Ano do Dragão – e do dragonete

Bem, como todos já devem saber, 2012 é o Ano do Dragão – oficialmente iniciado neste último final de semana. Para comemorar, tem duas postagens especiais.  Uma vai sair no Cidade Phantástica – sobre essa, vou fazer suspense. A daqui é o começo de um conto, que se tudo der certo sai esse ano. Aos poucos, vocês começam a desvendar Finisterra.

 

A criança corria pelo bosque, sem se preocupar se o seu acompanhante conseguia acompanha-la.  Pisava em folhas e levantava as sementes de dentes-de-leão pelo ar, rindo alto. Era o primeiro dia de Primavera para a jovem herdeira da Borgonha, o primeiro em que finalmente tinha tido autorização de seu pai para percorrer o bosque atrás do palácio de Dijon.

La Marche ofegava atrás de Mairiam. Apesar de ainda não ser tão velho, o maitre d’hôtel – um cargo que misturava o de mordomo, cronista e naquele momento, babá – era adepto de uma vida tranquila, lendo e escrevendo na frente da lareira, organizando as imensas festas do dux da Burgúndia e o acompanhando em viagens curtas. Claro que nem sempre a vida podia ser tão tranquila.

– Mairiam, criança, não corra tanto que não consigo acompanha-la!

Ela riu, já muito a frente.

– Ai, oncle, como você é devagar! Eu lhe espero na fonte!

E sem esperar resposta, simplesmente disparou na frente. Conformado, La Marche se pôs a segui-la. Não havia mesmo muito perigo. O maior inimigo do dux, o rei-mago de Lútecia, havia assinado um tratado de paz com a Burgúndia no começo do Inverno. Os outros, pois haviam muitos, não se atreveriam a ameaçar a família ducal em seu próprio domínio. E as criaturas mágicas da região adoravam Mairiam como se fosse uma delas, o que muito preocupava o maitre d´hotel. A menina de seis anos era chamada de princesa e reverenciada como uma.

– Bom dia, Olivier.

A voz fina vinha de cima, de um galho de árvore.

– Bom dia, Flor-de-Lis – a ninfa saltou para o chão com graça. Como o dux saudava os deuses dos latinos, seus bosques e terrenos eram povoados por ninfas, sátiros, faunos e centauros, enquanto nos bosques do rei-mago residiam fadas e seres correlatos a  Cernnunos e sua corte. – É bom vê-la depois do inverno.

– Igualmente – a criaturinha tinha dois palmos de altura, pele muito branca e cabelos dourados. Usava um lírio como vestido e sorria mostrando os dentes afiados. – A jovem princesa está muito bem, pelo que vi.

– Ah sim, ela é incansável.

A troca de gentileza intrigou La Marche que estava acostumado aos modos fugidios e até mesmo rudes.

– Aconteceu algo durante o inverno?

– Não, foi uma estação tranquila. Mas faz duas noites que eu tenho sentido uma presença estranha entre as árvores. As outras ninfas também sentiram, mas como os Grandes ainda não despertaram não houve muito o que fazer.

Os Grandes eram as criaturas com o mesmo tamanho, ou maiores no caso de centauros, que os humanos. Eles serviam como guardiões do bosque, vigiando suas fronteiras e avisando de qualquer perigo. Porém, durante o inverno eles iam para florestas mais profundas e adormeciam, só despertando na primavera. Dos seres que percorriam aquelas terras durante o inverno, La Marche pouco sabia, pois o dux não deixava que nenhum dos seus servidores entrasse no bosque durante o tempo frio. E o maitre d’hotel se importava muito pouco com essa proibição.

– Ficarei atento e avisarei ao dux, Flor-de-Lis. Obrigado…

Quando ia terminar a frase, foi interrompido por um grito. A voz era tão familiar que seu sangue gelou imediatamente.

– Socorro! Oncle, oncle!

A ninfa arregalou os olhos e La Marche correu. Esqueceu do cansaço, das pernas doloridas de tentar acompanhar a menina … esqueceu de si mesmo e correu. Mairiam era sua responsabilidade, a filha de seu senhor e a herdeira de grande poder. Mas era também a menina que ele ninava todas as noites, que pedia histórias nas longas e escuras tardes de inverno e que lhe trazia uma coroa com as primeiras flores de primavera. Era parte de seu coração.

Chegou completamente sem fôlego à fonte em que Mairiam deveria estar. Era uma clareira grande, com um banco de pedra, pequenos canteiros que começavam a florir e uma fonte de onde saía água direto de uma nascente. O bisavô do dux tinha ajeitado aquele recanto para poder fugir de suas obrigações e descansar.

Em um primeiro momento, não viu Mariam. Procurou novamente e encontrou a menina encolhida atrás do banco de pedra.

– Mairiam!

Oncle, cuidado!

O aviso veio tarde e La Marche foi derrubado por uma criatura de escamas roxas, do tamanho de um sabujo. Preso debaixo das patas da criatura, ele não conseguia distinguir direito o que era. Mas sabia que Mairiam agora tinha uma chance.

– Fuja, menina! Corra!

A menina ainda não tinha se decidido a correr quando a criatura abriu a boca, cheia de dentes afiados. La Marche sentiu que tinha chegado a sua hora e encomendou sua alma aos deuses. Fechou os olhos, esperando a mordida…

E sentiu uma língua áspera de réptil em suas bochechas.

A criatura estava lambendo seu rosto!

Mairiam se aproximou cautelosa.

– Ah, oncle, é um dragãozinho!

Ao ouvir a voz da menina, o réptil saiu de cima do maitre d´hotel e foi até ela, parecendo muito satisfeito em conhecê-la. La Marche ergueu-se, verificando que não havia ferimentos muito profundos. Respirou aliviado e analisou o animal a sua frente.

Era um pouco maior que um sabujo e tinha o rosto alongado de um dragão, porém La Marche jamais ouvira falar em um dragão roxo. As asas, abertas para se exibir para Mairiam, eram grandes demais em relação ao corpo. Mas foi a ausência de uma cauda que o identificou.

– Não é um dragãozinho, Mairiam. É um dragonete, uma criatura criada à imagem de um dragão por magia.

A criação de dragonetes era proibida por serem criaturas instáveis, mas inteligentes como dragões. Alguém tinha desobedecido a lei e precisava ser encontrado. Quem sabe o que mais poderia estar criando escondido?

– Podemos ficar com ele?

– Não, Mairiam. São animais perigosos. Seu pai provavelmente vai sacrificá-lo!

A menina deu um grito de horror.

Non! Papa não vai matar o meu Imagus!

– Imagus?

– Sim! Ele não é a imagem de um dragão? Pois bem, é o meu Imagus e pronto!

La Marche sentia uma dor de cabeça vindo. Tão grande que nem corrigiu o latim incorreto da menina, afinal deveria ser ‘Imago’. Mas a discussão entre pai e filha que se avizinhava era muito maior do que um reforço nas lições de Mairiam.

– Então vamos voltar, menina. Seu pai é quem vai decidir.

E seguiram os três. Imagus muito feliz entre os dois, Mairiam já colocando o queixo para frente, preparada para enfrentar o pai. E La Marche sentia o peso de um dragão sobre seus ombros cansados.

 

Uma nota: O núcleo principal dos livros de Finisterra é a corte portuguesa – Rui de Pina, Pero Vaz de Caminha, Dom Roderico de Barcelona, Dom Manuel. Mas há um outro núcleo que aparece aqui e ali, entremeado na trama, o do ducado da Burgúndia, liderado pelo dux Carlos, apoiado por seu fiel Olivier de La Marche e contando com a figura da Arquimaga Mairiam e seu animalzinho de estimação. Ele tornou-se um dos personagens mais carismáticos para quem chegou a ler um pedacinho de Finisterra e por isso resolvi que ia desenvolver melhor suas histórias… 😉

 

 

Sobre anacristinarodrigues
Eu trabalho numa biblioteca. Estudo História. Escrevo. Leio. Traduzo. Uma traça que fala, basicamente.

10 Responses to Ano do Dragão – e do dragonete

  1. uau! ficou muito bom!
    que venha o restante!

  2. Só um comentário, por ora: awwwwwwwwwwww ^^ Quer mais comentários? Libera mais texto 😛

  3. Ana, eu não conhecia o universo do Finisterra antes. Mas pode me colocar na fila dos que estão esperando por ele agora.

    • talkativebookworm disse:

      Mariana, obrigada. A fila é grande e espero atendê-la antes que se torne uma turba. Mas esse ano tem pelo menos 4 contos de Finisterra.

  4. Cesar Silva disse:

    O texto está repleto de boas ideias. Por acaso, essa história acontece no mesmo universo de Formori? Tem mais ou menos a mesma textura.
    Também lembra o jeitão de Jonathan Strange & Mr. Norrell de Suzanna Clarke, o que é uma referência ótima.
    Dá para dar uma melhoradinha enxugando alguns poucos excessos, mas no geral é um excelente começo para o romance. Parabéns

    • talkativebookworm disse:

      Oi, Cesar.

      Não, ele se passa em outro universo, o de ‘Finisterra’. A diferença básica é que em Finisterra a magia é algo sentido, acolhido e instrumentalizado, no do Fomori ela é temida, assustadora e proibida.
      Esse ‘jeitão’ é basicamente o meu modo de escrever Fantasia Histórica, que é um elemento comum nos dois universos, acho que daí a semelhança. E obrigada pela comparação! Eu não gostei muito do JS&MN, mais por achar a trama arrastada, só que a prosa da Clarke ali é realmente algo especial.
      De modo geral, esse foi um rascunho do começo de uma noveleta para a coletânea da Draco – veio a ideia, escrevi e resolvi compartilhar. Depois que finalizar, vou fazer alguns ajustes mesmo. Obrigada pelo comentário!

  5. Curti a pegada infantil do conto! E deixa na curiosidade pra saber mais… E eu logo pensei em “Marley e o Dragão”, ou algo do tipo 😛

  6. Quero saber mais sobre o Imagus… adoro bichos grandes, poderosos e… fofos! Adorei o conto, no aguardo de mais.

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