O que vem por aí – ‘O rei-máquina’

O céu de inverno na Cidade Sem Nome é completamente igual ao de verão. Íbis sente falta do tempo em que circulava pelo mundo e podia ver o Sol. Sente saudade de estar em algum lugar e de servir a um senhor. No momento, Íbis está em nenhum lugar e não serve a ninguém.

Desavisados podem considerar que Íbis deveria estar feliz por ter conquistado a sua liberdade. Que é um absurdo lamentar estar livre de grilhões. Por isso são desavisados e provavelmente não sentem as correntes presas aos seus próprios tornozelos.

O trecho acima é a abertura de ‘O rei-máquina’, conto meu que vai estar presente na coletânea Fantasias Urbanas, a ser lançada em breve pela editora Draco.

Quando o Eric me chamou para participar, eu fiquei bem receosa. Sou leitora de fantasia urbana desde antes de conhecer o termo e me apaixonei de vez com a coletânea Paper Cities. Mas nunca achei que fosse capaz de escrever um conto nesse gênero, imagine dois – para mim, a minha capacidade de urbanicidade fantástica tinha se esgotado no conto publicado em Cidades Indizíveis.

 ‘O longo caminho de volta’ me custou muito para ser escrito. A história da rebelde que volta à Cidade-Biblioteca foi uma catarse para mim, expurgando vários demônios interno. Curiosamente, um ano e meio depois de ser escrito, os conflitos entre Clio e sua cidade natal tomaram paralelos no nosso mundo real, como apontou o Jr Cazeri. Então, Biblos nasceu pronta, vomitada, feita de coisas que eu precisava dizer. Clio foi simplesmente um alter-ego e seus questionamentos refletem muito dos meus. Pensei que meu contato com o gênero como escritora iria parar por ali mesmo.

Afinal, se você me acompanha faz um tempo já percebeu que aos poucos montei a minha identidade de escritora em torno da História. É minha principal fonte de inspiração, temas, personagens, tramas e cenários. Tenho três universos ficcionais construídos nessa base e um quarto que foge um pouquinho, mas ainda tem raízes lá (falo mais sobre isso em breve).

Então, estava cheia de dúvidas para aceitar o convite – e o fiz por um motivo. Eu queria sair da minha zona de conforto, fazer algo diferente, arriscar como eu tinha arriscado em “O longo caminho de volta”.

Um detalhe interessante é que o primeiro trecho do conto, o que retrata a Cidade Sem Nome, já estava rabiscado no meu celular. Sim, eu esbocei aquelas descrições nas teclinhas miúdas de um smartphone. Eram apenas palavras soltas, mas quando surgiu a oportunidade comecei a arranjá-las. Aos poucos, fui pensando no que eu poderia contar ali, o que poderia realmente acontecer.

E foi quando surgiu a ideia de algo maior, de que a Cidade Sem Nome poderia ser um nexo, um foco de várias realidades que tem a função de recolher desgarrados, degredados e desesperados de forma geral. Eu só precisava de um personagem que se encaixasse nessa descrição, que estivesse perdido no mundo e precisasse se encontrar.

Íbis surgiu em uma tarde de chuva, quando vi um morcego desesperado tentando permanecer no galho. Morcegos são criaturas majestosas quando estão no domínio da situação, mas se caem no chão ou se são pegos pela chuva, ficam completamente perdidos. E era isso que eu queria pro meu protagonista. Ao contrário de Clio em ‘O longo caminho de volta’, que é cheia de decisões e certezas, Íbis não sabe direito o caminho que vai seguir, depois de ter perdido tudo.

O conto também foi pensado em questões de estilo. Tentei ter um cuidado maior na construção de frases, mas sem tornar o texto pesado ou enfadonho. Não sei se consegui, isso vocês que vão ter que dizer.

E os dois contos – ‘O longo caminho de volta’ e ‘O rei-máquina’ – são a ponta de um iceberg que aos poucos vou apresentar a vocês.

Sobre anacristinarodrigues
Eu trabalho numa biblioteca. Estudo História. Escrevo. Leio. Traduzo. Uma traça que fala, basicamente.

4 Responses to O que vem por aí – ‘O rei-máquina’

  1. Estou muito curiosa sobre o livro e seu conto!

  2. Lerei seu conto – aliás, os dois! – com muito interesse e carinho. Tenho certeza de que vou gostar muito. Parabéns por mais esta conquista!

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