Liberdade – (Cannee, a profetisa, pt. 2)

O cheiro de sangue e os urros enchem a minha cabeça, deliciosos e torturantes ao mesmo tempo. Grito de prazer e de angústia. Acordo com Kalenna ao meu lado, preocupada.

“Irmã, tudo bem? Você gritou…”

Contenho o impulso de abraçá-la. Tinha sido apenas um sonho… A irrealidade desse pensamento dura apenas um instante. Sou uma profetisa, o Oráculo do Povo-Macaco. Não sonho apenas.

“A Sabedoria visitou-me esta noite.”

Ela para de preparar a minha ablução matinal e me olha, temerosa. A profecia que vem entre o pôr-do-sol e o amanhecer é muito mais forte e precisa do que a que atinge os despertos.

“Recebi um aviso e chegou a hora de finalmente despertarmos a Fúria. O tempo dos homens-águia está terminando.”

Como esperava, minha irmã apenas concorda e sai da cabana. Vai avisar os demais sobre minha profecia. Em breve, terei que explicar o que aconteceu. Com um suspiro, termino de me lavar sozinha e sirvo minha refeição de frutas secas.

Quando estou quase terminando, Maleek, o Ancião de Todos, entra na cabana, seu passo arrastado e lento. Logo atrás, os demais anciões da tribo. Faço as saudações e os convido para partilhar a refeição. Cumpro todas as formalidades para Maleek fazer a pergunta que o trouxe aqui.

“Sacerdotisa, sua irmã avisou sobre a visita. Então é verdade?”

“É, venerável. A Sabedoria mostrou que é tempo de nos libertarmos. Os filhos de Margoth, o povo-águia, virão buscar a resposta para a sua sucessão e o Oráculo-do-Sono respondeu que não haverá sucessão. O Povo-Macaco deve retomar o que é seu.”

“Isso irá custar a vida de muitos…”

Kalenna está parada na porta, em silêncio. Sinto um nó na garganta, pois sua morte foi a primeira que vi. Porém, não há outro caminho.

“Sim. É o preço.”

Maleek pensa por instantes.

“Faremos a vontade da Sabedoria. Lutaremos.”

A aldeia se prepara em silêncio. Os homens afiam machados e as mulheres apontam suas lanças. Todos estarão prontos, mesmo Kalenna, quase uma menina ainda. As crianças ajudam, levando artefatos de um lado para o outro. Nem os pequeninos serão poupados.

Mesmo na refeição, não há sons. Quando terminamos, avisto a primeira sombra no céu. São os homens-águia chegando, um bando completo, doze deles. Eu estou pronta, o colar azul da Visão em meu pescoço, os olhos pintados de dourado.

Estamos ao redor da fogueira, o ar frio arrepiando meus pelos. Eles pousam e vem em minha direção. O líder deles sorri e olha nos meus olhos.

“Como é feito há milênios, viemos buscar a resposta à nossa pergunta, Profetisa. É quarta noite do plenilúnio, então diga: qual dos filhos de Margoth irá sucede-la?”

Não respondo nada e Kallenna enfia sua lança no peito dele. Os malditos nos consideram inferiores, indefesos, incapazes de lutar. A carnificina que acontece mostra como estavam errados ao pensar isso. São doze guerreiros, mas foram pegos de surpresa. Lutam como podem, com bicos, garras e a força de suas asas.

O triunfo é nosso, como prometido. Tenho o corpo sem vida de Kallenna no colo, o preço que paguei. Sentindo ainda o seu calor, olho ao redor.

A terra manchada de sangue. Penas cinzentas tingidas de vermelho no ar frio. Carne e ossos espalhados.

E eu sorrio ante a beleza desse quadro que chamarei de ‘Liberdade’.

 

 

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Sobre anacristinarodrigues
Eu trabalho numa biblioteca. Estudo História. Escrevo. Leio. Traduzo. Uma traça que fala, basicamente.

2 Responses to Liberdade – (Cannee, a profetisa, pt. 2)

  1. Ana. É o Afonso de Contos Fantásticos. Uma pergunta:
    Cannee, a profetisa é dividida em quantas partes?

  2. talkativebookworm says:

    Oi, Alfonso

    Ainda não sei!:D

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