A vila na areia

– Por mil relâmpagos. Juro que aconteceu assim! Vi como se fosse essa garrafa de rum! Eu e os rapazes do “Sereia do Inferno” éramos o pior bando de piratas e assassinos que já percorreu os Sete Mares. Os covardes da Marinha do rei tremiam só com a menção do nosso nome.
“Ouvimos falar de uma pequena vila de pescadores, onde as velhinhas guardavam baús debaixo de suas camas…repletos de ouro que extraíam ilegalmente. Descemos do navio em um único grande bote, na hora mais escura de uma noite sem lua, quando nem o vento fazia barulho e o mar não se movia.”
“Eram uma dúzia de cabanas de palha, espalhadas pela areia. Entramos em cada um dos barracos. Por Poseidon, cada cama de velha que achamos tinha debaixo um baú com ouro! Os imbecis que acordaram, nós cortamos as gargantas. E juro, por mil caranguejos, que somente as velhas não acordaram! Todo o ouro que conseguimos, juntamos no centro da aldeia e distribuímos entre os homens.”
“Mas a Sorte não era nossa. Um dos homens achou barris de cerveja. Todos começamos a beber e cantar. O dia amanheceu e estávamos lá, estirados, bêbados como porcos. Pois não conseguimos levantar durante o dia, e só quando chegou o anoitecer eu recobrei os sentidos. Pelos deuses do Mar, preferia ter continuado dormindo! Os miseráveis dos aldeões que matamos estavam em pé, suas gargantas abertas, vindo em nossa direção! E as malditas velhas atrás, rindo! Era uma aldeia de bruxas, amaldiçoadas sejam, cadelas, amantes do Diabo! Gritei, o máximo que podia, para que os homens acordassem!”
Nem todos conseguiram. Os que os defuntos alcançaram, eram estraçalhados ali, perante meus olhos, como se fossem carne! Lutamos bravamente, com nossas facas e punhais. Mas aos poucos os desgraçados chegavam mais perto, arreganhando os dentes em um sorriso sangrento. E as putas do Demônio, as velhas, riam! Eu e meus homens largamos os punhais e corremos, como raios, para alcançar o bote, que estava perto. Ah, mas por Belzebu, não conseguimos. Somente eu consegui!”
Em sua voz rouca e grasnida, o papagaio que ouvia a história, cantou um pequeno refrão.
– Capitão, capitão
É um covardão.
Deixou seus homens na mão.
Agora vai pra Inglaterra.
Vai virar sabão!
O velho pirata atirou a garrafa vazia no pássaro, que se desviou e continuou a cantar. O navio de bandeira inglesa, que deixara Jamestown há algumas semanas, o encontrara delirando, dentro de um bote, no meio do mar das Caraíbas. Dizia coisas sobre mortos que andavam e bruxas, e ouro puro. Não deram atenção de início, mas descobriram que era Alonso Hernandez, capitão do “Sereia do Inferno”, um dos mais perigosos piratas daquelas partes do oceano. Não encontraram sinal do navio, e concluíram que os outros deviam ter se amotinado e o abandonado. O colocaram em uma cabine, e o esqueceram lá até chegarem, quando o encontraram estrangulado com um lençol pendurado no teto.
Jamais se soube o destino do “Sereia do Inferno”.

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Sobre anacristinarodrigues
Eu trabalho numa biblioteca. Estudo História. Escrevo. Leio. Traduzo. Uma traça que fala, basicamente.

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