A menina de Val de Grifos

A menina de Val de Grifos

O conde do Val de Grifos olhou com desdém para o conteúdo do cesto que o seu criatoris lhe apresentava.

– Não adianta, Ioachim. Desta leva, perdemos todos os ovos de machos. Mesmo este é imprestável, veja as marcas.

O velho serviçal acompanhou o dedo de seu senhor com os olhos e assentiu. Ovos de grifo, sendo de natureza mágica, tem suas peculiaridades. Uma delas é justamente a coloração pardacenta característica dos ovos com filhotes de fêmeas. Já os que possuíam pequenas manchas verdes, espalhadas uniformemente pela casca, daria origem a um grifo macho, ser dos mais fortes do continente. As cores surgiam na última semana de choco. Infelizmente, no ano anterior, justamente na época do cio, as fêmeas do Vale dos Grifos sofreram de uma estranha praga e agora todos os ovos machos estavam completamente esverdeados, uma tonalidade que lembrava o mofo nas paredes externas do castelo. Daqueles ovos, só nasceriam criaturas fracas e aleijões.

– E o que faremos com os ovos, senhor?

– Furem e joguem nos espinheiros. Os animais darão um jeito. Temos que pensar em como faremos nas feiras desse ano. Vamos ter que caçar alguns filhotes…

O responsável pelos ovos concordou.

– Os monteiros disseram que há um grupo grande nas montanhas ao sul…

-Livre-se disso e vamos reunir o grupo de caça. – e retirou-se, deixando o serviçal sozinho.

A família de dom Diogo estabelecera-se naquela região, um pequeno vale espremido entre montanhas, há muitos séculos. Estavam ali mesmo antes da chegada dos hassamitas, quando o Império ainda consolidava-se na Ibéria. A história que a família nega é de que seriam gitanos membros de um culto de devotos da deusa negra de muitos braços, vindos do rio Hindu. Os registros do castelo, quase tão antigos quanto a construção de pedra em si, contam que os Val de Grifos descenderiam de do casamento proibido de uma princesa-sacerdotisa dos germanos e um dos últimos generais latinos na ilha da Ibéria.

Mesmo que de origem duvidosa, a família tornara-se reputadíssima em todo o continente. Sua fama espalhou-se, afinal a região deles era o último refúgio natural de grifos em todo o continente. A ferocidade dessas bestas fizeram com que se tornassem uma atração muito procurada nos Circus Maximus dos latinos, enquanto que alguns outros povos os caçavam para tentar domesticá-los. Só naquela remota região da Lusitânia os animais conseguiram sossego e voltaram a reproduzir-se. Os Val de Grifos souberam aprender com o passado e evitaram caçar os animais em demasia. Com o tempo, conseguiram roubar alguns ovos e criaram os grifos no castelo. Nem sempre tinham uma estação de nascimentos proveitosa, com as pragas e com os contratempos de tentar manter criaturas mágicas em cativeiro.

Ioachim lamentava-se em pensamento. Não gostava de caçadas, eventos arriscados, e também temia que o conde descontasse a frustração da perda do negócio nele. Teria que organizar tudo e pedir a Runescio, o deus do arpão, que os guiasse com segurança.

– Ioachim, o que tem na cesta?

Sobressaltou-se ao ouvir a voz.

– Menina Brites, seu pai já não lhe mandou ficar fora do pátio dos grifos?

A moça de cabelos castanhos e olhos negros fez um gesto largo, dispensando o aviso do serviçal.

– Vim trazer um recado para o meu pai, há emissários do Imperador querendo ver o conde com urgência. Mas anda, diz o que tem aí…

– A menina sabe que mesmo assim…

Foi interrompido pelo chamado de seu senhor.

– Ioachim, já se livrou daquele cesto? Anda, precisamos partir imediatamente! O imperador quer uma tropa inteira de grifos para o próximo outono!

Olhando o cesto, Ioachim ficou sem saber o que fazer. Num impulso, quebrou a etiqueta do castelo.

– A menina não me faria o favor de jogar isto fora para que eu possa atender o seu pai?

Antes que ela pudesse responder, o velho passou-lhe o cesto e saiu correndo, deixando Brites sem ação. Olhou o conteúdo do cesto e deu de ombros ao perceber que era um ovo. Já estava acostumada ao efeito que as pragas tinham na criação de seu pai. Amava os grifos, animais grandes como os maiores touros, com corpos de leão e asas de águia, patas e cabeça de aves de rapina, porém confiava na sabedoria dos deuses, principalmente em Ategina, senhora da natureza e dos nascimentos. Se não era para nascerem grifos nos pátios do solar naquela primavera, que assim fosse.

Mas enquanto ia para o lugar do lixo, carregando o cesto pesado com dificuldade, uma idéia surgiu em sua mente. Por diversas vezes, tentara convencer seu pai de que possuía capacidade para ajudar a criar e treinar os animais. Passara todos os quatorze anos de sua vida envolvida com as criaturas. Aprendera as artes femininas com afinco, principalmente quando o velho mago confirmara sua falta de talento na magia, porém sempre fora apaixonada pela vida ao ar livre e escapava para o Pátio dos Grifos sempre que surgia a oportunidade.

Se ela chocasse aquele ovo e conseguisse tornar o filhote que dali saísse em um guerreiro como os outros, o pai ia se convencer da sua capacidade. Quem sabe mesmo deixa-la como herdeira, ao invés de seu irmão, um preguiçoso covarde, que tremia de medo ao chegar perto de um grifo filhote.

Decidiu-se. Tinha o lugar certo para chocar o ovo, em um pedaço afastado do castelo, uma torre em ruínas. Recolheu alguns ninhos velhos de corvos para acomodar seu tesouro. Ovos de grifo não precisam ser chocados da forma como os de aves. Uma vez por dia deveriam ser expostos a luz do sol. Na natureza, em dias nublados, os grifos machos voavam até as nuvens que afastavam para deixar raios solares passarem. No castelo, um mago elemental interferia no tempo diariamente para que o processo corresse de acordo. Por sorte, os jovens grifos nascidos no ano anterior ainda não estavam completamente maduros e precisavam tomar sol diariamente. A menina só tinha que ficar atenta para expor o seu ovo na hora correta.

Sorriu ao pensar que em breve teria um grifo só para si. E em três meses, ele seria capaz de voar com ela.

***

Foram dias complicados, pois a semana foi repleta de dias nublados e chuvosos. Ela teve que ficar atenta a movimentação do velho mago elemental que servia a dom Diogo, para saber o momento exato em que ele iria fazer o sol surgir. Teve que acordar cedo e se esgueirar pelos pátios, fugindo de suas tarefas cotidianas. Para sua sorte, com a necessidade de localizar os grupos de grifos selvagens para capturar os filhotes assim que nascessem, ninguém prestava muita atenção no que ela fazia.

Ela chegou nas ruínas bem cedo na manhã do dia em que esperava o nascimento de seu grifo. Seu grifo. O pensamento era atordoante. Teria uma das criaturas mais poderosas do mundo conhecido ao seu dispor. Ela iria treiná-lo e provaria ao seu pai que podia ser Senhora do Val dos Grifos, não seu irmão trêmulo que se enfiara num trivium para estudar letras e números. E sonhava alto, pensando em como Dom Diogo iria reagir ao ver sua capacidade de treinar um aleijão e fazê-lo tornar-se um animal digno daquela terra.

O ovo começou a rachar e Brites segurou a respiração. Era agora. Se o grifo tivesse uma das asas com defeito, nada poderia fazer… o vôo seria impossível e o animal morreria antes de tornar-se adulto.

Quando o grifo saiu da casca, Brites quase bateu palmas. As asas eram perfeitas, pequenas miniaturas das que os adultos possuíam. Olhou com atenção e viu que havia falhas nas penas do pescoço, nada que comprometesse a capacidade de vôo… Só quando o pequeno filhote tentou andar é que percebeu qual o problema mais sério de seu novo amigo. As patas eram tortas e pouco firmes. Isso iria dificultar o treino, mas não o tornaria impossível.

– Bom, meu caro grifo. Teremos um longo treinamento, mas serás tão capaz quanto qualquer outro dessa propriedade. Rivalizarás com os teus primos selvagens, é só confiar em mim.

O ser olhou-a parecendo desconfiado, mas emitiu um som agudo que Brites tomou como sinal de concordância.

– Temos que te arranjar um nome… que tal Dom Torreão? Vais viver aqui por um bom tempo mesmo, até poder mostrar-te para o senhor destas terras.

O grifo começou a coçar as penas, pouco interessado na distribuição de poder no monte de pedras que era a região montanhosa num canto extremo da província da Lusitânia. A cidade mais próxima de Val de Grifos era Aquae Flaviae que mal tinha um corregedor.

Brites o alimentou com um preparado de carne crua reservado para grifos jovens. Conseguira roubar um pouco da ração dos animais mais crescidos e batera mais um pouco para o jovem Dom Torreão conseguir mastigar.

E ao ver seu grifo comer a carne com satisfação, soltando vez por outra grasnidos contentes, sentiu que sua vida podia mudar.

***

Faltava uma semana para Brites tornar-se uma moça, ao completar quinze anos, quando seu pai a chamou. Estava treinando Dom Torreão a mais de dois meses e já podia ver os resultados. Encheu-se de coragem, pois pensava em anunciar seu grande triunfo e finalmente poder dizer ao pai o que estava fazendo. Afinal, o grifo voava com majestade, era obediente e veloz. No ar, não se percebia os defeitos nas patas.

Parou no corredor, olhando para a porta e reunindo forças para encarar o homem que governava a sua vida. Dom Diogo do Val de Grifos era um homem imponente, rico e poderoso. Em suas terras, habitavam os últimos grifos de toda a Ibéria Lusitânia, raça essencial no transporte de mensagens e também na guerra. Isso dera uma imensa fortuna aos ancestrais de Dom Diogo que ele mantinha com sabedoria. Nas guerras intestinas que dividiam o Império, nas quais Castela, Aragão, Leão, Lusitânia e Galicia disputavam a coroa imperial, declarara que não iria fornecer as bestas para nenhum dos exércitos. Claro está que não cumprira isso, traficando grifos para todos os exércitos, além dos hassamitas de Granada que assistiam às disputas com curiosidade.
Ela entrou no grande salão da casa senhorial em silêncio. Apesar do pai a estar esperando, sabia o suficiente para não desagrada-lo entrando de forma brusca ou impetuosa. Já fora repreendida diversas vezes por seus modos deselegantes e pouco apropriados a uma jovem caçula de casa tão nobre. Iria segurar sua novidade até o último instante.

– O senhor mandou-me chamar, senhor meu pai?

– Chamei, sim, filha. Sabes que em sete dias a partir de hoje, teu irmão completa dezoito anos. Oficialmente, torna-se meu único herdeiro, já que tua mãe só me deu um filho. È preciso deixar teu destino acertado, pois em pouco tempo serás uma mulher.

Brites podia ver o rumo da conversa e não estava gostando nada. Sabia dos costumes daquele lugar afastado. Seria uma péssima hora para interrompe-lo e contar a grande surpresa.

– Pois decidi que irás casar com o filho do Duque da Galícia, que é neto do falecido Imperador D. Sancho IV.

Infelizmente, Brites estava certa. Meses atrás, esta seria uma notícia horrível. Mas aquele momento, era a pior coisa que poderia acontecer. Seu grifo ainda não estava completamente treinado e não conseguiria sobreviver sem ela. O pai sequer a deixou respirar.

– As damas do duque estarão aqui amanhã para ver-te e atestar tua boa saúde, além de verificar que ainda és donzela. Já mandei virem costureiras e estas coisas para fazerem teu enxoval. O noivado será na festa do aniversário do teu irmão. Agora, vai-te que tens muito o que providenciar.

Brites conteve-se para não correr enquanto estava às vistas de seu pai. No instante em que colocou o pé fora do grande salão, no entanto desatou a correr. Não sabia para onde estava indo, apenas deixava seus pés e seu desespero a levar.

Ia perder tudo, ser levada para um lugar distante. Sem seu pai, sem o castelo de pedra, sem os grifos… Sem Dom Torreão…

Sua corrida cega a levara até o esconderijo de seu grifo. Já estava crescido, quase no tamanho máximo que iria atingir. Ainda teria que criar mais corpo e força até poder carregar um cavaleiro de armadura, mas já voava alto e sem empecilhos.

– Ai, Dom Torreão, que está tudo perdido! Que vou fazer contigo? Não posso levar-te e não quero entregar-te ao meu pai, ele vai te matar!!!

O animal estava limpando as garras tranquilamente. Não se preocupava com destino ou tragédias, mas não gostava de ver a menina daquele jeito. Deu um grasnado rouco e aproximou-se dela. Mesmo sendo ainda um filhote, já a ultrapassava em altura. Com o bico, cuidadosamente cutucou-lhe o ombro.

– O que queres, hein? Não trouxe carne, não pude passar na cozinha…

Em resposta, Torreão abriu as asas e olhou para o alto. Brites entendeu.

– Queres voar… comigo?

O grifo olhou-a, esperando. Engolindo em seco, pois seria a primeira vez que montava em um daqueles animais e não estava com nenhum dos equipamentos necessários, Brites subiu no pelo marrom e agarrou-se no pescoço, na parte onde não havia penas.

Com um movimento levemente desajeitado, devido às patas tortas, Torreão levantou vôo. Nos primeiros momentos, Brites manteve os olhos fechados. Sentiu a vertigem da subida e o vento zumbindo em seus ouvidos. Quando percebeu que o animal parara de ganhar altitude, conseguiu olhar em volta.

O castelo estava lá embaixo, tão pequeno; dali, não parecia a construção imponente e secular, mas apenas um amontoado de pedras. As árvores ao redor pareciam arbustos. O sol batia em seu rosto e nuvens baixas pareciam estar ao alcance das mãos.

Torreão começou a baixar e voltar ao castelo.

– Não. Pare. Não vamos voltar lá. Nosso destino tem que ser outro.

Decidira ali, naquele momento. Sua vida não seria a que seu pai planejara. Pensou em ir até Aquae Flaviae, mas lá provavelmente alguém a reconheceria. Sorriu ao lembrar das histórias dos viajantes. Só haveria um lugar na Lusitânia em que estaria escondida de seu pai.

Rezando aos deuses do ar e da terra para que estivesse indo na direção certa, apontou para Torreão a direção em que pensava estar Olissipona, a capital e maior cidade do império lusitano.

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Sobre anacristinarodrigues
Eu trabalho numa biblioteca. Estudo História. Escrevo. Leio. Traduzo. Uma traça que fala, basicamente.

10 Responses to A menina de Val de Grifos

  1. Jorge Pereira says:

    Como fragmento de uma estória maior está ok, embora menina-que-foge-de família-opressora-com-auxílio-de-
    amigo-mágico seja um clichezão de estórias de fantasia desde a Gata Borralheira.

    Espero que você publique seu livro um dia para que eu possa ter a visão do todo.

  2. Marcelo Jacinto Ribeiro says:

    Olá, Ana ! Obrigado por partilhar conosco seu conto, muito bom, adorei a mistura de fantasia e fatos históricos, você trabalhou muito bem a geografia, gostei mesmo ! Espero em breve seu livro com toda a saga !

  3. Lancaster says:

    Simples, carismático e eficiente. Na verdade, eu de alguma forma gosto mais disso do que da saga oficial.

  4. Octavio Aragão says:

    Sou alérgico a grifos e meninas mimadas, mas adoro bons textos.

    Muito bom, Ana!

  5. Estevão Ribeiro says:

    Muito massa, branquela! Devia investir mais na menina, pode render tanto quanto a história oficial…
    Te amo!

  6. Helena says:

    Bacana, Senhora de los Faisones! Seu conto faz uma mistura interessante de ficção histórica com elementos de fantasia, acho que é um ótimo caminho, dá uma atmosfera diferente dos contos de tradicionais do gênero.
    E trabalhou muito bem o suspense, alem de bem escrito – quero ler o resto

    beijão,

    merrel

  7. Marcelo Galvao says:

    Gostei do texto. Fiquei ainda mais curioso para ler o livro.

  8. Ana Carolina says:

    Nossa… Dá para quase sentir o cheiro de maresia e a melancolia de estar na beira… rsrsrsrs

    Gostei do texto, da menina e de seu simpático bichinho de estimação. Só falta mesmo uma revisãozinha – vi que umas coisas bobas passaram.

    Mas dá só mais água na boca para ler o livro…

  9. Denis Moura says:

    Mágica mistura de História e fantasia. Revira nossas infantis lembranças dos contos de fadas ao tempo que nos lança na realidade das épocas passadas.
    Dancemos ao redor de seu caldeirão, maga Ana Cristina. Queremos mais colheradas!!

    Abraços Microcósmicos!!

  10. Pingback: Notícias, notas, etc, etc « Talkative Bookworm

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