Doctor Who ou Como parei de me preocupar e amar a TARDIS

“Ai, Ana, você tem que ver Doctor Who, é excelente! Os roteiros são ótimos!”

“Você vai amar Doctor Who! Tem viagem no tempo e alienígenas!”

“Como assim, você gosta de Ficção Científica e ainda não viu Doctor Who? É a melhor série inglesa de FC!”

Vou ser sincera: toda essa pressão social só me fazia ser reticente para ver a série. Odeio hype meio hipster, de ‘veja essa coisa obscura e entre para nossa sociedade secreta pois somos poucos os escolhidos’. E também sou meio escaldada com fandons, principalmente os que tem nomes. Sim, estou falando dos trekkers.

Aí, eu vi o primeiro episódio da série de 2005 quando passou na Cultura (?) e até gostei. O tal Doctor  parecia um personagem interessante, a coadjuvante é que me pareceu um pouco ‘mary-sue’, como se fosse uma fanfiqueira entrando no seu universo ficcional preferido (embora, sendo sincera, a Rose não me pareça ser nerd a ponto de escrever fanfics).

bigears

Mas a vida é conturbada e eu não tenho mais saco de ficar presa a um compromisso semanal com a televisão. Então, anotei mentalmente que um dia iria tentar ver o resto da temporada e deixei de lado. Fui acompanhando ao longe as notícias, descobrindo que a série é muito antiga, que o ator principal muda de vez em quando e que parte do fandom whovian odeia o Moffat.

‘Doctor Who’ (a série nova) entrou na programação do Netflix. ‘Ah, ótimo, um dia eu vejo’. Um dia que nunca chegava. Via fotos e gifs, a cara de bobo do Tennant e a de criança do Smith que substituíram o rosto sério e cansado do Eccleston.

Até que um dia – sempre ‘um dia’ – alguém me disse que Doctor Who, principalmente nas duas primeiras temporadas, por baixo da correira, dos aliens, de viagens no tempo, era uma história de amor. E apesar da minha fama (merecida) de má, da minha ranzinzice e ironia. sempre, SEMPRE fui louca por histórias de amor.

Aproveitei as férias e vi as duas primeiras temporadas de Doctor Who. E estou absolutamente obcecada, a ponto de estar planejando comprar os dvds, as edições nacionais dos livros, ebooks dos que não irão sair aqui, bonequinhos. Até uma tatuagem com a TARDIS já foi cogitada.

Essa semana, um amigo muito querido me perguntou ‘O que te fascinou tanto em Doctor Who?’

Foi a deixa para que eu começasse a destilar um monte de motivos e episódios e tramas, mas ele – que me conhece MUITO BEM – me fez cortar a bobagem e repetiu a pergunta.

Parei e pensei. Pensei bastante (ele é um bebado paciente e eu estava sóbria).

O que realmente me fascinou nessas duas primeiras temporadas de Doctor Who foram seus personagens, principalmente seus dois protagonistas, o último Senhor do Tempo e a menina loura, recém-saída da adolescência, que decidiu acompanhá-lo.

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Sim, os roteiros são bons. Alguns são *muito bons* e os episódios de tons mais sombrios foram das melhores coisas que vi na TV desde sempre. Os cenários e figurinos na primeira temporada, assim como os efeitos, são um pouco mais toscos, mas melhoram consideravelmente – chegando a beira da perfeição na reconstituição de um vestido da França do Rei-Sol.

Mas o que me prendeu foi saber o que iria acontecer com aquelas pessoas, com aquele par tão estranho, um alien de 900 anos e uma jovem de 19, e as pessoas que os rodeiam, que vão e voltam. E é disso que as boas histórias são feitas, não? De bons personagens. Se você não se importa com eles, a trama serve de muito pouco.

Ainda não estou pronta para falar da 2a temporada (the feels…)

feels

Mas acho que posso dar algumas impressões da 1a. Sim, eu vou tentar evitar spoilers com toda a força do meu único coração. Só não garanto nada.

(No finalzinho, tem um spoiler, mas tá escondido!)

Ainda aqui? Bom. Allons-y.

 

Um resumo geral para quem estava em Marte e não sabe bem o que é Doctor Who: O Doctor pertence a uma raça alienígena muito semelhante aos humanos, os Time Lords (ou Senhores do Tempo), que dominou a habilidade de viajar no tempo e que é praticamente imortal. Sem dar muitos spoilers, sabemos que ele é o único sobrevivente do seu povo depois da Time War (Guerra do Tempo) e que ele foi o responsável pelo fim da guerra, algo que o marcou e que o fez ser – literalmente – o homem que ele é hoje.

Viajando em sua TARDIS, sozinho e desesperançado, ele verifica que a Terra de 2005 está em perigo por causa de uma raça alienígena e decide voltar até lá. No meio da sua tentativa de salvar o mundo, encontra a jovem Rose Tyler, que tem um subemprego, mora sozinha com a mãe e tem um namoro completamente apático.

run

Claro que eles salvam o mundo e claro que ela aceita – depois de alguma relutância – acompanhá-lo. Isso resume o primeiro episódio, ‘Rose’, que cumpre bem a sua função de reintroduzir o personagem e situar os novos telespectadores, sem ser cansativo ou didático demais. Falha um pouco na construção da Rose, mas ela cresce durante a temporada.

Acho que mais do que comentar episódio por episódio, vou falar primeiro dos que eu não gostei, depois dos que me foram indiferentes e, por fim, dos que me conquistaram. Bom, nessa primeira temporada, não gostei dos episódios envolvendo os slitheens (uma raça alienígena que tenta invadir a Terra e que tem uma certa… peculiaridade gasosa), que são Aliens of London/World War III e Boom Town. São episódios passados no ‘presente’ da série ( no caso, podemos acompanhar isso pela vida das pessoas que Rose deixa para trás, a mãe – que é sensacional, uma das melhores mães da FC – e Mickey Idio… Smith, o ex-namorado já mencionado) e até apresentam alguns fatos importantes e fazem os personagens evoluírem.

boomtown

Porém, as tramas são um pouco inconsistentes e confusas, os slitheens são oponentes um pouco rídiculos (tá, isso pode ser dito até dos daleks, os grandes vilões da série…). Enfim, talvez seja porque eu gosto mais das histórias que se passam em épocas ou lugares diferentes.

Com exceção de ‘The End of the World’, que se passa no fim da Terra e que é o 2o episódio da série – e provavelmente o episódio que menos gostei nas duas temporadas. Ele destoa dos demais no tom – um whodunit até razoável, no cenário – em que eles gastaram boa parte do orçamento da temporada e na contribuição no arco de histórias dessa temporada.

moisturize

‘Dalek’ e  ‘Father’s Day’ são os episódios meio-barro-meio-tijolo da temporada (junto com ‘Rose’). ‘Dalek’ tem o grande trunfo de (re)apresentar vários elementos que serão importantes para a série, como o seu personagem-título, e por apresentar o lado sombrio do Doctor, mas visto em separado, a trama ajuda pouco e os coadjuvantes que aparecem são pouco carismáticos. ‘Father’s Day’ apresenta o drama familiar de Rose e ajuda a desenvolver a personagem e a relação dela com o Doctor se define ainda mais. Não é ruim, mas empalidece principalmente ao ser comparado com os dois episódios que o seguem.

Sim, porque ‘The empty child’/’The Doctor dances’ são dois TREMENDOS episódios. Juntos, formam um pequeno telefilme passado na 2a Guerra Mundial,  na nossa Londres bombardeada pelos nazistas. Uma criança estranhamente deformada, um hospital lotado de pacientes, um charmoso Agente do Tempo… e ‘Moonlight Serenade’. Além de ser o primeiro episódio do capitão Jack Harkness, tem excelentes dialogos, uma atmosfera aterradora e um roteiro excelente, que consegue usar a viagem no tempo de forma segura e que faz sentido e sustenta a história.

E prova que o mundo não para quando o Doutor dança.

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O episódio ‘The unquiet death’ entra entre os melhores por causa de Charles Dickens. Sério. O Doutor e Rose vão parar em Cardiff no século XIX, no meio de manifestações psíquicas (?) e o escritor – do qual o Doutor é um grande fã – vai junto. Vale também por apresentar a moralidade do Time Lord, ainda indefinida e ambígua.

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“The long game” se passa em uma base espacial que também é uma emissora de televisão. O grande trunfo do episódio é preparar o terreno para os dois episódios finais – mas sua crítica a massificação do jornalismo e a interação Rose x Doctor também o fazem valer a pena.

Dificilmente alguém começa a ver Doctor Who atualmente sem saber que, no final dessa temporada, o Doutor deixa de usar o rosto de Christopher Eccleston e se torna David Tennant. Então, não é spoiler dizer que ‘Bad Wolf’/’Parting of the ways’ são os últimos do Nono Doutor. Inserindo os personagens em realities shows de uma grande emissora de TV, reapresentam velhos inimigos, solucionam o grande mistério da temporada e dão a essa encarnação do Doutor um final digno de um herói trágico.

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(Ok, acho que aqui vai ter um spoiler bem grande: na minha opinião, o grande motivo do amargurado e quebrado 9th Doctor virar o 10th, mais ‘novo’, mais ‘bonito’ e menos amargo é o amor. A nona encarnação do Doutor nasceu das cinzas da Time War, em fogo, fúria e sangue. A décima nasceu do amor de um Time Lord de 900 anos por uma menina de 19, que moveu o próprio tempo para salvá-lo. Só isso já faria desse recomeço de Doctor Who uma bela história de amor. Aí vem o final da 2a temporada e confirma isso, adicionando um elemento trágico de fazer inveja aos gregos.)

 

E foi essa a temporada que me fez ficar levemente obcecada com Doctor Who – ainda não é o bastante para me chamar de whovian, mas estamos trabalhando nisso. Por enquanto, o Eccleston ainda é o meu Doctor favorito, porém tem muita coisa para ser vista ainda!

E está sendo…

fantastic

 

 

 

 

Sobre anacristinarodrigues
Eu trabalho numa biblioteca. Estudo História. Escrevo. Leio. Traduzo. Uma traça que fala, basicamente.

One Response to Doctor Who ou Como parei de me preocupar e amar a TARDIS

  1. germana viana disse:

    Que legal!!! Muito legal ver o quanto a série é rica e faz com que as impressões de cada fã ou espectador possam ser diferentes! Tem sido bacana demais acompanhar as suas reações e a de um casal de amigos e ver como diferem em certos pontos com a minha impressão e se alinha demais em outros.

    Por exemplo, nessa temporada, acho Dalek um epi tão phodda quanto The empty child/The Doctor dances (por sinal, meus 3 epis favoritos da temporada) – o mérito é que me fez – eu, uma brasileira adulta, que não cresceu na Inglaterra vendo Doctor Who e que conhecia pouco a mitologia quando viu a 1ª vez o epi – ter medo do nome Dalek, me fez ter medo daquela porra daquele saleiro: se apenas um único deles fez aquele estrago…medo! E menina, o epi me faz chorar (isso, FAZ – sempre que vejo, desidratação), naquele momento que o Dalek perde o propósito. A solidão brutal que tanto o Dalek quanto o Doctor sentem. Muito foda! (e o que me fez virar alvo de chacotas aqui em casa… hahahahhaa “vc é tão boazinha que chora com pena de Dalek”).

    Mas enfim, interessante demais acompanhar sua análise. Seja bem vinda à casa dos malucos por Who (também tenho uns tiques nos olhos quando escuto nome de fandom… mesmo quando faço parte dele) o/

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