Lua Negra

Foi a noite mais escura da minha vida. O ar estava denso e pesado, e nenhuma estrela brilhava. Kahntsi Ehnita, o xamã responsável pelo ritual das noites sem lua, havia convocado uma reunião de todos os chefes dos Hodenosaunee. Meu tio, irmão de minha mãe, estava lá representando nossa nação, caienga. Nos chamavam de ‘mohawks’, por nossa ferocidade. E o acompanhei, orgulhoso.

Não era uma reunião normal. O Conselho havia se reunido duas luas antes. Não estávamos em guerra, não era preciso reunir os chefes. Tremi na minha roupa nova. Todos esperavam algo de ruim a ser dito. Os chefes das Cinco Nações estavam frente a frente na grande fogueira. Meu tio postou-se do lado do chefe Seneca e do chefe Odonanga, como de costume, por serem as nações que fundaram a nossa união. Do outro lado, os chefes Oneida e Cayuga, os irmãozinhos. Seus clãs eram fortes, mas ainda não tanto quanto os dos irmãos mais velhos. Meu pai era filho do chefe Oneida; e me olhou com orgulho, ao me ver do lado de meu tio.

E o xamã Lua Negra entrou. Velho, como se tivesse existido desde que a Mãe de Todos criara o Grande Rio. Para nossa surpresa, não estava pintado, não usava paramentos. Vinha vestido com a sua roupa simples, se enfeitara com a sua dignidade e sua sabedoria. E, hoje, cativo daqueles que o mataram, ainda posso escutar sua voz trêmula. Lágrimas me subiram aos olhos, naquela noite. E como todos os outros, gritei pedindo auxílio da Mãe.

– Ah, irmãos, Nações das Grandes Casas! Nós, que somos irmãos das árvores, e que vivemos ao abrigo de sua sombra. Nós, que chamamos a águia de mestra e o urso de companheiro. Eis o que os sonhos me disseram!

“A Mãe me pegou pela mão. Mostrou as florestas em que vivemos, o rio que amamos e as praias de onde tiramos o peixe. Foi mais além e mostrou onde nossos outros irmãos vivem. As terras do bisão e da areia. Os lagos silenciosos. E apesar de sermos inimigos, meu coração ficou feliz ao vê-los. E olhei para a Mãe. Chorava, e suas lágrimas me levaram até o mar. Perguntei ‘Mãe, por que chora?’ E ela disse ‘Choro pelos meus filhos, todos eles. Do pequeno raccon ao grande bisão. Do pacífico dakota ao guerreiro mohawk. Tudo tem um fim, e o tempo dos meus filhos não irá durar. Vocês que correm livres serão prisioneiros. Passarão fome, terão sede e seus filhos serão mortos. E no fim, serão iguais a eles’. Não pude perguntar, pois ela me trouxe de volta. E eu acordei, e vi a noite sem estrelas. Agora sei que tudo está acabando.”

Gritamos noite adentro. Quando eles vieram, lutamos como se fossemos loucos, pois sabíamos que tudo estava perdido. Muitos morreram. Meu tio, meu pai e o xamã. Fui preso, e da minha prisão ainda ouço nossas vozes gritando. Hoje sei que naquela noite sem estrelas, todos os ‘índios’ gritaram à Mãe.

Sobre anacristinarodrigues
Eu trabalho numa biblioteca. Estudo História. Escrevo. Leio. Traduzo. Uma traça que fala, basicamente.

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