povo-macaco, vivem nas bordas do nosso território apenas por nossa bondade. Somos generosos, damos todas as facilidades que podem precisar… e só pedimos uma pequena retribuição anual.”

Mordo os lábios, sem me importar com a dor que os dentes afiados causam. Minha mãe morreu jovem demais, sem ter tido tempo para me ensinar todos os caminhos. E na primeira vez que meus poderes foram necessários, eu falhara vergonhosamente. Meu povo não me encara, porém vejo o tremor em seus corpos. Eles tem medo – e eu também.

“Profetisa, sabe qual o preço do seu fracasso?”

Sei, mas prefiro ficar em silêncio. Quem sabe os deuses dêem algum sinal. O homem-águia sai da sua posição e anda pela aldeia, encarando o meu povo.

“O preço é sangue, sangue do povo-macado.”

Ele para na frente de Kallenna, minha irmã. Tenho que fazer algo, preciso… Ele é rápido demais, um predador nato. Com as garras, arranca o coração de minha irmã. Os olhos de Mallenna arregalam-se de susto e o corpo cai, pesado, aos pés de seu assassino. O sangue mancha o chão em padrões estranhos e eu olho, hipnotizada.

E finalmente, os deuses falam. A profecia vem, com força, me arrastando em seu turbilhão de imagens. Rosno, os dentes a mostra.

“Tenho agora a sua resposta. Nenhum dos filhos de Margoth irá reinar, porque o povo-macaco irá matá-los…”

Pulo no pescoço do homem-águia, que não esperava um ataque. Meu povo ataca os demais, ferozes e sem temor pois confiam em minhas palavras.

Somos muitos. O sangue das aves é doce e eu urro de prazer com a vingança conseguida. Não me importo se amanhã os demais virão para acabar conosco – e eu sei que eles virão. No momento, só me importa o presente.

Lendas do deserto

No topo da montanha, uma árvore solitária chama a atenção da caravana. A lua serve de pano de fundo para seu contorno retorcido. Um dos mais velhos sorri ao ver o quadro inusitado.

-Era verdade.

O companheiro mais próximo, ocupado em não deixar os animais saírem de fila, pergunta.

-Como?

-Antes do mundo conhecer o Deus Único e seu profeta, o deserto era habitado por seres estranhos. Os homens, ignorantes, cultuavam essas criaturas como deuses. Era chamados djins e ligavam-se ao seu ambiente. Alguns se conectavam com o vento, outros com o sol, assim como havia aqueles que se uniam à terra e os que eram unos com as plantas raras do deserto. Espécies diferentes que viviam em paz, segundo regras específicas. Muitas não ficaram conhecidas pelos homens. Mas algumas se tornaram famosas. A mais rigorosa, a que jamais poderia ser quebrada ou desrespeitada era proibindo a mistura dos djins. Cada um deveria permanecer com os seus. Para a maioria deles, era fácil. Cuidavam dos assuntos de seus domínios, pouco importando os demais. Só que, na tribo dos djins das plantas, havia a mais bela entre todos. Seu nome era Astee, e dançava no meio das plantas com a liberdade daqueles que não sabem serem observados. Escondidos da presença mágica da aura de Astee, dois a admiravam. Quren era filho do Vento. Olhava para a moça, e imaginava uma escrava dobrando-se aos seus desejos. O outro admirador da beleza da dama era Silian, que caminhava na terra. Este se embevecia no sorriso de Astee e sentia vontade de acompanhá-la em sua dança. Receoso de quebrar as regras, ficava satisfeito por vê-la feliz.

-E o outro?

-Os ventos são inconstantes. Não se pode prever seus movimentos ou saber o que estão sentindo. Quren desejava Astee, mesmo sabendo que não poderia possui-la. Decidiu que iria arriscar. Enquanto a doce criatura caminhava em um gramado, saiu de seu esconderijo. Correu atrás dela, levando consigo a força dos ventos, destruindo as plantas em seu caminho. Astee buscou refúgio. Mas ali não havia como se proteger dos ventos enlouquecidos de paixão. Ao ver o desespero de sua amada, Silian não se conteve. Comandou a terra para que se fortalecesse como rochas e protegesse a djin nas encostas rochosas, no entanto pouco adiantou. A fúria do ar aumentava cada vez mais. Em um último sacrifício, Silian juntou sua própria essência à das pedras. E Astee fincou seus pés nas saliências, tentando não ser levada. Quanto mais segurava, mais o ar rodopiava. Reunindo suas últimas forças, transformou-se em uma das plantas que tanto amava. Quren continuou a soprar, entortando seu novo corpo. A força de vontade da djin, combinada com o amor que Silian lhe tinha, resistiram. Os dois uniram-se no meio do deserto.

O caravaneiro olhou novamente. E desta vez pareceu distinguir nas rochas um rosto, e nas curvas da árvore algo feminino.

Chiaroscuro

(Chiaroscuro é o estilo de pintura do final do Renascimento e do Barroco que valoriza do jogo de contrastes entre luz e sombra)

A meio-elfa andava confiante pela floresta. Conhecia todos os caminhos e todas as trilhas. Reconhecia os pássaros pelo canto, as árvores pelo cheiro. A temperatura era tão agradável que, apesar do inverno, podia se enganar achando que a primavera havia chegado mais cedo.
Nem parecia que essa excursão era para aprender certas artes mágicas obscuras que lhe foram negadas por seus ancestrais e que ela precisaria para poder vingar aqueles que amava.
Caminhou, a cabeça erguida. Ela iria quebrar a regra que proibia o ensino da Necromancia para aqueles que tinham sangue mestiço.

Escuridão. Calor. Um útero primordial, feito de quentura e negrume, envolto em caos organizado.
Consciências que deslizam, unindo-se brevemente. Tocam pensamentos alheios, partilham as experiências de seu mundo escuro e calmo.
No Plano Sombrio, existem poucas regras. Talvez só uma realmente importe.
Não tocar. Jamais encostar a sua consciência em algo que não seja da matéria negra e fluida, morna, tranqüila e imutável que é a sombra.

Quando chegou ao lugar certo para a invocação, a noite já se aproximava. Não havia mais luz solar, o mundo paralisara-se naquele estranho tempo que não existe, entre o dia e a noite. O crepúsculo iria lhe dar tempo suficiente para preparar o encantamento necessário.
Armou o pequeno acampamento. Despiu-se completamente, tentando ignorar o frio que arrepiava a pele nua. Armou-se com a adaga de prata e caminhou determinada até a pedra negra em forma de porta, localizada no meio da clareira.
Começou a cantar.

(O final desta história está em Anacrônicas, informações aqui)

O Sábio de Osgoroth

(Olá a todos, desculpem o grande sumiço. Andei em entressafra de produção. Vamos ver se consigo retomar as coisas por aqui e em todos os outros lugares.)

O Grande Castelo onde vive o Sábio de Osgoroth fica em Esmeraldine, no centro de nossa galáxia. Poucos são os considerados dignos de apresentar-se no seu salão principal, onde o Sábio concede um pedido a cada pessoa. O caminho é longo, passando pelo Cinturão de Asteróides Amarelos, numa jornada cheia de perigos e confusões.

A primeira pessoa a conseguir foi Dorothée, uma Exilada do sistema solar. Foi mandada embora de seu planeta por ter possibilitado a Invasão Terceira; e desde então ficou como mercenária errante, buscando juntar dinheiro para a viagem até Esmeraldine.

Seu pedido foi simples, uma esquadra para poder tomar o controle de seu planeta natal. O Sábio mobilizou todas as naves dos arredores de Esmeraldine e atualmente, a jovem mercenária intitula-se Imperatrix Dorotea, tendo poder sobre todo o sistema solar.

A seguir, um bravo espécime de Leonídeo de Antares IV. Nasceu para governar seu mundo, mas perdeu um duelo para seu irmão. Desejou junto ao sábio que lhe fosse concedida uma segunda chance, em um novo duelo. Os contatos diplomáticos do Sábio agiram a contento, e Rei Liar III conseguiu voltar ao seu reino.

Anos depois, um monte de palha foi levado à presença do grande senhor de Osgoroth por uma jovem vegetalina. A palha era tudo o que restara de seu irmão, morto em uma epidemia. Por ironia, ele era o maior cientista de seu mundo, Vegetalis, e o único que poderia achar a solução para a doença. Seu pedido foi um dos mais complicados: queria a mente de seu irmão de volta. Os pesquisadores que trabalhavam em Esmeraldine fizeram um esforço conjunto, e a jovem saiu do planeta com a sabedoria de seu irmão.

Por muitos séculos, o Sábio foi deixado em paz, gerindo o seu mundo.

Até que um dia, sua paz foi interrompida. Um ser de lata avançou por seu salão. Os sensores óticos emanavam uma luz vermelha e mortiça. Sua voz eletrônica disse, em um som atonal, o seu desejo. Queria ter sentimentos.

O Sábio de Osgoroth riu, pela primeira vez em milênios. O robô, confuso, perguntou o motivo da risada.

Foi então que o Sábio revelou-se. Era um computador, programado para governar o mundo de Esmeraldine. Não poderia atender o pedido por ser incapaz ele mesmo de sentir emoções.

O robô aproximou-se e desligou o grande computador.

Agora, ele é o Sábio de Osgoroth.

Suave é…

(Mais dos caçadores que serão parte da edição especial da http://www.scarium.com.br sobre vampiros. Outro mini, dessa vez relacionado à uma música do Capital Inicial, “Belos e Malditos”. Faz parte de uma história maior, ainda incompleta. Presente de aniversário pra Camila, a dama da noite.:) )
Cris olhou para Gab. Mais uma noite em Nova Orléans, mais um bar. Dois meses percorrendo a cidade, quarteirão por quarteirão, buscando a resposta para o pedaço de pergaminho. As palavras em copta, “Preparar…ritual…sangue…imortal”, não faziam sentido. Ela era uma das mais competentes tradutoras dessa língua e chegara a um beco sem saída.

-Explica de novo porque procuramos os responsáveis pelo papiro nos bares?

Com um gesto impaciente, apagou o cigarro antes de responder.

-Tudo o que o bispo nos disse é que o PERGAMINHO foi encontrado nos bolsos de um bêbado, que teve uma síncope na frente de uma delegacia. O histórico dele na Polícia é de ser um ladrão barato de bares.

A explicação não satisfez o monge, que continuou com a cara fechada. Cris deu um muxoxo e entrou no bar. A atmosfera era pesada, olhos direcionados para os estranhos. Vestidos de negro, capas escondendo armas, como anjos belos, e ao mesmo tempo malditos.

A moça aproximou-se do balcão. Pediu uma coca, enquanto o seu acompanhante bebeu água. Em um quarto de hora, todos os freqüentadores do bar rodeavam os agentes da Igreja. Um deles falou, a face retorcida.

-Vocês não são bem-vindos aqui, caça-bruxas miseráveis.

Sem interromper-se, Cris apenas o olhou. Terminou a cerveja, limpou a boca.

-Você está enganado, cara. Não somos caça-bruxas.

Uma gargalhada rouca ecoou.

-Eu vivo fugindo de gente da sua laia há séculos, idiota…Acha que pode me enganar?

Um gesto ágil, a mulher sacou uma arma. Atirou antes que qualquer um pudesse fazer algo.

-Eu caço vampiros, seu imbecil. – o corpo do seu interlocutor estava no chão, uma estaca fina de madeira atravessada no seu coração. – E você pode estar fugindo há séculos, mas não conhecia esse lança-estacas de bolso.

Todos no bar transfiguraram-se. Alguns eram chupadores de sangues. Outros, ela não conseguiu identificar. Talvez algum inocente estivesse perdido ali. Nenhum dos dois caçadores importou-se com isso. Gab usou sua espada para decepar dois, e com rituais mágicos explodiu mais três. Cris mirou sua arma com precisão.

Em pouco tempo, só restavam eles e o barman. Este não se movera durante a briga. Gab falou.

-E você?

-Sou apenas o barman.

-Conhece isso aqui?

Mostrou o pergaminho. Ele assentiu.

-Sim, conheço. O dono é um feiticeiro vodu que costumava aparecer por aqui, mas sumiu. Este é o endereço dele. – anotou em um guardanapo.

Na porta do bar, Cris tirou uma granada explosiva e arremessou para dentro do ambiente.

-Cris…eles podiam ser inocentes…

-Não são. Foram feitos apenas para sentir prazer.

-Será que não podíamos ao menos poupar o barman?

-Sem testemunhas, Gab. Você sabe disso. O fogo purifica…

-Mas isso é mal.

-Às vezes, algum bem sai do mal. Bem-vindo ao lado escuro do Paraíso.

E seguiram até o carro, iluminados pelas chamas do bar. Anjos da Igreja, caçadores de vampiros, feitos de carne e pecados a serem expiados pela missão sagrada.

O mal que vem da vontade de fazer o bem.

O vermelho do teu sangue…

Texto curto, um mini, que entra aqui para comemorar. Cris e Gab, meus caça-vampiros, estarão no número 15 da revista Scarium, especial sobre os chupadores de sangue. 😀 Esse texto foi feito como parte do concurso de Mini Visuais da Fábrica de Sonhos, sobre a figura desse post. Semana que vem, posto mais um mini dos dois. Obrigada aos meus leitores e fãs.:)

O vermelho do teu sangue…

– Duvido.

– Cris, não enche.

– Nem tenta desconversar. Eu duvidooooo.

– Como você acha que é possível uma tocaia se você não se cala?

– Olha só, estamos aqui há duas semanas e nada acontece. Não tem vampiros naquele bar. Ponto. Como eu dizia, duvido que você não tenha pensado pelo menos uma única vez em largar isso tudo. Desistir de ser um monge caçador de vampiros, voltar pro Brasil, casar e ter um monte de filhos chatos como você.

– Uma única vez.

– Conta. Vou até me ajeitar melhor.

– Quando éramos recém-chegados ao Vaticano, você foi levada para o treinamento básico e eu para o de campo. O pároco de uma aldeia, na fronteira da Itália com a França, estava suspeitando de um culto vampírico. Nada de muito sério ou científico. Apenas alguns indíciosmeio furados. Pedras manchadas de sangue em clareiras. O monge que me treinava pensava ser apenas coincidência e para me acostumar às vigílias, mandou que eu passasse a noite em uma das clareiras.

– Quem era?

– Frei Marc Dalamano, você não o conheceu. Bom, morrendo de medo eu obedeci. Fiquei na clareira, esperando quase até o amanhecer. Foi quando tudo aconteceu… Eles chegaram, carregando uma moça desmaiada, vestida de vermelho…

– Eles quem?

– Até hoje, não sei. Deixaram-na no meio da clareira, ainda desacordada… sobre cada uma das pedras ao redor, um cálice de um líquido vermelho…

– Que provavelmente não era vinho.

– Quem está contando a história? Obrigado. Bem, depois de um tempo, algo estranho aconteceu.

– Jura?

– Cris…

– Tá, desculpa.

– A moça acordou, parecendo desnorteada. Seus olhos eram azuis, como…ah, como uma imagem batida dessas que você conhece melhor do que eu. Tão pequena, tão frágil, tão doce… Naquele instante, eu desisti de tudo. Por ela.

– Ah, que mei… desculpa.

– Bom, fui até a clareira. Ao me ver, a menina abriu um lindo sorriso. E me pegou pelas mãos, começando a dançar comigo. Giramos alegres sobre a luz da lua, como duas crianças… até que eu ouvi um tiro. Frei Dalamano estava com a arma especial, com balas benzidas. Um buraco minava sangue bem no meio da testa dela. Vermelho, tão vermelho… Comecei a gritar com o meu mestre, que não respondeu. Só apontou para chão ao meu redor. Os cálices haviam quebrado, sem que nada os tocasse. E o sangue espalhou-se, formando símbolos que mais tarde eu soube que estavam preparando um portal para trazer mais criaturas malignas às custas da minha alma. O pároco era o líder do culto, como meu mestre havia descoberto. E a doce menina por quem quis abandonar tudo…

– Era uma súcubo…

– Exato.

Silêncio.

– Gab, você está chorando?

– Não, é a umidade do ar… veja, está amanhecendo. Vamos voltar para o hotel.

A camponesa e o cavaleiro

O Amor é uma causa perdida.

E Ana sabia disso. Não procurava mais. Nas planícies do reino de Netius, ela havia desistido e passara a viver simplesmente. Camponesa, com o tipo físico característico. Era um pouco mais do que as moças ao seu redor, porque estudar as Artes de Cura. Não chegava a ser uma bruxa, mas possuia algumas poucas habilidades. Virara a curandeira de seu lugar.

Foi por isso que a chamaram ao encontrar o jovem cavaleiro caído na floresta. Apesar de ferido, não deixou que visse o seu rosto.

– Melhor não… para nós dois.

Relutante, concordou. Ele ficou com o elmo até ser levado a uma das cabanas, onde na penumbra sentiu-se confortável para o retirar. Ana não conseguiu sequer adivinhar os contornos de sua face, mas pouco importava. Tratou da perna quebrada e das escoriações nos braços e abdomen. Cantava baixinho, até o estranho elogiar sua voz. Encabulada parou.

– Não pare, por favor.

Recolhendo suas coisas, apenas murmurou.

– Já terminei. Preciso cuidar do resto dos meus afazeres.

– E o seu nome?

Na porta, saindo na penumbra, ela apenas respondeu em um sussurro.

– Ana.

Os dias transcorreram em uma nova rotina. Boa parte do tempo, a camponesa passava com o estranho. A perna causava preocupação, já que a queda do cavalo fora em alta velocidade. A intimidade surgiu entre ambos. O rapaz disse chamar-se Onaimar, filho de nobres pouco importantes de uma terra próxima. Sem esperanças de melhorar de vida, decidira-se tornar um cavaleiro andante, enfrentando perigos e torneios.

Sua alma não era de um guerreiro. Foi o que a moça descobriu, ao conversar seguidamente com ele. Era um poeta, alguém gentil e sensível. Passaram tardes inteiras apenas para discorrer sobre as mudanças de tempo e sua influência na poesia. Pois a magia era feita em versos, e Ana, apesar de não ser muito versada, gostava. Conseguia acompanhar as exposições, em pouco tempo, debatia as proposições de seu companheiro.

Ele acabara revelando o rosto, sereno, feições tranquilas. O cavaleiro já não estava ferido, mas permanecia por ali. Ana retomou as demais atividades, porém à noite ia servir o jantar ao seu convidado. E continuavam a conversar. Já não imaginavam uma vida sem o outro.

Uma coisa intrigava Ana. Desde que se recuperara, o jovem todos os dias enviava uma mensagem, que era respondida logo.

Um dia, ele explicou.

– É assim que a vida de um cavaleiro funciona, minha querida. Preciso saber dos torneios e dos passos. Aliás, semana que vem terá um perto daqui. Terei que ir, pois faz tempo que não participo. Prometo que volto, assim que tiver ganho.

Simplesmente sorriu. Mesmo tendo ouvido histórias similares, sabendo que dificilmente ele retornaria, acreditou.

Semanas passaram-se… Sequer notícias de Onaimar, e ela estava pensando em ir até a cidade onde fora o passo. Um mercador, passando pela aldeia, quebrara o braço. Em pagamento pela cura, iria conduzi-la.

Não foi necessario. Ao fazer o curativo, explicara que ia procurar um rapaz que combatera no torneio. O comerciante, na inocência que o não saber traz, comentou animado.

– Sim, o torneio. Um jovem cavaleiro destacou-se. Filho de um baronete qualquer, com um porte de armas fabuloso. Que justas! A senhorita precisava ver… e a jovem princesa ficou absolutamente encantada. Os olhos verdes dela brilhavam como esmeraldas. Fez questão de recompensar o vencedor.

O coração dela parecia ter ido para outro lugar, fugindo do peito. Sem notar, ele prosseguiu.

– Tanto fez, mas tanto tentou que o rapaz casou com ela. Quer dizer, ele não relutou muito. A príncipio, disse ter alguém em seu coração, essas baboseiras. Mas como resistir a uma princesa? Puxa, quase uma deusa…loura, alta, olhos verdes, porte nobre, belas roupas. Fizeram um belo par, sabe? O futuro casal governante do reino. Rei Onaimar e Rainha Gia.

O sorriso não morreu. Ela recusou o oferecimento da condução alegando ter doentes a cuidar.

Olhou a carroça afastar-se.

O Amor era uma causa perdida. Ana sabia disso. Como podia querer competir com uma princesa, imagem dos deuses? Ela? Camponesa, mãos grandes, pele curtida ao sol. Cabelos de um louro baço, sujo, de ficar ao tempo. Corpo de quem precisava aguentar o trabalho de muitos dias, sólido, compacto, largo.

Como o culpar por ter escolhido uma silfide, esguia, cabelos como a luz do sol, olhos de esmeraldas, porte e figura de rainha-governante?

Por mais que amasse as causas perdidas, essa era demais mesmo para ela. Não chorou, como um soldado não chora ao deixar o campo de batalha. Entrou em sua cabana e voltou a viver do jeito que sempre vivera.