Presentes e começos

(Um conto de  Ano Novo passado em um dos cenários do “Atlas Ageográfico”)lori.jpg

O sol estava quase se pondo e as comemorações do Último Dia do Ciclo iriam começar em breve. Lori corria o mais rápido que as patas curtas permitiam, ansioso. Tinha juntado conchas por semanas, buscando as mais bonitas e especiais no fundo do rio, e finalmente iria conseguir comprar o presente ideal para Karia.

Se chegasse a tempo no artesão.

O problema todo era esse. O rio onde ele trabalhava ficava do outro lado da cidade. Tinha pedido ao seu supervisor para que o liberasse mais cedo, só que o manati mal o olhou antes de responder negativamente. O lado bom é que na última hora de trabalho tinha encontrado a concha mais bonita, de um tom rosado maravilhoso, que certamente iria agradar o artesão a quem encomendara o colar.

E por isso, o pequeno lontra corria desesperado pelas vielas estreitas do bairro dos roedores de Shangri-lá. Ia conseguir. Dava tempo. Waiko, o artesão do povo-macaco, iria esperar até o sol sumir completamente.

Virou uma esquina sem prestar muita atenção e quase morreu de sustos. Uma guarda e um soldado do povo-morcego estavam no meio da rua, encarando-se. Bem por onde ele deveria passar para chegar ao mercado. Não havia ninguém por perto, pois os pequenos da Cidade das Feras sabiam muito bem que não deviam se meter na briga das criaturas maiores. Lori se encolheu e olhou ao seu redor, procurando onde se esconder, uma porta, uma janela, um buraco que ele pudesse alcançar sem chamar a atenção dos dois.

O sol ficava cada vez mais avermelhado e ele podia sentir os olhos queimando de tristeza. Respirou fundo. Iria conseguir. Aquele era o dia ideal para entregar um presente para a sua parceira, que iria lhe dar um herdeiro em breve. Ele ia chegar a tempo. Os morcegos iam sair dali, ele só precisava ter paciência. E esperar.

Tão concentrado estava que se sobressaltou quando ouviu a voz do morcego mais alto.

– Então, você está de serviço de guarda esta noite, Maya.

– Sim – a jovem respondeu ao pai com raiva. Lori sabia quem eles eram, pois eram poucos os do povo-morcego em Shangri-la e só uma chamava-se Maya: a filha de Íbis, o capitão da Guarda Externa. Lori começou a achar que talvez não conseguisse chegar no mercado.

– Ouvi dizer que você não está mais morando na Casa da Guarda… – Lori sempre ouviu os outros habitantes falarem de Íbis em sussurros, com medo e admiração. Ele nunca tinha entendido o porquê. Naquele momento, entendeu o motivo de o temerem, pois quis se encolher e chorar ao ouvir o tom de voz do homem-morcego.

– Não, não estou…

Ela foi interrompida pelo pai.

– Você está morando com o tal minotauro, Maya? É isso mesmo? – Lori viu que até Maya estremeceu com o tom de voz, mesmo mantendo a cabeça erguida e firme.

– Não, pai. Estou morando com Jaciara… que mora perto dele.

Íbis jogou as asas para trás, o deslocamento de ar quase derrubando Lori.

– Jaciara? A onça capitã da Patrulha? Ela era amiga de sua mãe! Como ela pode…

– Por isso mesmo, pai! – Íbis tinha mantido o tom de voz, mas Maya perdera a paciência e passara a gritar. – Ela era amiga da minha mãe! Agora é minha amiga! Ela se importa comigo e não com que os outros vão pensar, com os costumes ou as tradições! Agora, me deixe! O sol está se pondo e eu preciso ir.

Sem olhar de novo para o soldado, a guarda bateu as longas asas negras e saiu voando. Lori tremia, encolhido em um canto.

– Eu… só queria desejar um bom Novo Ciclo e perguntar se podíamos ver os fogos juntos nas muralhas – o homem-morcego falou, os olhos fixos na figura que se afastava. Suspirou. – Você pode sair daí, lontra.

Demorou alguns segundos para que Lori entendesse que Íbis estava falando com ele. Saiu devagar do cantinho onde tinha ficado.

– Senhorcapitãosenhor, desculpemaseuestavaindoparaomercado, minhacompanheiraestáesperandonossoprimeirofilhote… oartesãoseparouumcolarparamimespecial, sabe, eeujunteiasconchasmaisbonitasparatrocar, masomercadovaifecharnopordosoleagoranãodámaistempo…

Quando ele parou para respirar, o homem-morcego o encarou por alguns segundos, piscando os olhos miúdos e escuros, antes de, com um movimento rápido da pata esquerda, o agarrar e sair voando.

Lori deu um grito agudo e fechou os olhos, apavorado ao ver o chão se afastando.

– Senhorcapitãosenhordesculpe, eunãoqueria, nãocontoparaninguém… senhorporfavor, minhaparceira…

– Por favor, criatura, pare de guinchar e abra os olhos. Estamos no mercado. Creio que esteja procurando por Waiko, não?

Para a imensa surpresa de Lori, estavam na frente da tenda do artesão, que os olhava intrigados, a cabeça inclinada.

– Capitão Íbis… e Lori. Bom fim de tarde, eu já estava fechando para as celebrações.

– Imaginei. Mas o que o pequeno tem a resolver será rápido. O presente dele está separado, creio?

Sem entender nada, Waiko assentiu e pegou um pequeno embrulho.

– Eu iria levá-lo a sua toca, Lori, se você não chegasse a tempo. Mas iria estragar a surpresa… – e sorriu quando o lontra, quase sem acreditar, pegou o embrulho com a boca. Ficando em pé nas patas traseiras, Lori buscou a pequena bolsa com as conchas.

– O que você está fazendo? – Íbis perguntou.

Tentou responder, sem conseguir por causa do embrulho. Ficou nervoso e a bolsa não abria. O homem-morcego fez um sinal para Waiko, que gentilmente colocou sua pata imensa em cima das patas miudinhas do lontra.

– O capitão vai pagar para você, Lori…

– Mas… Mas… – Com o susto, Lori deixou o embrulho cair. Estava com a bolsa nas mãos e ficou olhando do macaco para o morcego, que sorriu, mostrando os dentes afiados. Mais cedo, Lori teria ficado apavorado. Naquele momento, sorriu de volta.

– Eu tinha dado um adiantamento para Waiko para vir pegar um presente hoje… mas não vou precisar. Guarde as conchas para depois, quem sabe para trocar por um presente para sua herdeira. Agora – pegou o embrulho e o entregou ao pequeno atônito. – Vá.

Lori obedeceu, coraçãozinho aos pulos, mas não tinha se afastado cinco metros quando voltou, abriu a bolsa e tirou a última concha, a mais bonita, e a colocou na mão de Íbis.

– Senhorcapitãosenhor… obrigado. Fique com a concha mais bonita. Quem sabe… a sua herdeira goste.

Antes que Íbis ou Waiko respondessem, saiu correndo, ansioso para estar na segurança da sua toca. Naquele momento, o sol passou por trás dos penhascos que cercavam a cidade, dando início às celebrações.

 

*

 

Mais tarde naquela noite, Lori prendeu a delicada gargantilha de nácar e madrepérola no pescoço de Karia, que estava deitada confortavelmente em um monte de palha limpa e macia. Faltava pouco para o nascimento.

– É realmente lindo, Lori. Obrigada. Se for uma fêmea, irei guardá-lo para que ela o use…

– Ah, vai ser sim, com certeza – o lontra esfregou seu focinho no dela, feliz com seu manto quentinho, para ser usado no seu trajeto até o rio e de volta para casa. – O capitão Íbis me disse.

Karia riu.

– Um homem-morcego falou com você e adivinhou que nosso filhote será fêmea? Não sei o que é mais absurdo…

Lori afastou-se até o buraco de entrada. Logo o céu iria se iluminar com os clarões silenciosos oferecidos pelos feiticeiros do palácio real de Shangri-lá. Olhou para o canto da muralha que era visível de seu quarteirão e viu a silhueta de uma jovem do povo-morcego contra a luz do luar. Parecia com Maya, mas na escuridão e a distância podia não ser.

Porém, quando viu uma sombra maior chegar e aterrissar ao lado dela, estendendo a mão, teve certeza de que era ela mesmo. E para não se intrometer duas vezes no mesmo dia na vida deles, entrou para ficar com Karia e a respondeu.

– Vamos ver daqui a uns dias se vai ser mesmo absurdo…

E no fundo do seu pequeno e assustadiço coração de lontra, desejou que o Novo Ciclo que iria começar reaproximasse o Capitão e a sua filha.

 

Sobre anacristinarodrigues
Eu trabalho numa biblioteca. Estudo História. Escrevo. Leio. Traduzo. Uma traça que fala, basicamente.

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