O Templo do Amor


With the fire from the fireworks up above
With a gun for a lover and a shot for the pain
You run for cover in the temple of love
Shine like thunder cry like rain
And the temple grows old and strong
But the wind blows stronger cold and long
And the temple of love will fall before
This black wind calls my name to you no more

The Sisters of Mercy – Temple of love

Parei em frente ao velho edifício, sem ligar para os fogos de artifício explodindo por cima da minha cabeça. Eu estava armado e também dopado. Meus sentidos ao mesmo tempo adormecidos e excitados. Nada poderia me impedir. Na noite fria, eu era novamente o caçador que sempre fui. Um predador. De todos os matadores conhecidos nos Mil Mundos, sempre fui tido como o mais certeiro. Aquele que não erra, incapaz de perder um tiro ou de calcular mal uma armadilha. Muitos caíram pelo preço certo. Líderes planetários, contrabandistas ricos, maridos traidores, mulheres corruptas, herdeiras ingênuas. Até mesmo outros assassinos de profissão. Não mantive conta de quantos já se foram. Sei que foram muitos.

O nome da minha próxima vítima é Ophra. Cantora e sacerdotisa do Templo do Amor, a mais bela mulher da galáxia, minha amante. E fui contratado para matá-la. Ordens claras, uma boa grana e a promessa de mais trabalhos fizeram esmaecer a lembrança de seu corpo esguio, seus cabelos anelados e seus olhos, ao mesmo tempo doces e distantes, e de todos os sentimentos que estes provocavam em mim. Só o ciúme permaneceu. Nada mais improvável, até mesmo incorreto, do que um Arauto da Morte ter a Sacerdotisa do Amor. Sim, eu já tinha ouvido isso. Várias vezes. Principalmente a parte de “Arauto”. O advento das máquinas e de uma civilização universal trouxe de volta certo nível de obscurantismo. Deixamos a prisão de vivermos em um único sistema solar, mas voltamos a nos abrigar na sombra de religiões múltiplas.

Sim, diversos deuses. Não um ressurgimento do paganismo terrestre. Algo mais universal. E mais sombrio. No planeta natal, eram homens com faces e almas. Divinos, mas seres com humanidade. Agora, os filhos da Terra, alastrados como pragas universais, cultuavam forças. Destruição, Ódio, Amor, Morte, Vida… As sensações guiavam a humanidade como faróis corruptos. Balancei a cabeça, tentando clarear os pensamentos. O narcótico corria pelo meu sangue, fazendo com que me afundasse nesse mar de dúvidas e questões. Eu não questionava. Não duvidava. Por não acreditar. Só aquele que crê pode duvidar. Não foi isso que Ophra me disse? Na primeira vez… Quanto tempo? Nunca fui bom de contas. Não importava. Ela precisou de mim, dos meus serviços. E ao vê-la percebi…

Não sabia mais. O convite para ir ao templo em uma noite de festival interno havia me surpreendido pouco. O amor mata, e os que o servem também. Só que geralmente de forma indireta e lenta. Às vezes, precisa de ajuda. Para isso, existem pessoas como eu. Nunca pensei que seria uma das Sacerdotisas. Pelo pátio, espalhados, misturados, trigo e joio, os servidores templários e seus convidados. A perfeição daqueles dedicados ao Amor misturada às mesquinharias dos seres que só procuram o prazer. Olhava a cena de longe, me interessava mais as criaturas do que a criação feita para eternizar a luxúria. Pouco entendia de arquitetura, menos de arte. Os prédios só me interessam enquanto ambientes de caça ou refúgio, e aceitava manifestações artísticas como pagamento, se fossem bem cotadas. A construção grandiosa e elaborada, preparada para acolher e despertar os sentidos, com pinturas e esculturas a cada passo, não funcionava com minhas sensações mortas. Meu interesse era nos ocupantes do salão principal. Esperava o momento quando um deles iria se aproximar de mim e sussurrar um nome em meu ouvido.

“Do que você tem medo?” Voz de metal. Frio. Sem olhar em sua direção, respondi com a verdade. Nunca temi. “Você mataria o amor?” Percebi naquele momento que estava falando com meu futuro empregador. Outra vez, não menti. Pois pelo preço certo, até o Líder Universal cairia duro. Foi nesse momento que uma mão leve tocou o meu cotovelo esquerdo. Ainda sem ver quem estava me acompanhando, segui para o interior do templo.

Salas, salas, salas. Uma sucessão de aposentos que dava a impressão de inconstância, como se os quartos e salões mudassem de lugar no instante mesmo em que olhávamos para eles. Todos com portas iguais. Manchas coloridas, tintas espalhadas nas paredes, formando pinturas murais retratando instantes de luxúria, prazer e dor congelados em paredes antigas como a nossa história nesse mundo. Antes mesmo de construirmos qualquer prédio administrativo, fábrica ou residência, furamos o solo desse planeta para construir dois templos gêmeos. Amor e Morte. Em pólos opostos na esfera planetária, de cores distintas e a mesma arquitetura surreaista.

O cômodo em que entrei era pequeno. Iluminação fugidia, que não me deixava ter a real dimensão de suas medidas, ou mesmo ver quem estava ali. A voz que me saudou era quente. Sufocante. Um deserto de sons invadiu a sala. Eu não sentia frio antes, porém a sensação era de que só a partir daquele momento eu estava aquecido. Percebi imediatamente quem era a outra ocupante da sala. Uma sacerdotisa cantora, das que sabem enfeitiçar com a voz.

Bloqueei a mente. Concentrei-me em apenas entender, sem perceber as nuances. Ela perguntou se eu aceitaria o serviço. Matar a Sacerdotisa Principal, para que ela pudesse assumir. Quando perguntei se isso não seria algo impróprio, a resposta foi que o Amor às vezes envelhece e torna-se inútil, sem perceber. Sempre odiei essa forma metafórica de falar. Mas não deixei de aceitar o serviço por causa desse pequeno detalhe.

Poucos dias depois, cumpri minha parte no contrato. Sem alarde, como se fosse realmente um Arauto da Morte cumprindo o seu papel no equilíbrio cósmico. Um tiro silencioso em uma noite qualquer e nenhuma tristeza. Voltei ao Templo para receber o combinado. Dessa vez, levaram-me ao Grande Salão, onde fui recebido pela recém-empossada Sacerdotisa. Pela primeira vez, eu a vi. Olhos cor de canela e cabelos negros anelados. O rosto de alguém ensinado a fingir ser o que realmente é.

Foi quando o Arauto da Morte rendeu-se à Voz do Amor. A minha consciência não guarda mais os pequenos detalhes de como começou. Apenas lembro que não demorou para que estivéssemos nos braços um do outro. O deserto de sua voz tornou-se o oásis em que eu me abrigava do mundo.

Continuamos a ser o que éramos antes. Eu, assassino. Ela, sacerdotisa. Eu matava por profissão. Ela amava por serviço divino. Assim passaram-se anos, décadas… Talvez séculos. Vê-la com outros acendia em mim uma sensação nova, inesperada, que a custo sufoquei inutilmente. Ela cresceu. Tornou-se maior do que o sentimento por Ophra. Por isso, quando fui procurado pela mesma voz fria em uma festa, aceitei o serviço. Agora, era minha amante, a ser assassinada para que outra chegasse a ser a maior dentre os que dizem que “o Amor é a Lei”.

Dessa vez, não estava apenas fazendo o meu serviço. Acabara tornando-se pessoal. Não ia mais tolerar o sentimento de ter que dividi-la com outros.

Escolhi o dia do Festival. O único dia em que ela deixava o Templo sem proteção, quando todos podiam ter acesso às sacerdotisas. A morte da predecessora de Ophra deixara as sacerdotisas desconfiadas e alertas. Seguranças armados as protegiam sempre. Exceto em uma única ocasião durante todo o ano.

O Festival. Alguns dizem que é a reminiscência de tempos arcaicos, quando morávamos todos sob o mesmo Sol. A ocasião em que esquecíamos o lado humano e deixávamos aflorar a besta. Mas naquele momento, as origens pouco me importavam. Apenas sabia que não haveria ninguém sóbrio o suficiente para a me impedir. O amor e os alucinógenos manteriam seus sonhos de luxúria e a consumação destes no topo de suas preocupações. Nada poderia protegê-la de mim. O Amor iria curvar-se à única certeza do Universo: a Morte.

Parado em frente ao velho edifício, não ligava para os fogos de artifício explodindo por cima da minha cabeça. A arma parecia pulsar em minhas mãos. Sentia a droga correr por todo meu corpo, entorpecendo meus sentidos. Um bloqueador de sensações, segundo o contrabandista interplanetário que fora o vendedor. Isso manteria os acordes arenosos de Ophra longe da minha mente.

O cortejo saiu do Templo, para ocupar o grande pátio externo. Ela parecia um anjo no meio da grande procissão, um anjo-demônio de vestido negro, levada em um dossel, olhando as pessoas reunidas na praça externa. O véu levantado deixava toda a sua beleza ofuscar as luzes da noite e a sua voz… Eu sempre caía em transe quando ela entoava as canções. Não havia palavras que eu pudesse compreender na letra, escrita em tempos imemoriais. Lembranças de um mundo quente, com uma estrela brilhando no céu, aquecendo dias e noites. Já assistira inúmeros desses festivais. A canção aprisionava quem a escutasse em um crescendo de ânsia e desejo. O ritmo normalmente me prendia e me alucinava. Mas não hoje. Hoje havia chegado à festa já alto, sentindo a droga correndo pelo meu corpo. Precisava me manter longe do feitiço daquela mulher, por tempo suficiente para que eu a matasse.

A procissão chegou ao centro do pátio. Luzes irreais, em cores absurdas, dançavam nos rostos da multidão, ávida de prazeres. Um dos sacerdotes gritou, em um chamado primal, animalesco. Avisava que a Grande Festa do Amor tinha começado. Novamente a voz de Ophra percorreu os caminhos da noite, em tom diferente. Não queria mais deixar as pessoas ansiando pela consumação de suas vontades. Agora, ela desejava que estas fossem consumadas. O encantamento de sons tecido em um crescendo, como se fosse uma tempestade de areia que ganhasse forças, o ritmo da dança das demais sacerdotisas auxiliando o efeito das drogas distribuídas entre a multidão.

Ao fim da canção, só havia duas pessoas desacompanhadas em todo o Festival. Eu e Ophra. Em pouco tempo já não havia individualidade no imenso pátio que se abria à frente do templo. Os corpos uniam-se em um êxtase coletivo, sem nenhuma distinção amarrando suas escolhas. Machos e fêmeas perdendo a consciência de si mesmos, entrelaçados em um frenesi de adoração, luxúria, vontade… Precisei respirar fundo. Mesmo com as drogas, o feitiço daquela noite começava a fazer efeito. Não. Não iria desistir. Nunca deixei um serviço incompleto.

As belas criaturas que serviam ao Amor também se juntaram a essa celebração. Misturadas aos demais, mal se distinguiam. Eram todos carne e desejo, tremendo em busca de transcendência. A única a manter-se fora desse ritual de desejo era a minha amante. Pedira, como um favor especial, que ficasse esta noite comigo. E assim seria. Nada poderia interpor-se no meu caminho. Ninguém impediria que eu terminasse com toda a minha frustração.

Somente ela.

Desci para encontrá-la à beira do pátio externo. Com as pessoas entretidas em seus prazeres, nenhum deles perceberia a rápida injeção anestésica e o tiro certeiro. Venenos deixam vestígios. Armas de energia, pelo menos as que profissionais usam, interrompem o ciclo vital sem rastros a serem percebidos. Não é difícil ver porque alguns me consideram um enviado da Morte. Uma força da natureza, incontrolável, irremovível. Impossível de ser parada.

E no momento em que seus olhos cor de canela encontraram os meus esmaecidos globos cinzentos, eu soube. Minhas intenções não lhe eram desconhecidas. Ophra percebera tudo. Desde quando? Em que momento descobrira? Sorriu, do jeito torto que usava para me magoar.

– Já sabia quando te contratei. Quem mata o Amor uma vez, irá matá-lo sempre.

Não iria ser fácil. O Amor machuca. Aqueles que o servem, ainda mais. Ainda tentava assimilar o fato de que meu plano fora revelado quando recebi uma forte descarga elétrica. A maldita me atingira com um bastão atordoante. Meus braços formigavam. Logo eu, que trouxera uma injeção de anestésico para matá-la sem dor. Meu coração ficou pequeno para toda a minha raiva.

Recuperei o domínio total do meu próprio corpo. Não era difícil adivinhar para onde ela iria. Sacerdotisas não podem deixar a área murada ao redor do Templo, nem para defender sua própria vida. O único caminho possível para Ophra era o mesmo que havia feito pouco antes. O último refúgio que teria em vida seriam as paredes do santuário onde nos conhecemos. Joguei fora o anestésico, cego de raiva pela reação agressiva da minha ex-amante. Como uma sombra perdida, encaminhei-me para o santuário.

Será que ela pensava que podia se esconder? De mim, que percorrera toda a extensão daquele complexo, acompanhando-a? Que passara mais tempo ali, desde que a conhecera, do que em qualquer outro lugar? O preço de sua ingenuidade seria uma morte lenta.

Parei uma última vez em frente ao velho edifício. Notei vagamente que os fogos de artifício continuavam a explodir por cima da minha cabeça. Eu estava armado, dopado e com raiva. Nada poderia me impedir. Nem se o próprio Amor tomasse forma humana para defender sua sacerdotisa.

Para muitos, aquela era uma construção estonteante, gigantesca, grandiosa. Uma prova do gênio artístico dos primeiros colonos. Nunca significara nada para mim. Acostumara-me aos subterfúgios daqueles que ali entravam tentando deixar seus medos e suas dores do lado de fora. Pinturas e esculturas que nada significavam para mim. Naquele instante, importava-me encontrar Ophra. Custasse a minha vida, o que precisasse. Se fosse preciso, derrubaria aquelas paredes uma a uma. Com minhas mãos. Batendo a minha cabeça nos pilares.

O Salão principal estava vazio. Só ouvia meu próprio corpo. Teria fugido para algum dos infindos aposentos? Se o tivesse feito, iria demorar a encontrá-la.

– Apareça, Sacerdotisa! Tenha pelo menos a dignidade de não fugir! A sua antecessora não correu!

– Pensei que você me amasse… – a voz dela vinha de todos os lados e de lado nenhum. Como se fosse parte do Templo. Um dos pilares daquela construção sinuosa.

– Tola. Não sabe que a vida é curta e o amor sempre acaba de manhã, Ophra? Chegou a hora de terminarmos com tudo… A noite terminou. Já amanheceu para nós, benzinho.

Caminhei em direção ao painel principal. A pintura representava algum mito antigo. Dois amantes jaziam em uma mesma tumba, um tubo na mão da mulher, uma espada atravessando o coração de ambos. Novamente, ela falou.

– Não vai conseguir me matar dentro dessas paredes. Eu sou o Templo do Amor.

– Eu as derrubo com as mãos e depois cuido de você… Ophra, você tem fé demais em tijolos. Não adianta chorar, não precisa pedir. O som das suas lágrimas não vai salvar sua fé inútil e seus sonhos de depravação. Acabou o tempo dos prazeres para você.

Continuava sem conseguir localizar a sacerdotisa. Parecia estar por trás de todas as colunas. Sua voz ecoava no templo, como uma tempestade que começava a ganhar forças.

– Tente derrubar as paredes do Templo do Amor, então. Mesmo o ar é um abrigo para mim, e isso você vai aprender da pior maneira.

Atirei por cima do painel, buscando atingi-la. Errei. Mais uma vez, e nada.

– Não vai aparecer, cadela? Veja o que faço com o seu santuário. Olhe como de nada vale ter fé!

Escolhi o pilar principal. Era uma escultura grotesca, criaturas de sonhos e pesadelos unidas em um eterno ato de prazer. Feições retorcidas, animalescas, corpos dobrados até o ponto de não reconhecimento. Mirei no centro e soltei um feixe de energia, o mais concentrado possível. Tudo tremeu em um ronco surdo.

– Não! Você não pode destruir o templo! Nada é mais forte do que o Amor!

– Ensinaram errado, benzinho. Tudo morre, até mesmo o Amor… e aqueles que o servem.

A voz dela estava mais densa. Se continuasse falando, eu seria capaz de encontrá-la. Meu alvo agora era um dos vitrais, com uma cena de dois seres abraçados. O vidro estilhaçou-se, e nesse instante um vento frio e distante começou a soprar, vindo de fora do templo. Era sombrio e amargo, sinal de chuva prolongada. Entretido que estava com meus planos de assassinato, não percebi o tempo fechado. Não tinha importância, antes mesmo de começar a chover tudo estaria terminado. Chegaria em casa sem precisar me preocupar com a tempestade.

– Então, Ophra? Destruí mais um pedaço do seu templo! Não vai dizer nada?

Um vulto moveu-se a minha esquerda. Ocupado em tentar localizá-la, não percebi quando Ophra veio por trás, saída das sombras do salão mal iluminado, e usou o bastão atordoante em mim. Seus olhos brilhavam, a cor da tempestade de areia em um deserto que nunca conheci.

– Passou o tempo de dizer qualquer coisa a você, Andrew. Vou matá-lo. Não vou permitir você matar o Amor.

Sacudi o corpo, tentando fazer com que meus membros adormecidos voltassem a responder.

– Não seja presunçosa, Ophra. Você não é o Amor. Vai morrer e outra assumirá seu lugar. Acabou. Foi assim que você tornou-se quem é, ou já esqueceu a sua própria traição? Se não for eu a terminar o serviço, vai ser outro. Vale a pena passar o resto da vida com medo, sem saber de onde virá o próximo assassino?

Só então a realidade caiu, com todo seu peso, na cabeça da sacerdotisa. Sabia que eu tinha razão. Se haviam me contratado era porque decidiram que seu tempo acabara. Por apenas um instante, seu olhar voltou a ter a cor quente de canela que eu vira na primeira vez. Foi a primeira e única vez, desde que aceitara acabar com a vida de minha amante, que estive perto de me arrepender. Meus olhos cruzaram com os dela e, pelo espaço daquele momento perdido, fomos amantes de novo.

Passou o instante. Mesmo reconhecendo que não havia escapatória, ela não ia entregar-se tão fácil. Preparou-se para dar outra descarga com o bastão, porém eu já estava quase recuperado. Dei-lhe um encontrão, fazendo-a derrubar a arma.

– Você jamais irá me alcançar!

Empurrou meu corpo para longe, antes de sair correndo. A ira venceu meu planejamento e sangue-frio. Enquanto ela disparava pelo Salão, tentando alcançar os corredores que a levariam ao labirinto seguro dos aposentos internos, atirei nos vitrais. Uma chuva de estilhaços acompanhava a corrida de Ophra, enquanto eu seguia atrás.

O vento zunia no recinto. As luzes eram insuficientes, como se o ar trouxesse a escuridão do lado de fora. Correr tornou-se difícil, a massa de ar era cada vez mais forte. Nenhum de nós desistia. Ela estava na minha frente, vestida como um anjo negro, semi-arrastada pelo vento. Os cabelos enrolavam-se como cobras em suas curvas.

O ar frio trouxe-me de volta à razão. As drogas pareciam ter perdido  o efeito. Ela não poderia percebê-lo, do contrário me encantaria. Por uma última vez, admirei sua beleza. A arma estava quase descarregada, não poderia errar mais um tiro.

Concentrada em tentar fugir, não percebeu quando ergui o pulso. Mirei nas suas costas, na direção do coração, que tantas vezes batera por mim, e atirei. O deslocamento de ar atrapalhou minha mira. Não atingi a mulher, mas o pilar principal, aquele que eu detestava tanto, já enfraquecido pelo tiro que dera antes e pela ventania.

As paredes gemeram como se todos os amantes nelas representados chegassem ao êxtase ao mesmo tempo. A coluna começou a ruir, e rachaduras surgiam por todos os lados. Ophra estava parada, a mão no peito. Um dos estilhaços a atingira, antes mesmo que eu atirassemais uma vez, procurando seu coração. O sangue brotou, tingindo as mãos da sacerdotisa.

O vento não diminuiu. A luz ia se extinguindo dos olhos de Ophra, que caiu no chão. O choque do que eu fizera me atingiu. Ignorando o mundo que desabava ao meu redor, o ar que começava a se movimentar ainda mais rápido, procurei chegar até ela. A cada passo para frente, sentia-me dando três para trás. A ventania não me deixava avançar. A sacerdotisa, envolta em trajes negros, fixou seu olhar em mim por uma última fez e os olhos cor de canela perderam toda a vida que guardavam. As paredes começaram a ruir por cima de minha cabeça, e o destino impediu que o vento negro levasse meu grito até Ophra pela última vez, antes que minha própria existência fosse tragada na destruição do templo do Amor.

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2 comentários em “O Templo do Amor

  1. Ora, ora, ora, Dona Ana, segundo conto seu que eu li até hoje, gostei bastante…acho que os sentimentos na maioria das vezes são tão pouco explorado em fantasia que curto ler sobre isso… e eu curto junkies ^_^.

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