Queda e Paz

(Esse conto ficou de fora de AnaCrônicas por destoar dos outros…)

 

“E o abismo olhou de volta. Sorriu e te chamou. O que fazer, senão abrir os braços e lançar-se na escuridão que sussurra teu nome? A sensação de frio percorreu os teus membros, quase congelando o corpo inerte, entregue às forças da gravidade. A tudo esquecias, enquanto a vertigem escura te envolvia em braços de sombra gélida.

De quase tudo. Pois ainda havia lembranças.

As serpentes dos braços dela, que procuraste em tua paixão insana, nunca te pareceram tão acolhedoras. O castanho da cor de folhas caídas no chão outonal, que surgia em pequenas poças de claridade nas paredes abissais, só trazia os olhos dela à tua lembrança.

Não é possível para um anjo apaixonar-se. Disseram.

Erraram.

Mesmo que te apaixones, a escolhida jamais poderá te ver. Explicaram.

Mentiram para ti.

E se te vir, serás tão estranho que nunca conseguirá deixar os preconceitos de lado e amar-te de volta. Justificaram.

Tentaram demover-te.

Fascinado pela mulher-serpente, aceitaste o banimento eterno.

E pela noite única em que finalmente adquiristes carne e espírito, unidos em um só, o preço a pagar era este: tornar-se mais uma das estrelas cadentes a adentrar os domínios do Primogênito.

O Abismo cantou sua maldição, tu olhaste de volta. Foi o prenúncio da tua queda.

O pacto feito, a dor que selava a consumação da carne. Tua. Matéria. A alma que era somente luz e essência transfigurou-se. E seguindo o exemplo do Segundo Filho, que encarnou por amor aos pequenos seres de matéria, tu deixaste de ser fogo, água, ar e terra. Abandonou a casa dos elementos, o lar das hostes angélicas.

Tudo por ter vislumbrado um sorriso, um pequeno momento congelado de alegria. A energia concentrada que eras contraiu-se, em um espasmo mistura de dor e prazer. Era como se o calor daqueles olhos derretesse a parte de ti que era feita de gelo.

E de fogo, viraste carne e sangue, pronto a consumar teu desejo absurdo. Sentiste o impacto do teu corpo no ar, a sensação de teu peso, de estar preso, de pisar o solo e ao mesmo tempo perder o chão.

De todas as direções possíveis, conseguiste escolher a única certa para seguir. E assim tu, um dos filhos diletos, parte dos exércitos divinos, rumou feliz em direção à própria ruína.

De todas as mulheres que poderias escolher, porque aquela? Porque a rainha das Serpentes da Cidade Proibida? Porque não uma das muitas princesas que seguiam o teu Deus? Qualquer uma delas ficaria mais do que satisfeita em ser tua companhia, mesmo que por um curto instante.

Mas foi ela, a sacerdotisa do Deus Serpente, que chamou a tua atenção. Preso ao encanto daqueles olhos castanhos, não havia escapatória possível para ti…

Não mais.

Não houve anunciações ou apresentações. Ela sabia quem eras e porque tinhas vindo. Por breves segundos suspensos, só ouviste tua própria respiração sibilante, preso ao desejo. Enquanto ela te fitava em silêncio, tentando compreender a ti e aos teus motivos.

Expressão de enigma vivo, nem um pequeno movimento em sua face denunciava qualquer emoção. Linda, majestosa, terrível, ficaste na dúvida se era por ela que tinhas caído.

Até que o sorriso aflorou, o mesmo que tu presenciaras. Não há como entender os mistérios que recobrem os caminhos que Deus designa aos homens e aos anjos… nem mesmo estes últimos, que se julgam tão próximos do divino.

E ela estendeu-te os braços, de serpentes tatuadas de cima a baixo. Aliviado pelo fim de tua busca, tu te arremessaste. Só para cair desamparado no chão, enquanto a figura da sacerdotisa esfumaçava-se no desfazer de uma ilusão.

A gargalhada de triunfo ressoou por todo o templo do Deus Serpente. Os olhos castanhos da sacerdotisa brilhavam malignamente. E eis que ela pronunciou as palavras que selariam teu destino.

‘Pois então, pequeno anjo, porque achas que uma serpente seria verdadeira e te acolheria com doçura? Não sabes que é da nossa natureza atacar e matar?’

E nesse exato momento, o Abismo abriu-se aos teus pés e olhou em teus olhos. E assim terminou a tua queda.”

 

A face ensangüentada e queimada do anjo ergueu-se.

– Por que repetir a história da minha ruína?

O Primeiro, aquele que foi antes de tudo e todos, olhou-o intensamente. Se isso fosse possível, dir-se-ia que quase contristado. Quando finalmente respondeu, sua voz tinha um estranho misto de ironia, curiosidade e tristeza.

– Queria saber por que, mesmo assim, tu não a tiras da cabeça? Por que ainda és assombrado pelo sorriso dela?

– Pelo instante em que ela me sorriu de volta, eu cairia quantas vezes fossem necessárias.

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Sobre anacristinarodrigues
Eu trabalho numa biblioteca. Estudo História. Escrevo. Leio. Traduzo. Uma traça que fala, basicamente.

7 Responses to Queda e Paz

  1. Sensacional, Ana. Me senti flutuando enquanto lia seu conto e, mesmo que não conseguisse, a princípio, ter uma imagem dos fatos na minha cabeça, as palavras me envolveram de uma forma estranhamente agradável. Só ao fim consegui captar uma imagem concreta; o fim, aliás, é ótimo. Parabéns, e, sempre que possível, poste mais contos por aqui. Adorarei ler 😀

  2. # Tiiii lindo, Ana! *___* [/miguxês]

    # Falando sério. É lindo, Ana, e de uma delicadeza triste que me prendeu até o fim. Estou sentimental hoje. 😛

  3. Pingback: Notícias, notas, etc, etc « Talkative Bookworm

  4. Jota says:

    Muito lindo. A delicadeza do sentimento. A queda. Tudo. o fim foi muito bom. =]

  5. Pingback: O que vem por aí – As difíceis escolhas para Anacrônicas 2 « Talkative Bookworm

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