Um trecho de ‘Era a noite do Samhain’

Para comemorar o dia das bruxas – ou o Beltane/Samhain se você é dessas coisas (eu sou) – um trecho do inédito ‘Era a noite do Samhain’, que era um conto e agora est5á em crise de identidade. Curtam um pouco do Último Fomori.

 

***

 

Era a noite do Samhain

– O que você está fazendo aqui, Brigit?

Ela era tão gloriosa quanto eu lembrava, cabelos de fogo, pele da cor do leite e olhos de tempestade. Um dos lados de sua face era deformado como se tivesse queimado por horas em uma fornalha, o outro faria até o Deus casto dos cristãos se apaixonar por ela. Qualquer mortal deixaria esse plano de existência se a olhasse por muito tempo. Assim como olhar para o sol pode destruir seus olhos, admirar um dos filhos de Danna mata a alma.

Não sendo mortal, não possuo alma e por isso podia encará-la a vontade. Fui recompensado por um sorriso triste.

– Quantas vidas serão necessárias para apagar seu ódio pelo meu povo, cunhado?

– Não odeio seu povo.

O cabelo dela iluminava a noite escura de Samhain.

– Você odeia a minha família, então.

– Seu pai e Lugh tramaram a queda de todo meu povo e o assassinato de meu irmão, Brigit. Esqueceu-se de seu marido?

O rosto dividido ao meio pareceu ainda mais triste. Ela ergueu a mão direita e a levou ao lado deformado pelo tratamento que meu irmão lhe dera ao saber da revolta de seu povo.

– Não há um dia em que o lamento de Bres não me atormente, Fomori. Eu amava meu marido e fui leal até o fim, mesmo ele não acreditando. Se você estivesse no campo de batalha, entenderia.

Pronto. Tocáramos em nossos respectivos pontos fracos. Por toda uma eternidade, Brigit dos Olhos Brilhantes, poetisa mais afamada da Tribo de Danna, lamentaria o papel de sua família na morte do único fomori a liderar os Tuatha de Dannan. E pelo mesmo tempo, compartilhado como só imortais são capazes de fazer, eu tremeria de culpa ao lembrar que sobrevivi por não estar lá, no último embate.

O silêncio foi quebrado por ela.

– O irônico é que no final os dois lados perderam.

– Para um deus estrangeiro. Você ainda não me respondeu, cunhada.

Ela indicou a cabana de onde eu fugira.

– Fui chamada aqui. Por ela.

*

Brigit estivera lá, na noite em que meu destino fora selado. A Guerra terminara, meus familiares foram derrotados e confinados às Colinas Ocas. Como eu estava fora, cuidando dos Pequenos, fui julgado a parte. Deram duas opções e três dias para pensar no assunto.

Na mesma noite, eu decidi continuar sobre a terra. Nunca mais veria minha família ou meu povo, trancados em suas prisões luxuosas.

No Samhain em que me tornei o Último Fomori, Brigit estivera lá. Entre os rostos dos Filhos de Danna, foi o único que demonstrou alguma compaixão.

O exílio me pareceu a melhor escolha simplesmente por ter mantido poucos vínculos com meu povo. Passava as estações indo aos Pequenos, os nossos irmãos menores. Mortais os chamam de pixies, sprites, brownies e outros nomes. Ajudava-os nas transições e a montar os círculos. Seguia sempre o mesmo caminho. Na manhã seguinte ao Imbolc, quando a Primavera dava seus primeiros sinais, eu deixava minha cabana, na frente da Colina onde meu irmão fora morto. Atravessava o Muir Breathan e descia pela costa da grande ilha até o portão principal da Muralha de Adriano. Ali, celebrava o Auge do Verão e retornava à minha casa, trancando-me no Samhain.

Quando os filhos de Danna chegaram às nossas ilhas, aquele circuito já era uma tradição milenar para mim. Não mudei os meus hábitos por causa dos estrangeiros, pois no começo eles não tinham vindo para ficar. Eram fúteis e volúveis, belas e vazias criaturas. Não eram fortes o suficiente para aguentar a vida nas ilhas da Bretanha. Em menos de mil anos, os Tuatha de Dannan dominaram, mataram, prenderam e exilaram os fomoris.  E nem assim, minha rotina mudou.

Quando os parentes de Brigit já reinavam sobre a Irlanda a tanto tempo que os humanos tinham esquecido de outros deuses e  mesmo os Pequenos só lembravam dos fomoris por minha causa, novamente invasores perturbaram a minha paz. A chegada dos cristãos, com seu deus morto e seus padres eternamente enlutados, desequilibrara tudo. Perseguiram aqueles que acreditavam nos antigos, Tuatha ou fomori. Derrubaram pedras sagradas e construíram igrejas onde deveriam ser círculos de fadas. Baniram os Pequenos para cada vez mais longe de onde deveriam estar.

Eu continuei o meu caminho. Todo o ano, acompanhava o ciclo das estações. Descia até as velhas pedras e retornava à colina onde passava o inverno. Não me importava que cada vez mais vilas e cidades estivessem no caminho. Ou que os Pequenos fossem diminuindo em quantidade a cada ano.

Era meu caminho e nada me tiraria dele.

Pelo menos, eu achava isso.

*

Brighit sentou-se ao meu lado e ficamos encarando a cabana de pedra em silêncio. Não aguentei muito tempo e acabei perguntando.

– Ela vai morrer? É por isso que você está aqui?

– Já disse, Fomori. Estou aqui por ela. Aisllin me chamou. Mas eu não sou quem tem esse poder e você sabe disso.

Deveria me sentir aliviado, mas a preocupação se manteve. Brigit deve ter percebido pois suavizou a voz.

– No caminho para cá, nenhuma bean side gritou. É um bom sinal.

Anúncios

Sobre anacristinarodrigues
Eu trabalho numa biblioteca. Estudo História. Escrevo. Leio. Traduzo. Uma traça que fala, basicamente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: