O conto preferido da minha mãe

Não vou mentir aqui para vocês e dizer que minha mãe é minha maior fã. Ela deve ser a minha pior crítica, a mais dura. E é a leitora mais difícil de agradar. Ela lê de tudo, principalmente agora, com filhas criadas – vai dos clássicos aos eróticos, do religioso à biografia. E não é chegada em contos.

Ou seja, vida difícil a minha.

Vez por outra, eu acerto em cheio e ganho um elogio. Por exemplo, no geral, ela gostou de ‘Anacrônicas – Contos mágicos e trágicos’, embora alguns contos tenham agradado mais. E um se tornou com certeza o preferido dela.

“Por que, mãe?”

“Porque fala do que é ser mãe, da preocupação com os sentimentos de um filho. E tem coelhos.”

Então, para ela (que lê só em papel por enquanto) e para vocês, feliz dia das mães. Que vocês saibam traçar o mapa para onde seus filhos precisam chegar.

(E fica também como homenagem à Phoebe, a cachorrinha que aparece nesse conto, e a mãe dela, minha irmã. A Phoebe nos deixou faz poucas semanas, depois de uma vida longa e produtiva, em que ajudou um coelho a destruir jardins, preocupou-se com a alimentação para continuar magrela e passando pelos buracos mais minúsculos e comandou uma gangue de cadelas no nosso quintal.)

***

O mapa da Terra das Fadas

Para Nugu, o Selvagem

Março-novembro/2006.

Uma vida curta, mas plena

O menino chorava, desconsolado com a morte do coelhinho. O corpo, coberto com o pelo branco macio, estava ali, no lugar em que encerrara a sua curta vida de roedor despreocupado. Morrera de nada, de mansinho. Até mesmo a vira-lata, inimiga ferrenha e perseguidora implacável, parecia entristecida. Deitada, o nariz entre as patas, de vez em quando soltava um bufar, como se suspirasse.

A mãe fez eco com a cachorrinha. Estava cansada da cena. Compreendia a tristeza do menino, mas o que podia fazer?

– Anda, Miguel. É assim que a vida é… Os bichinhos morrem. Mamãe vai arranjar outro pra você.

Os olhos baixos, Miguel respondeu.

– Você não entende, mãe… O Nugu era o mais especial dos coelhos. Ele era…

A mãe ajoelhou-se pra ficar perto do rosto do menino.

– Ele era o que, amor?

Ergueu a cabeça, os olhos brilhando, das lágrimas e pelas lembranças.

– Era mágico! Esqueceu? Era amigo das fadas, você mesma contou…

A mãe deu um sorriso breve e afagou os cabelos castanhos.

– Então, ele deve estar bem… Provavelmente, está indo pro Mundo das Fadas…

As lágrimas voltaram a brilhar.

– E se ele não souber o caminho? Ele pode se perder… Mãe…

Ela respondeu distraída, já pensando no que fazer com fazer com o corpo do animal.

– O quê?

– Você não é bruxa? Poderia ajudar o Nugu… Fazer um mapa.

A proposta a pegou de surpresa. Sim, ela era “bruxa”, no sentido que adorava antigos deuses, fazia rituais para celebrar a mudança nas estações do ano e buscava conhecimentos mágicos. Mas tinha pouca, senão nenhuma, familiaridade com fadas.

– Mas como eu vou fazer isso, Guel?

Um sorriso brilhou, com a confiança que as crianças mais pequenas tem na infalibilidade dos pais.

– Fazendo, ué. Você é a mãe bruxa mais poderosa de todo o Universo…

Tentando acalmar o filho – e diminuir a própria tristeza, afinal ela própria iria sentir falta do coelho – sentou-se no chão.

– Vem aqui, querido – ela observou Nugu, que estava deitado. Parecia estar fingindo, como tantas vezes fizera para enganar Phoebe, a cachorra malhada. Ela aproximava-se, confiante de que finalmente o pegaria, para ganhar uma patada no focinho quando ele se erguia correndo para se esconder. Parecendo lembrar disso, a vira-lata levantou os olhos. Quem sabe não era mais um truque?

Ana sorriu, pois descobrira uma maneira de ajudar o filho a passar pela dor do luto.

– Vamos lá… Do que é feita a Terra das Fadas?

Ele nem piscou para responder.

– De coisas doces!

– E que coisas doces temos aqui?

Dessa vez, ele precisou de um tempo para responder.

– As goiabas, mãe?

Sorriso aberto, ela assentiu, concordando. Miguel disparou pelo quintal, na direção da árvore mirrada. Eles tinham sorte por conseguirem morar em um lugar onde pudessem ter uma árvore, bem no meio da cidade. O menino esticou os braços sob o olhar atento da mãe.

– Isso mesmo, filhote. Pegue aquela que está no galho mais baixo… Assim… Agora, traga aqui.

Ele voltou sorridente, a blusa coberta de poeira e folhas que caíram quando puxou a goiaba. A fruta foi colocada bem defronte ao focinho do coelho.

– Muito bem, e sabe o que mais tem na Terra das Fadas?

– Cores!!! Muitas cores! – ele não hesitou, cada vez mais confiante. A mãe não precisou dizer mais nada, pois o pequeno correu para colher algumas flores, acompanhado por Phoebe. Nugu, o Selvagem – como a mãe o chamava – devastara o pequeno quintal com seu apetite insaciável. Sobraram a goiabeira, a videira, um pé de acerola, muitas marias-sem-vergonha e flores rasteiras. Miguel voltou com as mãozinhas cheias de cores: vermelhas, amarelas, brancas, roxas, azuis. Uma boa coleção para indicar o caminho. Sem esperar ordem posterior, arrumou-as ao redor do bichinho com cuidado.

– Falta alguma coisa?

A mãe sorriu.

– Falta um pouco de esperança. Sem isso, como o Nugu vai achar o caminho?

Miguel baixou os olhos e encolheu os ombros, desolado.

– Mas mãe… Como a gente vai arrumar esperança?

Ela pareceu ficar pensativa.

– Bom, a cor que representa a esperança é verde…

Ela nem precisou terminar, pois ele deu um salto imediatamente.

– E as folhas são verdes! Eu vou usar as do pé-de-uva, porque eram as que o Nugu mais gostava e não conseguia alcançar.

A mãe conteve um arrepio ao vê-lo subir no banquinho de concreto para pegar folhas de parreira. Ele voltou com um punhado nas mãos, que entregou muito sério.

– Eu vou arrumá-las na direção da Terra das Fadas. Você sabe onde fica?

O menino apontou para o sol poente. Ela colocou-as em fila, saindo das patinhas da frente até quase a escada que descia para a casa onde moravam.

– Agora, vamos fechar os olhos e pensar em coisas boas…

– Eu já sei no que eu vou pensar, mãe. Vou imaginar o Nugu correndo na Terra das Fadas!

Os dois deram-se as mãos. Ana começou a pensar também, desejando que o bichinho estivesse bem, onde quer que fosse.

Um vento frio bateu, vindo do nascente para o poente. Ela abriu os olhos. Viu que Miguel batia palmas e sorria, enquanto Phoebe latia alucinada.

Um pequeno rodamoinho erguera as flores e folhas, que agora agitavam-se no ar.

– Olha, mãe, as fadas, elas vieram buscar o Nugu!

A cachorra parecia concordar, latindo e correndo, como se acenasse um adeus. Ana olhou para a mistura de cores a sua frente. Não tinha a pureza de seu filho ou da vira-lata, mas via borboletas no meio das pétalas.

E tufos de algodão, brancos e macios como pelo de coelho, também giravam alegremente. O rodamoinho avançou, envolvendo-a. Ela ouviu o som de gargalhadas alegres e pareceu sentir, pela última vez, o calor do coelho, que tantas vezes aninhara no colo.

Uma lufada mais forte e o pequeno tufão continuou sua jornada para o sol que terminava de se pôr. Phoebe deitou-se, quase tão esbaforida e exausta quanto Miguel, sentado ao seu lado.

Ana deu uma última olhada no corpo e de repente ele não parecia mais tão vivo quanto antes.

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Sobre talkativebookworm
Eu trabalho numa biblioteca. Estudo História. Escrevo. Leio. Traduzo. Uma traça que fala, basicamente.

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