Paradise Kiss – ou como fazer um shojo mangá irônico e doce

Quem me conhece, sabe que eu sempre tive uma resistência MUITO grande aos mangás para meninas, os chamados ‘shojos’. E sempre tive MESMO. Não posso negar, obviamente, que vez por outra uma dessas historinhas dramáticas e clichês conseguia me cativar – como por exemplo ‘Angel’ e ‘A princesa e o cavaleiro’. Claro que isso se dava por mérito da força da narrativa, como aconteceu em ‘Mars’, uma série que tem vários e vários dos clichês do tipo, como a mocinha isolada, o anti-mocinho rebelde, os amigos cômicos, problemas com pais… E não aconteceu em ‘Karekano’, um grande sucesso do shojo, repleto dos mesmos clichês e arquetipos, mas que – para mim – tem uma narrativa frouxa, artificialesca e puxada demais para um farsesco pouco convincente.

Mais um título se juntou a seleta lista de ‘ei, é shojo mas eu gosto’.

Faz uns dias, acompanhei o marido no Plaza, aproveitando a noite juntos antes dele ter que voltar a Vitória para resolver uns assuntos. Finalzinho, com o shopping quase fechando, passamos na loja de revistas para que ele comprasse alguma coisa para ler enquanto estivesse fora.

Compulsiva que sou, logo fui escolher alguma coisa para mim. As revistas de história estavam pouco apetitosas, as a de administração/negócios me pareciam indigestas… então, passei para a parte dos mangás.

Um tanto desconfiada, comprei ‘Paradise Kiss’, um pacote com os três primeiros (só depois da compra soube serem cinco volumes no total, graças ao Lancaster), muito tentada pelas capas em tons fortes e com personagens estilosos. Os outros dois vieram quando fui tragada pela história.

Ok, surpresa, o negócio é bom. A trama gira em torno da protagonista, Yukari Hayasaka (não me cobrem preciosismos, eu lá sei o que é nome ou sobrenome, só soube soletrar porque colei do volume), que está se preparando para… hum… aquele negócio que é parecido com o nosso vestibular mas muito MUITO mais cruel (sim, acho o sistema japonês sádico, pra dizer o mínimo) e suas descobertas sobre alternativas a vida que sua mãe planejou – e cobra dela com um sadismo exemplar. O que traz opções à essa moça alta para os padrões japoneses é um encontro casual com Jôji Kozumi, um jovem estudante do que seria uma ‘escola técnica de moda’. A partir desse momento, trava conhecimento com o grupo de Jôji – ou ‘George’, os integrantes do ateliê ‘Paradise Kiss’, ou ‘ParaKiss’. Todos são estudantes e colegas de George, porém muito diferentes entre si: Miwako, Arashi e ‘Isabella’, um homem vestido de mulher, de atitudes e pensamentos femininos.

Como todo o bom shojo, Yukari – que recebe o nome de ‘Caroline’ – se envolve com o conturbado ‘George’, numa relação cheia de idas e vindas, e que contribui para o amadurecimento de Carol. Mas como só acontece quando a pessoa que escreve tem realmente talento, a trama se desenvolve com bom ritmo, os personagens secundários e suas histórias fluem bem, cruzando-se com o conflito entre ‘Carol’ e ‘George’ mas sem fazê-lo perder importância ou coerência.

O mais interessante são os toques de metalinguagem, que a toda hora lembram o leitor que ele está com um mangá em suas mãos. Aliás, especificamente um shojo. E estes momentos são irônicos, como a personagem Isabelle reclamando que aparece pouco, ou dizendo ‘ei, o que você queria, isso é um SHOJO’ em momentos de melosidade.

E aqui vem um grande spoiler, não leia se tiver interesse em adquirir ParaKiss – o que eu recomendo MESMO.

Sabe o final básico do shojo mangá? A mocinha apaixonada e o anti-herói-igualmente-apaixonado-mas-relutante acertando suas diferenças e vivendo felizes para sempre?

Naaaaaaaaaaaaaaaaaaah. Nada disso, crianças. George vai para Europa, viver seu sonho de viver dos modelos que cria.

Carol? Ficou, viveu sua vida, a vida NOVA de modelo que escolheu para si depois de conhecer o pessoal do ParaKiss, acabou casando com o nerd-bonzinho-que-era-seu-melhor-amigo.

Tristeza? Amargura pelas promessas não cumpridas do primeiro e grande amor? Bom, não para nossa protagonista. Ela está SATISFEITA E FELIZ.

E isso é ótimo, porque é assim que a vida é. Geralmente, a pessoa com quem você casa e passa um bom tempo – se não o resto da sua vida – não é seu primeiro amor. Muitas vezes, sequer é o seu grande amor.

Estes servem para amadurecer você, preparar você para tudo o que você ainda vai passar. Foi isso que George foi para Carol em ParaKiss.

O outro mangá de Ai Yazawa, Nana, um sucesso estrondoso no Japão está sendo lançado no Brasil. O primeiro volume – que eu já li – promete bastante. Não tem a metalinguagem tão vísivel quando em ‘ParaKiss’, mas são histórias tão reais quanto a de Carol.

Sobre talkativebookworm
Eu trabalho numa biblioteca. Estudo História. Escrevo. Leio. Traduzo. Uma traça que fala, basicamente.

2 Responses to Paradise Kiss – ou como fazer um shojo mangá irônico e doce

  1. Pingback: Paradise Kiss - ou como fazer um shojo mangá irônico e doce : blog edvdbox

  2. Pingback: Notícias, notas, etc, etc « Talkative Bookworm

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: