O matador de serpentes – um conto do Último Fomori

Um esboço de texto do último fomori, que me veio em um surto de inspiração por causa do dia de St. Patrick. Espero que curtam.

– Finalmente te encontrei, maldito.

O último fomori a andar sobre a superfície da terra abriu um dos olhos. Não precisava dormir, mas gostava de parar e relaxar, escutar os sons daquele e de outros mundos, sentir a brisa trazendo cheiros distantes. Tinha percebido a aproximação do mortal muito antes e estava só esperando para saber o que o velho queria.

– Desculpe o mau jeito, velhote. Soubesse que estava sendo procurado, teria ficado em um lugar mais visível.

– Não deboche de mim, criatura diabólica! Sou um servo do verdadeiro Deus e minha missão é livrar o mundo de coisas como você!

Ao ouvir a ameaça, o fomori abriu os dois olhos e deu um suspiro. O homem estava vestido com uma túnica comprida de linho cru e uma capa de pele sobre os ombros. As sandálias, muito gastas e sujas, testemunhavam o quanto tinha andado pelas estradas nos últimos dias. Seu rosto, vincado de rugas, estava emoldurado por barba e cabelos brancos desgrenhados, com olhos verdes que emanavam ódio e veneno na direção do imortal.

– Você é o tal Cothraige, não é? Que expulsou as serpentes da Irlanda e coisa do tipo.

O velho apontou seu bastão para o fomori que notou, bastante desgostoso, ser um pedaço de carvalho. O pensamento de uma árvore tão ligada ao seu povo ter sido usada para apoiar um louco como aquele começou a irritá-lo.

– Sou Patrício, bispo da Irlanda. Recebi de Deus o dever de consagrar as terras pagãs e eliminar todos os que vão contra a ordem divina do universo.

O fomori levantou-se, sem muita pressa. Só esperava que o Conselho Sidhe não viesse depois acusá-lo de interferir com humanos. Estava em um bosque sagrado e deveria estar livre dessas intromissões. Se o bispo tinha chegado até ele, era por ser bem teimoso.

– E isso me inclui, certo? – sacudiu o pó da roupa, ajeitando-se. Usava uma túnica de couro até o meio das coxas e uma calça de lã. Sem capa ou outra roupa, pois também não sentia frio. Os pés estavam descalços, uma forma de manter contato com a terra e lembrar-se de dias melhores. – Bom, você já se apresentou, é a minha vez. Meu nome foi perdido, minha história apagada dos livros e das canções, minha família está exilada nas Colinas Ocas. Eu sou o último dos fomori.

O fomori não conseguiu evitar um meio sorriso ao perceber como os olhos de seu inimigo se arregalaram ao ouvir com quem estava lidando. Os padres do deus morto não eram burros, tinham estudado bem os seus adversários, compilado as lendas antigas das bocas dos bardos e as dissecado, verso por verso. Sabiam da Grande Guerra, sabiam de como os fomoris foram derrotados e exilados. Mas não tinham como saber que um deles ficara, exilado em seu próprio lar.

Patrício recobrou a presença de espírito em um lapso de segundo.

– Não importa quem você é, mas o que você é! É um dos encantados, cria do demônio para afastar os homens de Deus – ele se aproximou de onde o fomori estava, o bastão em riste e os olhos ainda mais venenosos.

– O que você pretende fazer então, homenzinho?

– Destrui-lo com o poder de Deus.

A gargalhada ressoou nos galhos dos carvalhos e abetos que os cercavam. O último fomori sacudiu a cabeça e deixou escapar o glamour que o cercava. A aparência que vestia quando circulava pelos territórios humanos era a de um homem de trinta anos, moreno e rude, estatura média e corpo forte, uma grande cicatriz dominando o lado esquerdo de seu rosto. Mas não era ele. Os fomoris eram chamados pelos habitantes das ilhas de ‘gigantes’. Alguns adicionavam ‘monstros’ nessa descrição.

E o que escolhera ficar não era diferente de sua família, aliás era tido como um dos mais fortes e mais terríveis entre os seus. Rasgou a aparência do viajante humano como se fosse uma roupa velha. Patrício teve que olhar para cima quando ele atingiu os quatro metros de altura. Sua pele tornou-se vermelha como se estivesse coberto de sangue e os olhos brilhavam como trovões. Dentes e unhas eram como facas. Nem nos mais terríveis pesadelos com demônios o cristão poderia ter imaginado uma criatura tão terrível assim.

– É muito fácil salgar as terras dos pixies e usar capangas para espancar druidas e suas famílias, velhote. Mas o que você pode fazer contra mim?

Ele tentou. Murmurou palavras de seu livro sagrado, jogou sal na pele do fomori e fez um círculo com raspas de ferro ao seu redor. O sinal da cruz foi traçado no chão – e imediatamente apagado pelo vento, pois aquele ainda era um bosque que obedecia aos antigos. Todos os truques e artimanhas que o bispo usara com os seres mágicos pequenos mostraram-se inúteis. O fomori simplesmente ficou impassível, observando os movimentos do religioso com um sorriso nos lábios.

Exausto, o mortal caiu de joelhos.

– Desisto, demônio. Você venceu a mim. Pode me matar, mas outros virão me vingar…

– Levanta do chão, velhote. Você não tem idade para ficar na terra fria – com um movimento fluido, pegou Patrício pelos ombros e o ergueu. – Agora vai e me deixe em paz. Você pode continuar se vangloriando de ter expulso as serpentes, mas nunca vai poder dizer o mesmo de um dragão.

Sem esperar resposta, o fomori virou-se e continuou o caminho que interrompera naquela manhã. Sua missão anual, visitar todos os seres encantados que viviam desde a Irlanda até a muralha dos ingleses, já fora cumprida e estava mais do que na hora de voltar para casa.

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Sobre anacristinarodrigues
Eu trabalho numa biblioteca. Estudo História. Escrevo. Leio. Traduzo. Uma traça que fala, basicamente.

15 Responses to O matador de serpentes – um conto do Último Fomori

  1. Lucas Rocha says:

    As descrições tão fodas. A história também, gostei da função dela de dismistificar demônios e alterar os papéis de herói e vilão dentro de uma sociedade religiosa como a nossa 🙂

  2. Ela é boa nisso! Imagine eu, nascido em berço evangélico…

  3. talkativebookworm says:

    Engraçado que os contos do último fomori sempre mexem com a religião cristã, tratando-a de forma pouco lisonjeira – e nem tinha como ser diferente, já que por definição os cristãos são inimigos dos deuses antigos. Isso me incomoda um pouco, pois fico pensando se não estou demonizando a religião ou incorrendo em preconceitos. Claro que a minha formação católica ajuda um bocado nesse sentimento de culpa…

  4. Antonio Luiz says:

    O tom anticristão não me incomoda, mas a prepotência de um monstro demoníaco de quatro metros contra um velho fanático, sim. Faz o conto soar rancoroso, uma expressão reativa de raiva impotente dos vencidos. Seria muito mais fácil simpatizar com o ponto de vista pagão se fosse uma pixie a passar a perna no velho São Patrício com inteligência, em vez de garras e músculos.

  5. talkativebookworm says:

    Sei lá, Antônio. A história que eu queria contar era essa, do fomori, que já é um personagem recorrente meu, esbarrando com o bispo e como isso aconteceria. Achei que uma criatura imortal e tão poderosa quanto ele seria prepotente nessas condições.

    No conto publicado no Sagas 3, o fomori encontra dois inquisidores e o resultado é bem diferente.

  6. Antonio Luiz says:

    Não duvido que o fomori fosse prepotente se essa fosse a realidade. Mas em se tratando de ficção a questão é se essa é uma história vale a pena ser contada. Soa como: “Um caranguejo beliscou o dedinho de Hércules. Hércules o chutou para longe. Fim”.

    • talkativebookworm says:

      Bem, foi a história que eu tive vontade de contar. Como falei antes do conto, foi um surto inspiracional que eu resolvi desenvolver e postar no blog, aproveitando o dia de São Patrício – e o personagem, que vai aparecer em muitos lugares.

  7. Lucas Rocha says:

    Acho que a função do conto não é nem tanto ser ou deixar de ser prepotente, mas só mostrar que o demônio nem sempre é o cara de chifres, pele vermelha e 4m de altura 🙂 O tom de prepotência só acaba enriquecendo mais o personagem e não deixa ele cair naquele clichê de extremamente bonzinho contra vilão malvadão.

    • talkativebookworm says:

      O último fomori é bastante prepotente em relação aos humanos. Ele é prepotente até com os Tuatha de Dannan. Não é má pess… criatura, é simpático com os pequenos e tem um senso grande de justiça – mas é prepotente. Ninguém é perfeito. 🙂

  8. Parabéns Ana, belo conto. Acho que você não deve ficar tão culpada, não vi um décimo dessa demonização (feita por um ser visto como um demônio) da igreja católica que você falou. O fomori tem uma atitude bem piedosa e até desencantada, considerando que está lidando com alguém que matou seu povo, trucidou seus parentes de forma covarde e cruel. Acho que a história mostra um questionamento válido, pois a igreja agiu de maneira covarde com os pagãos, uma covardia que vem do medo, mas que usa o discurso da força e da autoridade. O fomori apenas demonstra que esse discurso não pode ser usado contra ele, pois ele representa uma força muito antiga e superior a crença de Patrício, porque enquanto o sacerdote crê, o Dragão simplesmente é.

    • talkativebookworm says:

      Demian, muito obrigada pelo seu comentário! É para ter esse tipo de feedback que vale a pena continuar escrevendo.

      Sim, o fomori é desiludido com tudo, por causa da derrota de seu povo e seu exílio. A sua piedade é um misto desse desencanto com a pouca importância que ele dá ao bispo. Afinal, como vc mesmo diz, Patrício crê em algo, o fomori é!

  9. Eu acho que o fomori foi até bonzinho. Afinal, que cara de pau a do bispo! Além de invadir uma terra que não é dele, onde não é bem vindo, ainda tem a ousadia de tentar exorcizar o inimigo (em seu lar!). Brincadeiras a parte, gostei do conto. Apesar de ser católica, (ou de pensar que sou) respeito todas as crenças e religiões que existem e sempre fui contra quem desrespeita qualquer outra. Estou com Sagas 3 aqui para ler.

  10. priscillard says:

    Não conheço o universo no qual o conto se passa, mas mesmo assim gostei. Não acho que foi abusivo de um lado, ou de outro. Acredito que se um personagem agiu de tal forma, foi porque tinha de agir, porque fazia parte de sua personalidade e caráter. Pelo menos foi isso que o conto me passou e assim, me agradou. Meus parabéns Ana =)

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