Um gostinho de ‘Finisterra’

(O trecho abaixo foi postado no meu blog ‘Doces Pensantes’ no ano passado, como um ‘teaser’ de Finisterra. A cena é a chegada da esquadra de Cabral nas bordas do fim do mundo. Não é definitivo, claro, nada no livro por enquanto é. Talvez o título, gosto dele. E os protagonistas, claro.

Ah, sim: tio Pessoa, me perdoe, eu não sei o que faço!

Pessoal dos comentários: respondo no post de hoje a noite.)

Finisterra – Viagem ao fim de tudo.

Um período de calma atravessa o Grande Continente. Os povos do Norte não mais ameaçam as fronteiras do Danu. A paz finalmente foi firmada entre Albion, Francia e Burgúndia. Porém, do confim ainda desconhecido do mundo, uma ameaça surge.

Os Corte-Real, eminentes navegadores a serviço do Imperador Dom Manuel, partiram em expedição ao misterioso fim do mundo guiados por um velho diário semi-esquecido. Mas não retornaram. Anos depois, uma mensagem é encontrada, trazendo um aviso dos irmãos: os habitantes de onde o mar acaba querem tomar para si as terras do Grande Continente.

Como Imperador da Ibéria Lusitânia, cabe a D. Manuel resgatar seus súditos e impedir essa terrível invasão. Para isso reúne uma imponente esquadra, composta pelos mais capazes homens dos diversos reinos.

E como todo o grande feito precisa ser lembrado, o cronista-mor do Império, Rui de Pina, é enviado nessa expedição, junto com seu assistente, Pero de Caminha. Por missão, ambos devem retratar as glórias e as aventuras dessa esquadra. Mesmo a custo de sua própria vida.

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Foi a voz de Nimue que deu o alarme.

– Comandante, uma criatura vinda de Ocidente!

Rui, assim como os outros, virou para olhar na direção indicada. Embaixador calejado, não estranhava quase nada. Na verdade, já esquecera da última vez em que algo lhe causara estranhamento. Nem mesmo as mais fantásticas maravilhas afetavam seu coração a ponto de tirar o ar do cronista. Já vira sereias, licantropos, harpias, dragões, dragonetes, cavalos alados e de chifres, entre muitas outras criaturas.

À sua frente erguia-se um ser horrendo. Como um negrume, saiu da nuvem de escuridão que tinham avistado no horizonte e aproximava-se com uma rapidez inacreditável. Não conseguia definir seus contornos. Percebeu que era de cor escura, pois a luz nele sumia como se encontrasse a noite. Seu hálito pútrido chegou até a embarcação e fez com que Rui sentisse uma forte vertigem.

O monstrengo que saíra do fim do mar voou por três vezes ao redor da nau, chiando como um morcego que habitasse algum dos Infernos em que os nazarenos mais radicais acreditavam. Quando falou, sua voz pareceu querer furar os ouvidos dos presentes, estridente e alta que era.

– Quem ousou entrar nas terras que não desvendo, meus negros tetos do fim do mundo?

Rui tremeu. O comandante Cabral respondeu, a voz serena apesar da ameaça.

– Viemos a mando do glorioso Imperador D. Manuel, filho del-Rei D. João Segundo!

A sombra pestilenta não retornou para o lugar de onde viera. Aproximou-se e rodeou a nau outras três vezes. O cronista pode perceber contornos de um corpo largo, e placas de sujeira e imundícias. E novamente, a voz incômoda ressoou.

– De quem são as velas onde me roço? De quem as quilhas que vejo e ouço? Quem vem poder o que só eu posso, que moro onde nunca ninguém me visse e escorro os medos do mar sem fundo?

A voz fraca de Pero elevou-se trêmula para se fazer ouvir sobre o barulho da respiração da besta voadora.

– Viemos a mando do glorioso Imperador D. Manuel, filho del-Rei D. João Segundo!

E o monstrengo aproximou-se mais ainda. Rui lembrou de algo, ensinado por Nimue no início dessa jornada, quando atravessaram uma grande calmaria. Pois que a sacerdotisa de Avalon havia explicado o poder tríplice em relação a tudo que era ligado à magia, e principalmente a criaturas mágicas. Antes que o monstro completasse três voltas pela terceira vez, o cronista usou sua voz, treinada em diversas embaixadas.

– Nesta nau, sou mais do que apenas eu pois sou um povo que quer o mar que é teu. Mais do que o mostrengo, que almeja minha alma e roda nas trevas do fim do mundo, obedeço a vontade de um só senhor. Assim iremos prosseguir, pois viemos a mando do glorioso Imperador D. Manuel, filho del-Rei D. João Segundo!

A escuridão fétida rugiu, um bramido pavoroso que gelou a alma de todos. Abriu suas asas de negrume e podridão, avançando em direção à pequena nau.

Sobre anacristinarodrigues
Eu trabalho numa biblioteca. Estudo História. Escrevo. Leio. Traduzo. Uma traça que fala, basicamente.

3 Responses to Um gostinho de ‘Finisterra’

  1. tibor disse:

    Dizem que na guerra e no amor tudo vale. Acho que na literatura também. Gostei da iniciativa. Parabéns e MUITA sorte com Finisterra.
    Beijão!

  2. Jorge disse:

    Simplesmente fiquei com vontade de continuar a ler

    Mto bom

  3. Fernando S. Trevisan - http://fernandotrevisan.com.br/ disse:

    Os textos da Ana geralmente causam isso, Jorge… se você consegue passar do primeiro capítulo, claro 😛

    Ok, ok, OK! Não vou mais falar isso. :)))

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