When the world falls down…

Eu não ia postar nada aqui sobre a tragédia que se abateu sobre Niterói. Achei que meus desabafos no twitter já tivessem sido o suficiente. Lá eu esbravejei contra o Poder Público, principalmente contra a Prefeitura de Niterói, na figura do atual Prefeito, Jorge Roberto Silveira, e do seu grupo político, que se reveza no poder há duas décadas.

Não é o suficiente. Jamais será suficiente.

Esses rostos que vocês vem agora no Jornal Nacional, essas caras chorosas que perderam tudo não são pobres coitados. São pessoas. Pessoas que sonham, que batalham, que tentam ter vidas dignas e dar um futuro aos seus filhos. Gente que tem suas pequenas ambições, fazer uma festa de 15 anos para a filha, comprar um carrinho melhor, conseguir viajar pra Cabo Frio nas férias, colocar os filhos na faculdade, mesmo na particular. Mesmo que custe muito.

Eu sei porque os conheço. Convivi com eles boa parte da minha vida. Já as atendi na padaria, já trabalhei com elas atrás de um balcão. Fui a festas, a churrascos, vi as fotos, ajudei em matéria de escola dos filhos, emprestei livros – dei alguns também.

Uma das maiores lições que meu pai vai me deixar é a da humildade. Mesmo quando tinhamos dinheiro para nos considerar ricos, ele nunca deixou que eu e minha irmã olhassemos as pessoas de cima. Nas férias, nossas coleguinhas iam para Buzios e Arraial do Cabo. Nós, iamos para Itauna, não a praia de Saquarema, mas o bairro humilde em São Gonçalo onde morava a senhora que ajudava minha mãe com a faxina. Passavamos lá semanas, brincando com a filha dela, subindo em árvores, fugindo de galos ariscos, brig(nc)ando na rua e umas com as outras.

Anos depois, quando meu pai conseguiu a sua padaria, decidiu que se quisessemos mesada, teriamos que trabalhar lá. No começo, foi castigo, mas depois virou hábito e gosto – trabalhei com eles até entrar na faculdade e mesmo depois continuei ajudando. Eu vivia na padaria e foi com os funcionários do meu pai que eu compartilhei muita coisa da minha adolescência. Eles me tratavam as vezes como a filha do patrão, mas geralmente eles me tratavam como uma amiga.

Muitos desses que eu conheci, durante 18 anos, vivem nas comunidades atingidas: Morro 340, Morro do Castro, Morro do Estado, Beltrão, Cafubá, Cantagalo, Maceio, Cubango… e mesmo no morro do Bumba. Eu morei durante o meu primeiro ano de casada na Travessa Beltrão, onde oito pessoas morreram soterradas.

Até agora, as notícias que eu tenho são que pelo menos as pessoas mais próximas estão bem, mas perderam muita coisa. Alguns perderam tudo, menos a vida. Perderam a casa, a familia, documentos, a sua própria história e a sua memória, enterradas em montanhas de lixo e lama.

Só que essas pessoas não são lixo. E não são burras.

Elas não moram em encostas e lugares de risco por gosto e escolha. Eles não colocam a sua vida e a dos filhos em risco por opção.

É ao contrário. Eles fazem isso por falta dela.

O ocupamento desordenado de Niterói, que vem agressivamente aumentando a população desde a fusão dem 1975, tem se agravado nos últimos 20 anos. Os governos sucessivos de Jorge Roberto Silveira e seus aliados tem se preocupado muito mais em maquiar a cidade e alterar o plano urbano do municipio para torná-lo agradável a grandes investimentos imobiliários do que investir em obras de infraestrutura. Não houve um plano de transito, urbanização… e não houve contenção de encostas.

O senhor prefeito declarou ontem que é mais barato remover e realocar essas familias do que fazer obras de contenção. Detalhe que isso veio do responsável pela construção do Museu de Arte Contemporânea, obras de mais de US$ 1 bilhão.

Mas a tragédia no Bumba é ainda mais triste. Há anos se sabe que aquela area é de risco e que deveria ser desocupada – e o Poder Público, esse mesmo que disse que é mais barato realocar, além de não tê-lo feito, ainda investiu em obras de urbanização no local.

E agora, claro, eles vem a público culpar as vitímas – é como dizer que a mulher que foi estuprada teve culpa por estar usando minissaia.

E as pessoas retirando a terra de cima de suas casas – mas o Estado colocou bombeiros para limpar o Maracanã, afinal não se podia adiar o jogo do Flamengo.

Não dá para descrever aqui o meu desespero e o meu desalento ao ver a cidade que eu amo, que viu a minha irmã e eu crescermos, que meus pais escolheram para morar depois de atravessar um oceano; completamento destruída. Ao ver pessoas com quem eu convivi toda a minha vida terem suas vidas arrasadas pelo descaso das autoridades que deviam protegê-las.

Aqui na minha rua, um deslizamento soterrou um comodo de uma casa e o quintal do vizinho desabou no quintal da minha mãe – a varanda dele está quase despencando. Mas aqui, ninguém se feriu.

Aqui.

Em Niterói, mais de 90 mortos. Mais de 1000 desabrigados.

Estevão esteve hoje no alto do Morro do Bumba, a trabalho e tirou essa foto:

Aqui vão três links com informações sobre como, onde e o que doar.

Se você mora longe, fora do Estado e quer ajudar, entre em contato pelo email anacrisrodrigues@gmail.com – eu vou fazer doações direto às escolas que estão com os desabrigados. Se você quiser ajudar, pode depositar dinheiro na minha conta (ou nas do Estevão, temos contas no BB, Caixa, Bradesco e Banestes), dizer o que você quer que compre que eu compro e mando a nota fiscal para você.

Cariocas, doem sangue. Para saber os endereços e horários dos postos do Hemorio, ligue para o Disque Sangue 0800 282-0708

Ajudem a minha cidade a voltar a fazer jus ao seu nome de Cidade Sorriso.

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11 comentários em “When the world falls down…

  1. As tragédias se tornam grandes quando ganham nomes, endereços, sonhos e objetivos de vida, ainda que pequenos. São pessoas que estão em questão, não números ou estatísticas. As mesmas pessoas que elegem políticos e que deveriam trabalhar em prol do bem estar das pessoas, não das empreiteiras ou de seus próprios bolsos.
    Ano passado em uma matéria da especialização estávamos discutindo plano diretor, estatuto da cidade e planejamento urbano. A conclusão foi a óbvia: o Poder Público pouco se importa pelo bem-estar das pessoas, que as tragédias aconteçam, há coisas mais importantes (quais?) para prestar atenção.
    E para depois dizer que “as pessoas moram nas ocupações porque querem”. Porque querem? E quem não dá transporte, emprego, saúde, educação e segurança caso eles sejam realocados para conjuntos habitacionais? Porque é uma afronta tirar a pessoa de sua casa, na área de risco que seja, e não dar a ela alternativas.
    Que a gente se lembre de tudo isso agora em outubro, na hora de elegermos nossos representantes, e sempre. Porque pessoas, o povo, não são só números para servir de massa na hora das eleições.

  2. Oi, Ana.

    Quando vi as notícias trágicas no Estado do Rio e, principalmente, em Niterói, lembrei que tenho uma amiga na cidade. Não consigo nem imaginar o drama que o povo de Niterói vive e me impressiono de como a situação pode ter chegado a tal ponto. É tanto descaso do poder público que chega a dar asco.

    Vou entrar em contato via e-mail pois quero mesmo ajudar. Espero mesmo que o povo de Niterói possa se reerguer, pois estou certo que, como todo o povo do Brasil, essa gente é mais forte que a tristeza.

    Muita força pra todos em Niterói.

    Um solidário abraço mineiro!

  3. Ana, sua vizinha de cidade está aqui dando uma força como pode. O pessoal do prédio está mobilizado fazendo doações e segunda-feira vai começar uma campanha na escola da minha filha, onde três funcionários perderam suas casas.

    As pessoas estão nas ruas, retomando suas vidas, mas para alguns ela vai ter que começar de novo, então vamos ajudar. E fazer um minuto de silêncio, em tristeza e indignação, pelos que estão mortos ou enfrentando a tragédia de perder seus entes queridos.

  4. Ptz, aqui em Itajaí, SC, onde moro, é uma região que sofre demais com as chuvas torrenciais. O problema nestes pagos é a enchente, mas deslizamentos de terra também ocorrem com frequência, como o Morro do Baú, pertinho daqui. A cidade entra num clima de tristeza coletiva tão grande que só o morador destas lugares, vítimas da fúria da natureza, aliadas ao a incompetência do poder público, podem sentir. É muito triste. Algo que você, Ana, fala com muito propriedade!

  5. Ana,

    O que me indigna mais é ver a imprensa colocar a culpa nos moradores. Parece que a mídia não quer se indispor com quem lhes divide o poder. Realçam mais que os erros são dos cidadãos e apenas “cumprem tabela” falando sobre a responsabilidade do poder público.
    É vergonhoso!!!
    O povo tem que retomar o poder!!!!

    “Se todo o poder emana do povo, então
    que venha a democracia direta eletrônica e o povão, via Internet,
    Celular ou TVDigital, assine leis certificadas digitalmente
    e as realizem pela força das ações articuladas no mundo virtual para o real.”

    http://denismoura.blogspot.com

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