Ponteiros

“O ponteiro pequeno marca a hora. O grande, os minutos.”

A mãe repetira incansável por anos a fio, tentando ensinar a criança que todos diziam ser lenta demais para aprender.

E a cada vez que dizia, o estapeava. “Pra aprender mais rápido”.

Ele aprendeu. Apanhou. Sofreu. Foi humilhado.

Mas aprendeu.

Olhou o relógio no pulso da mãe.

Limpou o sangue que secara no mostrador.

O ponteiro pequeno no dois, o grande no doze. Parado, marcando duas da manhã, a hora em que a matara.

Arrancou o relógio, jogou-o no chão.

Descarregou as balas restantes no aparelho. Nunca mais olharia um relógio.

Deus embaralha, o Destino corta

Eu duvido que Deus jogue dados com o Universo.

Mas falando sério, ao olhar a minha vida, eu tenho a impressão de que rola pelo menos um poquerzinho nos sábados à noite.

Mas nem é isso o que mais me irrita.

O pior de tudo é quando estou finalmente feliz e vem o Destino com aquela proposta.

– O dobro ou nada.
E é aí que eu vejo que Deus, além de não saber quando parar, tem um azar danado com cartas.

Fim da dor

Anos passaram sem que Antônio voltasse do mar sem fim. Maria de Fátima, envolta em tecidos negros, chorava seu luto olhando o azul interminável até doer a vista.

Na tempestade que arrasara tantos navios, apenas Antônio jamais fora encontrado. Nem seu corpo.

Por isso, olhava o mar, fio de esperança que corria em sua alma.

Quando viu a silhueta tão conhecida erguer-se na água, sorriu. Não reparou que a pele pendia, que as órbitas eram buracos vazios, que os cabelos eram algas amareladas.

Enquanto corria para abraçá-lo, mesmo sentindo o fedor da podridão, só pensava em como era bom tê-lo de volta.

“É tarde!”


O coelho branco olhou o relógio.
– Oh, meu Deus! É tarde!
Correu em disparada, com medo de não conseguir chegar a tempo. Para seu desespero, a garotinha loira acabara de se levantar, com a gata Diná no colo. Estava na hora de jantar, e sua babá chamava.
Só restou ao coelho branco guardar o relógio no bolso do colete. Sentado na raiz da árvore, olhou para o buraco por onde Alice deveria ter passado e suspirou.

Foi por tão pouco.

(Gostou desse conto? Tem esse e outros no meu livro, Anacrônicas. Informações aqui)

Cerejeira

Depois da guerra, nada sobrou. Ando por minha cidade procurando um sinal de vida, uma cor diferente do cinza de chumbo do inverno atômico que já dura dois anos.

Sem perceber, chego ao Jardim Municipal. Lá, no meio das outras árvores, rainha sem reino, está nossa cerejeira. Onde gravamos nossas iniciais, em algum dia de uma primavera que não mais voltará.

Pois você morreu no primeiro ataque dos invasores, na frente de batalha, queimado até não sobrar nada. E da cerejeira, sobrou o tronco. Onde estão as folhas verdes e brilhantes? Perdidas em um verão pretérito.

Encosto a cabeça na árvore e me deixo cair ao chão, qual folha nas manhãs de outono de minha lembrança.

Morgana fala…


Saio das águas do lago com a espada nas mãos. Não iria deixar nosso tesouro nas mãos dos adoradores do deus morto. Na noite fria, as brumas me envolvem como se me reconhecessem.
Não consigo chorar, os rios que escorrem por minhas faces não são lágrimas. Mas meu irmão, rei e amante, está morto. E com ele, o mundo que conheci, amei e lutei até o fim para preservar. Pois aquele que nascera para ser nosso líder, que deveria nos fazer triunfar sobre os cantadores de missa, nos traiu.

Somente eu sei como ele morreu. Ninguém mais saberá. Continuo andando, sem sentir dor, frio ou cansaço. É tarde demais para todos nós, depois do que aconteceu há tão pouco tempo

Era uma tarde gloriosa, os invasores haviam sido finalmente derrotados. Artur, líder dos bretãos, bradava alegremente, cantando a sua vitória. Os soldados o imitavam, saudando os seus deuses. Eu sorria e gritava junto quando aclamavam a Deusa, da qual sou sacerdotisa.
A alegria foi interrompida. Uma pequena comitiva se aproximou de Artur. Patrício, bispo da Irlanda, e a rainha pediam a palavra. Ao meu lado, o velho druida franziu a testa. Os nossos soldados, incluindo o meu filho com o rei, perceberam, parando as salvas. Minutos depois, Artur, sério, virou para as tropas, anunciando que a partir daquele momento, em agradecimento pela vitória, a Bretanha seria cristã, e os antigos deuses deveriam ser esquecidos.

Ao anoitecer, eu e meu filho acompanháramos o Merlin em seu encontro com Artur. Meu irmão sequer abriu a boca, pois o druida começou a despejar seu discurso de ódio e maldição.

– Você, que nos deve tudo; você, a quem seguimos lealmente. Traidor. Você ajudou o bispo caçador de serpentes. A morte é pequena demais como castigo. Eu te amaldiçôo, Artur, filho de Uther. A não ter memória, a não ser lembrado. A partir desse dia, seu nome e o do seu povo serão mitos e lendas. Ninguém poderá afirmar quem foi você, quais foram os seus feitos, qual foi sua família. Sua mulher o renegará, seus amigos o esquecerão. E você estará morto, e a sua imagem virará névoa.

Um trovão ecoou. Mordred percebeu e pulou para salvar seu pai. Morreram juntos, como jamais estiveram em vida. O Merlin jogou a espada sagrada no lago, antes de cair morto.Como em um sonho, me joguei nas águas frias…

Quando saio do transe, tenho os músculos rijos de frio. Estou na costa da Cornualha, perto de onde nasci. O frio do metal corta as minhas mãos, devo ter andado durante dias para estar aqui. O mar estende-se aos meus pés, no fundo dos imensos penhascos. No horizonte, o céu cinzento encontra o mar. Além, quem sabe? A terra de Ys Brasil?

Pelos tempos que se foram, e pelos que virão, eu digo uma prece. Peço piedade para aqueles que adoram o deus morto. Meus pés encontram o ar e meu corpo cai, com Excalibur em minhas mãos.

A dama da noite


A dama da noite
Sempre ouvi histórias sobre o perfume da dama da noite. Colhida no meio de um buquê, abria-se durante a noite em um quarto fechado, matando quem estivesse no recinto.
Lígia lembrava-me a dama da noite. Sua pele era alva como essa flor, e sua beleza escondida desabrochava a noite. E seu perfume…inebriante. Não conseguia pensar em mais nada ao senti-lo. E seu cheiro ficava em minha memória.Porém, todos os meus pedidos de casamento foram recusados. Escolheu outro.
Mas, hoje, no dia de suas núpcias, eu trouxe Lígia para mim. Colhi-a, como quem colhe uma flor. Matei-a, sim, mas o que me importa? Espero a noite, quando a minha dama irá desabrochar, matando-me com seu perfume.

De ressaca

Ai. Que puta ressaca. Misturar destilados hidrolíticos marcianos com licores da Nuvem de Magalhães não podia dar certo mesmo. Droga. Melhor pegar o cartão de ignição e sair dessa espelunca…

Opa, calma aí. Cadê meu cartão? Sem ele, não consigo dar a partida no meu velho XTR 450, modelo adaptado pro Sistema Solar. Será que eu perdi em algum canto? Bom, não vai ser difícil entrar sem ele, e lá dentro eu faço uma ligação direta na corrente de neutrinos azuis…

Pó, eu devo estar olhando a escotilha errada, só pode ser. Cadê a sucata que eu deixei ali, noite passada? Ah, droga. Meu cronômetro deve estar errado. Não podem ter passado 5 dias-padrão solar desde que eu cheguei aqui, e ele diz que foram 3 semanas!

Ih, não é meu cronômetro não. O da parede está marcando a mesma data.Ai, não; perdi a data da entrega da mercadoria. Quer dizer, acho que até a mercadoria eu perdi. Vamos recapitular aos poucos, se a cabeça não rachar no processo.

Peguei a carga de urânio ultra fino, coloquei no XTR e parti em direção ao sistema solar. Era uma encomenda para as usinas termo-nucleares de Marte. Só que, ao chegar na órbita de Júpiter, senti sede e resolvi parar.

Era o bar mais falado entre os carregadores de todo o braço inferior da Galáxia. Também, merecia. Bebida boa, comida farta, e companhia à vontade. Para todos os gostos e preferências, machos e fêmeas de todas as raças conhecidas. Foi ali, no salão principal do bar que eu a vi.

Todas as marcianas são maravilhosas – seleção genética apuradíssima dos colonos e dos fetos autorizados a completar a gestação – mas aquela ali era simplesmente divina. Pele negra como ébano, cabelos brancos até a cintura e olhos com a cor das nuvens de tempestade, veio em minha direção com um sorriso nos lábios perfeitos e um copo na mão.

O que foi que ela disse? Merda de dor de cabeça. Ah, ela veio com algum papo mole desses, elogiou meus dois tentáculos laterais ou coisa do tipo.Não lembro, só consigo sentir o gosto da bebida e …Piranha, vadia, ela me dopou. Ela deve ter pego meu cartão de ignição, roubado minha nave e…

****

Os pensamentos do arcturiano foram interrompidos pela vozinha aguda de um insetóide.

– Senhor? Senhor? Com licença, ficamos felizes que tenha se recuperado. Parece que sua raça tem uma alergia especialmente forte a algumas bebidas do sistema solar. O senhor ficou em coma durante alguns dias. Sua nave foi colocada em uma vaga a parte, e seu cartão ficou conosco para sua maior segurança.

Com um resmungo, pegou o cartão e foi embora sem agradecer. Não viu o sorriso cínico da funcionária, e não reparou que estava sem seus dois tentáculos laterais, situados atrás dos braços.

Atrás do balcão da recepção, um cartaz piscava:

“Atenção, tentáculo e outras partes corporais dispensáveis de pessoas embriagadas serão consideradas sem proprietário legítimo”

Lua Negra

Foi a noite mais escura da minha vida. O ar estava denso e pesado, e nenhuma estrela brilhava. Kahntsi Ehnita, o xamã responsável pelo ritual das noites sem lua, havia convocado uma reunião de todos os chefes dos Hodenosaunee. Meu tio, irmão de minha mãe, estava lá representando nossa nação, caienga. Nos chamavam de ‘mohawks’, por nossa ferocidade. E o acompanhei, orgulhoso.

Não era uma reunião normal. O Conselho havia se reunido duas luas antes. Não estávamos em guerra, não era preciso reunir os chefes. Tremi na minha roupa nova. Todos esperavam algo de ruim a ser dito. Os chefes das Cinco Nações estavam frente a frente na grande fogueira. Meu tio postou-se do lado do chefe Seneca e do chefe Odonanga, como de costume, por serem as nações que fundaram a nossa união. Do outro lado, os chefes Oneida e Cayuga, os irmãozinhos. Seus clãs eram fortes, mas ainda não tanto quanto os dos irmãos mais velhos. Meu pai era filho do chefe Oneida; e me olhou com orgulho, ao me ver do lado de meu tio.

E o xamã Lua Negra entrou. Velho, como se tivesse existido desde que a Mãe de Todos criara o Grande Rio. Para nossa surpresa, não estava pintado, não usava paramentos. Vinha vestido com a sua roupa simples, se enfeitara com a sua dignidade e sua sabedoria. E, hoje, cativo daqueles que o mataram, ainda posso escutar sua voz trêmula. Lágrimas me subiram aos olhos, naquela noite. E como todos os outros, gritei pedindo auxílio da Mãe.

– Ah, irmãos, Nações das Grandes Casas! Nós, que somos irmãos das árvores, e que vivemos ao abrigo de sua sombra. Nós, que chamamos a águia de mestra e o urso de companheiro. Eis o que os sonhos me disseram!

“A Mãe me pegou pela mão. Mostrou as florestas em que vivemos, o rio que amamos e as praias de onde tiramos o peixe. Foi mais além e mostrou onde nossos outros irmãos vivem. As terras do bisão e da areia. Os lagos silenciosos. E apesar de sermos inimigos, meu coração ficou feliz ao vê-los. E olhei para a Mãe. Chorava, e suas lágrimas me levaram até o mar. Perguntei ‘Mãe, por que chora?’ E ela disse ‘Choro pelos meus filhos, todos eles. Do pequeno raccon ao grande bisão. Do pacífico dakota ao guerreiro mohawk. Tudo tem um fim, e o tempo dos meus filhos não irá durar. Vocês que correm livres serão prisioneiros. Passarão fome, terão sede e seus filhos serão mortos. E no fim, serão iguais a eles’. Não pude perguntar, pois ela me trouxe de volta. E eu acordei, e vi a noite sem estrelas. Agora sei que tudo está acabando.”

Gritamos noite adentro. Quando eles vieram, lutamos como se fossemos loucos, pois sabíamos que tudo estava perdido. Muitos morreram. Meu tio, meu pai e o xamã. Fui preso, e da minha prisão ainda ouço nossas vozes gritando. Hoje sei que naquela noite sem estrelas, todos os ‘índios’ gritaram à Mãe.

O caso da estatueta roubada

(Texto que foi enviado para competir na OE, mas venceu por WO….)

Odeio clichês, chavões, estereótipos e outras faltas de originalidade. E foi impossível não pensar nesse meu sentimento quando ele entrou na minha sala. Suado, falando alto e gesticulando, sotaque carregado: o típico italiano, enfiado em um terno mal cortado. Disfarçando minha repulsa, indiquei a cadeira reservada aos clientes, enquanto fazia uma pose de atenção total. Minha mente divagou entre o péssimo caimento da vestimenta dele e quanto receberia por um trabalho para o carcamano. Um “porca miséria” aqui, outro lá, e pouco a pouco foi se desvendando uma trama confusa, monótona e…clichê. Uma estátua rara, de um Deus do Ódio polinésio, fora roubada da casa do italiano, e ele precisava recupera-la. Havia vendido para um cliente importante – era antiquário. Recebera o dinheiro, e não tinha mais o tal Deus.

Estava prestes a mandar o sujeito procurar a seção de “Achados e Perdidos” do Correio mais próximo, quando outro estereótipo entrou na minha sala. Loira, alta, bem feita de corpo, imensos olhos azuis nublados de lágrimas, lábios pintados com esmero, que tremiam no esforço para conter os soluços. Retiro o que disse. No fundo, clichês têm o seu lado interessante.

A deusa abraçou o velho, chamando o de pai, para minha grande felicidade. Depois virou em minha direção aquelas duas poças de luz. Pediu minha ajuda para o pai. Ao Inferno o meu preconceito em relação a clichês. Peguei meu sobretudo do cabide, atrás da porta, enfiei o chapéu na cabeça e dei passagem para a mocinha. O pai pediu para ficar, pois tinha medo dos assaltantes.

Ofereci meu braço a beldade loura que me acompanhou até a residência que dividia com o pai. Moravam bem, em uma mansão afastada da cidade. Chique. As luzes estavam apagadas, e minha acompanhante explicou que era porque os empregados já estavam dormindo. Fui imediatamente ao aposento indicado, onde a estatua ficava antes do assalto, enquanto ela disse que iria até a cozinha.

Olhando os cacos de vidro, antegozei as delícias de completar aquele caso. Iria me tornar um herói para aquela mulher estonteante, além de poder cobrar um preço bem substancial. Finalmente poderia deixar de ser um detetive de terceira e ir além. Bom, muito bom. Um som estridente tirou-me dessas deliciosas reflexões. Sirenes?

Uma semana depois, fui libertado. Finalmente os policiais acreditaram na minha história, principalmente depois do telefonema do meu senhorio, reclamando da porta aberta e do escritório saqueado. Sim, maldito seja o velho, além de assaltar uma mansão e me colocar de bode expiatório, levou tudo o que eu tinha no mundo.

Entrei na sala vazia, dei um murro na parede e gritei.

– Porca miséria, eu odeio italianos!

Ao invés de me sentir aliviado, a mão começou a latejar e doer. É como eu disse no princípio. Odeio clichês e coisas do tipo. Mas com tantos chavões ao meu redor, eu não poderia ser o modelo de detetive que sempre acerta?