Oráculo – (Cannee, a profetisa, pt. I)

 

Lanço as pedrinhas no chão da minha cabana. Caprichosas, continuam a não dizer o que eu quero saber. Parecem debochar de mim.

Lá fora, a chuva continua a cair.

Kalenna entra, esbaforida.

“É hora, irmã, você tem a resposta?”

Não preciso responder, pois meu desespero é transparente. A caçula da família abaixa os olhos e eu sei que tenta conter as lágrimas.Para evitar que ela se humilhe ainda mais, viro as costas e começo a entoar um cântico. Escuto Kalenna sair da cabana e me visto, devagar, sempre cantando. É a hora.

Prendo o colar azul, herança de nossa mãe. Pinto a pelagem ao redor dos olhos em um tom dourado, a cor da morte. Finalmente respiro fundo e saio. O ar frio é um golpe na minha pele, mas me mantenho firme. Parados ao redor da fogueira tribal estão os Senhores do Céu, aqueles que nasceram com asas. O líder deles me encara, um sorriso no seu rosto de águia.

“Como é feito há séculos e milênios, viemos buscar a resposta à nossa pergunta, Profetisa. É quarta noite do plenilúnio, então diga: qual dos filhos de Margoth irá sucede-la?”

Eu não posso mentir. A mesma força que me orienta nas profecias impede que diga qualquer coisa além da mais pura verdade. Tento não tremer tanto e digo.

“A resposta não foi concedida.”

Os homens-águia se enfurecem. Escuto seus guinchos encherem o ar enquanto o líder deles, em silêncio, apenas me encara sorrindo.

“Vocês, povo-macaco, vivem nas bordas do nosso território apenas por nossa bondade. Somos generosos, damos todas as facilidades que podem precisar… e só pedimos uma pequena retribuição anual.”

Mordo os lábios, sem me importar com a dor que os dentes afiados causam. Minha mãe morreu jovem demais, sem ter tido tempo para me ensinar todos os caminhos. E na primeira vez que meus poderes foram necessários, eu falhara vergonhosamente. Meu povo não me encara, porém vejo o tremor em seus corpos. Eles tem medo – e eu também.

“Profetisa, sabe qual o preço do seu fracasso?”

Sei, mas prefiro ficar em silêncio. Quem sabe os deuses dêem algum sinal. O homem-águia sai da sua posição e anda pela aldeia, encarando o meu povo.

“O preço é sangue, sangue do povo-macado.”

Ele para na frente de Kallenna, minha irmã. Tenho que fazer algo, preciso… Ele é rápido demais, um predador nato. Com as garras, arranca o coração de minha irmã. Os olhos de Mallenna arregalam-se de susto e o corpo cai, pesado, aos pés de seu assassino. O sangue mancha o chão em padrões estranhos e eu olho, hipnotizada.

E finalmente, os deuses falam. A profecia vem, com força, me arrastando em seu turbilhão de imagens. Rosno, os dentes a mostra.

“Tenho agora a sua resposta. Nenhum dos filhos de Margoth irá reinar, porque o povo-macaco irá matá-los…”

Pulo no pescoço do homem-águia, que não esperava um ataque. Meu povo ataca os demais, ferozes e sem temor pois confiam em minhas palavras.

Somos muitos. O sangue das aves é doce e eu urro de prazer com a vingança conseguida. Não me importo se amanhã os demais virão para acabar conosco – e eu sei que eles virão. No momento, só me importa o presente.

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Sobre anacristinarodrigues
Eu trabalho numa biblioteca. Estudo História. Escrevo. Leio. Traduzo. Uma traça que fala, basicamente.

2 Responses to Oráculo – (Cannee, a profetisa, pt. I)

  1. Alexandre says:

    Esse foi interessante. Me passou uma impressão diferente dos seus demais contos, talvez até pela natureza dos personagens. Me chamou a atenção. Mas me pareceu mais o começo de alguma coisa. 😉

  2. Mila says:

    Não deixa de ser irônico (e talvez sábio) que uma profetisa se importe somente com o presente. 😉

    Muito interessante, Ana. Parte 1? Vem mais por aí?

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