O caso da estatueta roubada

(Texto que foi enviado para competir na OE, mas venceu por WO….)

Odeio clichês, chavões, estereótipos e outras faltas de originalidade. E foi impossível não pensar nesse meu sentimento quando ele entrou na minha sala. Suado, falando alto e gesticulando, sotaque carregado: o típico italiano, enfiado em um terno mal cortado. Disfarçando minha repulsa, indiquei a cadeira reservada aos clientes, enquanto fazia uma pose de atenção total. Minha mente divagou entre o péssimo caimento da vestimenta dele e quanto receberia por um trabalho para o carcamano. Um “porca miséria” aqui, outro lá, e pouco a pouco foi se desvendando uma trama confusa, monótona e…clichê. Uma estátua rara, de um Deus do Ódio polinésio, fora roubada da casa do italiano, e ele precisava recupera-la. Havia vendido para um cliente importante – era antiquário. Recebera o dinheiro, e não tinha mais o tal Deus.

Estava prestes a mandar o sujeito procurar a seção de “Achados e Perdidos” do Correio mais próximo, quando outro estereótipo entrou na minha sala. Loira, alta, bem feita de corpo, imensos olhos azuis nublados de lágrimas, lábios pintados com esmero, que tremiam no esforço para conter os soluços. Retiro o que disse. No fundo, clichês têm o seu lado interessante.

A deusa abraçou o velho, chamando o de pai, para minha grande felicidade. Depois virou em minha direção aquelas duas poças de luz. Pediu minha ajuda para o pai. Ao Inferno o meu preconceito em relação a clichês. Peguei meu sobretudo do cabide, atrás da porta, enfiei o chapéu na cabeça e dei passagem para a mocinha. O pai pediu para ficar, pois tinha medo dos assaltantes.

Ofereci meu braço a beldade loura que me acompanhou até a residência que dividia com o pai. Moravam bem, em uma mansão afastada da cidade. Chique. As luzes estavam apagadas, e minha acompanhante explicou que era porque os empregados já estavam dormindo. Fui imediatamente ao aposento indicado, onde a estatua ficava antes do assalto, enquanto ela disse que iria até a cozinha.

Olhando os cacos de vidro, antegozei as delícias de completar aquele caso. Iria me tornar um herói para aquela mulher estonteante, além de poder cobrar um preço bem substancial. Finalmente poderia deixar de ser um detetive de terceira e ir além. Bom, muito bom. Um som estridente tirou-me dessas deliciosas reflexões. Sirenes?

Uma semana depois, fui libertado. Finalmente os policiais acreditaram na minha história, principalmente depois do telefonema do meu senhorio, reclamando da porta aberta e do escritório saqueado. Sim, maldito seja o velho, além de assaltar uma mansão e me colocar de bode expiatório, levou tudo o que eu tinha no mundo.

Entrei na sala vazia, dei um murro na parede e gritei.

– Porca miséria, eu odeio italianos!

Ao invés de me sentir aliviado, a mão começou a latejar e doer. É como eu disse no princípio. Odeio clichês e coisas do tipo. Mas com tantos chavões ao meu redor, eu não poderia ser o modelo de detetive que sempre acerta?

Sobre anacristinarodrigues
Eu trabalho numa biblioteca. Estudo História. Escrevo. Leio. Traduzo. Uma traça que fala, basicamente.

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