[O que estou lendo] Duas lendas se encontram na Terra das oportunidades – resenha de Golem e o gênio, Helene Wecker

Criaturas encantadas são tema importante na literatura fantástica desde sempre. Muitas vezes como antagonistas ou como catalistas de situações, mais raramente como protagonistas. E poucas, muito poucas obras dentro das muitas que li conseguiram captar a estranheza de ser inumano tão bem quanto The Golem and the Jinni de Helene Wecker. Publicado em 2013, foi indicado um dos indicados ao Nebula desse ano. Apesar de alguns o colocarem como ‘Young Adult’, é uma obra para todas as idades, para todas as pessoas.

A história se passa no começo do século XX, em uma Nova Iorque cheia de vozes e povos diferentes, começando a tentar se entender. Nessa cacofonia, surgem duas criaturas, Chava, uma golem construída para ser a noiva perfeita, e Ahmad, um gênio – sim, daqueles que moram em lâmpadas e que teoricamente realizariam desejos. Apesar de aparentemente os dois terem papeis bem claros no mundo, as circunstâncias de suas vidas acabam sendo muito diferentes do previsto e os fazem ter trajetórias paralelas em uma cidade que fala muitas línguas e reza para muitos deuses.

São duas criaturas completamente deslocadas, que não entendem o que acontece ao seu redor, que sentem que não pertencem a esse mundo – ou a qualquer outro. A construção deles, da identidade e da história deles, nos traz surpresas a cada passo, até o momento em que os dois inevitavelmente se esbarram e uma nova trama acaba surgindo. É um livro sobre memória, identidade, pertencimento e poder, sobre o que faz de nós aquilo que somos e o que precisamos deixar de lado para nos construir.

Todos os personagens são construídos com cuidado – até demais, em um excesso de minúcias que torna a primeira parte do livro um pouco arrastada. Aliás, se The Golem and the Jinni tem alguma falha mais grave é na irregularidade do seu ritmo. Se a história de Chava e Ahmad é narrada detalhadamente no começo, entre idas e vindas, flashbacks e memórias não lembradas, muito mais a descrição de um cotidiano do que o desenrolar de uma trama, o terço final é apressado, como se a história subitamente precisasse ser terminada.

Porém, a forma como ela consegue entrelaçar as tramas e os personagens, transformando a Nova Iorque real em algo ainda mais extraordinário, ajuda a compensar essa diferença no ritmo. Outro ponto alto também é a sutileza com que Wecker contrasta duas culturas, afinal golens são crias de rabinos e portanto tem origens judaicas, enquanto gênios vivem nas lendas e mitos das areias da Arábia mesmo antes do Islão. Os personagens, principais e secundários, estão imersos nessas sociedades enquanto confrontam-se com a nova realidade de imigrantes nos EUA, de forma sensível, sincera e verossímil. Em um momento como o atual, torna-se uma leitura ainda mais essencial.

As motivações dos antagonistas às vezes quebra um pouco a sensação de realidade que os personagens tem, mas isso não estraga a leitura recomendadíssima dessa história que se sustenta sozinha no meio do mar de sagas gigantescas – mesmo que a autora tenha confirmado recentemente que haverá mais uma história nesse mesmo universo.

The golem and the Jinni

Helene Wecker

Harper

2013

512 páginas

(Edição brasileira: Golem e o gênio, Darkside, 2015)

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