A Casa do Escudo Azul

‘A Casa do Escudo Azul’ estava inédito em versão eletrônica e é um dos ‘pequenos contos mágicos’ presentes no meu primeiro livro, AnaCrônicas. O livro está a venda aqui no blog ou nos sites das livrarias Cultura e Leonardo da Vinci. Espero que gostem.
 
A Casa do Escudo Azul
 
Caminho determinada, apesar das dores nas pernas. Também, andara por mais de três dias sem parar antes de pegar a barcaça que me levara até Paris. Na pequena viagem pelo Sena, não consegui relaxar, mesmo vendo a maravilha que se descortinou perante meus olhos. Ainda me parece incrível ver as plantações verdejantes onde fotografias antigas mostram crateras e nuvens radiativas.
 
Demorou muito, dois ou três séculos, mas a humanidade recuperou-se da Guerra Final. No começo, todos estavam desorientados e infelizes, acreditando que jamais se reergueriam. Porém, a esperança esteve ali o tempo todo, na forma do Escudo Azul.
 
Sinto orgulho de pertencer a essa organização. Ando pelas ruas de Paris, vejo alguns prédios em ruínas, com placas contando a sua história e maquetes holográficas mostrando como eram antes da Guerra. Ainda não se decidiu no Conselho sobre o destino das ruínas: se serão deixadas como lembrete da nossa capacidade de destruição, se iremos reconstruir os antigos prédios ou se novas construções tomarão seu lugar.
 
Ao lado do mais imponente conjunto dessas ruínas, ergue-se o meu destino, a Casa do Escudo Azul. Suas portas estão sempre abertas, pois não há mais necessidade de temer depredações. Passo por um grupo que discute cultura clássica e reconheço meu irmão entre eles. Aceno de leve pois tenho pressa em terminar a minha missão.
 
Mesmo apressada, não consigo deixar de diminuir o passo e olhar ao meu redor. Sorrio ao cumprimentar antigas estátuas, velhos monumentos e obras de arte seculares. Todo o patrimônio cultural que o Escudo Azul conseguiu salvar da Guerra… Mais do que obras de artes, havia registros históricos, documentos que traziam em si o melhor e o pior da humanidade. E não só o legado material. Na outra ala do edifício, há aulas de canto, dança e outras manifestações, ressuscitadas pelos registros feitos e protegidos por nossos membros.
 
A humanidade reergueu-se com a ajuda da cultura que o Escudo Azul salvara. No meio do século XX, preocupados com o rumo cada vez mais belicoso que a humanidade tomara para si, pesquisadores e amantes da cultura criaram uma estratégia para proteger o maior patrimônio da humanidade caso o pior acontecesse.
 
Demorou, mas aconteceu. A Guerra Final arrasou tudo, com o uso indiscriminado de armas nucleares e ataques químico-biológicos. Uns poucos bolsões de pessoas morando a quilômetros de distância uns dos outros foi tudo o que restou… Isso e todo o acervo cultural salvo pelo Escudo Azul. Claro, nem tudo fora salvo. Eu cresci ouvindo minha mãe suspirar pelos murais de Diego Rivera e pelas formas arquitetônicas arrojadas de Brasília, a obra-prima de Niemeyer.
 
Mas fora o suficiente. Aos poucos, o Escudo Azul fora redistribuindo o patrimônio cultural à população, ajudando a construir novos museus e arquivos, instruindo-os nas formas culturais que foram perdidas. A base para a reconstrução fora esse legado. Por isso, vivemos em algo muito próximo de um paraíso.
 
Chego na sala principal. A diretora do Escudo Azul me recebe com um sorriso caloroso. Respondo, cumprimentando minha mãe com um abraço. Estou ansiosa para mostrar o resultado da minha expedição.
 
Depois da cultura disseminada no admirável mundo novo, o Escudo Azul dedicara-se a procurar relíquias perdidas pelo mundo, nas ruínas deixadas pela Guerra. Eu me tornei a melhor dessas exploradoras.
 
Minha última missão fora no norte da Europa, uma região conhecida como Países Baixos. Com os bombardeios, os diques ali construídos arrebentaram, inundando toda a região, que fora um dos mais importantes pólos culturais da humanidade. Eram freqüentes as jornadas até lá, sempre muito recompensadoras.
 
A minha não fora exceção. Abri o pacote que trazia junto ao peito e o estendi para minha mãe. De todos os tesouros que recuperara para o Escudo Azul, nenhum era tão significativo.
 
Ela sorriu ao ler o título: De Optimo Reipublicae Statu deque Nova Insula Utopia. “A utopia” de Tomas Morus, primeira edição de 1516.

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Sobre anacristinarodrigues
Eu trabalho numa biblioteca. Estudo História. Escrevo. Leio. Traduzo. Uma traça que fala, basicamente.

4 Responses to A Casa do Escudo Azul

  1. Daniel says:

    Oi, Ana Cristina!

    Meu amigo Luiz Felipe Vasques recomendou seu blog e vejo que ele tinha razão em elogiar. Serei um leitor assíduo.

    Parabéns!

  2. Ghad Arddhu says:

    Se esse é o tipo de texto que devemos esperar de seu livro, é minha obrigação comprá-lo logo que for possíuvel, está muito bom e me lembra muitas coisas de “minha terra”.

    Talvez seja a característica “pós-distópica”, mas a missão da personagem em questão mostra-se deveras satisfatória.

    Meus parabéns por essa realização.

    ps. Estou adicionando aos links de meu blog 🙂

  3. Ana Carolina Silveira says:

    A utopia custa muito mais caro do que estamos dispostos a pagar…

  4. Pingback: Notícias, notas, etc, etc « Talkative Bookworm

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