Retrospectiva – Livros de 2008 – V

Como meu querido amigo-mestre-guru Fábio Fernandes vaticinou, 2008 foi um ano maravilhoso para a FC brasileira. Lançamentos, eventos, iniciativas e autores pulularam, trazendo uma efervescência para o fandom como a muito não se via. Claro, não são todas obras-primas, tampouco é algo que vá ficar nesse ritmo de crescimento para sempre. Eu sinceramente acredito que a tendência do mercado se assentar, mas com um ritmo de produção/publicação bem maior do que pré-2008.

 

O ritmo foi tão alucinado que custou acompanhar. Muita coisa veio a tona – infelizmente, muitas obras surgiram no esquema ‘pagou-publicou que eu detesto tanto. Aliás, me cobrem um post explicando porque eu odeio os loteamentos literários que grassam por aí. Curiosamente, os três livros de estréia que escolhi para essa resenha tripla vieram justamente desse tipo de publicação, um sintoma do esquema ainda falha do nosso mercado editorial.

 

São três obras de momentos distintos, com autores muito diferentes entre si, de gêneros díspares, mas que calharam de chegar às minhas mãos em 2008. Uma daquelas felizes coincidências que nos fazem refletir. A minha reflexão foi justamente nos pontos de contato e nas grandes diferenças que existem entre essas obras.

 

Talvez o grande ponto de contato entre elas seja a falta que a figura de um editor faz. Acho que os problemas mais gritantes – alguns bem graves – de cada um desses livros poderiam ter sido resolvidos por um leitor crítico criterioso (no caso do livro do William Penetra, faço meu mea culpa, pois o autor me pediu uma leitura prévia que eu não consegui fazer). São trechos desnecessários ou que não funcionam bem, personagens incoerentes, falhas redacionais como colocar ‘subtítulos’ (do tipo ‘uma semana depois: ’, como se faz no cinema). Pequenos detalhes e aspectos que passam despercebidos para um autor inexperiente, mas quando chegam ao crivo de um crítico, depois de publicados, podem render resenhas nada elogiosas.

 

Falo de Pelo Sangue e pela Fé, de Cláudio Villa, de Legião Estelar: Gênese de William Penetra e de Fáfia, escrito por Clinton Davisson – uma fantasia, uma ‘space opera’ e uma FC de Primeiro Contato.

 

Começando em ordem cronológica vem o livro de estréia de Clinton, que recém-publicou outro romance, Hegemonia. Fáfia: a copa do mundo de 2022 foi lançado em ano de Copa do Mundo, 1998 – mesmo ano em que foi publicada outra iniciativa juntando FC e Futebol: Outras Copas, Outros Mundos. O diferencial é que Clinton estava fora do fandom na época, enquanto a antologia foi gestada no âmbito deste, inclusive com chamadas para textos no zine do CLFC.

 

O livro é um relato bem-humorado e cheio de ação da influência de extraterrestres nos misteriosos acontecimentos envolvendo a Copa do Mundo, em um cenário mundial bem diferente do nosso. Para não dar muitos spoilers, o protagonista é o melhor jogador de futebol do mundo, que tenta reacender a sua carreira ao mesmo tempo em que descobre um perigoso esquema envolvendo Fifa, política e aliens, desembocando na Copa do Mundo de 2022, prevista para acontecer no Brasil.

 

O texto é leve, ágil, com algumas falhas de construção. Em algumas partes, as explicações ficam confusas ou quebram o ritmo da ação, há excesso de personagens – que não são exatamente bem construídos ou originais. Mesmo o alien Íbis (que tem o mesmo nome do pior time de futebol do mundo, será coincidência?) lembra outros ‘ets camaradas’ das telas de TV e cinema. O protagonista é meio ‘over’, mas funciona – embora seu par romântico não tenha tanto carisma. Aliás, outro calcanhar de aquiles é justamente essa necessidade de inserir um interesse amoroso na vida de Fáfia (oh yeah, o nome do herói é esse), sintoma de outra característica da prosa do autor que se repete – de forma bem mais trabalhada, segura e eficiente – em Hegemonia. A narração, os cenários, os plots, as sequências lembram filmes do padrão hollywoodiano. Isso não é necessariamente um defeito em si, mas em Fáfia faz com que o leitor por vezes se perca ou traz situações desnecessárias. Talvez isso explique porque a parte da Copa do Mundo de 2022 comece na página 88 – antes, todo o sofrimento do protagonista em 2018 é relatado.

 

Há pontos positivos: o livro é um ‘page turner’, levando o leitor a ficar curioso para chegar ao final, o Fáfia é um protagonista adequado para a trama exagerada, daqueles que fazem você torcer por ele apesar de ser um tonto. E é impossível não simpatizar com Íbis. É uma boa estréia, que se consolidou no segundo romance, lançado quase dez anos depois.

 

Os outros dois autores ainda estão no primeiro romance publicado. Não sendo contistas – como Clinton, aliás, também não é – é difícil avaliar se os cacoetes dos livros são recorrentes ou não. Ou seja, ainda é cedo para dizer se é inexperiência, erro ou estilo.

 

O livro do Villa é um exemplo vivo de como pagar para publicar pode dar dor de cabeça. Quando saiu pela primeira vez, no segundo semestre de 2007, o livro continha erros de revisão que alteraram até mesmo o que o autor tinha escrito certo. Um desastre. Em um ato digno de aplausos – por raro no mercado editorial brasileiro – a editora fez um recall e relançou o livro em 2008. (Algo ainda mais louvável, já que quando a Mercuryo/Unicórnio Azul fez o favor de cagar todas as datas de um livro de ‘história’ alternativa, o máximo que fizeram foi colocar um papel minúsculo como errata…)

 

É um tijolo, com boa qualidade gráfica, mas que realmente grita desesperado por um editor criterioso. Por exemplo, para mim o livro começaria na página 72, sem contar as inúmeras repetições de característica – chega a certo momento em que tudo o que você deseja é berrar para o livro “OK, eu JÁ entendi que ele é assim, vamos em frente”. Porém, o maior defeito do livro é que eu já vi isso antes. O autor escolheu um tema que qualquer jogador de RPG (principalmente os D&D qualquer edição) conhece: o surgimento de um paladino. E é por aí que vai a história, desde a origem da vontade de ir a guerra do seu protagonista até sua purificação e o encontro do seu verdadeiro destino – além, claro, da sua primeira missão como enviado divino. Por coincidência, sequer foi o único com essa temática que eu li no ano passado – teve a trilogia de Elizabeth Moon, The Deed of Paksenarrion.

 

Mas há pontos positivos. Primeiro, Villa foge dos estereótipos medievalescos (um dia me cobrem um post sobre porque a Fantasia Medieval não é medieval) e constrói um cenário que remete ao Caribe espanhol do século XVIII, com rum e piratas. E a prosa do autor vale, pois o Villa consegue apresentar bem a trama – e mesmo fazer com que você goste do protagonista, o que não é uma missão fácil. O texto flui bem apesar de faltar um pouco de sutileza para tratar os mistérios da trama, o suspense é quebrado rapidamente. O clima de romance é também um pouco forçado – aliás, é mais um ponto comum entre os três livros – e a mocinha improvável por vezes é um tanto artificial.

 

O cenário é bem construído e detalhado, mostrando com firmeza a herança de Frank Hebert, autor de Duna e uma das influências confessas de Villa. O autor tem talento e só precisa de uma ‘mão forte’ para guiá-lo. Espero sinceramente que nos próximos livros do cenário isso aconteça.

 

Oh, sim, é uma série. Assim como Legião Estelar: Gênese de William Penetra, que em sua 2ª edição – a primeira foi em ebook – saiu pela Corifeu. É uma space opera que conta a origem da Legião Estelar – e sim, o spoiler no título está bem explicadinho na orelha se você ainda tiver alguma dúvida. Coisa que um editor responsável veria, mas não foi o caso aqui.De qualquer forma, o livro corre bem, apesar do clima de fanfiction de Star Trek, presente principalmente no relacionamento de camaradagem entre os personagens.

 

Mas há falhas graves, como o uso de ‘uma semana depois:’ para indicar passagem de tempo. O autor também suprimiu de cenas importantes, como uma batalha crucial que acontece entre dois capítulos e é resumida em duas ou três frases enquanto os personagens relaxam.

 

Ora, uma das essências da boa space opera é justamente o enfoque em grandes batalhas com naves, tiros e explosões no vácuo (essa parte foi brincadeira, lógico). Principalmente com o talento para descrição de luta que o autor tem, refinado pelos estudos de ciências militares – que ele de forma inteligente ressaltou na sua bio.O livro funciona, mas perde-se um pouco. O protagonista, que variando um pouco é de uma raça nada bonitinha, tem lá o seu carisma, mas também não engata na parte romântica.

 

A impressão geral é de que o livro foi corrido demais, ou seja, enquanto que no livro de Cláudio Villa tinha sobras, no de William Penetra faltou recheio para tornar a obra mais coerente como um todo.

 

Balanço geral?

 

Como disse, um dos piores problemas da nova Onda (e sim, podem me cobrar um post explicando o porquê usei o termo ‘Terceira Onda’ no artigo da Scarium e de como isso colocou D. Quixote no meu encalço) é justamente a relação de dependência com as editoras pagas e de alguns autores estarem fora do fandom tradicional ao mesmo tempo. Por quê? A proximidade com outros fãs e escritores gera feedback para autores novatos, que se decidirem gastar seu suado dinheiro pagando uma edição, farão com consciência do estado de sua obra. Sem isso, só contando com a editora – que quer é publicar e ponto – sai qualquer coisa, com falhas que podiam ser facilmente corrigidas.

 

Mas temos três bons novos autores – se bem que o Clinton já não é tão novo e apresentou uma grande evolução no seu segundo livro – que tem o domínio da narrativa e da arte de contar histórias. Torço para que se profissionalizem e melhorem cada vez mais.

Sobre anacristinarodrigues
Eu trabalho numa biblioteca. Estudo História. Escrevo. Leio. Traduzo. Uma traça que fala, basicamente.

2 Responses to Retrospectiva – Livros de 2008 – V

  1. Ludimila disse:

    Finalmente este blog, agora 3 em 1, está nos favoritos aqui.

  2. Só postando para agradecer a crítica honesta. Sem isso fica difícil a gente se orientar na aventura literária.

    Grande abraço e muito obrigado.

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