Presentes e começos

(Um conto de  Ano Novo passado em um dos cenários do “Atlas Ageográfico”)lori.jpg

O sol estava quase se pondo e as comemorações do Último Dia do Ciclo iriam começar em breve. Lori corria o mais rápido que as patas curtas permitiam, ansioso. Tinha juntado conchas por semanas, buscando as mais bonitas e especiais no fundo do rio, e finalmente iria conseguir comprar o presente ideal para Karia.

Se chegasse a tempo no artesão.

O problema todo era esse. O rio onde ele trabalhava ficava do outro lado da cidade. Tinha pedido ao seu supervisor para que o liberasse mais cedo, só que o manati mal o olhou antes de responder negativamente. O lado bom é que na última hora de trabalho tinha encontrado a concha mais bonita, de um tom rosado maravilhoso, que certamente iria agradar o artesão a quem encomendara o colar.

E por isso, o pequeno lontra corria desesperado pelas vielas estreitas do bairro dos roedores de Shangri-lá. Ia conseguir. Dava tempo. Waiko, o artesão do povo-macaco, iria esperar até o sol sumir completamente.

Virou uma esquina sem prestar muita atenção e quase morreu de sustos. Uma guarda e um soldado do povo-morcego estavam no meio da rua, encarando-se. Bem por onde ele deveria passar para chegar ao mercado. Não havia ninguém por perto, pois os pequenos da Cidade das Feras sabiam muito bem que não deviam se meter na briga das criaturas maiores. Lori se encolheu e olhou ao seu redor, procurando onde se esconder, uma porta, uma janela, um buraco que ele pudesse alcançar sem chamar a atenção dos dois.

O sol ficava cada vez mais avermelhado e ele podia sentir os olhos queimando de tristeza. Respirou fundo. Iria conseguir. Aquele era o dia ideal para entregar um presente para a sua parceira, que iria lhe dar um herdeiro em breve. Ele ia chegar a tempo. Os morcegos iam sair dali, ele só precisava ter paciência. E esperar.

Tão concentrado estava que se sobressaltou quando ouviu a voz do morcego mais alto.

– Então, você está de serviço de guarda esta noite, Maya.

– Sim – a jovem respondeu ao pai com raiva. Lori sabia quem eles eram, pois eram poucos os do povo-morcego em Shangri-la e só uma chamava-se Maya: a filha de Íbis, o capitão da Guarda Externa. Lori começou a achar que talvez não conseguisse chegar no mercado.

– Ouvi dizer que você não está mais morando na Casa da Guarda… – Lori sempre ouviu os outros habitantes falarem de Íbis em sussurros, com medo e admiração. Ele nunca tinha entendido o porquê. Naquele momento, entendeu o motivo de o temerem, pois quis se encolher e chorar ao ouvir o tom de voz do homem-morcego.

– Não, não estou…

Ela foi interrompida pelo pai.

– Você está morando com o tal minotauro, Maya? É isso mesmo? – Lori viu que até Maya estremeceu com o tom de voz, mesmo mantendo a cabeça erguida e firme.

– Não, pai. Estou morando com Jaciara… que mora perto dele.

Íbis jogou as asas para trás, o deslocamento de ar quase derrubando Lori.

– Jaciara? A onça capitã da Patrulha? Ela era amiga de sua mãe! Como ela pode…

– Por isso mesmo, pai! – Íbis tinha mantido o tom de voz, mas Maya perdera a paciência e passara a gritar. – Ela era amiga da minha mãe! Agora é minha amiga! Ela se importa comigo e não com que os outros vão pensar, com os costumes ou as tradições! Agora, me deixe! O sol está se pondo e eu preciso ir.

Sem olhar de novo para o soldado, a guarda bateu as longas asas negras e saiu voando. Lori tremia, encolhido em um canto.

– Eu… só queria desejar um bom Novo Ciclo e perguntar se podíamos ver os fogos juntos nas muralhas – o homem-morcego falou, os olhos fixos na figura que se afastava. Suspirou. – Você pode sair daí, lontra.

Demorou alguns segundos para que Lori entendesse que Íbis estava falando com ele. Saiu devagar do cantinho onde tinha ficado.

– Senhorcapitãosenhor, desculpemaseuestavaindoparaomercado, minhacompanheiraestáesperandonossoprimeirofilhote… oartesãoseparouumcolarparamimespecial, sabe, eeujunteiasconchasmaisbonitasparatrocar, masomercadovaifecharnopordosoleagoranãodámaistempo…

Quando ele parou para respirar, o homem-morcego o encarou por alguns segundos, piscando os olhos miúdos e escuros, antes de, com um movimento rápido da pata esquerda, o agarrar e sair voando.

Lori deu um grito agudo e fechou os olhos, apavorado ao ver o chão se afastando.

– Senhorcapitãosenhordesculpe, eunãoqueria, nãocontoparaninguém… senhorporfavor, minhaparceira…

– Por favor, criatura, pare de guinchar e abra os olhos. Estamos no mercado. Creio que esteja procurando por Waiko, não?

Para a imensa surpresa de Lori, estavam na frente da tenda do artesão, que os olhava intrigados, a cabeça inclinada.

– Capitão Íbis… e Lori. Bom fim de tarde, eu já estava fechando para as celebrações.

– Imaginei. Mas o que o pequeno tem a resolver será rápido. O presente dele está separado, creio?

Sem entender nada, Waiko assentiu e pegou um pequeno embrulho.

– Eu iria levá-lo a sua toca, Lori, se você não chegasse a tempo. Mas iria estragar a surpresa… – e sorriu quando o lontra, quase sem acreditar, pegou o embrulho com a boca. Ficando em pé nas patas traseiras, Lori buscou a pequena bolsa com as conchas.

– O que você está fazendo? – Íbis perguntou.

Tentou responder, sem conseguir por causa do embrulho. Ficou nervoso e a bolsa não abria. O homem-morcego fez um sinal para Waiko, que gentilmente colocou sua pata imensa em cima das patas miudinhas do lontra.

– O capitão vai pagar para você, Lori…

– Mas… Mas… – Com o susto, Lori deixou o embrulho cair. Estava com a bolsa nas mãos e ficou olhando do macaco para o morcego, que sorriu, mostrando os dentes afiados. Mais cedo, Lori teria ficado apavorado. Naquele momento, sorriu de volta.

– Eu tinha dado um adiantamento para Waiko para vir pegar um presente hoje… mas não vou precisar. Guarde as conchas para depois, quem sabe para trocar por um presente para sua herdeira. Agora – pegou o embrulho e o entregou ao pequeno atônito. – Vá.

Lori obedeceu, coraçãozinho aos pulos, mas não tinha se afastado cinco metros quando voltou, abriu a bolsa e tirou a última concha, a mais bonita, e a colocou na mão de Íbis.

– Senhorcapitãosenhor… obrigado. Fique com a concha mais bonita. Quem sabe… a sua herdeira goste.

Antes que Íbis ou Waiko respondessem, saiu correndo, ansioso para estar na segurança da sua toca. Naquele momento, o sol passou por trás dos penhascos que cercavam a cidade, dando início às celebrações.

 

*

 

Mais tarde naquela noite, Lori prendeu a delicada gargantilha de nácar e madrepérola no pescoço de Karia, que estava deitada confortavelmente em um monte de palha limpa e macia. Faltava pouco para o nascimento.

– É realmente lindo, Lori. Obrigada. Se for uma fêmea, irei guardá-lo para que ela o use…

– Ah, vai ser sim, com certeza – o lontra esfregou seu focinho no dela, feliz com seu manto quentinho, para ser usado no seu trajeto até o rio e de volta para casa. – O capitão Íbis me disse.

Karia riu.

– Um homem-morcego falou com você e adivinhou que nosso filhote será fêmea? Não sei o que é mais absurdo…

Lori afastou-se até o buraco de entrada. Logo o céu iria se iluminar com os clarões silenciosos oferecidos pelos feiticeiros do palácio real de Shangri-lá. Olhou para o canto da muralha que era visível de seu quarteirão e viu a silhueta de uma jovem do povo-morcego contra a luz do luar. Parecia com Maya, mas na escuridão e a distância podia não ser.

Porém, quando viu uma sombra maior chegar e aterrissar ao lado dela, estendendo a mão, teve certeza de que era ela mesmo. E para não se intrometer duas vezes no mesmo dia na vida deles, entrou para ficar com Karia e a respondeu.

– Vamos ver daqui a uns dias se vai ser mesmo absurdo…

E no fundo do seu pequeno e assustadiço coração de lontra, desejou que o Novo Ciclo que iria começar reaproximasse o Capitão e a sua filha.

 

Voltando e despachando livros!

Oi, gente.

Prometo que vou tentar, semana que vem, postar sobre a experiência dos lançamentos e dos shows do Fernando Ribeiro e dos Moonspell no Brasil. Tá difícil processar as emoções todas que vivi nessa semana. Melhores férias da minha vida. Mesmo tendo trabalhado pra caralho.

Mas chegando em casa, fomos fazer um pequeno levantamento de estoque e descobrimos que meus coelhos estão sumindo!

Sim, isso mesmo.

Recebemos um pedido grande de ‘Anacrônicas – contos mágicos e trágicos’ na volta da turnê de lançamento de Purgatorial e descobrimos algo que me fez ficar (ainda) mais feliz.  A tiragem inicial foi de 1.000 exemplares. Nesse levantamento que fizemos aqui vimos que, entre vendidos e distribuídos, já se foram mais de 650!

Então, tudo dando muito certo – estou otimista e quero comprar uma passagem pra Europa ano que vem, lembrem disso – até o fim do ano essa tiragem esgota.

Quem quiser autografado, na minha mão, por R$26,50 (frete incluso) e biscoito, só falar no inbox.

Não me responsabilizo pelo estado do biscoito ao chegar na sua residência… ou dos coelhos, por falar nisso.

deuseosdados

“O enterro da última quimera” – ebook com conto inédito passado no universo do Atlas.

Muita gente tem estado curiosa sobre o “Atlas”, meu romance-em-processo-de-escrita, que já passou da metade e fala sobre um deserto e os loucos seres que precisam cruzá-lo (contém um cavalo sem nome).

Na aba de Projetos aqui do blog, vocês podem encontrar uma lista dos contos que se passam nesse universo. O mais recente é “O enterro da última quimera”, que fala sobre o que acontece depois da batalha final.

Íbis - que não aparece nesse conto - na visão do Estevão Ribeiro.

Íbis – que não aparece nesse conto – na visão do Estevão Ribeiro.

Coloquei na Amazon esse conto bem curto para aproveitar o concurso #Brasilemprosa, apesar de não levar fé numa possível vitória. Porém, o resultado tem sido bem interessante, inclusive para ver como realmente funcionam os rankings de mais vendidos da Amazon.

Oras, o que mais tinha na minha timeline era autor (e editora micro) comemorando “Meu conto é o primeiro lugar de Terror”, “Meu livro é o 3o mais vendido na categoria de Ficção sobre Baratas” e coisas do tipo. Autores (e editoras) com pouquissimo alcance, com poucos comentários e reviews no site… Será que mesmo assim eles vendiam?

Não.

O ranking é construído em cima de um algoritmo um pouco mais complexo, que leva em conta o tempo de publicação e a quanto tempo o exemplar foi vendido. Ou seja, um livro vendido na última hora pode elevar o seu livro para uma posição a frente de outro, com meses de publicação e o triplo de vendas. E quanto menor e menos conhecida a categoria, menos disputada e mais fácil subir. Ou seja, tinha gente falando que era o mais vendido no ranking, mas na verdade era só o exemplar que ele mesmo comprou.

(Isso, claro, me deu a ideia de DIVULGAR não a posição no ranking, mas quantos livros vendi. Em menos de um mês, vendi 34 livros e me mantive sempre entre os 10 primeiros, geralmente entre os 3 primeiros da categoria de Fantasia Urbana. Uau. Dinheiro. Mulheres. Iates. Mulheres. Automóvel. Mulheres. Banquetes. Mulheres.)

Para recompensar o povo que curtiu e tem elogiado, prometi que quanto chegar aos 50 ebooks vendidos, vou lançar um com as histórias do Ladrão-de-Sonhos que vai ficar gratuito nos primeiros dias e sempre que for possível – a Amazon limita os dias de gratuidade das obras.

Onde encontrar ‘Anacrônicas – Contos Mágicos e Trágicos’?

Então…

Ando muito, muito atolada de serviço e este blog acabou ficando meio de lado. É difícil se manter fiel ao bom e velho blog e não cair no canto da sereia da praticidade e da instantaneidade das redes sociais. Dá a impressão de que blogs perderam espaço, pouco se comenta ou acompanha nessas plataformas.

É sempre uma questão de tempo!

É sempre uma questão de tempo!

Mas blogs são muito mais permanentes, as informações muito mais fáceis de encontrar e tem uma universalidade que as redes não tem. Afinal, você não precisa se logar, criar mais uma conta e coisa do tipo para ver um post em um blog.

Vou tentar colocar mais informações aqui, principalmente sobre minhas leituras e trabalhos.

Vamos começar com a pergunta da semana: “Ana, onde posso comprar seu livro?”

– Diretanacronicas2o comigo, via depósito bancário no Banco do Brasil, autografado e com amor. Mande email para anacrisrodrigues@gmail.com

– Direto na Aqualoja, a loja da Aquário, nossa editora. Lá, aceita cartão e outras facilidades.

– Nas lojas da Blooks, no Rio e em São Paulo!

– Na loja física da Arte & Letra, superparceira da Aquário.

-Na Nerdz, a loja da Jambô.

– Na Baratos da Ribeiro, em Botafogo

E online, nas grandes redes

Saraiva 

Cultura

Travessa

Livraria da Folha

Martins Fontes

Comix

Livros, livros, livros! Conheçam Anacrônicas – contos mágicos e trágicos

Dia mundial dos livros!

(Segundo diversos posts nas redes sociais! Se não for, tudo bem, aqui em casa todo dia é dia de livro!)

Cinco anos se passaram, muitos contos foram publicados e finalmente resolvei juntar meus continhos novos (além de antigos favoritos) em um novo volume de Anacrônicas. Ao contrário do primeiro, esse vem apenas com contos de fantasia. Mas também tem uma ilustração por conto, feitas – assim como a capa – pelo meu marido e editor (sim, a Aquário é nossa!) Estevão Ribeiro.

Você pode comprar direto comigo – e levar autografado – ou esperar um pouco, pois o livro chega nas livrarias em maio.

anacronicas2

A lista de contos escolhidos:

O mapa para a Terra das Fadas

Anacrônicas, 2009

Campeonato de beijar sapos

Crônicas da Fantasia, 2012

Deus embaralha, o Destino corta

Anacrônicas, 2009

Queda e paz

A Casa do Escudo Azul

Anacrônicas, 2009

A morte do Temerário

Espelhos Irreais, 2009

Lenda do Deserto

Anacrônicas, 2009

Mudanças

A princesa de toda a dor

Anacrônicas, 2009

A vila na areia

Como nos tornamos fogo

Anacrônicas, 2009

Viagem à terra das ilusões perdidas

Anacrônicas, 2009

Maria e a fada

Imaginários 3, 2010

O Ladrão-de-Sonhos

Fábrica dos Sonhos, 2014

Sono de beleza

Quotidianos, 2014

O eremita

Anacrônicas, 2009

Carta a monsenhor

Paradigmas 2, 2009

O longo caminho de volta

Cidades Indizíveis, 2011

Vida na estante

Anacrônicas, 2009

A menina do Val de Grifos

Bestiário, 2012

Os olhos de Joana

Anacrônicas, 2009

O ensurdecedor silêncio dos deuses

Arte e Letra, 2014

“É tarde!”

Anacrônicas, 2009

A dama de Shalott

Anacrônicas, 2009

Coloquei no Pinterest algumas fotos e ilustrações do livro. 🙂

quedaepaz

(Conto) Domingos de sol

Domingos de sol

No meio da rua, onde devia ter asfalto, tem terra. Quando chove, vira lama. Mas nos domingos de sol, vira o Maracanã. Nos barracos, onde deviam haver sonhos, tem realidade. Quando chove, tem goteira. Mas nos domingos de sol, vira concentração.

Morenos, mulatos, negros, infâncias em vários tons, corações que batem no ritmo de uma bola que quica nas calçadas, que passa em poças de água suja, que atravessa as traves feitas com chinelos enterrados no barro. Tem domingos em que chove, chove muito, pedras rolam pela rua, lama invade as casas e a gente some. Olhos espiando por janelas estreitas buscando um sinal, um raio de sol, uma esperança.

Os anos passam, a vida leva uns e deixa outros. Crianças crescem, seus filhos assumem suas posições. Brincam de polícia e bandido de dia, enquanto de noite a brincadeira fica séria. Os tiros se confundem com os rojões que explodem nos dias de jogo. Flamengo e Vasco, Botafogo contra Fluminense. Quando o jogo na tevê acaba, começa o campeonato na rua. Gritos e urros, vitórias e derrotas se misturam a joelhos ralados e sonhos construídos.

Das muitas crianças que vivem seu futebol naquela rua no topo do morro, uma consegue treinar em time grande. Cresce e vive o sonho, canta o hino com a seleção. Toda vez que faz gol, ele chora por dentro. Porque lá no alto do morro, em todo o domingo de sol, a rua continua virando um Maracanã.

 

A cara a tapa. E o traseiro na janela.

Povo bonito, uma dica sincera sobre algo que eu venho sentido faz tempos. Sei que muita gente que me acompanha é escritor, ou quer ser.

Hoje, resolvi dar minha contribuição pro dia internacional da mulher – que é amanhã – colocando no ar uma lista de trabalhos disponíveis online e gratuitamente de nossas escritoras fantásticas. Passei umas duas horas pescando na internet e o resultado está aqui.  Queria ter colocado contos de todas as autoras que citei na lista principal do meu post anterior. Mas foi bem complicado encontrar material de algumas, principalmente porque estava com tempo curto e não podia ficar procurando muito.

Senti falta da profusão de sites para contos  – ou mesmo de uma melhor organização dos blogs e sites pessoais que facilitasse o trabalho de quem tem interessem em encontrar esses trabalhos. Moleza foi encontrar vários contos e trabalhos curtos na Amazon, sempre muito baratos… mas pagos.

Gente, eu sei que a Amazon é um lugar bacana pra tentar ganhar um troco com nossos trabalhos mais curtos. Porém, vocês não podem esquecer de que web é principalmente a nossa vitrine, ainda mais para quem está começando, é indie ou trabalha com pequenas tiragens. Se você não coloca o seu trabalho a disposição das pessoas, como elas vão conhecer tudo o que você é capaz? Mesmo que seu conto lá esteja o mais barato que a Amazon deixa, se a pessoa não sabe quem você é e não tem ideia se gosta ou não do que você escreve, por que ela iria gastar seus tostões com você?

Vocês já pararam para se perguntar como eu, que tenho apenas um livro solo de contos, consegui meu lugar ao sol (que é pequeno, mas é limpinho)? Não foi com as coletâneas, pois acho que das muitas em que participei, só duas ou três devem ter batido os 1000 exemplares vendidos. Foi a minha atuação online, e não só com a ironia e acidez que me é peculiar! Tem um monte de trabalhos meus online por aí (aqui, eu listei uma parte dos que estão fora do blog. Os que estão publicados aqui, tem sua própria categoria – e fica a sugestão dessa organização para quem tem material online!)

Quando eu comecei, todo o escritor novato colocava contos online – em seus blogs, no blog dos outros, onde desse. Hoje, está mas difícil ver esse material para poder conhecer um pouco mais do trabalho de quem começou agora. O pessoal tem preferido colocar em antologias ou jogar na Amazon, mas isso atrapalha a descoberta.

Escritores fantásticos do Brasil, coloquem a cara a tapa e a bunda na janela virtual! Usem as ferramentas que temos – existem várias espalhadas por aí.

O que ando escrevendo – Fé cega, faca amolada

Todo mundo sabe que eu adoro fantasia histórica. E todo mundo já percebeu que ando curtindo fantasia urbana e fazendo experiências com ela.

Uma delas é o projeto ‘Magos x Neo-templários’ (se vocês achavam que eu era ruim para dar títulos a contos, para projetos eu sou pior. Bem pior.). Passado em Niterói, ele acompanha a vida de vários personagens depois de um grande desastre: um mago apóstata explodiu a Catedral de Niterói, causando um aumento da já terrível repressão dos neo-templários aos magos.

Sendo honesta, a inspiração vem, em boa parte, do game ‘Dragon Age II’, que gira em torno da tensão entre o controle da magia e a vontade dos magos de serem livres. Tem um pouco a ver com nosso momento atual, de incertezas, de laicismo x religiosidade, de repressão e condenação, julgamentos e linchamentos em praça pública e grandes veículos de comunicação.

Estou experimentando uma forma nova. Estou começando a desenvolver o projeto num webfolhetim chamado ‘Fé cega, faca amolada’. Cada ‘capítulo’ tem três partes e acompanha um determinado personagem. Estou publicando os trechos no wattpad, para testar essa plataforma. A cada capítulo publicado, vou colocar um post com ele completo aqui no blog na semana seguinte, para quem não quiser fazer mais uma conta poder comentar.

Em termos de escrita, estou tentando algumas coisas novas nesse texto. Uma delas é evitar explicar demais o universo sem necessidade, dando mais enfase à história em si e destacando os personagens e suas interações. Aliás, esse é um outro aspecto. Eu geralmente trabalho com poucas linhas narrativas e poucos personagens. Nesse, já estou com seis personagens que terão linhas narrativas importantes, além dos secundários.

Além de ‘Fé cega, faca amolada’, estou pensando em outras coisas a serem desenvolvidas. Histórias que contem o antes do universo e dos personagens, livros e notícias fictícias do universo, contas em redes sociais que ajudem a desenvolver a história. O céu é o limite.

Acompanhem então, toda a terça-feira um novo trecho no wattpad. E a cada três, um novo capítulo publicado aqui.

O que vem por aí – ‘Venezia em chamas’

*Espana*

*Tira teia de aranha*

*Coloca as cadeiras no lugar*

Ok. Estou sumida por alguns motivos. Trabalhando muito, escrevendo bem, redes sociais acabam sendo mais dinâmicas… e tem a minha dose de Dragon Age, né.

Mas não estou parada.

Tem mais uma coletânea saindo com um conto meu. E mais um conto ‘finisterriano’, dessa vez protagonizado pelo cronista que tem papel de destaque em Finisterra: Rui de Pina.

Assim como Olivier de La Marche, que aparece no ‘O primeiro dia de primavera’, Rui é um personagem histórico que sofreu um twist nas minhas mãos. Trabalhar com cronistas é bem interessante, falando como a historiadora que também sou. Mesmo quando escrevem ‘Memórias’ (caso do La Marche), eles pouco aparecem, sendo mais compiladores de fatos antigos ou testemunhas dos fatos contemporâneos do que personagens. Isso, claro, atrapalha o pesquisador, mas cria ótimas brechas para o escritor.

E foi nessas brechas que criei tanto o La Marche (servidor fiel, vindo da pequena nobreza, com um sentido de dever quase fatalista) quanto o Rui de Pina (um bom profissional, que gosta de refletir sobre o seu trabalho, mas que também é ambicioso e quer melhorar de vida) que vocês veem nos contos desse universo ficcional.

Fica para vocês um trecho do começo de ‘Venezia em chamas’, um diálogo entre Rui e seu pupilo, Pero (Vaz de Caminha, aquele).

Gostou? Quer ler mais desse conto clockpunk?

A Tarja está fazendo uma bela promoção de pré-venda. Não perca essa oportunidade!

****

– O que tem de tão especial em Venezia?

O sorriso do cronista foi tolerante, algo raro no seu relacionamento com o aprendiz.

– Muitas coisas, Pero. É uma das cidades mais estranhas que jamais conheci. Não é como Olissipona, Lutécia, Dijon ou Londres. Foi construída no meio de um lago, mas não como ilha. Suas construções emergem da água. Dizem que tritões construíram Venezia muitos séculos atrás, como um entreposto comercial do povo do Mar Interno conosco, humanos. Porém, se assim foi, as criaturas deixaram a cidade faz muitos e muitos anos, pois não há memória desse tempo.

– Não há ruas?

– Não há ruas, nem becos, nem vielas. Há pequenos braços de água salgada que separam edifícios e quadras e pontes ligando-os. Entre alguns edifícios, há pontes para que as pessoas atravessem, mas não é sempre que isso acontece.

Pero ficou em silêncio, tentando absorver todas as novidades que seu mestre lhe passava.

– Deve ser um lugar fascinante…

– E é. Sua configuração tão especial fez com que uma atividade muito distinta ali surgisse. Primeiro, que naquela cidade, a magia é proibida e muito malvista por todos. Chamar alguém de mago ou algo de mágico é uma das maiores ofensas. E por isso, muitas das soluções que em outras terras se dão com o uso da magia, lá se fazem com o que chamam de Mecânica. Constroem máquinas que imprimem livros e tecem tapetes, além dos mecanismos que se usam em festejos, pequenos autômatos que tocam instrumentos e dançam.

– Motivo estranho para tanta confusão e intriga.

Rui fechou a cara, contrariado. O garoto estava indo tão bem e de repente, falava uma sandice daquelas.

– Pero Vaz de Caminha, será que não pensa antes de falar? Claro está que não foi por autômatos simples ou por máquinas de tecer tapetes. O que interessa a todos no Continente é o que está por trás disso, o conhecimento, o saber construir essas coisas. E mais importante, interessa impedir que os que podem nos prejudicar tenham essas informações.

Adeus às armas

Gripe, depois de uma chuva. Passei o dia em casa, enrolada na coberta. Quando enjoei de jogar Dragon Age II (e fica aquela dúvida, quem é mais fofo/gato, Alistair, Fenrir ou Anders), vim para o pc e tentei trabalhar. Porém, como estava espirrando muito, o copi não saia de jeito nenhum.

Resolvi fazer algo adiado faz pelo menos um ano e arrumei minhas pastas. Ainda não estão do jeito que eu queria, mas já estou me achando melhor… Nisso, vi o seguinte:

– Minha pasta de contos publicados conta com 26 subpastas. Uma tem os 21 contos de AnaCrônicas. Mas em cada uma das outra tem um conto já publicado em fanzines, ebooks ou coletâneas profissionais no Brasil (e suas múltiplas versões até chegar a versão final… Procês terem ideia, a subpasta ‘Anta das Virgens’ tem 13 documentos)Image

No prelo, tenho mais 5 contos a serem publicados nos próximos 12 meses. E inéditos/prontos, mais 7 que só precisariam de uma polida para ficarem no ponto. Isso, sem falar das flashfictions (em torno de 70) e dos contos que entraram no 2o volume do ‘AnaCrônicas’.

Minha carreira começou mesmo em 2006, com uma publicação na Scarium (teve antes 2 publicações online na SciPulp, mas considero-as laboratório para tudo que veio depois). Em 8 anos, 1 antologia de 21 contos e 30 contos espalhados em várias editoras… é, acho que já cheguei em algum lugar.

Mas quando a gente chega em algum lugar, é hora de respirar, ajeitar a mochila nos ombros e ir para um lugar novo. E é por isso que esses 5 que estão para sair serão os últimos por um tempo.

Agora, é chegada a hora de escalar aquela cordilheira escarpada e perigosa chamada ‘romance’…