Adeus, Senhora dos Dragões

Hear, hear. It’s the sound of dragons’ tears.

Behold, behold, as dragons’ wings unfold.

Pray, pray. The Dragon Lady has flown away.

 

Acho que todo mundo tem seus velhos favoritos. Aqueles livros que leu na adolescência e vez por outra relê. Para boa parte do mundo nerd, é ‘Senhor dos Anéis’ (do mundo nerd da minha geração, pelo menos).  Nada contra quem gosta de revisitar a Terra Média.

Eu tenho outros lugares a visitar.

Sempre funcionei de forma estranha. Os livros novos, nunca lidos antes, eram absorvidos durante o período de aulas. De março a novembro, desde os 13 anos, pegava os livros novos, empilhava do lado da minha cama – para desespero de mamãe – e ia devorando-os,  um a um.

Chegava dezembro, a pilha era dividida entre os lidos, que iam para o armário-estante, e os não-lidos, que continuavam do lado da cama. Porém, não seriam mais devorados, não até março chegar.

Nos meses quentes de verão, entre cinema, pátio, shopping, praia, Campo de São Bento, eu me enfiava debaixo do ventilador, pegava uma caixa especial (um  engradado de plástico que surgiu no meu quarto um dia), tirava a toalha que a cobria e encarava meu tesouro.  Uma edição megassurrada de ‘Duna’, uma adaptação da Abril Cultural para ‘Os três mosqueteiros’, a edição da Imago para ‘A dama do falcão’, minha cópia de ‘Ivanhoé’, em capa dura – provavelmente do Círculo do Livro e já sem a contracapa. Meus lugares de verão eram Arrakis, a França de Dumas Pére, Darkover e a Inglaterra de Sir Walter Scott.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fico devendo a capa da minha edição de ‘Ivanhoé’, não achei na web, só de outras edições.

Esses livros foram devidamente recolhidos de meus pais (Os Três Mosqueteiros),  presentes de parentes mais abastados, que assinavam o Círculo do Livro e me passavam os livros que não gostavam (Ivanhoé), compras em sebos de uma guria que ganhava meia metade de um salário para trabalhar 4 tardes por semana numa padaria (na verdade, ‘Duna’ e ‘A dama do falcão’ eu li primeiro em cópias surradas de uma locadora de livros, depois os encontrei em sebos).

Uma tarde de verão, meus quatro favoritos terminados, amigos ocupados… Resolvi visitar o único sebo em que eu conseguia vez por outra encontrar algo diferente das edições paradidáticas de Machado e Alencar. Nessa visita, voltei com dois tesouros. Um era o exemplar mais batido e maltratado de ‘O hobbit’ que jamais vi, com uma mancha rosa de hidrocor e faltando um pedaço da capa. Era da Europa-América, pois ainda faltava um ano para a Martins Fontes trazer Tolkien para o Brasil. O outro…

Meu inglês nem perto, nem de muito longe, era o que é hoje. Mal e mal conseguia jogar meus RPGs no SNES e olhe lá – o RPG de mesa ainda não me encontrara, mas isso viria em breve. Naquela época, havia poucas informações sobre literatura fantástica. Por algum tempo tivemos a Isaac Asimov Magazine nas bancas, mas em Niterói era utopia. Diziam sussurros em becos que até havia um clube de leitores desse tipo de coisa, mas pra mim, era mito.

Encontrar um livro desses só por puro acaso. E eram 3 (todos com as capas iguais, que os gajos da Argonauta não estavam ali para perder tempo com essas frescuras), com um dragão na capa. Escritos por uma mulher, como a Marion! E não era Fantasia, os dragões estavam em outro planeta. Como Darkover!

Eu sabia que aquilo ia me deixar dura até o fim das férias, mas poxa. Um dragão. Um planeta CHEIO de dragões.

Desde aquele verão, Pern juntou-se aos meus demais destinos de férias. Um mundo sob constante ameaça cósmica e dragões como sua última linha de defesa. Personagens complexos e cativantes, uma escrita atraente – mesmo com a tradução da Argonauta atrapalhando. Aprendi inglês e fui atrás de outros livros – comprei muitos, outros acabei pegando emprestado. Mas li muita coisa de Anne McCaffrey.

 

No twitter hoje recebi a notícia da sua morte, aos 85 anos. Acho que só me senti tão órfã literariamente quando soube da morte da Marion Zimmer Bradley.

Enquanto dragões continuarem a fascinar o nosso mundo, seus livros, sua escrita, sua alma continuaram a viver entre nós.

Sobre anacristinarodrigues
Eu trabalho numa biblioteca. Estudo História. Escrevo. Leio. Traduzo. Uma traça que fala, basicamente.

5 Responses to Adeus, Senhora dos Dragões

  1. Ghad Arddhu disse:

    Sempre triste quando um referencial nosso se vai… mas a memória eterna de suas obras é a maior honra que poderia ser deixada para nós.

    R.I.P.

  2. Berthier Jr. disse:

    Cada dia escrevendo melhor, hein?

    Sei o que é ficar órfão, Asimov já se foi há algum tempo, e tal qual você,já o lia desde meus 10-11 anos.

    Abraço.

    Berth.

    • talkativebookworm disse:

      Ao ler a noticia ontem no twitter, me senti do mesmo jeito que quando o Vitor me contou sobre a morte da MZB no nosso primeiro dia de aula na UFF. O mesmo vazio.

  3. Nossa eu comecei a ler Marion apenas 2 anos antes de seu falecimento, só fiquei sabendo sobre isso bem depois, pois na época nem sonhava com internet e era uma leitora novata. Imagine se ela tivesse vivido mais tempo, se teríamos mais livros.

    Eu amo A Dama do Falcão, está entre meus preferidos dela e a minha edição de duna também é esta antiga, tenho outros da série também.

    Minha tia tinha edições velhas de O Senhor dos Anéis e O Hobbit de Portugal na estante, ela nunca emprestava ahaha

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