[O que eu recomendo] Nine Princes in Amber, de Roger Zelazny

Existem livros que alteram a sua concepção de vida, mudando a forma de ver o mundo. E aqueles que fazem você visualizar literatura como arte de uma forma irrefutável. O problema é que, por causa de certo preconceito, o senso comum geralmente procura essas obras nos grandes clássicos ou nas obras premiadas da literatura contemporânea.

Não que isso não aconteça – A cor purpura, de Alice Walker, e Raízes, de Alex Haley, foram livros que me deixaram em choque por semanas. Porém, com meu amor pelo fantástico, muitos dos livros que tiveram esse impacto em mim são de literatura fantástica. Dos vinte livros mais importantes da minha vida, com certeza mais da metade são de Fantasia ou de Ficção Científica.

E um deles, com certeza, é o primeiro volume da série ‘Chronicles of Amber’ de Roger Zelazny, Nine Princes in Amber.

Pouco conhecido por aqui, Zelazny é um dos grandes nomes da fantasia mundial, ganhador de vários prêmios e autor de algumas das maiores obras do gênero, como Lord of Light e a série de ‘Amber’, que tem dois ciclos de cinco livros cada.

E foi o primeiro livro de toda a série que está naquela lista de vinte livros mais importantes da minha vida. Um dos fatores foi o estilo. Nine Princes in Amber não deve nada, na força da sua escrita e da sua narrativa, aos grandes clássicos da literatura do século XX. O autor nos conduz por uma trama intricada construindo imagens e cenas fortes e dramáticas, daquelas que se prendem na sua memória por anos.

(Possíveis spoilers a frente, apesar de estar em todas sinopses do livro)

A história é de Corwin, um dos nove príncipes do título, possível herdeiro de seu pai, Oberon, no trono de Amber -o único reino verdadeiro, do qual todos os demais são sombras. Porém, sua história está incompleta, pois ele começa o livro acordando em um hospital de Nova Iorque sem memórias – e irá recuperá-las de forma fragmentada e não linear. O narrador acompanha essa sua confusão mental, só nos revelando o que Corwin vai descobrindo.

Zelazny usava influências de mitologias diversas em várias de suas obras, e em ‘Amber’ é possível ver traços celtas, arturianos e, com muita força, das obras de Shakespeare, principalmente de Hamlet – a vontade de poder de Corwin tem ecos fortíssimos do príncipe da Dinamarca – e de Sonhos de uma noite de verão.

A trama política entre os nove príncipes, a sensação de que tem algo em suspenso que ainda não se revelou, a forma de viagem entre essas realidades irreais e a de Amber (que é ‘caminhar entre as sombras’, sendo que as ‘sombras’ seriam justamente esses mundos que não são tão verdadeiros), e as dimensões absurdas desse multiverso infinito até hoje são grandes influências para mim e para o que eu escrevo. Não é a toa que no Atlas Ageográfico de Lugares Imaginados a trama gira em torno de memórias perdidas que são recuperadas ao se caminhar. E sim, há toda essa questão de muitas realidades e universos, que vivem sob uma ameaça ainda não vista totalmente.

E nessa influência, estou muito bem acompanhada. Neil Gaiman tem uma admiração fortíssima pela obra de Zelazny, principalmente dessa série, assim como G. R. R. Martin.

“Ana, você acha que essa obra sai no Brasil?”

Ah, como eu queria, né? Que saísse e fosse um sucesso estrondoso para que eu colocasse na capa do Atlas: “Uma trama emocionante, comparável à Nove Príncipes em Amber de Roger Zelazny.” (modesta a beça, eu sei.)

Mas acho difícil. É uma série antiga e as editoras estão apostando pouco em grandes clássicos da fantasia – principalmente depois do fechamento da Saída de Emergência Brasil. Porém, finalmente os livros de Zelazny estão saindo em formato eletrônico na Amazon e os 3 primeiros da série já estão disponíveis. Vou comprar os três, para poder reler os dois primeiros e finalmente conseguir ler o terceiro – para ficar ansiosa esperando os demais.

 

 

[O que ando escrevendo] O Atlas Ageográfico de Lugares Imaginados, em sua versão semifinal.

Finalmente.

Sim, finalmente posso dizer que o Atlas adquiriu sua forma final, pelo menos para mim, no que se refere à disposição de capítulos, cenas e presença de personagens. Foi uma jornada interessante, fascinante, em que muita coisa mudou, em que coisas foram incorporadas e cortadas, personagens surgiram e cresceram.

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Durante esses meses, várias vezes as pessoas tem demonstrado curiosidade sobre o livro. Sem dar spoilers, tem algumas perguntas que eu posso responder.

1.É um livro de Fantasia? De Ficção Científica?

É um livro que se enquadra dentro do gênero fantástico, com certeza. Mas ele tem elementos de Fantasia Épica, de Fantasia Urbana, de Retrofuturismo, de FC…

Então, é difícil eu, autora, dar uma resposta final a vocês. Porém, acredito que o mais próximo seja dizer que é de Fantasia.

2. Sobre o que é o Atlas?

É um livro sobre memórias, lembranças e perdas. Sobre cidades que desaparecem, sobre vingança e lugares que não deviam existir.

Também conta a história de três seres completamente diferentes que atravessam o deserto com um cavalo sem nome, sem saber direito o que vão encontrar no final.

Em resumo, é um livro sobre uma jornada que muda a vida dos envolvidos. E talvez de todo o universo conhecido.

3. Vai ter sequência?

Mais ou menos. A história do Atlas se encerra nela. Porém, certas coisas que vemos, certos personagens que conhecemos, vão aparecer, pois é um livro que tem a ver com um ciclo de criação e entropia.

4. Quem são os personagens principais?

Clio, a moça que acorda sem memória. Íbis, o homem-morcego que não pode revelar as suas lembranças. E o Rei-máquina, que talvez se lembre de mais do que deixa transparecer.

5. Quais foram as maiores influências desse livro?

As duas principais foram ‘O mágico de Oz’ do L. Baum e a série ‘As crônicas de Amber’, principalmente os dois primeiros livros (‘Os noves príncipes em Amber’ e ‘Armas de Avalon’). O primeiro por causa da jornada e das estranhas conexões, inclusive sendo subvertido e negado por várias vezes.

Já os livros do Zelazny foram uma surpresa que só fui perceber depois, com o livro já bem formado – também falam sobre memórias partidas e perdidas, lugares que somem e a grande tentativa do auto conhecimento. E fazem isso em uma fronteira tênue entre Fantasia e FC, embora ao primeiro impacto pareçam ser Fantasia.

Além disso, há forte influência de Guy Gavriel Kay, principalmente de ‘Tigana’, que também é um livro sobre memórias e lembranças. A fantasia urbana e estranha, que foge do romance sobrenatural, de Jeff Vandermeer, Jay Lake, China Mieville e Ekaterina Sedia moldaram alguns dos capítulos do Atlas, principalmente os que envolvem Biblos e Xanadu. Borges, por mais que eu não seja grande leitora, também influenciou muito em várias coisas, em relação à imaginação e em elementos de worldbuilding.

A mitologia – grega, chinesa, celta, romana, cristã – e o fabulário europeu, medieval e moderno, deram base para alguns plot points e para a formação de personagens. Clio tem nome de musa e segue um pouco o mito de Prometeus. O Rei-máquina segue uma antiga lenda chinesa, mas seu título veio de um estudo antropológico sobre Luís XIV, que usava o epiteto para si – aliás, isso influencia um pouco a personalidade dele, que não diz ‘O Estado sou eu’, porém tá quase lá.

E Íbis… ele é um pouco de todo o herói trágico, mistura Dedalus e Batman. E talvez seja o personagem mais ‘eu’ do livro.

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Íbis na visão do Estevão Ribeiro.

6. Por que escrever o Atlas?

Um dia, eu virei pro meu então estagiário e disse, inspirada pela música do America: “Vou escrever um livro sobre viajar no deserto em um cavalo sem nome.”

Disso, saiu o livro. Acho que o ponto do cavalo não ter nome e da música dizer que no deserto você perde suas lembranças porque não há ninguém para lhe causar dor provocaram a base do Atlas ser memórias e lembranças

7. Atlas… Vai ter mapas?

Nenhum. Não tem mapas, não tem coordenadas, não uso em momento algum as palavras ‘direita’ e ‘esquerda’. Ele ser ageográfico o define. Ele é um atlas de palavras, de memórias perdidas para serem encontradas e de lugares imaginados e de destino ignorado.

8. E agora?

Agora, vamos procurar editora. Não, não quero lançar pela Aquário, que é voltada para outro tipo de projeto. Torço para o livro sair ainda esse ano, mas vai saber.

9. Vai ter biscoito, como teve pro Anacrônicas?

Prometo: assim que a editora fechar capa, encomendo os biscoitos pro lançamento.

10. Quem te ajudou?

O trabalho de escritor é solitário, mas tende a angariar o apoio de muita gente.

Mas principalmente, no caso do Atlas:

Meu marido, Estevão, ajudou a delinear o primeiro storyline/argumento do livro, o que me deu um esqueleto pra rechear.

Eric Novello e Nelson de Oliveira me chamaram para escrever os contos que deram origem ao livro.

Jaques Barcia e Lucas Rocha aguentaram algumas explosões de ideias. Max Mallmann nunca me deixou desistir do livro, mesmo quando eu achei que ele era estranho demais.

As meninas da Increasy compraram essa ideia e me ajudaram a colocá-la na forma que está hoje, um livro que não está perfeito, mas que eu consigo ler e dizer ‘ei, valeu a pena todo esse esforço’.

E todo mundo que nesse ano e meio postou fotos e gifs de morcego e se interessou. Sei que tenho uma base de leitores pequena, mas que está se mostrando querida e fiel. Espero que a jornada de Clio, Íbis e do Rei-máquina (com o cavalo sem nome) valha a espera e a confiança de vocês.

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[O que estou fazendo] ‘O Atlas ageográfico de lugares imaginados’ finalmente tem uma primeira versão

Sim, isso mesmo.

Finalmente consegui terminar um romance – no momento, estamos no começo da primeira revisão e com 85 mil palavras. É uma sensação estranha. Eu achei que terminar um romance iria me tornar uma pessoa diferente, mas só me deixou com fome e com sono, ou seja, do jeito que sempre estou.

Muitas pessoas tem me feito algumas perguntas sobre o Atlas e reparei que, apesar de falar muito sobre ele nas redes sociais, raramente eu o defino ou o explico.

Então, vamos ao FAQ:

1 – O que é o ‘O Atlas ageográfico de lugares imaginados’?

É um romance de literatura especulativa. E também um livro ficcional que aparece nesse romance.

2 –  É fantasia?

Mais ou menos. O Atlas trata de assuntos  como memória, lembrança e autoconhecimento, em um cenário especulativo que tem muito de fantasia (deuses, magia, seres estranhos) como de FC (viagens interdimensionais, multiversos, realidades paralelas).

3 – De onde veio a ideia?

De várias coisas.

De dois contos que escrevi de Fantasia Urbana. Da vontade de fazer algo que se ligasse de forma indireta ao Ladrão-de-Sonhos. De explorar uma estrutura de romance diferente.

E de um desafio que eu me autolancei ao dizer ao estagiário que um dia escreveria um romance sobre aquela música do America, ‘Horse with no name’.

4 – Vai sair quando e por qual editora?

Não sei x2.

O livro ainda não está pronto. Ele foi escrito, mas falta muito prele chegar ao ponto de ser publicado. Só quando chegar nesse ponto é que vamos procurar uma casa. Ele não deve sair pela Aquário, pois na editora não estamos querendo publicar romances, mas de resto tudo pode acontecer.

5 – Afinal, sobre o que é?

A sinopse atual é essa:

Um deserto que existe, apesar de ser impossível, entre tempos e dimensões.

Um homem-morcego que carrega sozinho a dor de ter perdido seu mundo, e que não pode compartilhar essas lembranças.

Uma jovem cuja única pista para seu passado é um livro em branco.

Um rei exilado pelos demônios que comprou para se tornar mais poderoso.

Um cavalo sem nome.

Uma criatura que aparece e reaparece, sempre com um desafio.

Um universo multiplanar ameaçado.

Três dias de jornada em busca de respostas e lembranças, enfrentando obstáculos invocados por três entidades misteriosas.

Mas também posso dizer que é sobre uma moça sem memória, um homem-morcego, uma estátua dourada que se mexe, um cavalo e um deserto no qual eles foram parar sem saber bem porquê. E sobre cidades obliteradas, memórias trancadas, lembranças perdidas, amores desencontrados, viagens transdimensionais… e um Viajante que sabe mais do que os outros.

Ou seja: anos de trabalho, 85 mil palavras e eu não sei bem como responder sobre o que é esse livro.

Mas pelo menos ele existe:

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Inclusive em uma única e exclusiva cópia física – a única que jamais haverá dessa versão – já entregue às mãos do meu-melhor-amigo-e-grande-apoiador:

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(Sim, foi com um morceguinho desses incluso)

[O que estou lendo] Duas lendas se encontram na Terra das oportunidades – resenha de Golem e o gênio, Helene Wecker

Criaturas encantadas são tema importante na literatura fantástica desde sempre. Muitas vezes como antagonistas ou como catalistas de situações, mais raramente como protagonistas. E poucas, muito poucas obras dentro das muitas que li conseguiram captar a estranheza de ser inumano tão bem quanto The Golem and the Jinni de Helene Wecker. Publicado em 2013, foi indicado um dos indicados ao Nebula desse ano. Apesar de alguns o colocarem como ‘Young Adult’, é uma obra para todas as idades, para todas as pessoas.

A história se passa no começo do século XX, em uma Nova Iorque cheia de vozes e povos diferentes, começando a tentar se entender. Nessa cacofonia, surgem duas criaturas, Chava, uma golem construída para ser a noiva perfeita, e Ahmad, um gênio – sim, daqueles que moram em lâmpadas e que teoricamente realizariam desejos. Apesar de aparentemente os dois terem papeis bem claros no mundo, as circunstâncias de suas vidas acabam sendo muito diferentes do previsto e os fazem ter trajetórias paralelas em uma cidade que fala muitas línguas e reza para muitos deuses.

São duas criaturas completamente deslocadas, que não entendem o que acontece ao seu redor, que sentem que não pertencem a esse mundo – ou a qualquer outro. A construção deles, da identidade e da história deles, nos traz surpresas a cada passo, até o momento em que os dois inevitavelmente se esbarram e uma nova trama acaba surgindo. É um livro sobre memória, identidade, pertencimento e poder, sobre o que faz de nós aquilo que somos e o que precisamos deixar de lado para nos construir.

Todos os personagens são construídos com cuidado – até demais, em um excesso de minúcias que torna a primeira parte do livro um pouco arrastada. Aliás, se The Golem and the Jinni tem alguma falha mais grave é na irregularidade do seu ritmo. Se a história de Chava e Ahmad é narrada detalhadamente no começo, entre idas e vindas, flashbacks e memórias não lembradas, muito mais a descrição de um cotidiano do que o desenrolar de uma trama, o terço final é apressado, como se a história subitamente precisasse ser terminada.

Porém, a forma como ela consegue entrelaçar as tramas e os personagens, transformando a Nova Iorque real em algo ainda mais extraordinário, ajuda a compensar essa diferença no ritmo. Outro ponto alto também é a sutileza com que Wecker contrasta duas culturas, afinal golens são crias de rabinos e portanto tem origens judaicas, enquanto gênios vivem nas lendas e mitos das areias da Arábia mesmo antes do Islão. Os personagens, principais e secundários, estão imersos nessas sociedades enquanto confrontam-se com a nova realidade de imigrantes nos EUA, de forma sensível, sincera e verossímil. Em um momento como o atual, torna-se uma leitura ainda mais essencial.

As motivações dos antagonistas às vezes quebra um pouco a sensação de realidade que os personagens tem, mas isso não estraga a leitura recomendadíssima dessa história que se sustenta sozinha no meio do mar de sagas gigantescas – mesmo que a autora tenha confirmado recentemente que haverá mais uma história nesse mesmo universo.

The golem and the Jinni

Helene Wecker

Harper

2013

512 páginas

(Edição brasileira: Golem e o gênio, Darkside, 2015)

Voltando e despachando livros!

Oi, gente.

Prometo que vou tentar, semana que vem, postar sobre a experiência dos lançamentos e dos shows do Fernando Ribeiro e dos Moonspell no Brasil. Tá difícil processar as emoções todas que vivi nessa semana. Melhores férias da minha vida. Mesmo tendo trabalhado pra caralho.

Mas chegando em casa, fomos fazer um pequeno levantamento de estoque e descobrimos que meus coelhos estão sumindo!

Sim, isso mesmo.

Recebemos um pedido grande de ‘Anacrônicas – contos mágicos e trágicos’ na volta da turnê de lançamento de Purgatorial e descobrimos algo que me fez ficar (ainda) mais feliz.  A tiragem inicial foi de 1.000 exemplares. Nesse levantamento que fizemos aqui vimos que, entre vendidos e distribuídos, já se foram mais de 650!

Então, tudo dando muito certo – estou otimista e quero comprar uma passagem pra Europa ano que vem, lembrem disso – até o fim do ano essa tiragem esgota.

Quem quiser autografado, na minha mão, por R$26,50 (frete incluso) e biscoito, só falar no inbox.

Não me responsabilizo pelo estado do biscoito ao chegar na sua residência… ou dos coelhos, por falar nisso.

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Livros, livros, livros! Conheçam Anacrônicas – contos mágicos e trágicos

Dia mundial dos livros!

(Segundo diversos posts nas redes sociais! Se não for, tudo bem, aqui em casa todo dia é dia de livro!)

Cinco anos se passaram, muitos contos foram publicados e finalmente resolvei juntar meus continhos novos (além de antigos favoritos) em um novo volume de Anacrônicas. Ao contrário do primeiro, esse vem apenas com contos de fantasia. Mas também tem uma ilustração por conto, feitas – assim como a capa – pelo meu marido e editor (sim, a Aquário é nossa!) Estevão Ribeiro.

Você pode comprar direto comigo – e levar autografado – ou esperar um pouco, pois o livro chega nas livrarias em maio.

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A lista de contos escolhidos:

O mapa para a Terra das Fadas

Anacrônicas, 2009

Campeonato de beijar sapos

Crônicas da Fantasia, 2012

Deus embaralha, o Destino corta

Anacrônicas, 2009

Queda e paz

A Casa do Escudo Azul

Anacrônicas, 2009

A morte do Temerário

Espelhos Irreais, 2009

Lenda do Deserto

Anacrônicas, 2009

Mudanças

A princesa de toda a dor

Anacrônicas, 2009

A vila na areia

Como nos tornamos fogo

Anacrônicas, 2009

Viagem à terra das ilusões perdidas

Anacrônicas, 2009

Maria e a fada

Imaginários 3, 2010

O Ladrão-de-Sonhos

Fábrica dos Sonhos, 2014

Sono de beleza

Quotidianos, 2014

O eremita

Anacrônicas, 2009

Carta a monsenhor

Paradigmas 2, 2009

O longo caminho de volta

Cidades Indizíveis, 2011

Vida na estante

Anacrônicas, 2009

A menina do Val de Grifos

Bestiário, 2012

Os olhos de Joana

Anacrônicas, 2009

O ensurdecedor silêncio dos deuses

Arte e Letra, 2014

“É tarde!”

Anacrônicas, 2009

A dama de Shalott

Anacrônicas, 2009

Coloquei no Pinterest algumas fotos e ilustrações do livro. 🙂

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Olá, Ariel

Foi uma semana pesada e hoje a noite, depois de colocar Miguel e seu braço quebrado na cama, resolvi escrever um pouco. Abri um documento e voltei a uma tentativa de FC space opera mais focada na interação entre personagens em um cenário de guerra (sim, estou jogando RPGs da Bioware).

E essa é uma espécie de fanfic não (muito) declarada. Tô botando tudo o que eu gosto do meu jeito, desenvolvendo propostas e personagens alternativos, e reaproveitando alguns. Um deles foi Ariel, que foi criado para um play by email de “Jornada nas Estrelas”. Naquela cenário, ela era darkovana e nascida emmasca, ou seja, neutra. De acordo com o universo ficcional da Marion Zimmer Bradley, um emmasca não tem órgãos sexuais internos nem externos, sua aparência é andrógina e  geralmente não se identificam como ‘homens’ ou ‘mulheres’, mas como algo distinto. (Há outro tipo de emmasca, que são pessoas neutralizadas por meio de uma operação, mas aí é caso completamente diferente).

Muita coisa mudou no cenário que eu criei, mas a essência do que Ariel é, não. Nessa versão, Ariel nasceu sem características sexuais externas e sem órgãos sexuais internos – não tem útero, não tem testículos, não tem canal vaginal, não tem pênis, não tem clitóris. Vem de um planeta que foi colonizado por humanos, mas que era habitado por uma raça de seres com sexo biológico flutuante (eles tem a capacidade de serem macho ou fêmea, de acordo com a sua vontade). Houve casos raros de miscigenação que geraram descendência fértil e nos mil anos que se passaram, surgiram pessoas como Ariel.

(Yup, bastante parecido com Darkover, I know. Not the point.)

Agora parei na parte emocional de Ariel, que sofre preconceito da sociedade em que está, mas é uma pessoa feliz e bem resolvida. Ela sabe o que ela É e se aceita assim, principalmente porque seus pais a amam e a respeitam, e a apoiaram contra o mundo. Se veste como sente vontade no dia – de vez em quando se submete às convenções do seu mundo e se comporta como ‘filha’ de uma grande casa, que foi o rótulo que os nobres do planeta deram. Fico me perguntando sobre a parte do envolvimento romântico. Como funcionaria para Ariel?

Até o momento em que começa a nossa história, isso nunca foi uma questão para ele. Acabou de completar seu treinamento, ou seja, passou pelo último rito de passagem para a vida adulta. Sempre esteve cercado de gente próxima e querida, e por isso é uma pessoa doce, ativa e afetuosa. Porém, nunca teve um ‘interesse especial’ por ninguém, aquela vontade de compartilhar a vida (e as contas, e os gatos… hum, essa sou eu, pera). Mas Ariel está saindo da zona de conforto e me levando junto.

Sim, sempre pensei em meus personagens como seres sexuais – mesmo os homens-morcego e as onças que falam. Já tenho algumas diretrizes para Ariel. Não acho que ser assexual elimine a possibilidade de uma relação romântica com alguém. Não a pensei como um ser superior, ela não é mais lógica ou menos emotiva. Muito pelo contrário, ele é emotivo, afetuoso, impulsivo, daquelas pessoas que não tem dificuldade em se relacionar com alguém.

E está numa sociedade em que existe o conceito de amor romântico, como a nossa também tem.

Tentando definir como seria para ela, acho que talvez seja mais raro sentir esse ‘amor romântico’, já que boa parte da necessidade de afeto e carinho pode ser suprida seus amigos e familiares. Mas vai que uma hora surja alguém especial, que vai fazer mais falta, que quando entrar numa sala vai lhe fazer faltar o ar, cuja ausência vai causar até dor. (Não acho que nada disso seja relacionado ao sexo). Talvez não tenha uma restrição em relação à pessoa – quando esse sentimento chegar, pode ser por um homem cis, uma mulher trans ou um outro neutro como ela.

E isso deixa uma outra questão: como essa pessoa irá reagir? Vai depender, claro, de quem seja. Mas se pensarmos bem, não é assim com todo mundo?

Os cinco lançamentos brasileiros de 2014 que o fã de literatura fantástica precisa conhecer!

Ok. Vamos sair do óbvio?

Quem acompanha literatura fantástica no Brasil sabe que Raphael Draccon, Carolina Munhoz e Leonel Caldela tem livros novos lançados agora… E que lançamentos de Eduardo Spohr e André Vianco só ano que vem.

Isso significa que não teve outros lançamentos nacionais em 2014?

Muito pelo contrário, é aí que você se engana. Teve tanta coisa bacana aparecendo por aí que ficou até difícil acompanhar. Mas tem cinco que você não pode deixar de ler!

A torre acima do véu, de Roberta Spindler

Uma distopia juvenil, passada na América Latina, com personagens fortes e uma trama cativante. Miguel (meu filho de doze anos) pegou para ler pela capa agora no começo das férias e não largou. A Roberta é um dos nomes mais promissores da nossa literatura fantástica, vale a pena acompanhar.

Exorcismo, amores e uma dose de blues, de Eric Novello

Juro que Fantasia urbana é uma coisa complicada de escrever. Você pode pensar que não, afinal geralmente é alguém caçando monstros em um ambiente sombrio – e falando assim, é fácil, né? Mas como sair do lugar comum, como ser original, como trazer algo novo? Fazendo o que o Eric fez: com um universo bem construído e pensado, personagens cativantes, e uma trama que leva você pela mão a lugares estranhos e fascinantes enquanto escuta blues. É um dos dois melhores livros do ano, mas disso eu já sabia, pois o Eric é um dos meus escritores brasileiros preferidos.

A Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison, de Enéias Tavares

O outro melhor livro do ano é a estreia do escritor e professor gaúcho que ganhou o concurso da Fantasy. É o livro mais corajoso da literatura fantástica nos últimos anos, fazendo algo que muitos tentam (usar os clássicos da nossa literatura), mas que poucos conseguem fazer com a classe e a categoria do Enéias. Ele foge do óbvio tanto nos personagens quanto na forma narrativa. Outro autor para acompanhar com muita atenção!

As aventuras do vampiro de Palmares, de Gerson Lodi-Ribeiro

O Gerson é um dos mais importantes autores da ficção fantástica nacional e um dos mais produtivos. O vampiro de Palmares é um personagem com uma longa história, vem sendo publicado aqui e ali há anos e faltava uma coleção. O autor usa a mitologia e a história da América Latina como base para as desventuras de um ser imortal. Quem ainda não conhece a obra do Gerson, tem uma excelente oportunidade.

Flores Mortais, de Giulia Moon

A Giu (como seus fãs carinhosamente a chamam) é a grande dama dos livros vampirescos no Brasil, merecidamente. A escrita dela é delicada mesmo quando narra acontecimentos cheios de sangue e violência, e há um humor bastante peculiar nos seus escritos. Esse seu livro de contos traz várias histórias sombrias, inclusive no universo da Kaori, sua personagem mais conhecida. Assim como o livro do Gerson, uma boa porta de entrada para a obra da Giulia!

A literatura fantástica brasileira hoje em dia… quanta diferença.

Só um pensamento que me veio hoje à cabeça, por causa do Dia da Consciência Negra.

Estou no meio do que internamente se chama ‘fandom’, mas que na verdade é o campo que engloba os produtores de literatura fantástica nacional desde 2004. Ou seja, dez anos nessa vida. E as coisas vem mudando.

Vejo a nossa produção de literatura fantástica brasileira hoje e sinto orgulho de ser parte do processo que a transformou do clubinho dos homens heteros brancos do sul sudeste (que eventualmente deixavam uma das meninas brincar com eles) no polo de diversidade que é hoje.

As pessoas agora se preocupam com diversidade e representatividade. Em fazer com que vozes diversas sejam ouvidas. Em questionar quando comportamentos não inclusivos se apresentam. Temos escritores negros, temos escritoras, pessoas de todo o país, pessoas de todos os gêneros, preferências sexuais, identidades sexuais, cores e sabores. Todo mundo produzindo e lutando. E de vez em quando, geramos discussões e debates sobre isso. Como os posts do Jim Anotsu e do Lucas Rocha no Nem Um Pouco Épico.

Tem um longo caminho pela frente. Sim, temos problemas ainda, e a ‘heteronormatividade branca machista’ ainda se apresenta. Mas tá muito melhor, e acho que tive uma pontinha de culpa nisso, junto com muita gente boa. Estamos no bom caminho, meu povo. Não podemos desistir.

Eu era uma fanfiqueira juvenil

Fanfics estão na moda.

E eu, como sempre fui meio hipster, era fanfiqueira antes de ser cool.

Escrevi um monte, mas muitas mesmo. Algumas se perderam em atualizações de hd, mudanças e simplesmente surtos de bom-senso de minha parte. Muitas das que sobraram não fazem mais muito sentido, pois eram ligadas aos jogos de RPG por email dos quais eu participava.

Para azar de vocês, tem algumas que eu acho que ainda podem ser divididas com o mundo.

Vou colocá-las lá no wattpad, sempre aos domingos.

Hoje, teve uma pequena de Hellblazer e uma maior, de Star Trek.

Espero que curtam! 😉

(PS: “Fé cega, faca amolada” e “Ernst Amedée Barthelemy Mouchez, espião de sua Majestade Imperial” estão sendo atualizados semanalmente! Aproveitem! É claro que se você me seguir por lá, fica mais fácil de saber das novidades)