WorldCon – Dia 1

Então, amigos da Rede, voltei oficialmente da 67a WorldCon. E preciso dizer duas coisas:

– Estou impressionada.

– Consegui abraçar o Neil Gaiman!!!!

Pronto, agora posso narrar a convenção com mais calma.

Sei que prometi relatos diários e blablabla, whiskas sachê. Não deu mesmo. É tanta, mas tanta coisa acontecendo – algumas ao mesmo tempo – que eu me senti vítima de uma enxurrada de informações, pessoas novas, línguas estranhas, sotaques diferentes, comidas incomuns… Eu chegava no hotel, abria a página do WordPress e não conseguia postar. Entrava em contato com o Estevão, às vezes gravava um depoimento pro Papo na Estante, as forças acabavam e eu desabava na cama.

E isso porque fiquei no hotel que serviu como quartel-general da convenção. Explico: com o tamanho das convenções norte-americanas ( e mundiais), que chegam a mais de 4000 pessoas, o costume é ter um QG funcionando pelo maior tempo possível. Para isso, eles ocupam salas e quartos em um hotel próximo do centro de convenções. Nesse hotel, acontecem as festas, organizadas por editoras, grupos de escritores e participantes da convenção – além da famosa ‘consuite’, um verdadeiro ponto de encontro, com bebida e comida a vontade para os participantes.  Sempre que passei por lá, tinha um grupo conversando.

O mais impressionante para mim foi o gigantismo da convenção. O Palais des Congrés é imenso e a WorldCon o ocupou quase que por completo. Porque o que tinha de gente por lá era realmente de ficar de queixo caído.

E para algo desse tamanho, até que foi muito bem organizado. Não houve muitas falhas visíveis, talvez apenas as mudanças de salas/horários que não foram comunicados com antecdência.

Tirando isso, não posso reclamar.

Tive a sorte de dividir um quarto com duas pessoas sensacionais, que são – como eu – parte do Broad Universe, associação que tem como objetivo divulgar e incentivar a produção de Ficção Especulativa por mulheres. Inanna Arthen e Trisha Wooldridge foram uns amores comigo e tiveram o máximo de paciência com meu inglês macarrônico, principalmente no treinamento para o Rapid Fire Reading e quando eu tive um problema no domingo a noite.

Aliás, tenho que ressaltar aqui: o clima é de camaradagem, todo mundo fala com todo mundo – e mesmo quem como eu fica travado no meio de estranhos acaba se soltando. Por exemplo,  passei quatro dias aguentando zoação do pessoal da Heinlein Society, que ocupava uma mesa do lado da nossa (Broad Universe).

Cheguei a Montreal um dia antes do começo da WorldCon, para descansar e estar disposta – afinal, paguei os tubos para participar do evento, não queria perder nada, nada, nada. A cidade é linda, florida, colorida – e estava uma temperatura agradável, que os canadenses chamavam de calor.

E é uma cidade bem multicultural, com grupos de várias partes do mundo vivendo dentro dos mesmos limites urbanos. Não vou dizer que todo mundo more nas mesmas vizinhanças/condições, porque não é bem assim.

Se você quiser ouvir meus relatos, o Papo na Estante publicou uma série de podcasts meus em Montreal. Mas vou aproveitar aqui e dar um resumo do que curti da programação:

Dia 1 – Quinta,

Assisti a três eventos + a cerimônia de abertura.

Às 14:00 hs, teve um Question &Answers com Neil Gaiman. O autor é simplesmente a simpatia em pessoa, não perde o bom humor e não tem um pingo de arrogância. Quando perguntado sobre quais das suas obras tinham sido mais significativas, no sentido de transformar sua carreira como escritor, respondeu que Sandman era um marco, até por ter sido sua profissionalização e – surpreendentemente – disse que Good Omens, escrito a quatro mãos com Terry Pratchett, transformou-o num escritor melhor, mais preocupado com o sentido do que fazia. Falou sobre a gentileza do criador de DiscWorld e de seus insights, que conseguiram melhorar e muito o senso de humor do livro. Comentou uma resenha negativa, dizendo que boas ou ruins, resenhas significam pouco para o escritor – é apenas mais um termometro da recepção do liivro, não são verdades inquestionáveis.

Falou sobre a vontade de escrever uma minissérie sobre Delirium/Delight, de Sandman, mas que infelizmente a DC não cooperou para que isso acontecesse. E que ele sabe como Delight tornou-se Delirium – só que não conta nem para Jill Thompson. That’s mean.

Quando perguntaram sobre quais trabalhos ele não gostaria que fossem adaptados, ele indicou Sandman. Para Gaiman, apenas uma radio-série de 75 eps da BBC faria justiça ao lorde dos Sonhos.

Falou ainda sobre duas vontades: escrever um musical e finalizar Miracleman.

Ao final, quando ele estava saindo, reuni toda a minha coragem para falar com ele. Dei um “AnaCrônicas”, explicando que era o meu primeiro livro e que tinha uma citação dele como epigrafe. Para minha suprema felicidade, ele me parabenizou, agradeceu e perguntou se eu era brasileira. Para se despedir me deu um abraço e um beijo no rosto.

Sim, pessoas. Eu consegui.:)

A mesa sobre editar na Europa e na América (The editing game: America vs Europe, com Frank Ludlow, Tom Clegg, Jean-Paul Dunyach, Brian Hades ) infelizmente se prendeu mais na parte da tradução/adaptação do que realmente falou sobre ediçao e as diferenças dos dois lados do Atlântico. Uma pena porque eu duvido que a questão seja somente adaptação/aculturação. Há diferenças históricas do mercado que não se resumem a isso.

Logo depois, fui assistir a mesa moderada pelo holandês Jetse de Vries sobre FC mundial, com representantes da Espanha (Alvaro Zinos-Amaro), Noruega (Tore Høie) e Japão (Kyoko Ogushi). De Vries (que para quem não sabe é responsável pelo projeto ‘Shine’, uma antologia de FC otimista, e pelo twiterzine Outshine) foi um ótimo moderador, mas falou pouco sobre como é a FC na Holanda. Destaque para a produção japonesa de light novels, citada por Ogushi como sendo praticamente a única literatura de FC do país, e para a interação entre Espanha e a América Latina destacada por Zinos-Amaro, possibilitada pela internet. Infelizmente, não consegui perguntar se, como no Brasil, essa interação é mais uma conversa ou resultou em publicações.

A cerimônia de abertura foi belíssima e muito emocionante. A mestre de cerimônias foi a escritora canadense Julia Czerneda que conduziu tudo com muito bom-humor. Eu me arrepiei toda quando Robbie Bourget and René Walling declararam a convenção oficialmente aberta.

E esse foi apenas o primeiro dia de cinco em que submergi completamente no turbilhão da FC mundial.

Amanhã vai o relato do segundo dia!

Sobre anacristinarodrigues
Eu trabalho numa biblioteca. Estudo História. Escrevo. Leio. Traduzo. Uma traça que fala, basicamente.

17 Responses to WorldCon – Dia 1

  1. Pingback: Twitted by anacriscrod

  2. Max disse:

    Oi, Ana!
    Muito legal o relato. Já estou ansioso pelos próximos.
    Bjs.

  3. carlosanime disse:

    Legal, conheceu o Neil Gaiman. Também sou fã dele…

  4. Giseli disse:

    Ótimo relato, Ana! Achei legal tu disponibilizar uma versão escrita também, já que podcast não dá certo para mim… rs.
    Até que enfim tu conheceu o Neil! Tomara que ele aprenda português para ler seu livro! =D
    No aguardo do segundo relato 😉

  5. Ludimila disse:

    Eu teria adorado ouvir essa discussão sobre tradução/ adaptação 😉 Mas, de fato, o título da mesa dá a entender que se falaria das outras questões também.

    Muito animador seu relato, Ana. Parabéns pela participação!

  6. Gerson disse:

    Ei, você está de volta!
    Cheia de relatos!!
    Vamos bebemorar!!!

    Beijos,
    Gerson.

    P.S. – Manda logo os dias 2, 3, 4, 5…

  7. fabi on eves disse:

    Que legal Ana, bacana seu relato, e fiquei muito feliz pela sua sorte com o Neil Gaiman, é tão bom a gente ser fã e está de frente com quem a gente gosta.

    Vc falou da grandiosidade do evento e organização, ainda não tive num desses, apenas alguns em Sampa, mas nestas proporções é mesmo coisa de louco. Uns amigos tiveram num na Europa recentemente e ficaram espantado pela organização e acima de tudo unidade do povo fã+, situação um pouco (ou muito em falta) por essa bandas, fã é fã e pronto sem essa de gueto ou meu gosto é melhor eu o seu e por isso não me misturo com seu estilo… Os fãs brasileiros tem que aprender a lidar melhor com isso.

    Embora até goste de podcast, e ame inovações tecnológicas, ainda não assimilarei tão cedo essa nova onda, ou fico com a leitura ou dou um passo, e fico com o Videocast (que gosto mesmo), então, se vc puder relatar mais ficarei feliz, acredito que muitos.

    Abraços e sucesso.

  8. Eduardo Torres disse:

    Parabens e seja bem-vinda de volta, Presidente!
    O Brasil nao poderia estar melhor representado!
    🙂

  9. Romeu Martins disse:

    Muito legal, Ana! E é ótimo saber que o Gaiman é mesmo uma pessoa bacana ao vivo!

  10. Rafael "Lupo" Monteiro disse:

    É a Ana mandando bem mais uma vez. Parabéns! Estamos esperando novos relatos.

    Um abraço!

  11. Marta disse:

    Ana, parabéns, pois você não apenas esteve lá com os deuses, como ousou tocá-los. Eu já sabia que ele era gente fina, pois na FLIP, em Parati/RJ, assisti a alguns depoimentos dele e ele se mostrou um cara afetivo e sem estrelismo. Mas, conseguir chegar e conversar com o Gaiman, vencendo todas os impedimentos objetivos e subjetivos, é uma experiência maravilhosa e você ainda conseguiu deixar o teu trabalho com ele!!!

    Tá show o teu relato!! Com certeza todos curtimos junto a tua estada lá!!

  12. Ivo Heinz disse:

    Muito bom Ana, imagino o que você ainda tem pra nos contar.

    Estou curioso.

  13. Danilo disse:

    Excelente relato Ana! Muito legal!
    Estou aguardando os próximos!

  14. Paulo Sunao disse:

    Cara amiga Ana,

    Fantástica a descrição e a emoção do abraço com o ídolo dos SciFi fans 🙂

    Parabéns novamente pela oportunidade que você teve 🙂

    UGA,
    Paulo Sunao

  15. Pingback: DROPS | Tudo

  16. Pingback: DROPS | Tudo

  17. Pingback: DROPS | Tudo

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: