Isto não é uma resenha.

Novembro 21, 2009

Eu não acredito em coincidências, mas que elas existem, existem. Mais ou menos o que meu pai pensava de bruxas, até eu sair do armário de vassouras. Só que isso não vem bem ao caso agora.

Voltando a coincidências e blablabla, hoje estava eu na casa dos meus pais, depois de visitar a minha nova casa – mudo semana que vem – quando o carteiro tocou a campainha. Opa, correio? Com encomenda? No feriado? E pasme, era para mim.

Em um pacote cuidadosamente embalado (haja fita adesiva), dois exemplares do mais recente lançamento da Tarja aguardavam. Richard Diegues e Fábio Fernandes tiveram a gentileza extrema de me enviar um exemplar de ‘Dias da Peste’, o primeiro romance de um dos nossos melhores escritores de FC – e uma das minhas mais notórias referências no Fandom.

O outro exemplar? Tá disponível pra sorteio na comuna FC no Orkut. CORRE LÁ!

Voltando a vaca fria…

Oras, feriadão, marido trabalhando, calor demais pra voltar pra casa pra escrever… me encalacrei com o livro na frente do ventilador e fui ler. E li. Li o livro TODO.

Ok, o livro não é muito grande – mas teve livros da mesma editora e tamanho que eu fiquei semanas para ler. O troço é um pageturner de primeira e me prendeu até terminar mesmo.

Até me senti de volta à adolescência, quando minha mãe brigava pra que eu largasse o livro e fosse ‘lá fora’ (por lá fora, entendam qualquer lugar sem livros).

Como eu disse no título, esta não é uma resenha. É só pra dizer que o livro é foda, vão comprar right now.

Em mim, ele teve um efeito colateral. Me pus a pensar quantas das pessoas fundamentais na minha vida – aquelas que mudam seus paradigmas por um motivo ou outro – eu conheci pela rede. E fiquei assustada. Meu marido eu conheci virtualmente. Minha primeira grande desilusão amorosa também. Não o primeiro que partiu meu coração. Isso é normal e tal… Digo aquele cara que foi o primeiro a fazer você pensar ‘Putamerda, aquelas cartas que mandam pra Marie Claire são de verdade. Os homens SÃO uns canalhas e fazem qualquer coisa por sexo, mesmo o virtual” (aliás, ao contrário da imensa maioria dos meus amigos virtuais, esse – com quem voltei a falar a pouco – ainda não conheci pessoalmente); até mesmo a pessoa que me fez voltar a confiar em mim mesma também veio a mim por meios virtuais…

Não, o livro não fala sobre isso – ao contrário do que o seu senso comum possa dizer sobre livros cyberpunk, nem todos envolvem descrições preciosistas de imersões em realidade virtual. Foi só algo que bateu quando li o livro e seu relato de como a web mudou o mundo.

Em breve, uma resenha como o livro merece.

 


Preview da HQ de ‘Correndo nas Sombras’

Outubro 31, 2009

‘Tão lembrados que eu comentei sobre a adaptação de um conto meu para quadrinhos?

Finalmente ficou pronto.

Eu fiz o roteiro e meu-amigo-de-fé-irmão-camarada Alex Lancaster fez os desenhos. O resultado ficou foda – mesmo, não há outra palavra! Vocês vão conferir na coletânea de quadrinhos nacionais Inkshot – aliás, o Estevão vai estar lá também.

Com vocês, a segunda página da versão em inglês de Correndo nas Sombras

Inkshot2Clica que aumenta.

Curiosamente, é o primeiro trabalho ficcional meu em conjunto com o Lancaster, apesar dos muitos anos de amizade. Certo, antes fizemos o famoso artigo sobre o pulp na Scarium, mas aquilo é outra história.

Espero que curtam.

(Lembrando, o conto é esse aqui)


Feliz aniversário, Biblioteca Nacional. Mas… comemorar o que?

Outubro 29, 2009

Depois de longo e tenebroso inv(f)erno, minha conta no WordPress voltou a funcionar. O motivo alegado foi ‘quebra dos termos de uso’, porém não consegui descobrir exatamente o que foi que eu fiz. Como tá tudo normal por aqui e a conta voltou a funcionar, ninguém sabia.

E eu sei que todo mundo quer  ler o final das minhas aventuras no Canadá. Hoje a noite, eu pego no meu HD e mando pra vocês.

Neste momento, estou na Biblioteca Nacional, baixando umas atualizações de programas e fazendo fichas catalográficas. Então vou aproveitar e fazer um post comemorativo-reflexivo.

Afinal, hoje a maior biblioteca da América Latina – e uma das 10 maiores bibliotecas nacionais do mundo –  faz 199 anos de sua fundação em terras brasileiras.  Só que sua história vem de bem mais longe no tempo. Afinal, ela é herdeira da Real Biblioteca portuguesa, montada pelos reis lusos após o terremoto de Lisboa em 1755. Com a invasão napoleônica, a corte veio para a colônia trazendo os seus bens mais preciosos – entre eles, boa parte da coleção da Biblioteca. Livros de horas, incunabulos, mapas manuscritos – o acervo assim trazido tem um valor realmente incalculável. Uma boa leitura sobre esse caminho é o livro A longa viagem da biblioteca dos reis de Lilia Schwarcz.

A coleção foi crescendo na nova sede  - ou sedes, já que para chegar ao belíssimo edifício da Av. Rio Branco os livros passaram por vários outros prédios – por meio de compras e doações. Entre os ilustres e os anônimos que deixaram um legado para a fiel depositária da memória literária nacional, o mais importante e significativo foi com certeza nosso segundo e último Imperador. D. Pedro II, ao ser deposto, mal teve tempo de reunir sua família para embarcar em direção a Portugal. Seus papeis pessoais e sua impressionante coleção de documentos ficaram para trás. Em um ato de generosidade, encarregou pessoas de sua confiança para que, junto com representantes do recém-instalado regime republicano, separassem o que era pessoal/familiar. O restante deveria ser dividido entre três instituições, entre elas a Biblioteca Nacional. A única condição era de que os documentos ficassem agrupados com o nome da imperatriz, Teresa Cristina Maria.

A partir daí, os números só foram aumentando. Para chegar nos atuais 9 milhões de itens – e subindo – muito contribuiu a lei do Depósito Legal (apesar de muitos editores não a cumprirem), pela qual dois exemplares de toda a edição publicada no Brasil devem ser doados a B.N. para fazer parte do seu acervo.  Isso só confirma sua posição e sua importância como o principal acervo para o estudo da História da Literatura e da Imprensa no Brasil.

Além disso, é responsável pelo ProLer, programa de incentivo a leitura do Ministério da Cultura, pelo Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas, pelo Plano Nacional de Obras Raras, pela agência brasileira do ISBN e pelo Escritório de Direitos Autorais. Seus laboratórios de reprodução, encadernação, preservação e restauração são referência no Brasil. Seu catalogo pode ser pesquisado on-line e seus documentos estão gradativamente sendo digitalizados e colocados para consulta na internet.

Falando assim, dá impressão que nesses quase 200 anos temos mais que comemorar e festejar.

Ledo engano.

A Biblioteca está passando por um momento muito dificil.

A imensidão do seu acervo tornou o prédio-sede pequeno – os livros demoram a ser disponibilizados ao público simplesmente por falta de espaço nas estantes do setor de Obras Gerais. Documentos estão deteriorando por falta de preservação adequada. Não há dinheiro para manter os laboratórios trabalhando a todo o vapor. A Hemeroteca Brasileira, projeto ambicioso para disponibilizar de forma adequada o acervo de periodicos da B.N., está parado e o prédio destinado a isso virou um depósito de material fora de uso e exemplares duplicados. A falta de funcionários, desanimados pelos baixos salários, é crônica e mal disfarçada por terceirizados com pouco treinamento para as funções a serem exercidas. A situação física do prédio está bem complicada – as instalações elétricas estão no seu limite, há vazamentos e janelas que não fecham direito. O furto de peças é constante.

Nesses 199 anos, o maior presente que a sociedade brasileira poderia dar ao seu maior centro de memória cultural?

Atenção e respeito.

Cobrem dos seus governantes e dos seus representantes.

Se você é escritor, procure saber se a sua editora cumpre a lei do Depósito Legal. Se você é editor, cumpra-a.

Por mim, eu só posso dizer que apesar de tudo é uma honra poder vir todos os dias para um lugar no qual História do nosso país é a principal razão de existir.

 


WorldCon – Dia 2

Setembro 2, 2009

Pois é, as coisas estão começando a voltar ao normal, porém deadlines pululam na minha frente e uma crise renal me tirou de combate por quase uma semana. Aí tudo embola mesmo, não tem jeito.

Obrigada pela paciência de vocês.

Para quem quiser ouvir mais sobre minha experiência, saiu a última parte dos meus monologos sobre a WorldCon no Papo na Estante. Agradeço os comentários sugerindo que eu tivesse um programa de rádio para falar de FC e Fantasia. Só digo que estou aberta a negociações nesse sentido e adoraria mesmo participar dessa experiência. Mas o podcast tem valido a pena e sido muito divertido.

Ah, sim. No meu post sobre a publicação de The White Shield House na Kalkion, o colega latino americano Miguel Esquirol Rios, responsável por um site boliviano sobre FC e F, deixou um comentário, falando que também esteve na Anticipation e que assistiu alguma das mesas em que participei. Quem quiser ler sobre a experiência dele lá, ele fez um bom relato em seu blog.

E não posso deixar de comentar a exatidão da descrição que o Christopher Kastensmidt – um gringo que habita o RS – fez no seu LJ. Para ele, a Worldcon 2009 foi aquela em que “Ana Cristina Rodrigues andou de um lado para outro de olhos arregalados de espanto”

Bom, mas vamos ao que interessa.

Dia  2

Os organizadores da Anticipation não me conhecem… Tanto que acharam boa ideia colocar um painel meu – exclusivamente meu, só eu falando para a plateia – às 09:00 da manhã. O tema? Olivier de La Marche e Carlos ‘Temerário’. Depois de uma noite pessimamente dormida – afinal, todas elas foram, dormi tarde, acordei cedo e sem conseguir dormir direito de ansiedade para não perder a hora – juntei minhas anotações, minha coragem e fui para o Palais de Congres.

A mesa chamou-se Trough Loyal Eyes: How the chronicler Oliver de La Marche built Charles Duke of Burgundy e foi – pasme! – um sucesso; a sala tinha umas 20/25 pessoas (mais do que o público das minhas mesas em congressos de História da vida) e o roteiro não chegou a ser usado. O público começou a participar, perguntando e acrescentando informações. Falamos sobre a Guerra dos Cem Anos, os Habsburgos, Dom Sebastião, Canudos, a Guerra dos Trinta Anos… entre outras coisas, isso em pouco mais de 50 minutos.  Quase perdi a hora e sai expulsa pelos próximos palestrantes.

Expulsa e correndo, pois estava na hora do Rapid Fire Reading das meninas do Broad Universe. Rapid Fire Reading é a leitura em conjunto de vários autores. Cada uma tinha cerca de 8 minutos para ler um conto ou um trecho de conto maior. Eu peguei pela metade mas cheguei a tempo de ler a versão em inglês de Como nos tornamos fogo? – que foi bem elogiada – e de ouvir Julia Dvorin, Trisha Wooldrige, Elissa Malcon e Roberta Rogow – que leu uma peça de filk.

Uma rápida pausa para o almoço – se não me engano, foi nesse dia que comi em um restaurante que faz macarrão oriental no mesmo estilo que o nosso Spoleto, com a gente escolhendo a massa, os acompanhamentos e o molho. Foi muito bom.

E sorte minha ter comido algo, pois a minha mesa seguinte foi de dar fome nos desafortunados que não conseguiram comer antes. Participar da mesa Food: Ancient, Modern, Future, Near and Far foi um dos momentos mais divertidos da WorldCon pra mim.

A escritora Cecilia Tan moderou, com a participação de Jon Singer, Jon Courtenay Greenwood e Richard Foss. No começo, estavamos incertos do que iamos falar – afinal, nem o título nem a descrição da mesa ajudavam muito. Mas a moderadora acertou o ponto e logo todo mundo começou a falar sobre as mais estranhas experiências culinárias que já tivemos na vida real e na literária. Jon Courtenay Greenwood cmentou sobre a culinária em seus livros, eu falei sobre mangas, feijoada e a antologia ‘Gastronomia Phantastica’ – que terá novidades em breve, Richard Foss – que além de escritor, é crítico de culinária – comentou sobre suas incursões em restaurantes estranhos. Cecilia Tan foi uma moderadora muito participativa, comentando sobre como ser de uma familia multicultural deixou-a aberta a sabores os mais diferentes. E Jon Singer revelou que adora não só a comida brasileira, mas os nomes que damos a nossos pratos.

Nessa mesa, a audiência foi muito participativa – e no final, duas pessoas se aproximaram para falar comigo. Uma quis dizer que adorava mangas (ouvi isso o resto da convenção) e uma senhora veio falar comigo em um português até bom. Ela tinha morado durante quatro anos no Rio e sentia muitas saudades daqui, lembrou dos restaurantes que serviam feijoada às sextas.

Depois, fui para a mesa do Broad Universe e passei pela fila gigantesca para pegar um autográfo com Neil Gaiman. É, passei – não entrei.  O motivo pra isso? Os organizadores, antecipando a gaiman-mania que tomou conta da WorldCon, dividiram os autográfos do Neil Gaiman em duas sessões, que teriam convites distribuidos antecipadamente. Como a distribuição foi justamente na hora em que eu estava falando, dessa primeira eu fiquei fora. A fila estava imensa, mas todos respeitaram o limite de 2 livros por pessoa (para outros autores, o limite era de 4)… A minha colega Trisha também não conseguiu seu convite, então choramos nossas pitangas na mesa, junto com outras ‘broadies’.

Esses momentos de bate-papo na mesa do grupo foram muito legais, mesmo. As meninas do Broad Universe são profissionais do ramo da literatura, muitas vivem exclusivamente disso, algumas estão começando agora. Todas – Elissa Malcohn, Camilla Alexander, Roberta Rogow, Cecilia Tan, além das já citadas Trisha e Inanna – foram muito receptivas. Ali, eu aprendi muito sobre como funcionam as coisas no mercado americano, que é completamente diferente do nosso – MESMO.

Antes de ir ver a entrega do Prêmio Sidewise – para os melhores da História Alternativa – peguei um autográfo com Karl Schoreder(com uma foto especial pro Eric). A entrega do prêmio demorou pouco, mas foi bem interessante. Os apresentadores conversaram sobre o tema e levantaram um ponto que merece reflexão e debate: a História Alternativa, como gênero literário, já não estaria suficientemente amadurecida para não depender mais da Ficção Cientifica como suporte? Pessoalmente, nunca tinha refletido por esse aspecto – mas achei interessante a colocação. Os vencedores foram o romance Dragon Nine Songs de Chris Roberson (o que não me surpreendeu, dado o tanto que o Gerson Lodi falou do livro) e ‘Sacrifice’ de Mary Rosenblum, que saiu na coletânea Sideways in crime.

O cansaço venceu e eu tive que desistir – perdi um painel moderado por Cheryl Morgan sobre esportes e o futuro.

***

Não se preocupem, o post sobre o dia 3 já está pronto e amanhã eu publico.:)


Ops…

Agosto 25, 2009

Uma crise renal me tirou de combate nos ultimos dias, atrasando tudo aqui – inclusive atualizações aqui e nos demais blogs.

Até sábado, tentarei colocar tudo em dia.


Enquanto o outro relato não vem…

Agosto 17, 2009

Só umas novidadezinhas:

- ‘The White Shield House’ conto publicado na revista online Kalkion. O conto é uma versão bem diferente de ‘A casa do Escudo Azul’, que saiu em Ana Crônicas.

- Estevão está fazendo o maior sucesso com a sua tira online Os Passarinhos – inclusive saindo na revista Mad a partir do número 17, que já está nas bancas.

Hoje a noite continuo os relatos da viagem!


WorldCon – Dia 1

Agosto 17, 2009

Então, amigos da Rede, voltei oficialmente da 67a WorldCon. E preciso dizer duas coisas:

- Estou impressionada.

- Consegui abraçar o Neil Gaiman!!!!

Pronto, agora posso narrar a convenção com mais calma.

Sei que prometi relatos diários e blablabla, whiskas sachê. Não deu mesmo. É tanta, mas tanta coisa acontecendo – algumas ao mesmo tempo – que eu me senti vítima de uma enxurrada de informações, pessoas novas, línguas estranhas, sotaques diferentes, comidas incomuns… Eu chegava no hotel, abria a página do WordPress e não conseguia postar. Entrava em contato com o Estevão, às vezes gravava um depoimento pro Papo na Estante, as forças acabavam e eu desabava na cama.

E isso porque fiquei no hotel que serviu como quartel-general da convenção. Explico: com o tamanho das convenções norte-americanas ( e mundiais), que chegam a mais de 4000 pessoas, o costume é ter um QG funcionando pelo maior tempo possível. Para isso, eles ocupam salas e quartos em um hotel próximo do centro de convenções. Nesse hotel, acontecem as festas, organizadas por editoras, grupos de escritores e participantes da convenção – além da famosa ‘consuite’, um verdadeiro ponto de encontro, com bebida e comida a vontade para os participantes.  Sempre que passei por lá, tinha um grupo conversando.

O mais impressionante para mim foi o gigantismo da convenção. O Palais des Congrés é imenso e a WorldCon o ocupou quase que por completo. Porque o que tinha de gente por lá era realmente de ficar de queixo caído.

E para algo desse tamanho, até que foi muito bem organizado. Não houve muitas falhas visíveis, talvez apenas as mudanças de salas/horários que não foram comunicados com antecdência.

Tirando isso, não posso reclamar.

Tive a sorte de dividir um quarto com duas pessoas sensacionais, que são – como eu – parte do Broad Universe, associação que tem como objetivo divulgar e incentivar a produção de Ficção Especulativa por mulheres. Inanna Arthen e Trisha Wooldridge foram uns amores comigo e tiveram o máximo de paciência com meu inglês macarrônico, principalmente no treinamento para o Rapid Fire Reading e quando eu tive um problema no domingo a noite.

Aliás, tenho que ressaltar aqui: o clima é de camaradagem, todo mundo fala com todo mundo – e mesmo quem como eu fica travado no meio de estranhos acaba se soltando. Por exemplo,  passei quatro dias aguentando zoação do pessoal da Heinlein Society, que ocupava uma mesa do lado da nossa (Broad Universe).

Cheguei a Montreal um dia antes do começo da WorldCon, para descansar e estar disposta – afinal, paguei os tubos para participar do evento, não queria perder nada, nada, nada. A cidade é linda, florida, colorida – e estava uma temperatura agradável, que os canadenses chamavam de calor.

E é uma cidade bem multicultural, com grupos de várias partes do mundo vivendo dentro dos mesmos limites urbanos. Não vou dizer que todo mundo more nas mesmas vizinhanças/condições, porque não é bem assim.

Se você quiser ouvir meus relatos, o Papo na Estante publicou uma série de podcasts meus em Montreal. Mas vou aproveitar aqui e dar um resumo do que curti da programação:

Dia 1 – Quinta,

Assisti a três eventos + a cerimônia de abertura.

Às 14:00 hs, teve um Question &Answers com Neil Gaiman. O autor é simplesmente a simpatia em pessoa, não perde o bom humor e não tem um pingo de arrogância. Quando perguntado sobre quais das suas obras tinham sido mais significativas, no sentido de transformar sua carreira como escritor, respondeu que Sandman era um marco, até por ter sido sua profissionalização e – surpreendentemente – disse que Good Omens, escrito a quatro mãos com Terry Pratchett, transformou-o num escritor melhor, mais preocupado com o sentido do que fazia. Falou sobre a gentileza do criador de DiscWorld e de seus insights, que conseguiram melhorar e muito o senso de humor do livro. Comentou uma resenha negativa, dizendo que boas ou ruins, resenhas significam pouco para o escritor – é apenas mais um termometro da recepção do liivro, não são verdades inquestionáveis.

Falou sobre a vontade de escrever uma minissérie sobre Delirium/Delight, de Sandman, mas que infelizmente a DC não cooperou para que isso acontecesse. E que ele sabe como Delight tornou-se Delirium – só que não conta nem para Jill Thompson. That’s mean.

Quando perguntaram sobre quais trabalhos ele não gostaria que fossem adaptados, ele indicou Sandman. Para Gaiman, apenas uma radio-série de 75 eps da BBC faria justiça ao lorde dos Sonhos.

Falou ainda sobre duas vontades: escrever um musical e finalizar Miracleman.

Ao final, quando ele estava saindo, reuni toda a minha coragem para falar com ele. Dei um “AnaCrônicas”, explicando que era o meu primeiro livro e que tinha uma citação dele como epigrafe. Para minha suprema felicidade, ele me parabenizou, agradeceu e perguntou se eu era brasileira. Para se despedir me deu um abraço e um beijo no rosto.

Sim, pessoas. Eu consegui.:)

A mesa sobre editar na Europa e na América (The editing game: America vs Europe, com Frank Ludlow, Tom Clegg, Jean-Paul Dunyach, Brian Hades ) infelizmente se prendeu mais na parte da tradução/adaptação do que realmente falou sobre ediçao e as diferenças dos dois lados do Atlântico. Uma pena porque eu duvido que a questão seja somente adaptação/aculturação. Há diferenças históricas do mercado que não se resumem a isso.

Logo depois, fui assistir a mesa moderada pelo holandês Jetse de Vries sobre FC mundial, com representantes da Espanha (Alvaro Zinos-Amaro), Noruega (Tore Høie) e Japão (Kyoko Ogushi). De Vries (que para quem não sabe é responsável pelo projeto ‘Shine’, uma antologia de FC otimista, e pelo twiterzine Outshine) foi um ótimo moderador, mas falou pouco sobre como é a FC na Holanda. Destaque para a produção japonesa de light novels, citada por Ogushi como sendo praticamente a única literatura de FC do país, e para a interação entre Espanha e a América Latina destacada por Zinos-Amaro, possibilitada pela internet. Infelizmente, não consegui perguntar se, como no Brasil, essa interação é mais uma conversa ou resultou em publicações.

A cerimônia de abertura foi belíssima e muito emocionante. A mestre de cerimônias foi a escritora canadense Julia Czerneda que conduziu tudo com muito bom-humor. Eu me arrepiei toda quando Robbie Bourget and René Walling declararam a convenção oficialmente aberta.

E esse foi apenas o primeiro dia de cinco em que submergi completamente no turbilhão da FC mundial.

Amanhã vai o relato do segundo dia!


Ultimas notícias antes do Canadá – Update básico

Agosto 4, 2009

Gente, deixa antes de mais nada agradecer a todos pelos votos de boa viagem, tanto aqui quando no Orkut, MSN, Twitter, Gtalk e Messenger. Não vou mentir e dizer que estou tranqüila. Mas saber que posso contar com a força e o apoio de tanta gente boa acalma um bocado.

Estou e vou ficar devendo um post sobre a Fantasticon – eu sei, eu sei. Mas é tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo que a linha cronológica se embola e a semana passou mais depressa do que os seus sete dias. Portanto, fica pra próxima. Adianto que foi ótimo rever amigos, conhecer pessoas novas, conversar com tanta gente legal. O site do evento juntou todos os relatos, então pra vocês terem uma idéia de como foi, é só dar uma passada por lá.

Porém, não posso deixar de parabenizar o mui querido Silvio Alexandre, pelo sucesso da terceira edição do evento – finalmente independente, sem estar vinculado a EIRPG, como aconteceu nos dois anos anteriores. E para grata surpresa, mesmo sem a chamada do RPG, a Fantasticon se segurou, atraindo um bom público. Ah, trouxe vários livros, como os lançamentos fresquíssimos Padrões de Contato, a trilogia de Jorge Calife publicada em volume único; Steampunk. Histórias de um passado alternativo, da Tarja (Lancaster que me deu, prometo devorar e resenhar em breve) e o livretinho A travessia de Roberto Causo, continuando as aventuras do índio Tajerê, protagonista de A sombra dos Homens. Esse eu já li e gostei bastante, apesar da narrativa demorar um pouquinho mais pra pegar do que devia.

Tenho algumas novidades em relação à WorldCon.

- Sexta-feira, estarei junto com as minhas colegas do Broad Universe na sessão de ‘Rapid Fire Reading, a partir das 10:00 da manhã. Irei ler um conto em inglês, juntamente com Kathy Sullivan, Phoebe Wray, Camile Alexa, Inanna Arthen, Elaine Isaak, Trisha Wooldridge, Cecilia Tan, Elissa Malcohn, Roberta Rogow, Odellia Firebird, Julia Dvorin, Kim Vandervort, Jody Lynn Nye, Ellen Dunham.

- Sábado, às 11:00, irei participar de um workshop para escritores coordenado com Delia Sherman e Elaine Isaak

- E nem vou começar a falar dos dois tipos de eventos que irão com certeza me enlouquecer: as festas e as sessões de autógrafos. Tipo, vai ter Neil Gaiman, Robert Silverberg, George R. R. Martin, Eoin Colfer, Jeff e Ann VanderMeer, John Scalzi, Karl Schreder… e muitos, muitos outros.

Enfim, essa é a última postagem antes de sair pro Canadá, então até lá!!!:)


O Templo do Amor

Julho 31, 2009


With the fire from the fireworks up above
With a gun for a lover and a shot for the pain
You run for cover in the temple of love
Shine like thunder cry like rain
And the temple grows old and strong
But the wind blows stronger cold and long
And the temple of love will fall before
This black wind calls my name to you no more

The Sisters of Mercy – Temple of love

Parei em frente ao velho edifício, sem ligar para os fogos de artifício explodindo por cima da minha cabeça. Eu estava armado e também dopado. Meus sentidos ao mesmo tempo adormecidos e excitados. Nada poderia me impedir. Na noite fria, eu era novamente o caçador que sempre fui. Um predador. De todos os matadores conhecidos nos Mil Mundos, sempre fui tido como o mais certeiro. Aquele que não erra, incapaz de perder um tiro ou de calcular mal uma armadilha. Muitos caíram pelo preço certo. Líderes planetários, contrabandistas ricos, maridos traidores, mulheres corruptas, herdeiras ingênuas. Até mesmo outros assassinos de profissão. Não mantive conta de quantos já se foram. Sei que foram muitos.

O nome da minha próxima vítima é Ophra. Cantora e sacerdotisa do Templo do Amor, a mais bela mulher da galáxia, minha amante. E fui contratado para matá-la. Ordens claras, uma boa grana e a promessa de mais trabalhos fizeram esmaecer a lembrança de seu corpo esguio, seus cabelos anelados e seus olhos, ao mesmo tempo doces e distantes, e de todos os sentimentos que estes provocavam em mim. Só o ciúme permaneceu. Nada mais improvável, até mesmo incorreto, do que um Arauto da Morte ter a Sacerdotisa do Amor. Sim, eu já tinha ouvido isso. Várias vezes. Principalmente a parte de “Arauto”. O advento das máquinas e de uma civilização universal trouxe de volta certo nível de obscurantismo. Deixamos a prisão de vivermos em um único sistema solar, mas voltamos a nos abrigar na sombra de religiões múltiplas.

Sim, diversos deuses. Não um ressurgimento do paganismo terrestre. Algo mais universal. E mais sombrio. No planeta natal, eram homens com faces e almas. Divinos, mas seres com humanidade. Agora, os filhos da Terra, alastrados como pragas universais, cultuavam forças. Destruição, Ódio, Amor, Morte, Vida… As sensações guiavam a humanidade como faróis corruptos. Balancei a cabeça, tentando clarear os pensamentos. O narcótico corria pelo meu sangue, fazendo com que me afundasse nesse mar de dúvidas e questões. Eu não questionava. Não duvidava. Por não acreditar. Só aquele que crê pode duvidar. Não foi isso que Ophra me disse? Na primeira vez… Quanto tempo? Nunca fui bom de contas. Não importava. Ela precisou de mim, dos meus serviços. E ao vê-la percebi…

Não sabia mais. O convite para ir ao templo em uma noite de festival interno havia me surpreendido pouco. O amor mata, e os que o servem também. Só que geralmente de forma indireta e lenta. Às vezes, precisa de ajuda. Para isso, existem pessoas como eu. Nunca pensei que seria uma das Sacerdotisas. Pelo pátio, espalhados, misturados, trigo e joio, os servidores templários e seus convidados. A perfeição daqueles dedicados ao Amor misturada às mesquinharias dos seres que só procuram o prazer. Olhava a cena de longe, me interessava mais as criaturas do que a criação feita para eternizar a luxúria. Pouco entendia de arquitetura, menos de arte. Os prédios só me interessam enquanto ambientes de caça ou refúgio, e aceitava manifestações artísticas como pagamento, se fossem bem cotadas. A construção grandiosa e elaborada, preparada para acolher e despertar os sentidos, com pinturas e esculturas a cada passo, não funcionava com minhas sensações mortas. Meu interesse era nos ocupantes do salão principal. Esperava o momento quando um deles iria se aproximar de mim e sussurrar um nome em meu ouvido.

“Do que você tem medo?” Voz de metal. Frio. Sem olhar em sua direção, respondi com a verdade. Nunca temi. “Você mataria o amor?” Percebi naquele momento que estava falando com meu futuro empregador. Outra vez, não menti. Pois pelo preço certo, até o Líder Universal cairia duro. Foi nesse momento que uma mão leve tocou o meu cotovelo esquerdo. Ainda sem ver quem estava me acompanhando, segui para o interior do templo.

Salas, salas, salas. Uma sucessão de aposentos que dava a impressão de inconstância, como se os quartos e salões mudassem de lugar no instante mesmo em que olhávamos para eles. Todos com portas iguais. Manchas coloridas, tintas espalhadas nas paredes, formando pinturas murais retratando instantes de luxúria, prazer e dor congelados em paredes antigas como a nossa história nesse mundo. Antes mesmo de construirmos qualquer prédio administrativo, fábrica ou residência, furamos o solo desse planeta para construir dois templos gêmeos. Amor e Morte. Em pólos opostos na esfera planetária, de cores distintas e a mesma arquitetura surreaista.

O cômodo em que entrei era pequeno. Iluminação fugidia, que não me deixava ter a real dimensão de suas medidas, ou mesmo ver quem estava ali. A voz que me saudou era quente. Sufocante. Um deserto de sons invadiu a sala. Eu não sentia frio antes, porém a sensação era de que só a partir daquele momento eu estava aquecido. Percebi imediatamente quem era a outra ocupante da sala. Uma sacerdotisa cantora, das que sabem enfeitiçar com a voz.

Bloqueei a mente. Concentrei-me em apenas entender, sem perceber as nuances. Ela perguntou se eu aceitaria o serviço. Matar a Sacerdotisa Principal, para que ela pudesse assumir. Quando perguntei se isso não seria algo impróprio, a resposta foi que o Amor às vezes envelhece e torna-se inútil, sem perceber. Sempre odiei essa forma metafórica de falar. Mas não deixei de aceitar o serviço por causa desse pequeno detalhe.

Poucos dias depois, cumpri minha parte no contrato. Sem alarde, como se fosse realmente um Arauto da Morte cumprindo o seu papel no equilíbrio cósmico. Um tiro silencioso em uma noite qualquer e nenhuma tristeza. Voltei ao Templo para receber o combinado. Dessa vez, levaram-me ao Grande Salão, onde fui recebido pela recém-empossada Sacerdotisa. Pela primeira vez, eu a vi. Olhos cor de canela e cabelos negros anelados. O rosto de alguém ensinado a fingir ser o que realmente é.

Foi quando o Arauto da Morte rendeu-se à Voz do Amor. A minha consciência não guarda mais os pequenos detalhes de como começou. Apenas lembro que não demorou para que estivéssemos nos braços um do outro. O deserto de sua voz tornou-se o oásis em que eu me abrigava do mundo.

Continuamos a ser o que éramos antes. Eu, assassino. Ela, sacerdotisa. Eu matava por profissão. Ela amava por serviço divino. Assim passaram-se anos, décadas… Talvez séculos. Vê-la com outros acendia em mim uma sensação nova, inesperada, que a custo sufoquei inutilmente. Ela cresceu. Tornou-se maior do que o sentimento por Ophra. Por isso, quando fui procurado pela mesma voz fria em uma festa, aceitei o serviço. Agora, era minha amante, a ser assassinada para que outra chegasse a ser a maior dentre os que dizem que “o Amor é a Lei”.

Dessa vez, não estava apenas fazendo o meu serviço. Acabara tornando-se pessoal. Não ia mais tolerar o sentimento de ter que dividi-la com outros.

Escolhi o dia do Festival. O único dia em que ela deixava o Templo sem proteção, quando todos podiam ter acesso às sacerdotisas. A morte da predecessora de Ophra deixara as sacerdotisas desconfiadas e alertas. Seguranças armados as protegiam sempre. Exceto em uma única ocasião durante todo o ano.

O Festival. Alguns dizem que é a reminiscência de tempos arcaicos, quando morávamos todos sob o mesmo Sol. A ocasião em que esquecíamos o lado humano e deixávamos aflorar a besta. Mas naquele momento, as origens pouco me importavam. Apenas sabia que não haveria ninguém sóbrio o suficiente para a me impedir. O amor e os alucinógenos manteriam seus sonhos de luxúria e a consumação destes no topo de suas preocupações. Nada poderia protegê-la de mim. O Amor iria curvar-se à única certeza do Universo: a Morte.

Parado em frente ao velho edifício, não ligava para os fogos de artifício explodindo por cima da minha cabeça. A arma parecia pulsar em minhas mãos. Sentia a droga correr por todo meu corpo, entorpecendo meus sentidos. Um bloqueador de sensações, segundo o contrabandista interplanetário que fora o vendedor. Isso manteria os acordes arenosos de Ophra longe da minha mente.

O cortejo saiu do Templo, para ocupar o grande pátio externo. Ela parecia um anjo no meio da grande procissão, um anjo-demônio de vestido negro, levada em um dossel, olhando as pessoas reunidas na praça externa. O véu levantado deixava toda a sua beleza ofuscar as luzes da noite e a sua voz… Eu sempre caía em transe quando ela entoava as canções. Não havia palavras que eu pudesse compreender na letra, escrita em tempos imemoriais. Lembranças de um mundo quente, com uma estrela brilhando no céu, aquecendo dias e noites. Já assistira inúmeros desses festivais. A canção aprisionava quem a escutasse em um crescendo de ânsia e desejo. O ritmo normalmente me prendia e me alucinava. Mas não hoje. Hoje havia chegado à festa já alto, sentindo a droga correndo pelo meu corpo. Precisava me manter longe do feitiço daquela mulher, por tempo suficiente para que eu a matasse.

A procissão chegou ao centro do pátio. Luzes irreais, em cores absurdas, dançavam nos rostos da multidão, ávida de prazeres. Um dos sacerdotes gritou, em um chamado primal, animalesco. Avisava que a Grande Festa do Amor tinha começado. Novamente a voz de Ophra percorreu os caminhos da noite, em tom diferente. Não queria mais deixar as pessoas ansiando pela consumação de suas vontades. Agora, ela desejava que estas fossem consumadas. O encantamento de sons tecido em um crescendo, como se fosse uma tempestade de areia que ganhasse forças, o ritmo da dança das demais sacerdotisas auxiliando o efeito das drogas distribuídas entre a multidão.

Ao fim da canção, só havia duas pessoas desacompanhadas em todo o Festival. Eu e Ophra. Em pouco tempo já não havia individualidade no imenso pátio que se abria à frente do templo. Os corpos uniam-se em um êxtase coletivo, sem nenhuma distinção amarrando suas escolhas. Machos e fêmeas perdendo a consciência de si mesmos, entrelaçados em um frenesi de adoração, luxúria, vontade… Precisei respirar fundo. Mesmo com as drogas, o feitiço daquela noite começava a fazer efeito. Não. Não iria desistir. Nunca deixei um serviço incompleto.

As belas criaturas que serviam ao Amor também se juntaram a essa celebração. Misturadas aos demais, mal se distinguiam. Eram todos carne e desejo, tremendo em busca de transcendência. A única a manter-se fora desse ritual de desejo era a minha amante. Pedira, como um favor especial, que ficasse esta noite comigo. E assim seria. Nada poderia interpor-se no meu caminho. Ninguém impediria que eu terminasse com toda a minha frustração.

Somente ela.

Desci para encontrá-la à beira do pátio externo. Com as pessoas entretidas em seus prazeres, nenhum deles perceberia a rápida injeção anestésica e o tiro certeiro. Venenos deixam vestígios. Armas de energia, pelo menos as que profissionais usam, interrompem o ciclo vital sem rastros a serem percebidos. Não é difícil ver porque alguns me consideram um enviado da Morte. Uma força da natureza, incontrolável, irremovível. Impossível de ser parada.

E no momento em que seus olhos cor de canela encontraram os meus esmaecidos globos cinzentos, eu soube. Minhas intenções não lhe eram desconhecidas. Ophra percebera tudo. Desde quando? Em que momento descobrira? Sorriu, do jeito torto que usava para me magoar.

- Já sabia quando te contratei. Quem mata o Amor uma vez, irá matá-lo sempre.

Não iria ser fácil. O Amor machuca. Aqueles que o servem, ainda mais. Ainda tentava assimilar o fato de que meu plano fora revelado quando recebi uma forte descarga elétrica. A maldita me atingira com um bastão atordoante. Meus braços formigavam. Logo eu, que trouxera uma injeção de anestésico para matá-la sem dor. Meu coração ficou pequeno para toda a minha raiva.

Recuperei o domínio total do meu próprio corpo. Não era difícil adivinhar para onde ela iria. Sacerdotisas não podem deixar a área murada ao redor do Templo, nem para defender sua própria vida. O único caminho possível para Ophra era o mesmo que havia feito pouco antes. O último refúgio que teria em vida seriam as paredes do santuário onde nos conhecemos. Joguei fora o anestésico, cego de raiva pela reação agressiva da minha ex-amante. Como uma sombra perdida, encaminhei-me para o santuário.

Será que ela pensava que podia se esconder? De mim, que percorrera toda a extensão daquele complexo, acompanhando-a? Que passara mais tempo ali, desde que a conhecera, do que em qualquer outro lugar? O preço de sua ingenuidade seria uma morte lenta.

Parei uma última vez em frente ao velho edifício. Notei vagamente que os fogos de artifício continuavam a explodir por cima da minha cabeça. Eu estava armado, dopado e com raiva. Nada poderia me impedir. Nem se o próprio Amor tomasse forma humana para defender sua sacerdotisa.

Para muitos, aquela era uma construção estonteante, gigantesca, grandiosa. Uma prova do gênio artístico dos primeiros colonos. Nunca significara nada para mim. Acostumara-me aos subterfúgios daqueles que ali entravam tentando deixar seus medos e suas dores do lado de fora. Pinturas e esculturas que nada significavam para mim. Naquele instante, importava-me encontrar Ophra. Custasse a minha vida, o que precisasse. Se fosse preciso, derrubaria aquelas paredes uma a uma. Com minhas mãos. Batendo a minha cabeça nos pilares.

O Salão principal estava vazio. Só ouvia meu próprio corpo. Teria fugido para algum dos infindos aposentos? Se o tivesse feito, iria demorar a encontrá-la.

- Apareça, Sacerdotisa! Tenha pelo menos a dignidade de não fugir! A sua antecessora não correu!

- Pensei que você me amasse… – a voz dela vinha de todos os lados e de lado nenhum. Como se fosse parte do Templo. Um dos pilares daquela construção sinuosa.

- Tola. Não sabe que a vida é curta e o amor sempre acaba de manhã, Ophra? Chegou a hora de terminarmos com tudo… A noite terminou. Já amanheceu para nós, benzinho.

Caminhei em direção ao painel principal. A pintura representava algum mito antigo. Dois amantes jaziam em uma mesma tumba, um tubo na mão da mulher, uma espada atravessando o coração de ambos. Novamente, ela falou.

- Não vai conseguir me matar dentro dessas paredes. Eu sou o Templo do Amor.

- Eu as derrubo com as mãos e depois cuido de você… Ophra, você tem fé demais em tijolos. Não adianta chorar, não precisa pedir. O som das suas lágrimas não vai salvar sua fé inútil e seus sonhos de depravação. Acabou o tempo dos prazeres para você.

Continuava sem conseguir localizar a sacerdotisa. Parecia estar por trás de todas as colunas. Sua voz ecoava no templo, como uma tempestade que começava a ganhar forças.

- Tente derrubar as paredes do Templo do Amor, então. Mesmo o ar é um abrigo para mim, e isso você vai aprender da pior maneira.

Atirei por cima do painel, buscando atingi-la. Errei. Mais uma vez, e nada.

- Não vai aparecer, cadela? Veja o que faço com o seu santuário. Olhe como de nada vale ter fé!

Escolhi o pilar principal. Era uma escultura grotesca, criaturas de sonhos e pesadelos unidas em um eterno ato de prazer. Feições retorcidas, animalescas, corpos dobrados até o ponto de não reconhecimento. Mirei no centro e soltei um feixe de energia, o mais concentrado possível. Tudo tremeu em um ronco surdo.

- Não! Você não pode destruir o templo! Nada é mais forte do que o Amor!

- Ensinaram errado, benzinho. Tudo morre, até mesmo o Amor… e aqueles que o servem.

A voz dela estava mais densa. Se continuasse falando, eu seria capaz de encontrá-la. Meu alvo agora era um dos vitrais, com uma cena de dois seres abraçados. O vidro estilhaçou-se, e nesse instante um vento frio e distante começou a soprar, vindo de fora do templo. Era sombrio e amargo, sinal de chuva prolongada. Entretido que estava com meus planos de assassinato, não percebi o tempo fechado. Não tinha importância, antes mesmo de começar a chover tudo estaria terminado. Chegaria em casa sem precisar me preocupar com a tempestade.

- Então, Ophra? Destruí mais um pedaço do seu templo! Não vai dizer nada?

Um vulto moveu-se a minha esquerda. Ocupado em tentar localizá-la, não percebi quando Ophra veio por trás, saída das sombras do salão mal iluminado, e usou o bastão atordoante em mim. Seus olhos brilhavam, a cor da tempestade de areia em um deserto que nunca conheci.

- Passou o tempo de dizer qualquer coisa a você, Andrew. Vou matá-lo. Não vou permitir você matar o Amor.

Sacudi o corpo, tentando fazer com que meus membros adormecidos voltassem a responder.

- Não seja presunçosa, Ophra. Você não é o Amor. Vai morrer e outra assumirá seu lugar. Acabou. Foi assim que você tornou-se quem é, ou já esqueceu a sua própria traição? Se não for eu a terminar o serviço, vai ser outro. Vale a pena passar o resto da vida com medo, sem saber de onde virá o próximo assassino?

Só então a realidade caiu, com todo seu peso, na cabeça da sacerdotisa. Sabia que eu tinha razão. Se haviam me contratado era porque decidiram que seu tempo acabara. Por apenas um instante, seu olhar voltou a ter a cor quente de canela que eu vira na primeira vez. Foi a primeira e única vez, desde que aceitara acabar com a vida de minha amante, que estive perto de me arrepender. Meus olhos cruzaram com os dela e, pelo espaço daquele momento perdido, fomos amantes de novo.

Passou o instante. Mesmo reconhecendo que não havia escapatória, ela não ia entregar-se tão fácil. Preparou-se para dar outra descarga com o bastão, porém eu já estava quase recuperado. Dei-lhe um encontrão, fazendo-a derrubar a arma.

- Você jamais irá me alcançar!

Empurrou meu corpo para longe, antes de sair correndo. A ira venceu meu planejamento e sangue-frio. Enquanto ela disparava pelo Salão, tentando alcançar os corredores que a levariam ao labirinto seguro dos aposentos internos, atirei nos vitrais. Uma chuva de estilhaços acompanhava a corrida de Ophra, enquanto eu seguia atrás.

O vento zunia no recinto. As luzes eram insuficientes, como se o ar trouxesse a escuridão do lado de fora. Correr tornou-se difícil, a massa de ar era cada vez mais forte. Nenhum de nós desistia. Ela estava na minha frente, vestida como um anjo negro, semi-arrastada pelo vento. Os cabelos enrolavam-se como cobras em suas curvas.

O ar frio trouxe-me de volta à razão. As drogas pareciam ter perdido  o efeito. Ela não poderia percebê-lo, do contrário me encantaria. Por uma última vez, admirei sua beleza. A arma estava quase descarregada, não poderia errar mais um tiro.

Concentrada em tentar fugir, não percebeu quando ergui o pulso. Mirei nas suas costas, na direção do coração, que tantas vezes batera por mim, e atirei. O deslocamento de ar atrapalhou minha mira. Não atingi a mulher, mas o pilar principal, aquele que eu detestava tanto, já enfraquecido pelo tiro que dera antes e pela ventania.

As paredes gemeram como se todos os amantes nelas representados chegassem ao êxtase ao mesmo tempo. A coluna começou a ruir, e rachaduras surgiam por todos os lados. Ophra estava parada, a mão no peito. Um dos estilhaços a atingira, antes mesmo que eu atirassemais uma vez, procurando seu coração. O sangue brotou, tingindo as mãos da sacerdotisa.

O vento não diminuiu. A luz ia se extinguindo dos olhos de Ophra, que caiu no chão. O choque do que eu fizera me atingiu. Ignorando o mundo que desabava ao meu redor, o ar que começava a se movimentar ainda mais rápido, procurei chegar até ela. A cada passo para frente, sentia-me dando três para trás. A ventania não me deixava avançar. A sacerdotisa, envolta em trajes negros, fixou seu olhar em mim por uma última fez e os olhos cor de canela perderam toda a vida que guardavam. As paredes começaram a ruir por cima de minha cabeça, e o destino impediu que o vento negro levasse meu grito até Ophra pela última vez, antes que minha própria existência fosse tragada na destruição do templo do Amor.


Canadá, aí vou eu!:D

Julho 23, 2009

Bom, foi um periodo de muita ansiedade. Afinal, viajar sem lá muito dinheiro é sempre preocupante. E infelizmente, além disso nós brasileiros temos problemas para tirar vistos devido a grande quantidade de imigrantes ilegais.

Mas depois de 4 meses de preparação, hoje finalmente tenho tudo o que preciso: passagem, reserva de hotel e os dois vistos, o americano para trânsito e o canadense, de negócios. Então, apesar de já ter contado a muita gente e até ter colocado aqui no blog, hoje posso anunciar oficialmente que sem a menor sombra de dúvida estarei na Anticipation, a  67 a. WorldCon, que acontecerá em Montreal, no Canadá.

Por favor, reservemos uns instantes para os invejosos de plantão poderem rosnar um pouco sobre como eu escrevo mal e mesmo assim consigo atenção da mídia, participar de eventos e etc etc etc, seja lá o que eles ganhem com isso.

Pronto, já arrancaram os (poucos) cabelos? Posso continuar?

:)

Bom, como eu quero aproveitar TUDO o que eu puder da convenção, me ofereci para participar  da programação oficial da WorldCOn- além disso, estarei fazendo um workshop para escritores, com parte do primeiro capítulo de Finisterra, e junto com as escritoras do Broad Universe na mesa, na festa e no ‘Rapid Fire Reading’.

Como agora está tudo certinho, vou liberar a minha ‘agenda’, com os dias e os temas dos paineis e mesas-redondas de que vou participar. Quanto a cobertura da convenção, prometo postar pelo menos de dois em dois dias, twittar o máximo que der e até mandar um podcast especial pro Papo na Estante. E fotos, fotos, fotos, fotos, claro!

Sexta, 07/08, 9:00

Por Olhos Fieis: como o cronista Olivier de La Marche construiu Carlos da Borgonha

Participantes:  Ana Cristina Campos Rodrigues

Sexta, 07/08, 14:00

Comida: Antiga, Moderna, Futura, Perto e Distante

Participantes:  Ana Cristina Campos Rodrigues, Cecilia Tan, Jon Courtenay Grimwood, Jon Singer, Richard Foss
Moderadora:  Cecilia Tan
Descrição: Podemos descrever mundos e culturas através da comida. A comida pode nos falar sobre rotas comerciais e tabus. A forma de servi-la pode nos dizer muito sobre a economia e a sociedade. A comida pode falar sobre o amor.

Sábado, 08/08 10:00

Dos Pireneus à Terra do Fogo: a FC em espanhol e português

Participantes:  Ana Cristina Campos Rodrigues, Thibaud Sallé, Jean-Pierre Laigle, Georges Bormand
Moderador:  Thibaud Sallé
Descrição:  Numerosos universos dentro da FC são escritos em espanhol e em português, na Europa e nas Ámericas. Venha saber mais.

Sábado, 08/08, 14:00

Fandons fora da América do Norte

Participantes:  Alon Ziv, Ana Cristina Campos Rodrigues, Carolina Gomez Lagerlof, Janice Gelb, Martin Hoare, Georges Bormand

Moderator:  Janice Gelb
Descrição: A FC é o nosso interesse em comum, mas como ela é celebrada em países como Russia, Australia, Israel, Brasil e Suecia?

Segunda, 10/08, 10:00

Imago Mundi Facticii: Um espelho enganador

Participantes:  Ada G. Palmer, Ana Cristina Campos Rodrigues, Thibaud Sallé, Anne-Isabelle François
Moderator:  Thibaud Sallé
Descrição:  Qual a relação entre a França Medieval e a fantasia? Os especialistas nos darão um veredito instrutivo.