Um conto para ajudar – Isabel e a roseira

Inspirado na iniciativa do site Crossed Genres, o FC e Afins começou uma roda de contos para auxiliar as vítimas do terremoto no Haiti.

Informações sobre onde e como doar aqui, além dos outros contos participantes.

***

A roseira de Isabel

Todos ignoravam Isabel. Não quero dizer com isso que fosse proposital ou por maldade. Só que às vezes, o mundo anda depressa demais e pequenos detalhes acabam sendo deixados de lado ou esquecidos.

E na vida das pessoas ao seu redor, Isabel era um pequeno detalhe. Os pais tinham se separado quando a menina ainda mal sabia falar, o resultado fora que a mãe trabalhava demais para manter a casa e o pai mal e mal a via nos fins de semana em que estivesse na cidade, já que trabalhava como piloto de avião. A empregada cuidava da casa, e Isabel entrava nesse ‘da casa’ como se fosse uma das mobílias. Os avós moravam longe,na cidade onde seus pais nasceram e na qual seus tios e tias ainda viviam. No Natal mandavam um presente para a menina, mas, na amargura dos seus oito anos, desconfiava que não se lembrassem do seu nome.

Mesmo na escola, chamava pouca atenção. Não era extremamente inteligente, porém também não tinha problemas de aprendizado. Pouco falava com os demais alunos, não procurava os professores que, atarefados com crianças hiperativas e pais neuróticos, nem se lembravam da existência da menina.

Isabel se importava com isso, claro, no entanto de algum jeito sabia que só lhe restava viver da melhor forma possível. Ficava no quintal, sem fazer barulho, com seus brinquedos e a gatinha siamesa – talvez a única criatura que realmente se desse conta da existência física e real da menina. Também não era criativa em excesso, então reproduzia com suas bonecas o cotidiano que a cercava.

Se isso fosse tudo o que tivéssemos a dizer sobre Isabel e sua vida, poderíamos parar por aqui. Afinal, nos quintais de muitas casas e nos pátios de muitos prédios, existem muitas crianças como Isabel, que passam em branco. Talvez, na adolescência, com a perturbação que é costumeira nessa fase, consigam chamar atenção para si – e geralmente de maneira errônea.

Porém, algo extraordinário aconteceu na vida da pequena Isabel.

* * *

No último pacote de Natal que chegara de seus avós, Isabel notara um embrulho estranho. Era um pote plástico com um anel para fazer bolhas de sabão. O presente simplesmente provava para Isabel que a família distante não lembrava sua idade, sequer se era uma menina ou um menino.

O pote ficara jogado de lado durante meses. Isabel preferira brincar com suas bonecas no quintal, até que em um dia de primavera, uma brisa fresca soprava, levando as roupinhas para longe. Resolvida a brincar com algo novo, Isabel lembrou do presente guardado a tanto tempo e foi buscá-lo.

Passou um tempo soprando e olhando as bolhas subirem. Nenhuma ia muito alto, estourando antes de atingirem sequer o beiral da casa. Para a menina, não havia problema. Gostava da sensação de criar algo novo, mesmo que tão breve. A brisa trouxera pequenas nuvens ao céu, o sol parecia brincar de esconder-se, revelando-se em um momento e sumindo em outro. Os raios faziam efeitos curiosos nas bolhas, como arco-íris condensados.

Em um momento, pensou ter visto algo diferente dentro de uma das bolhas. Um rosto vago, muito espantado, olhando-a. Mas piscou os olhos e a impressão passou. Continuou a soprar as bolhas, ressabiada, tentando perceber algo mais.

Nada mais de anormal aconteceu e Isabel voltou a se distrair com as bolhas. Elas subiam sem pressa, agora que a brisa amainara. Foi quando Isabel notou que as bolhas seguiam um padrão e estavam todas indo para o mesmo lugar, como se seguissem um caminho. Podiam rodopiar, girar, se desviar um pouco mas estouravam na ponta de uma roseira bem grande.

Claro que a menina ficou curiosa e se dirigiu até aquele canteiro, com cuidado. A primeira vista, nada de anormal. As folhas balançavam de leve no vento fraco que corria e as duas flores que já despontavam em botão acompanhavam o ritmo. Estava pensando se não teria sido apenas impressão quando dois olhinhos piscaram, a observando detrás de uma rosa.

Isabel pulou, bastante espantada.

‘Olá, menina Isabel. Não queria assustá-la.’

‘Quem é você?’

O homenzinho saiu devagar de onde estava e se inclinou para cumprimentá-la.

‘Meu nome é Joaquim e sou a fada responsável por esta roseira.’

‘Como você pode ser uma fada? Você é…’

Ela não terminou a frase, pois Joaquim a interrompeu.

‘Além de homem, sou negro, né? Se eu dissesse que sou um saci, você entenderia melhor?’

Isabel assentiu com a cabeça. Afinal, fadas eram moças ruivas, pequeninas e com asas que moravam em lugares frios, não homenzinhos negros, de boina vermelha e um charuto no canto da boca.

‘E você tem as duas pernas…’

‘É porque eu não sou um saci, menina, foi só um exemplo. Digamos assim: eu sou uma fada porque sou parente das que aparecem nos livros e nos desenhos animados. Somos todos fadas, só que a nossa aparência depende do lugar onde moramos. Não é assim como as pessoas também?’

Lembrando do que via nos filmes e na tevê, Isabel concordou. Ela mesmo não era ruiva, tinha cabelos pretos escorridos que a mãe dizia vir de uma avó índia muito distante no tempo.

‘Mas o que você está fazendo aqui, no meu quintal?’

‘Já não falei, menina Isabel? Cuidando da roseira. Ela estava muito triste e solitária, eu estava passando e ouviu seu choro. Como não tinha mesmo um lugar certo para ir, resolvi ficar aqui por uns tempos até que ela pudesse se recuperar…’

Isabel não sabia que flores podiam ficar tristes ou mesmo sentir solidão. Ficou muito admirada com isso.

‘E você vai ficar muito tempo por aqui?’

Joaquim balançou a cabeça, parecendo triste.

‘Na verdade, menina Isabel, vou ter que ir embora logo, logo, pois me chamaram em outro lugar… Foi por isso que pedi ao vento para trazer as suas bolhas de sabão até aqui. Precisava pedir um grande favor a alguém de bom coração.’

Ela não entendeu que ele se referia a si mesma e esperou que o homem-fada continuasse. O vento continuava a soprar e a roseira prosseguia na sua dança.

‘A roseira ainda está triste… precisa de companhia para se fortalecer e continuar viva. Você não quer fazer isto no meu lugar, menina Isabel?’

O vento parou de repente e ela reparou que o dia estava muito quente. A roseira, coitada, ao contrário de Isabel, não estava incluída na noção de ‘da casa’ que a empregada tinha e estava descuidada, entregue ao abandono. Formigas cortavam suas folhas, a terra estava seca, alguns galhos estavam quebrados…

Isabel aceitou a missão e Joaquim desapareceu no mesmo instante. Por anos a fio, a menina cuidou da roseira. Fez mais , até: plantou todo um jardim naquele canto do quintal e nunca mais a planta ficou sozinha. Quando Isabel cresceu, continuou a morar ali, naquela mesma casa, cuidando da roseira e do jardim quando não estava trabalhando nos jardins da cidade.

E num dia de primavera, a filhinha de Isabel, Beatriz, soprou bolhas de sabão. Sorrindo, a jardineira percebeu que o vento ainda as levava para o mesmo lugar perto da velha roseira.

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Sobre anacristinarodrigues
Eu trabalho numa biblioteca. Estudo História. Escrevo. Leio. Traduzo. Uma traça que fala, basicamente.

3 Responses to Um conto para ajudar – Isabel e a roseira

  1. Pingback: Ajuda para a tragédia do Haiti « Ficção Científica e Afins

  2. Jorge says:

    Estória leve, simples e muito boa, como uma brisa na tarde de verão quente !
    Parabéns !

  3. Pingback: O que vem por aí – As difíceis escolhas para Anacrônicas 2 « Talkative Bookworm

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