Imago Mundi – Capítulo 1 (versão 0.1)

O sol refletia na areia esbranquiçada espalhada sobre o chão da praça de touros. Rui tentava se proteger da luz para acompanhar a peleja que se desenrolava entre homem e criatura. Não por gosto, pois o cronista detestava aquele espetáculo, mas por obrigação, já que era seu dever narrar tudo o que acontecia na corte. O cheiro forte de sangue misturado ao suor do minotauro revoltavam o estômago do cronista. Rui de Pina não era um covarde e já tinha testemunhado batalhas, duelos e assassinatos cruéis. Era, como ele mesmo se vangloriava, um homem vivido. Porém, em seus trinta e cinco anos de vida, jamais tinha conseguido superar o asco a um dos esportes preferidos de sua gente.

A tourada.

Toda a nobreza do Império da Ibéria estava ali, organizada no seu complicado jogo de hierarquias. O imperador exigia a presença dos seus mais próximos e o restante comparecia justamente para tentar se aproximar. Rui até considerava esse jogo mais interessante que a tourada, mas sabendo do amor de seu monarca pelo jogo ficava de olhos fixos na arena para poder rever tudo com seu senhor depois.

Ao seu lado, o conde de Barcelona parecia distraído. A curiosidade do cronista aumentou.

– Está tudo bem, meu senhor? Pareces pensativo.

– Não sei, Mestre de Pina. Tem um cheiro estranho pairando na praça de touros que está me deixando desconfortável.

– Não seria o feitiço de ocultação que o feiticeiro da Corte conjurou para nos proteger da visão da fera?

O nobre pareceu considerar a opção por um instante, descartando-a com um movimento de cabeça.

– Não, não é isso. Conheço a magia de Mestre Coutinho, ela não me afetaria assim. Porém, vejo que também
não estás confortável, Mestre de Pina.

– Não aprecio estes espetáculos sangrentos, meu senhor.

Um golpe bem sucedido fez a platéia vibrar, fazendo a atenção dos dois tornar a estar na cena a frente. O sangue já manchava a área central do espaço, em imensas poças vermelhas. O toureiro erguia a espada fina, em um movimento floreado, enquanto fazia uma volta ao redor do minotauro. A besta, sangrando de cortes por todo o corpo peludo, tentava acompanhá-lo com os olhos sem muito sucesso. Já tinha perdido o machado tosco que usara como arma e mal parecia agüentar-se em pé.

A platéia deu um grito de espanto ao ver o minotauro avançar. Com um urro ainda potente, a criatura apontou os chifres na direção do homem vestido de vermelho, que o encarava com um sorriso nos lábios.

Alguns outros cronistas comparavam os movimentos dos toreadores com uma complicada dança, cheia de beleza fluída e passos difíceis. Para Rui, era uma farsa, uma mascarada, onde se encenavam o sacrifício de uma criatura por alguém muito menos valoroso. Duvidava que aquele homem derrotasse o minotauro fora da arena, com a besta bem nutrida e usando armas que conhecesse. Por isso, não se juntou aos aplausos que os demais deram ao ver a espada aplicar mais um corte no corpo vigoroso da criatura, que caiu de joelhos.

O homem virou as costas para o adversário, indo cumprimentar uma das jovens infantas, parenta do Imperador. Segundo o protocolo, ia oferecer a morte do seu oponente a uma delas. Porém, o minotauro conseguiu ficar de pé, cambaleante. Uma das princesas gritou para avisar o toureiro quando a besta avançou contra ele. O homem ainda tentou desviar-se com um movimento que realmente lembrava o de um dançarino, só que o animal não estava tentando chifrá-lo como da outra vez. Sua intenção era outra e conseguiu cumpri-la. Agarrou a mão que segurava a lâmina fina que tanto o ferira e a arrebatou para si.

Arremessou-a para longe, com o mesmo urro animal que usara antes. Nesse momento, o toureiro tremia, tentando fugir. Para Rui, parecia que o minotauro tinha o mesmo sorriso que o homem tivera antes, se isso fosse possível. Em um movimento inacreditavelmente ágil para um monstro daquele porte, agarrou o homem pelos ombros. Ergueu o corpo sobre a sua cabeça e virou-se para a platéia, para o estrado em que estavam os mais altos dignitários da corte ibérica. Num gesto simples, como de alguém que partisse um pedaço de pão, dividiu o corpo do infeliz toureiro em dois. O pobre coitado sequer teve tempo de gritar.

Rui esperava que pelo menos também não tivesse sentido dor.

O monstro, coberto pelo sangue e pelas vísceras de sua vítima, largou os pedaços de carne e deu outro urro. As damas gritavam e um tumulto começava a se formar. Os poucos soldados presentes na pacifica Salvaterra não estavam todos na Praça. O Imperador tinha uma guarda pessoal formada por alguns nobres que podiam ser das melhores famílias da ilha, porém não eram homens de armas tão formidáveis assim.

E com passos firmes e rápidos, os cascos batendo ritmados no chão, o minotauro corria na direção do Imperador. Em direção ao estrado em que o próprio Rui também estava. Mesmo sabendo ser inútil, o cronista puxou a espada curta que sempre trazia consigo. Se fosse morrer, pelo menos seria com uma lâmina nas mãos, da melhor maneira para depois ser narrada. Porém, não seria agora a hora da sua morte honrosa.

O conde de Barcelona surgiu na sua frente, uma figura esguia coberta de preto da cabeça aos pés, sobressaindo a palidez da pele e o cinza chumbo dos olhos. De sua capa, tirou um cano comprido de metal brilhante, decorado com motivos dourados. Pronunciou algumas palavras em uma língua que Rui desconhecia e um estampido forte quase o ensurdeceu. Da ponta do cano saiu uma bola de fogo que ao encontrar o corpo do minotauro se dividiu em uma multidão de pequenos lagartos de fogo. As salamandras consumiram a grande besta em minutos, enquanto os poucos remanescentes da corte ficaram olhando atônitos. No final, sobrou apenas um monte de cinzas que o soprar de um apito fez voar com o vento, o cheiro forte de pólvora e carne queimada, além de umas três salamandras que corriam desnorteadas até serem recolhidas pelo conde.

Rui estava estarrecido. Não era segredo na corte que Dom Roderico era um dos melhores alquimistas de todo o Grande Continente, além de afamado elementalista. Só que aquela exibição foi totalmente inesperada, inclusive pelo Imperador que fez questão de exprimir a sua surpresa em voz alta.

– Meu caro primo, não tinha idéia de que eras capaz de aprisionar salamandras para arremessá-las desta forma.

O conde fez uma breve mesura, inclinando a parte superior do corpo alto e magro.

– É um equipamento que trouxe da minha última viagem às terras do Grande Khan, meu senhor. Lá, os trabalhos combinando pólvora e alquimia são muito difundidos e estudados.

– Percebo que ainda tens muito a contar sobre tua jornada, Dom Roderico. Em Olissipona, irei exigir uma narrativa completa – a atenção de Dom Manuel voltou-se para as demais pessoas – Há algum ferido, além do infeliz toureador?

O major domo, um homenzinho mirrado e de olhos astutos, correu para junto de seu senhor.

– Não, meu Rei. Todos estão bem, tirando duas damas que desfaleceram com o susto.

– Pois bem. Providencie que o infeliz tenha um enterro digno de um bom seguidor do Nazareno e que sua família receba uma boa pensão da Coroa. Primo, Mestre Rui, gostaria da companhia de ambos. Teremos muito a discutir sobre a tourada de hoje.

Os demais dispersaram, o susto esquecido, comentando os detalhes sangrentos do triste espetáculo que tinham assistido. Rui acompanhava os dois nobres a uma distância respeitosa, de modo que pudesse ouvir e ser ouvido sem comprometer o seu lugar na ordem das coisas. Dirigiram-se à tenda montada do lado de fora da praça de touros para acomodar o Imperador após as touradas e dar-lhe um descanso antes do grande baile que haveria de noite. Dom Manuel sentou-se na esculpida cadeira de espaldar alto que fazia às vezes de trono em suas viagens pelo império enquanto Dom Roderico ocupou um sofá estofado, esticando as pernas em um banquinho. Rui ficou em pé, atrás de seu senhor.

– Sentai, Mestre de Pina. O nosso assunto pode estender-se.

Rui acomodou-se em banco, mantendo sua distância e posição. Dom Manuel prosseguiu, a expressão mostrando todo o cansaço que ocultara perante olhares públicos.

– Primo, não posso deixar de agradecer por teres salvado a minha vida. Por mais que nosso mestre-de-armas tenha feito um bom trabalho, não sei se seria capaz de me defender de uma besta daquele tamanho.

– Manuel, tenho um dever contigo, como família e súdito. Não há necessidade de agradecimentos, mas de investigação.

O imperador assentiu.

– Então, Roderico, viste que não foi uma mera fatalidade ou falta de perícia do toureiro. Também percebi isso.

– Gonzalo Lopez era um dos mais afamados matadores de toda a Ibéria, primo. E antes disso, caçou minotauros na Andaluzia. Não acho que iria cometer erros dessa grandeza.

O silêncio seguiu, enquanto os três homens ruminavam pensamentos. Rui, ignorante da fama do morto, não tinha visto os acontecimentos por esse ângulo antes. Levantando-se, Manuel foi até a mesa onde uma jarra de vinho o esperava. Serviu três copos que passou para o primo. Roderico jogou uma pitada de pó em um dos copos e observou por um instante. Como a cor não se alterou, deixou que o primo bebesse e passou um copo para Rui. O assunto voltou enquanto bebiam.

– Além do mais, o feitiço protetor que se colocou na arena deveria impedir que o minotauro nos visse ou nos atacasse.

Dom Roderico refletiu por um instante, a testa franzida embaixo dos cabelos grisalhos. Era pouco mais velho que o Imperador, porém parecia ter quase a idade de seu pai. Rui já servia na corte antes dos dois nascerem

– Manuel, está claro que foi um atentado contra a sua vida. Ainda mais com Isabel prestes a dar a luz… Sabes que minha prima é frágil e provavelmente não vai sobreviver ao parto. Com a morte dos dois, sabes quem poderia reinvindicar o seu trono?

Apesar da pergunta não lhe ser dirigida, Rui pos-se a pensar. Havia a linhagem Trastamara, aparentada da casa de Avis em várias direções, inclusive por ser a família de D. Isabel. Porém, como era sabido por todos, havia uma maldição envolvendo os nobres castelhanos: eles não podiam se envolver com magia de nenhum tipo. Maximiliano do Império Germânico? O Basileu de Constantinopla? Carlos, dux da Burgúndia? A mãe dele fora tia-avô de D. Manuel… e Carlos jamais escondera de ninguém a sua vontade de possuir a dignidade imperial.

O conde seguiu a mesma linha de raciocínio.

– Manuel, sabemos que teria muitos interessados. Só que poucos teriam coragem de agir dessa forma.

– A esposa de Maximiliano…

– É a Arquimaga. Sob juramento, não pode usar magia para interferir no balanço de poder. E tu conheces Mairiam. Não, não foi Maximiliano.

O imperador deu um soco na mesa.

– Maldito seja o dux. Ele não pode ficar satisfeito com tudo o que já tem?

– Nunca vi Carlos da Burgúndia satisfeito, nem conheço quem tenha. A ambição dele é imensa, primo, e ele tem os recursos e os feiticeiros para fazer um tipo de ataque desses.

Manuel bebeu o resto do vinho de um gole só.

– Vou avisar Mestre Coutinho para tomar as devidas providências em relação ao nosso caro parente. Grato pelo aviso e conselho, Roderico. Agora, devo descansar para o baile de hoje a noite, pois amanhã viajamos de volta para Olissipona.

Sobre anacristinarodrigues
Eu trabalho numa biblioteca. Estudo História. Escrevo. Leio. Traduzo. Uma traça que fala, basicamente.

27 Responses to Imago Mundi – Capítulo 1 (versão 0.1)

  1. Pingback: Tweets that mention Imago Mundi – Capítulo 1 (versão 0.1) « Talkative Bookworm -- Topsy.com

  2. Salamandras. *-* Alquimistas. *-* Minotauros. *-*

    Um alquimista soltando salamandras em um minotauro. *-*

    Nada como um bom mistério pra fazer você querer um capítulo 2. =3

    • talkativebookworm disse:

      Resolvi que vou colocar tudo que eu gosto no livro. Isso inclui salamandras, alquimistas, minotauros, cronistas…

  3. Heitor disse:

    Perfeito. Épico. Só consigo dizer isso

  4. salvaterra disse:

    gostei muito mesmo. muita vontade de ler a continuação. instigante e fantástico na medida certa.

    e não me apeguei à história só pelo ligação com meu nome não, hein? (mas que fiquei deliciado, isso fiquei, rs.)

    • talkativebookworm disse:

      Sabia que você ia gostar do detalhe do nome da terra! Tem a ver com aquele conto que já te mostrei. Que bom que gostou do texto!

  5. M. D. Amado disse:

    Deu vontade de ler mais =) (mas eu torci pelo Minotauro)

  6. Alexandre disse:

    Eu tive medo que você se valesse de uma linguagem pesadamente polida, mas dou graças a deus que você foi meramente formal e direto ao ponto. 🙂

  7. Max Mallmann disse:

    Muito bom, Ana!
    Empolgante, misterioso e com gosto de quero mais.
    Parabéns!

  8. Lucas Rocha disse:

    Nossa, Ana, não tinha melhor forma de começar do que colocar uma pitada de conspiração, vísceras e magias. Que é bom todo mundo já disse, mas tenho que ressaltar que me deixou empolgado e curioso o bastante para continuar lendo. Gostei, principalmente, das salamandras flamejantes consumindo o cara. Muito bom! x)

    • talkativebookworm disse:

      Obrigada, Lucas. Acho que manter o leitor interessado é a função básica de um primeiro capitulo. Acho que acertei!:)

  9. soueumarco disse:

    Nossa, muito bom! Confesso que o começo não me prendeu muita a atenção, exceto por ser bem escrito. Entretanto, adorei o desenrolar da narrativa e como a magia foi insirida por “pitadas”, hehe…

    Gostei bastante, acho que vou por nos favoritos e esperar por um capítulo 2 😉

    • talkativebookworm disse:

      Eu acho que deu impacto começar a descrever assim, afinal o ponto de vista é o do Rui e ele não está lá muito feliz por estar ali. Mas quando a adrenalina bateu, até ele se empolgou.

      Mas capitulo 2 só no livro.;)

  10. ramirocatelan disse:

    Ficou ótimo, Ana. Um começo chamativo e impactante, bem melhor do que os outros dois que eu já havia lido. Fico no aguardo para a publicação do livro.

    • talkativebookworm disse:

      É pq é um livro bem diferente do que eu estava escrevendo antes, Ramiro. Apesar de ser no mesmo universo que o antigo ‘Finisterra’, ‘Imago Mundi’ tem trama e tom bastante diferentes.:)

  11. Jota disse:

    Muito bem escrito e interessante. Minhas ressalvas fica qto as reações das pessoas quando o Minotauro mata o toreador, e avança em direção ao imperador. Eles deviam estar preparados para o caso de um acidente desse ocorrer. Me soou forçado eles serem salvos pelo conde de Barcelona.
    Mas fora isso, adorei. =]

    • talkativebookworm disse:

      Oi, Jota

      Bem, talvez eu não tenha deixado claro, mas eles não esperavam o ataque por causa dos feitiços de proteção que envolviam a arena. Vou rever isso!

      E que bom que você gostou!:)

  12. Flávio Medeiros disse:

    Ei, Chefa! Muito bom, hein? Muito promissor, e obviamente sustentado por uma sólida criação de ambientes e pesquisa. Chuta a lata, que tamos gostando…

  13. Eu torci pelo minotauro. Adorei o lance das salamandras!

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: