Retrospectiva – Livros de 2008 IV

Edgar Indalecio Smaniotto

‘A fantástica viagem de Augusto Emílio Zaluar’ – Para comprar, clique aqui 

 

Talvez um dos melhores indicativos de uma produção literária em crescimento seja o aumento do debate acadêmico. No caso da Ficção Científica do (e no) Brasil, o número de dissertações, teses e ensaios surgidos nos últimos anos desmente as lamentações de que FC não tem futuro em nosso país, não possui identificação cultural e que é uma literatura alheia, sem raízes em nossa cultura.

O futuro só pode ser alvo de especulações, dependendo de diversas variantes e do trabalho árduo dos escritores e editores. Em termos de identificação cultural, os trabalhos de Adriana Amaral e Fábio Fernandes mostraram que no mundo globalizado a cultura cyberpunk rodeia a todos, sem excetuar os brasileiros.

Outros trabalhos traçam na história da literatura brasileira o caminho que a Ficção Científica percorreu, desde o século XIX até os dias atuais. Nessa linha de pesquisa, a melhor opção bibliográfica ainda é o livro de Roberto de Sousa Causo, ‘Ficção Científica, Fantasia e Horror no Brasil: de 1875 a 1950’, que traça um panorama amplo da produção de literatura especulativa brasileira nesse período. Um dos melhores aspectos de toda a obra panorâmica como a de Causo é de apontar uma infinidade de rumos para pesquisadores que pretendam tratar de assuntos ou autores mais especificamente. Seu maior problema é se deter apenas no momento germinal, sem aprofundar-se no período em que a FC realmente começa a florescer, que seria da década de 1960 em diante.

A pesquisa de mestrado em Antropologia de Edgar Smaniotto segue a linha de tratar um aspecto de um autor específico. Um dos grandes méritos do trabalho é justamente de fugir de autores óbvios, como Machado de Assis ou mesmo o mais conhecido Jeronymo Monteiro e dedicar-se a um autor um tanto anônimo (apesar de ter tido seu trabalho reeditado a pouco tempo), mas nem por isso menos intrigante. Outro aspecto que atrai na leitura do trabalho é justamente o fato de ser uma pesquisa não da área de literatura ou de comunicação. O foco antropológico traz muitos diferenciais, entre eles a ênfase na questão da alteridade.

A obra de Augusto Emílio Zaluar, o autor escolhido por Edgar Smaniotto, é um bom exemplo para tratar desse tema, fazendo com que o pesquisador tenha tomado uma decisão acertada ao definir seu escopo de trabalho. Infelizmente, a brevidade que as nossas atuais universidades impõe aos seus pós-graduandos, pressionadas pelas agências de fomento, impediu que a dissertação pudesse estender-se a todos os aspectos possíveis da alteridade na ficção especulativa brasileira no século XIX, representada por Zaluar.

O trabalho dedica-se a formar um perfil de Zaluar, português radicado no Brasil e que exerceu várias funções, muitas vezes voltado à indústria, as letras e mesmo às explorações do interior ainda pouco conhecido do país. Assim, Smaniotto o associa à antropologia, ciência que se gestava naquele período mas que se só sairia do gabinete mais para a virada do século XIX.

Foi nessa última função, como associado de uma sociedade geográfica, que recolheu subsídios para a sua obra mais extensa. O romance ‘O doutor Benignus’ trata de um naturalista estrangeiro que parte para o interior do Brasil onde encontra uma ilha misteriosa na qual cria uma civilização ‘internacional’, que é encontrado por William River, um antropólogo – assim chamado por Zaluar. Smaniotto vai comparar a atividade deste personagem com a de antropólogos reais que empreenderam expedições como Franz Boas e Malinowski, tornando Zaluar um visionário dessa ciência social.

O trabalho de Smaniotto discorre sobre as comparações entre relatos de viagem e a antropologia, centrando na questão do outro, que é o ponto central da dissertação e em grande parte das obras de Ficção Científica. Tanto que boa parte do texto gira não em torno de Zaluar, mas de outras obras em relação à sua, como H. G. Wells e Jules Verne.

O sexto capítulo pode ser considerado o ponto alto do trabalho, o centro para qual todas as explanações anteriores convergem, quando Smaniotto fala do alienígena enquanto mito cultural brasileiro, tendo este sido construído primordialmente por Zaluar. Nesse capítulo, usa trabalho de brasilianistas consagrados, como Elizabeth Ginway, Darcy Ribeiro e Sérgio Buarque de Hollanda e aponta para a nossa atual política internacional visando o Conselho de Segurança da ONU para desvendar “a existência e a manutenção de um verdadeiro mito do reconhecimento pelo outro (o estrangeiro), a fim de justificar nossa própria civilização e cultura”. Aqui, mais do que apenas versar sobre a nossa Ficção Científica, Smaniotto fala sobre a ardida questão ‘o que faz do Brasil, Brasil’, mostrando que esse mito presente na nossa FC transcende a questão da literatura de gênero e perpassa toda a nossa cultura.

Os meus únicos poréns foram a ausência do trabalho de Tzvedan Todorov, um teórico tanto da literatura fantástica quanto da alteridade e da questão do ‘descobrimento do outro’; e também a brevidade da dissertação. A obra de Zaluar e a qualidade do trabalho de Edgar Smaniotto mereciam muito mais.

 

(A resenha foi originalmente publicada no Somnium 101. Amanhã, três resenhas inéditas sobre os livros de estréia de três ficcionistas brasileiros)

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Sobre anacristinarodrigues
Eu trabalho numa biblioteca. Estudo História. Escrevo. Leio. Traduzo. Uma traça que fala, basicamente.

One Response to Retrospectiva – Livros de 2008 IV

  1. Fabio says:

    Estou muito a fim de ler esse livro!!!

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