Cartas aos Jovens – O ofício do escritor

(Ou Conserto da Juventude…)

Olá, meninos e meninas que enchem o saco da tia Ana por email, msn, Gtalk, Twitter ou sinal de fumaça (felizmente ninguém veio me tocaiar na frente de casa ainda).

Tenho recebido muitas dúvidas angustiadas de jovens – na idade ou nas convicções, como diria Mestre Fabio Fernandes – querendo saber como dar os primeiros passos no espinhoso porém gratificante ofício das letras.

Para parar de ficar respondendo a mesma coisa ‘n’ vezes, vou fazer uma série de posts. Hoje, só vou dar uma introdução e fazer um breve merchan.

– O que é preciso para começar a ser um escritor?

Basicamente?

É preciso saber escrever. Só isso. Não precisa de computador, máquina de escrever, acesso a internet, um milhão de amigos, cônjuge rico ou qualquer outra coisa.

Mas quando eu digo que é o básico, é o básico mesmo. É o mínimo que você precisa.

Só que isso vem de um interpretação ao pé da letra do que é ser escritor.

Claro que você quer mais. Você quer ser o Escritor. Você quer revolucionar o mundo. Ou pelo menos vender pra cara…mba. Ou um pouquinho.

Bem, se você for realista, o que você realmente quer é publicar suas histórias, fazer com que as pessoas leiam… e torcer pra que gostem.

Esperar mais do que isso é a abertura para se decepcionar – e muito. E eu não quero isso, não gosto de ver as pessoas infelizes (com algumas exceções, já que eu não sou a Madre Teresa).

Então, para começar nesse árduo ofício, minha primeira recomendação é essa: mantenha os pés no chão. J.K. Rowling conseguiu construir um império a partir de uma edição ridícula de 500 exemplares e André Vianco chegou na Rocco tendo pago a sua primeira publicação? Eles chamam a atenção por serem exceções. Não são a regra, infelizmente. Para cada escritor estabilizado na profissão, há centenas que mal e mal vendem 1000 exemplares por ano. Isso sem contar aqueles que sequer chegam a publicar ou que demoram 2 anos para vender 300 exemplares.

‘Mas, Ana, é sério? É esse o primeiro passo para você?’

Juro. Eu acho essencial você ter essa consciência de que não vai conseguir viver dos seus escritos tão cedo e que muito pelo contrário terá que investir na profissão, com cursos, livros, oficinas, viagens, cartões de visita. A saída é convencer seus pais a te bancar (tem gente que consegue, oras) ou ter um emprego que te mantenha vivo e pague as contas.

Sim, vai ser frustrante no começo, você vai ter que escrever nas horas que conseguir roubar da sua vida. Vai dormir pouco, vai deixar de sair ou de ver televisão. Eu só posso dar um conselho aqui: tente escolher uma carreira que você goste. Se seu trabalho for recompensador, será mais fácil parar e escrever. Alguns gênios escrevem sob efeito de depressão, mas de estresse ou estafa são poucos.

É, não disse que ia ser fácil e nem que eu tinha uma fórmula mágica. No próximo post da série, prometo ser um pouco mais prática.

Agora, o momento merchan.

Vocês talvez lembrem da oficina que dei ano passado em São Paulo, intitulada ‘Escrevi meu livro, e agora?’.

As apostilas que forneci pra quem fez a oficina estão circulando por aí, não sei como. Não passei para ninguém em formato digital e as pessoas que participaram não se dariam ao trabalho de escanear pra passar pros outros. Então, como eu não vou ficar me estressando com isso, a partir de amanhã vocês irão encontrar o pequeno manual de auto-ajuda disponível de graça para download em formato pdf e – para quem não gosta de ler no computador – a venda no sistema de demanda pelo Clube dos Autores.

Por hoje, é só!

Sobre talkativebookworm
Eu trabalho numa biblioteca. Estudo História. Escrevo. Leio. Traduzo. Uma traça que fala, basicamente.

17 Responses to Cartas aos Jovens – O ofício do escritor

  1. Lucas Rocha disse:

    Adorei as dicas, Ana, são importantíssimas pra quem é deslumbrado (como eu fui, até ontem) e pensa que vai escrever o próximo best-seller que será adaptado em 3D no cinema mais próximo.

    E concordo: saber escrever é o passo mais importante (e também o mais difícil).

    • talkativebookworm disse:

      Oi, Lucas

      Assim: eu acho que tem muita gente ensinando a ‘como ser o melhor escritor do mundo segundo EU’ e poucos se preocupam em realmente preparar o pessoal que está começando. O mundo da escrita não é fácil nem glamuroso.

      Que bom que você gostou!

      • Entropia disse:

        Boa noite, senhorita Ana! Muito obrigado conhecimento proporcionado!

        Humildemente penso que o grande mistério da vida é decodificar a linguagem interior criptografada. Tudo que escrevemos resulta de uma pequena parte que ainda não nos conhecermos ser. Escrever, transmitir o vírus do conhecimento, circular o sangue da cultura, propagar a natureza do saber não deveria estar asssociada(por atos vinculativos, regrados)ao “narcismo” do best-seller. Como ainda não somos, consciência plena das nossas faculdades psíquicas, morais, intelectuais, escrevemos. rsrs

  2. Puxa, Ana Cris, valeu por disponibilizar o material. Vou acompanhar os posts de perto. É muito importante a gente ouvir conselhos e experiência de quem palmilha esse caminho a mais tempo que nós. Nem todo mundo está disposto a isso.

    Obrigadão.

    • talkativebookworm disse:

      Dri,

      Acompanhe sim que vai aparecer muita coisa interessante. Estou preparando posts com base nas dúvidas que mandavam pro quadro do Papo na Estante. Como sai do podcast, as questões ficaram no ar esperando o momento de serem respondidas. A hora é agora!:)

  3. Susana Lorena disse:

    Adorei!
    Muito bom mesmo!
    Pode parecer um balde de água fria para quem começa deslumbrado. Mas é assim mesmo.

    Lembrando que, se você gostar meeeeesmo de escrever, vai perder horas de sono felizinho da Silva!
    hihihihihi
    Aguardando os próximos posts!

    Bjs

    • talkativebookworm disse:

      Oi, Susana!

      Olha, sonhar é muito bom, mas o importante ao escolher uma carreira – qualquer que seja- é ser realista. Não quero desanimar ninguém, só dar um choque de realidade nos novatos.

      E eu quando tenho um conto a ser escrito e estou gostando, viro noites sem sequer sentir.:)

  4. Mary disse:

    Ana,adorei o texto! Lembro que logo que terminei meu romance comecei a fuçar a internet atrás de ajuda, e o que me diziam só me frustrava mais. Mas acredito que o tipo de iniciativa que você fez e faz, é muito importante para incentivar os novos escritores.

    • talkativebookworm disse:

      Valeu, Mary!

      Melhor do que ficar alimentando polêmicas vazias sobre o trabalho alheio ou reclamar de ausência de comentários, o fandom-blogosfera especulativa seria muito melhor se as pessoas estivessem mais dispostas ao debate e a troca de ideias.

      Eu estou fazendo a minha parte!:)

  5. Como sempre, excelentes dicas da tia ana!

  6. Heitor disse:

    Muito bom texto Ana, para aqueles que ainda não caíram a ficha de que esse mundo não é fácil, e que excessões são raras. Como sempre ouvi a consciência dizer (gritar, na verdade :P): espere sempre pelo pior.

    Quanto ao material, já to baixando assim que for disponibilizado \o

    • talkativebookworm disse:

      Heitor

      A Dri deve lembrar da Miss Marple que costumava dizer que se você espera sempre pelo pior, quando o melhor vier você terá uma boa surpresa. E se o pior acontecer, você estará ao menos preparado.

      Mas assim: o ponto aqui não é ser pessimista, mas ter a perspectiva que o sucesso estrondoso de alguns autores chama a atenção pelo seu carater excepcional.

  7. Alex Bastos disse:

    Assim, não sei se os leitores vão chorar depois de descobrir certas verdades reveladas por você. Vou querer 1 pdf!

  8. Daniel Borba disse:

    Oi Ana,

    Muito legal o post. Agora vou aguardar a apostila…hehe… Gostei também do post sobre Fantasia Histórica.

    Bjos.

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