Aquela esquina – o que se perde e o que se ganha.

Papai tinha uma padaria em Icaraí. Na verdade, ele teve duas no bairro, no espaço de duas décadas. Antes disso, ele trabalhou em outra por dez anos. Faça as contas: eu tenho 33 quando escrevo essa tentativa de crônica, então isso significa que a maior parte da minha vida foi dentro de um lugar que vende pão. Fato que obviamente explica a minha silhueta que sempre tendeu pro rechonchudo, mas que também me ajudou a ter uma relação muito forte com o bairro.

Não sei como era no resto do país, porém em Niterói padarias eram até o final da década de 1990 negócios majoritariamente familiares, firmemente ligados à colônia portuguesa e que serviam como ponto de encontro de vizinhos e amigos. Não foram poucas as vezes que minha mãe serviu de conselheira e psicóloga, enxugando lágrimas de esposas traídas, porteiros demitidos. Assim como não foram poucas as pessoas que ela acompanhou da infância à idade adulta, seus sobrinhos que iam comprar balas – e sempre levavam uma quantia muito maior do que a teoricamente compravam – e que anos depois iam levar seus filhos para fazer a mesma coisa. Papai se tornou uma figura conhecida, quase uma lenda urbana. Seus chistes e manias eram conhecidos pela cidade e ter trabalhado com seu Leopoldo era referência suficiente para ser contratado.

Padarias, para mim, sempre foram refúgios. Primeiro, o cheiro. O cheiro interno de uma padaria tinha um quê de azedo, por causa do fermento e da farinha, matérias-primas de 95% do que é feito lá. Já o cheiro do salão de vendas era bem distinto. Uma mistura de pão quente, mortadela sendo cortada, bolo de aipim com coco e salgados recém-fritos que aos finais de semana tinha a adição do frango assado. Existe algo mais cheiroso que frango assado de padaria? O tempero dos frangos foi, até o amargo fim, receita de mamãe, levando orégano, vinho branco, azeite, louro e outras especiarias, preparado por um português tramontano que em sua terra guardava cabras.

Amargo fim?

Três anos atrás, a esquina que a padaria de papai – uma casa com oitenta anos de atividade, comprada de um conterrâneo dele – ocupava foi vendida a uma empreiteira. Negociações e acertos feitos, em pouco menos de seis meses o prédio foi ao chão e a esquina de ponto de encontro virou um canteiro de obras. Na verdade, um fim anunciado. Mercados em todos os seus tamanhos e tipos – super, hiper, extra, mega, ultra – vem aos poucos acabando com o tipo de negócio que o meu pai sabia fazer. Nos poucos espaços que essas grandes multinacionais vem deixando, quase não há espaço para estabelecimentos em que o dono toma cafezinho com o freguês – papai sempre ressaltou que padarias não tem clientes – enquanto discutem o técnico do Vasco. Aos poucos, padarias de esquina, em que vizinhos marcavam hora pra ir e bater papo, vão fechando e sendo substituídas por ‘butiques de pão’ em que gerentes treinados sorriem vazios para clientes cujos nomes não são importantes, franquias cujo pão vem congelado e a mortadela já embalada, cujos salões de venda cheiram a aromatizantes industrializados e os frangos… ah, essas já quase não cheiram.

Senti falta disso ao andar pelo ‘Jardim Icaraí’, um pedaço da divisa entre Icaraí e Santa Rosa que os corretores apelidaram assim para atrair os incautos do outro lado. Não havia um lugar em que pudesse encostar no balcão e pedir uma coca-cola. As padarias viraram butiques de pão, os botecos se transformaram em bares com mesas, cadeiras e latas de refrigerante a R$ 4,00.

Prédios e mais prédios onde só haviam casas, dez construções em um espaço de seis quadras, quase nenhum comércio e nenhum ponto de encontro. Niterói está crescendo, ganhando novos moradores, supermercados que fazem promoções de parar o trânsito – literalmente.

Mas perdeu os Leopoldos e as Marinas que ficavam atrás do balcão esperando os fregueses com pão quente, mortadela recém-cortada, um sorriso no rosto e um espaço no coração.

Sobre anacristinarodrigues
Eu trabalho numa biblioteca. Estudo História. Escrevo. Leio. Traduzo. Uma traça que fala, basicamente.

8 Responses to Aquela esquina – o que se perde e o que se ganha.

  1. M. D. Amado disse:

    É realmente lamentável o caminho que as grandes cidades vêm tomando. E em alguns casos, cidades menores também – tentando imitar as grandes, porque é chique.

    Eu ainda me lembro do armazém que tinha na esquina de casa, na minha adolescência, em que eu podia comprar meu Guaraná Antarctica de 1 litro, garrafa de vidro, uma bisnaga (ou baguete), maionese e mortadela. E batia papo com os donos e os filhos dos donos na porta, junto com um ou outro à espera do ônibus. Depois do lanche eu podia jogar bola no meio da rua e conversar com os amigos até altas horas da noite sem ao menos saber o que era violência. Belo Horizonte já foi considerada uma roça grande. E enquanto todos de fora caçoavam disso, a gente vivia maravilhosamente bem a nossa infância e adolescência.

    Excelente texto, dona moça!

    Beijos!

  2. Melancólico e verdadeiro…

    Cresci na Praça Seca, em Jacarepaguá. Tinha uma meia-dúzia de padarias assim nas redondezas. Saí de lá em 97 para a Freguesia onde, ironicamente, já não havia mais tantos serviços do tipo. E hoje, morando nas redondezas da praça Saens-Peña, só vejo supermercados e butiques do pão, como você fala. E que pão horrível! Uma massa sem gosto, sem graça, sem vida, a preços inflacionados — falam sempre do trigo indexado em dólar mas, curiosamente, quando o dólar estava baixo o preço do pãozinho não cai.

  3. Jorge Pereira disse:

    Opa ! Excelente crônica de memória e saudades, Ana! Valeu, gostei mesmo.

  4. E assim, com estas mudanças, cada dia o ritmo da vida fica mais e mais acelerado – com cobranças, exigências, normas, regras e um milhão de outras tranqueiras…

  5. A especulação imobiliária em Niterói está nos privando do pequeno comércio, das casas com quintal, das ruas desimpedidas… Onde ficava uma casa ou pequena loja erguem prédios fininhos, com “lazer completo”, apartamentos do tamanho de ovos e vizinhos que não mais conhecemos pelo nome.

    Ainda tomo café e pão na chapa na Padaria Vitória, ali em Icaraí, onde vivo há 11 anos. Os donos são portugueses também, embora não tão simpáticos quanto seu Leopoldo e dona Marina. Espero que não acabe virando uma butique do pão.

    Beijo, Ana!

  6. Jorge Nunes disse:

    Adorei essa crônica, menina! Parabéns, uma delícia de se ler.

    Jorge Nunes

  7. Alexandre disse:

    E pensar que eu já morei na Dr. March aí na divisa de Niterói com São Gonçalo. Me lembro que eu estudava em um colégio público e passava, na volta, por uma pracinha que tinha um cinema de rua decadente que passava filmes pornôs. Era a época em que eu assistia Patrulha Estelar na rede manchete e comprava, em uma banca em frente ao mercadinho, gibis da Bloch.

    E me lembrei de Realengo, que era um bairro tranquilo e hoje dá desgosto de ver, virou um lugar sujo, quente, escuro e perigoso. Melhor ser vítima da especulação imobiliária do que da favelização e da criminalização. Doeu ver a decadência do bairro. :\

    (por outro lado não tinha droga nenhuma para se fazer lá, e hoje tem uma lona cultural. Só que eu já não morava mais em Realengo depois disso).

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